Sustentável peso da decadência

O fenômeno de uma cultura exaurida, estática e repetitiva
pode ter vindo para durar,

afirma Ross Douthat em seu novo livro

Jurupoca_60 — 26/2 a 4/3/2021 — Ano 2

Félicien Rops: Pornokratès (1978, Museu Rops, Namur, Bélgica). Foto: domínio público (via Wikimedia Commons)

Na foto do alto: Thomas Couture: Os romanos da decadência (1847, Museu de Orsay, Paris). Foto: domínio público (via Wikimedia Commons)


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

De onde vêm o mal-estar, a indisposição, o cansaço, o enjoo pela repetição, essa sensação que anda no radar, senão na alma da sociedade ou, como prefiro, do mundo?

Quando o avanço da inteligência artificial expõe os limites do cérebro e a fragilidade do espírito humano, e a conexão universal flagra nosso vazio, talvez se possa perguntar: haverá desta vez, como há décadas se anuncia e crê, algo de novo sob o sol?

Então o mundo estará mesmo caidaço?, e mais uma vez em franca e sustentável décadence, a repetir de modo próprio a história de romanos, chineses, otomanos e outras civilizações?

Mas, e a roda-viva da internet: notícias, mercados interligados, a constância dos aplicativos, e a maravilha do celular a mediar a imediatez da vida e a corrosão das horas?

Com essa pressa toda, a Terra parece girar mais rápido, e o progresso humano a dar saltos de uma Isinbayeva a cada 10 ou 20 anos.

Ilusão, ilusão, veja as coisas como ela são, pondera Ross Douthat, a quem já volto.

Desde os anos 1970, a tecnologia avança praticamente num único vetor: o aprimoramento das comunicações, da automação e da simulação.

Por mais que a ciência nos surpreenda pronta e favoravelmente, como nas vacinas contra o Corona, as “profecias” sobre a cura do câncer e os transplantes de órgãos prêt-à-porter estão para lá da linha do horizonte.

Há décadas, a economia mundial dá de lado ou cresce pouco.

As instituições democráticas perdem seu tônus em toda parte.

As artes e cultura, de tanto se repetir, parecem esclerosadas.

E há a crise demográfica.

Os índices de natalidade dos países desenvolvidos há muito ficam aquém da taxa de reposição. Quando uma população envelhece, há menos trabalhadores, menos famílias para cuidar dos velhos, e menos jovens com cérebros frescos para impulsionar a economia e a tecnologia.

Bom, mas de onde vem toda essa conversa?

Você já ouviu falar em Ross Douthat, além de uma ou duas notas desta JU?

O colunista conservador do New York Times, que marcou posição no jornal sobre a “cultura do cancelamento”, é um estrela em ascensão.

O homem se pauta pelo equilíbrio, e pode se aproximar da centro-esquerda e da esquerda em economia, mas, como diz, seus princípios não o tornam bem-vindo nesse meio exclusivista.

Anda muito bem falado ultimamente pelo livro The Decadent Society: How We Became the Victims of Our Own Success (A sociedade decadente: como nos tornamos vítimas do nosso próprio sucesso), inédito em português.

“O título induzirá alguns leitores a esperar erroneamente pela arenga costumeira da direita que atribui todos os nossos males a uma causa, seja o Big Bang ou o esquerdismo”, escreve Mark Lilla numa resenha elogiosa no Times, ao pontuar:

“Mas Douthat é demasiado curioso sobre o mundo e suas contradições para se fixar nessa visão. Por ‘decadência’ ele se refere a uma forma de exaustão cultural do mundo em nossa época e que lhe preocupa porque, mais que prelúdio do colapso, parece sustentável.”

Quando comentou The Decadent Society, João Pereira Coutinho lembrou que os ciclos de decadência podem durar anos ou séculos. Recorreu nosso professor português ao poeta inglês W.H Auden sobre o Império Romano: é menos intrigante que Roma tenha caído do que pensar que seu declínio durou 4 séculos. Que tal 400 anos com carência de criatividade, vitalidade ou esperança.

O livro de Douthat não profetiza nenhum Armagedom. “Acho que o que distingue meu argumento de alguns outros argumentos conservadores é que ele dá uma ênfase mais forte na estagnação, deriva e repetição do que na iminente catástrofe”, disse o autor numa entrevista à revista Dissent.

Ma come?!, pressinto um atarantado leitor no gesto à italiana de juntar os dedos das mãos.

Quando pensadores respeitados, como Steven Pinker, proclamam o advento do novo iluminismo, alguém vem dizer que a cultura está estática, numa época de total dinamismo, conexão e acesso à informação, aceleração que tornou, como diz Lilla (lembrando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman) nossas sociedades mais “líquidas”?

“Tudo não passa de uma miragem. A conectividade apenas acelerou a circulação dos mesmos estereótipos culturais desgastados”, responde Lilla por Douthat, na sua crítica do livro.

Ouvido pelo diário espanhol La Vanguardia, o próprio Douthat é mais direto. A cultura digital, ele disse, “criou um mundo de torcidas e pornografia dominado por poucas empresas e marcas dominantes, que se caracteriza por uma mistura de mediocridade e paranoia. Por hora, a internet é mais enervante que inspiradora.”

A ESTAGNAÇÃO DA CULTURA

Como, você sabe, o que mais interessa a JU é justamente a cultura, apeio nesse terreno.

Ainda não pude ler o livro, mas como o tema interessa pacas ao jornal, vamos nos aproximando dele pelas margens.

À revista literária mexicana Letras Libres, Douthat põe os famigerados boomers (filhos do baby boom, a explosão de natalidade que se seguiu à 2ª Guerra Mundial) e a revolução cultural de cabeça para baixo.

A revolução parou nas primeiras barreiras (ou cassitetadas, eu diria) com surpreendente docilidade, ele argumenta. E logo que aquelas gerações do boom começaram a dar as cartas, impuseram os valores da cultura pop.

“Isso deixou os boomers no controle da cultura quase de um dia para outro, sem uma herança prévia a continuar e com a qual ajustar contas”, comenta o autor:

 “Assim lhes resta somente recriar ritualmente sua revolução, e animar seus herdeiros millennials a fazer o mesmo: derrubando estátuas que já não importam a ninguém e coisas assim”, ironiza.

Para Douthat, a atual polarização entre um populismo raivoso e incompetente e uma elite intelectual conformista e inimiga da controvérsia, cria uma situação estável, que reflete muito bem a decadência da cultura e das ideias que engolfa a sociedade.

O establishment cultural norte-americano, como também, por imitação, os progressistas brasileiros da esquerda, valorizam acima de tudo a “proteção dos sentimentos e das identidades”.

Douthat cita a respeito certo escritor californiano, James Poulos, que se refere a vigência de um “estado policial rosa”, “que limita a variedade de opiniões aceitáveis, e faz todo mundo ler o mesmo roteiro”.

O cansaço cultural é flagrante em Hollywood, aponta o autor. Ele define elegantemente a franquia Marvel como “profunda e dolorosamente sincera” — além de repetitiva.

A indústria do cinema canibalizou todo o legado de originalidade que os boomers desfrutaram na juventude (o nome de um Quentin Tarantino me sobe logo à cabeça).

À Dissent, o autor pondera que a trajetória da saga Star Wars é o exemplo acabado do que a decadência pode significar.

Os novos e péssimos filmes das “prequelas” de George Lucas não lograram apresentar nada de novo, e apenas repetem feitos de 40 anos atrás.

Tudo é circular, reciclado, roda em looping.

Composição de imagens dos novo filmes Star Wars: A reciclagem geral do sucesso expõe o esgotamento da indústria de cinema

“As canções” — conta Douthat, agora comentado J.P. Coutinho — “que fizeram sucesso revelaram um declínio no número de acordes e, até, no número de novas transições entre acordes”.

Puxando a brasa para sua sardinha, e em seus próprios termos, a JU já se tornou monótona em apontar a deriva de criatividade da música popular desde os primeiros anos 1980, a falta de fôlego do pop e sua diluição interminável, sem falar na mesmice do hip-hop, do irrespirável funk pornográfico — a indústria de batidas e hits é a imagem pronta da indústria cultural em infinita reciclagem.

O SEXO BANALIZADO

A revolução sexual e sua panóplia de intérpretes — gurus, best-sellers, especialistas e picaretas de toda sorte— gestou o império da pornografia, o tédio, a alienação dos sexos, e a esterilidade — flecha Douthat — “em vez de uma espécie de perpétua diversão dionisíaca”.

A natureza da decadência descrita por Douthat coincide nessa altura grandemente com o ensaio de Mario Vargas Llosa aludido na JU#59.

Em A sociedade do espetáculo, MVL sustenta que o sexo é a atividade com a qual mais estabelecemos uma fronteira entre o animal e o humano, por meio do erotismo, esse momento elevado e enobrecedor da civilização.

Mas o erotismo e a fantasia decaíram na vulgarização oca e sem fundo.

Perdemos os caminhos mais sutis do relacionamento entre homem e mulher, tomando os atalhos da satisfação instintual e da exposição publicitária e pornográfica do entretenimento rasteiro.

Ramon Casas: Jovem decadente. Depois do baile (1899, Museu de Montserrat, Espanha). Foto: domínio público

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Prêmios literários: condicionantes

Há — não é só no Brasil não, parece que em todo o Ocidente — certas questões que determinam a outorga de prêmios literários ou de cinema que raramente dizem respeito à qualidade literária ou cinematográfica das obras agraciadas. Javier Marías, em sua coluna no El País, elenca essas rubricas (que detalha exemplarmente): temas, sexo dos autores, origem e orientação sexual dos autores, e o foco autobiográfico.  Não se pode dizer que seja despeito. Marías afirma que na sua longa e bem-sucedida carreira de escritor apenas se inscreveu em uma premiação, em 1968; venceu e depois devolveu o galardão. É por aí que vamos. Não é apenas prêmios. Basta dar um pouco de atenção aos filmes e livros que nos últimos tempos ganharam a atenção de editoras e redes sociais e, por isso, também de ex-cadernos de ex-cultura. Que sejam obras primas, pode ocorrer, por certo, mas não em virtude de tais ingredientes e condicionantes. Como diz Marías, hoje em dia qualquer um destes criadores passaria à míngua de premiações: Flaubert, Balzac, Conrad, Faulkner, “não digamos Henry James”. E, no cinema: Ford, Hawks, Lang, Lubitsch, Hitchcock e Wilder. “Hoje raramente o que se enaltece é a literatura ou o cinema, mas sim suas circunstâncias extraliterárias e extracinemáticas, talvez jornalísticas”. Falou e disse.


Que feio, Face

“Há vida fora da maior rede social do mundo”, diz editorial da Folha sobre o caso do Facebook na Austrália. A rede social, o Google e outras empresas de mídia terão que remunerar produtores de conteúdo, jornais, sites etc., conforme projeto de lei em debate no Senado do país. O Google cedeu, e faz acordos com os veículos de mídia. Pois o Facebook decidiu retirar da plataforma tudo que é notícia e informação pública. Pegou mal para a gigante de Mr. Zuckerberg.


Cuba libre

Entonces, e aí?, Chico Buarque, Fernando Morais, Gleisi Hoffman, não sei mais quem, bora curtir o vídeo dos rapazes? Quando escrevo, 114 mil clicaram no dedinho para cima (tinindo) do Youtube, e quase 2 milhões já o tinham rodado. Rappers cubanos que vivem na Ilha e outros, emigrantes, compuseram Patria y vida, invertendo o slogan guerrilheiro Patria y morte, clamando por liberdade de expressão e cutucando a ferida recente da repressão do coletivo de artistas de San Isidro, que saiu na JU, pela polícia política cubana. Produzido precariamente, caseiro, o vídeo consegue dar muito bem seu recado, além de uma canja sobre a diversidade da música cubana. O governo, claro, reagiu como de costume, cuspindo marimbondos (por enquanto) de fogo: “Cheira a enxofre a ‘arte’ que nasce à mercê da vontade de quem paga ― a todo custo e a qualquer custo ― para tentar irromper, na mais grosseira ingerência política, na soberania de uma nação”, excomungou o Granma, diário oficial do partido castrista, em relato o El País Brasil.


Credulidade e cinismo

“Certa mistura de credulidade e cinismo havia sido importante característica da mentalidade da ralé antes que se tornasse fenômeno diário de massa”, lemos de Hannah Arendt em Origens do totalitarismo, e um pouco mais à frente: “A própria mistura, por si, já era bastante notável, pois significava o fim da ilusão de que a credulidade fosse fraqueza de gente primitiva e ingênua, e que o cinismo fosse o vício superior dos espíritos refinados.” O cinismo substitui a credulidade quando mentiras e absurdas teorias do complô são desmascaradas da maneira irrefutável. No lugar de abandonarem os líderes, e suas ilusões, as pessoas “diriam que sempre souberam que a afirmação era falsa, e admirariam os líderes pela grande esperteza tática”.  Arendt, claro, fala dos governos totalitários alemão e soviético, mas, mudando o que for preciso, isso não te faz pensar em alguma coisa muito perto de nós?


Laços nacionalistas suspeitos

A estreia de Malu Gaspar como colunista de O Globo não deixa dúvida sobre a diferença que seu trabalho fará no jornal. Pela manhã e início da tarde desta quinta (25) seu texto era mantido como destaque da edição online do diário. Malu expõe as afinidades do PT com o Caveirão.155mm sobre a Petrobras (vão além do combate à Lava Jato, por certo). De José Dirceu ao ex-ministro Aloisio Mercadante, os aplausos pela intervenção na empresa soaram cândidos e unânimes. Mercadante, ex-ministro de Dilma Rousseff, mostra Malu, ainda tem o topete de defender o resgate do “caráter estratégico” da estatal, depois de toda catástrofe assistida pelo mundo. Credulidade ou cinismo? A resposta é o óbvio ululante. Como dizia Karl Kraus, o diabo é otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.


Alta apostas do jornalismo online

Captura de tela da homepage do Estadão na manhã dessa segunda-feira (22/02)

Depois de jornais mundo afora ganharem com os cliques alucinados sobre a Goop, e a loja da atriz Gwyneth Paltrow faturar horrores com as vendas online de uma vela com o apelo publicitário “smell like my vagina”, o Estadão começa a se render à realidade, ou à nova normalidade dos jornais online. Mas, claro, observadores mais angélicos podem ver no “conteúdo” apenas outra matéria de negócio.


Philip Roth por R. B. Kitajs

Detalhe do carvão em papel artesanal Portrait of Philip Roth (1985), do artista norte-americano Ronald Brooks Kitajs. Foto: reprodução do FAZ

Para Rose-Maria Gropp, crítica de arte alemão Frankfurt Allgemeine Zeitung, a verdade (sobre a persona do escritor) está na cara neste retrato  a carvão de Philip Roth (1933-2018), do artista R. B. Kitajs (1932-2007), que agora integra a coleção do museu Städel de Frankfurt. Esse é o melhor elogio que se pode fazer de uma obra de arte. “O retrato não permite nenhuma proximidade, não promove a empatia amistosa, nem mesmo confidencialidade, versa Rose-Maria, “mas marca de forma quase agressiva a distância — para o espectador, para o mundo — um ceticismo essencial.”

Portrait of Philip Roth (1985), carvão em papel artesanal, obra de Ronald Brooks Kitajs. Foto: Artnet


Rita Baiana, desde o Cortiço
à glória na voz de Zezé Motta

O choro Rita Baiana (John Neschling e Geraldo Carneiro) é uma deliciosa tradução da personagem da mestiça de O cortiço, o romance de Aluísio de Azevedo.

A versão instrumental da música toca na abertura do filme, adaptado e dirigido por Francisco Ramalho, com Betty Faria (Rita Baiana), Mario Gomes, Armando Bógus e Maurício do Valle no elenco.

O cortiço, o filme, e a gravação de Zezé são de 1978. A faixa constava do LP Zezé Motta (Warner), que trazia Magrelinha (Luiz Melodia), Trocando em Miúdos (Francis Hime e Chico Buarque) e Pecado original (Caetano Veloso).

Zezé dá um show em Rita Baiana, como cantora e atriz, ao se jogar, como se diz, na personagem da letra, com a gana e ênfase que a música enseja.

Essa Rita já deu o que dizer em artigos acadêmicos e fabulações feministas sobre a figura da mulher mestiça e o imaginário do século 19. Ela é descrita desse jeito pelo romancista:

“Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante (Azevedo, 2009, p. 48).

Zezé Motta, intérprete, não se faz de rogada. Vai à raiz de Rita e a faz renascer numa era de liberação da mulher, com inequívoco humor e brilho artístico.

RITA BAIANA – John Neschling e Geraldo Carneiro

Olha meu nego quero te dizer
O que me faz viver
O que quase me mata de emoção
É uma coisa que me deixa louca
Que me enche a boca
Que me atormenta o coração
Quem sabe um bruxo
Me fez um despacho
Porque eu não posso sossegar o facho
É sempre assim
Ai é essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina

Olha meu nego
Isso não dá sossego
E se não tem chamego
Eu me devoro toda de paixão
Acho que é o clima feiticeiro
O Rio de Janeiro que me incendeia

O coração
Eu nem consigo nem pensar direito
Pois a aflição dispara no meu peito

É sempre assim
Ai essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina
E me dá
Uma vontade e uma gana dá
Uma saudade da cama dá
Quando a danada me chama
Maldita de Rita Baiana

No outro dia o português lá da quitanda
O Epitácio da Pessoa Gamboa
Assim à toa se engraçou e disse:
“Oh Rita rapariga, eu te daria 100 mil réis por teu amor”
Eu disse:
Vê se te enxerga seu galego de uma figa
Se eu quisesse vida fácil
Punha casa no Estácio
Pra Barão ou Senador
Mas não vendo o meu amor
Ah, ah, isso é que não!

Olha meu nego quero te dizer
Não sei o que fazer
Pra suportar a minha escravidão
Até parece que é literatura
Que é mentira pura
Essa paixão cruel de perdição
Mas não me diga que lá vem de novo
A sensação
Olha meu nego assim eu me comovo
Agora não
Ai essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina

E me dá
Uma vontade e uma gana dá
Uma saudade da cama dá
Quando a danada me chama
Maldita de Rita Baiana (me dá)


Como vai você, Tavinho Moura?

O juiz-forano Otávio Augusto Pinto de Moura, Tavinho Moura, compositor, instrumentista, violeiro, violonista, cantor, hoje aos 73 anos, há muito parece ter mais o que fazer que perseverar para que se sua grande arte chegue ao grande público. Sei que é orquidófilo e leva uma vida pacata e discreta cá no Belo.

Pior para o grande público. Pior para o país do BBB e dos guinchos “sertanejos”.

Seu disco mais recente parece ser de 2014, o CD Minhas canções inacabadas, lançado pelo selo Dubas Music, de Ronaldo Bastos, seu companheiro da geração dourada do Clube da Esquina. O álbum faturou o Grammy Latino de Música Regional ou de Raízes Brasileiras.

Sua música é refinada, melodiosa, singelamente emotiva, presa à tradição popular e às cantigas populares, que reelabora com grande sabedoria harmônica.

Esta Como vai minha aldeia, dele e Marcio Borges, estava em seu primeiro disco, de 1978 (RCA Victor). E ele a regrava em 2014.

No lindo pontear da viola e na melodia finamente harmonizada a canção evoca o idílio solar de uma infância reencantada. Tem o canto reservado, a expressão direta, o lirismo que se anima nos pequenos povoados e na aura da gente mineira.

É dele a trilha premiada do filme Cabaré Mineiro, de Carlos Alberto Prates Correa, lançado em 1981, e é dele a parceria com Carlos Drummond de Andrade na rica transposição musical do poema que inspira o roteiro, pinçado do Alguma poesia (1930), livro de estreia do itabirano.

A bailarina que surge do doído esboço do poeta, e que a música sublinha, é de uma desgraçada das zonas. Mesmo sovada pelo sofrimento e com o corpo castigado pelo tempo ela precisa fazer-se desejar pelo público pagante, ou imaginar-se desejada.

É dele, Tavinho, Paixão e fé (com Fernando Brant), e dele o melhor registro dessa música, a que ouvimos no CD Conspiração dos poetas (1997, Dubas Music), reunindo suas criações com Brant, além de parcerias de Milton e Brant.

Lançada no Clube da Esquina 2, de Milton, Paixão e fé foi versionada por Simone, Flavio Venturini, Titane, Vânia Bastos etc.

É muito valorizada por instrumentistas solo. A composição tem um prelúdio que soa como música sacra, e segue a introspecção contagiante inspirada no silêncio das procissões.

A canção é um hino espiritual das Minas do Jequitinhonha, uma espécie de oração, ou de canto devoto à devoção popular.

 A rádio mineira Inconfidência FM faz muito bem em tocá-la, há muitos anos, às seis da tarde, marco da Hora do Angelus, Toque das Ave-Marias.

[Atualização em 25/02 — Saiu em 2016 o Viola instrumental brasileira, dele com Almir Sater, pela Gravadora Galeão.]

[Atualização em 27/02 — o redator meteu a pata. A versão de Cabaré mineiro que vai abaixo é a regravação do álbum O anjo na varanda (Dubas), de 2018, com participação do violonista Beto Lopes. O CD é um acontecimento. Como o jornalista e crítico Mauro Ferreira explica no texto enlaçado aí, Tavinho e Ronaldo Bastos repõem vida e obra do amigo Fernando Brant (1946-2015) em suas próprias trajetórias artísticas.
Mas, dois anos antes, em 2015, pelo mesmo selo, saíra Beira de linha, viola instrumental.
Tavinho Moura, portanto, dei gratia, diferentemente do que a JU pode ter insinuado, vai muito longe de entregar a rapadura.
Segue em plena atividade, apesar da pandemia, apesar do país do BBB, apesar do Caveirão.155mm etc. (como se precisássemos de mais!, dum et cetera.]

CABARÉ MINEIRO – Poema de Carlos Drummond de Andrade musicado por Tavinho Moura

A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça.
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda, gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas…

PAIXÃO E FÉ – Tavinho Moura e Fernando Brant

Já bate o sino, bate na catedral
E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressurreição
E sai o povo pelas ruas a cobrir
De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei
No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração
E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor

COMO VAI MINHA ALDEIA — Tavinho Moura e Márcio Borges

Como vai minha cidade
Oi, minha velha aldeia
Canto de velha sereia

No meu tempo
Isso era meu tesouro
Um portão
Todo feito de ouro
Uma igreja
E a casa cheia
Cheia
No vazio
Desse meu Brasil

Minha igreja
Minha casa cheia
Meu Brasil

No meio da praça passou
Do meio da noite surgiu
O meu pai
E meu pai me mostrou
Seu retrato
Morrendo na rua
E seu tempo ali parado
E seu povo ali parado
Minha gente
Que nunca mudou

Cuspo o bagaço dos meus dias?

Jurupoca_59 — 19 a 25/2/2021 — Ano 2

Reprodução (detalhe) de página do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T.S. Eliot, em versão HQ

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Escrevo a você, cara leitora, caro leitor, durante o Carnaval fantasmal, frio como um CTI.

TVs e jornais online, sem pautas novas, repetem à náusea entrevistas com epidemiologistas exaustos. E tome falta da vacina; tome folias clandestinas, “ousadas” por jovens fúfios (ordinários, reles, insignificantes, lembrança do Rosa); e  pior, tome melosidades de doer a goela sobre o silêncio das baterias e do frufrulhar das saias das mulatas na avenida.

O Corona agravou a “infodemia”, as exorbitâncias de informação, e recrudesceu o “solucionismo” tecnológico, expressão cunhada por Evgeny Morozov.

Os jornais online nos enchem, imperativos, de “como fica”, “saiba como”, “Por que isso e aquilo”; “Faça assim, assado”.

O público-alvo das folhas online é um idiota, incapaz de discernir o viés de um título caça-clique do mero jornalismo ruim, e ao tempo é esganado por fofocas sobre artistas (com e sem aspas) e diversão de terceira.

 Será assim mesmo, o desrespeitável público?

O lixo habitual da Netflix não ajuda a tratar o tédio. Começo a ver de novo o que vale a pena: Borderliner, Twin Peaks…

Twin Peaks. Quem viu a série de David Lynch (duas estrelinhas segundo os infantes navegantes da plataforma), de 2017, continuação lisérgica e kafkiana das duas temporadas de 25 anos atrás, sabe o que são a Black Lodge e a White Lodge: os mundos divididos entre os hipnóticos cortinados de veludo — vermelhos como os dos velhos cinema — a separar o bem do mal.

Há tempos me sinto, em espírito, em ideias, no Brasil e no mundo, um preso da Black Lodge.

Um artigo que escrevi sobre a obra de Lynch citava Slavoj Žižek, o filósofo esloveno popstar (e adora cinema) sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa do diretor norte-americano e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Pois é disso que preciso, da inspiração de Lynch para me distanciar um pouco da realidade.

Quero olhar o desrespeitável público que clica em informações valiosas do tipo: “Vitão tatua bumbum de Luísa Sonza na coxa”.

Um amigo estudioso, lente da UFMG, pescou essa pérola de plástico num desses portais google-dependentes e me mandou como um achado entomológico, vale dizer, sociológico.

Respondi: — Claro, não faço a menor ideia de quem sejam, como sempre. Mas aí é que está o busílis.

Como é possível se desgarrar da “realidade” que ordena e anima praticamente a humanidade toda, e encarar a vida de outro jeito, sem recorrer à eutanásia?

Mas, se você chegou até aqui, deixa para lá.

Ou melhor, desgarrados da realidade, sim, vamos tentar, você e eu, ver tal “problemática” por outros ângulos, sem propor, à Dario Peito de Aço, nenhuma espécie de “solucionática”, nada além de nossas perguntas. Que tal?

Reprodução de uma página do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T.S. Eliot, em versão HQ

O bagaço dos meus dias

O título desta edição é tomado de um verso de T.S Eliot (1888–1965): “Como então eu começaria a cuspir/ Todo o bagaço dos meus dias e caminhos/ E como iria atrever-me?”. Já chego ao poema.

Vou me atrever, e convido quem mais tope, a dividir os dilemas expostos por Eliot como se nossos fossem, da nossa época, de quem se incomoda por estar à margem, com receio de ser levado na enxurrada, de tomar na cara sopapos de objetos estúrdios, tangidos na torrente.

Vamos, eu e você, tentar distinguir os azuis quase roxos dos cinzas e dos amarelos de uma noite-em-vias. Não vale fotografar!

Sigamos, você e eu, a tocar na ferida do mundo, que é minha, mas que de mais gente, eu sei.

Vamos de A canção de amor de J. Alfred Prufrock, do Eliot, poema publicado pela primeira vez em 1915, sob influência, segundo experts, dos simbolistas franceses, Mallarmé, Rimbaud, mas sobretudo Corbière e Laforgue (Edmundo Wilson em O castelo de Axel).

Vamos com a soberba tradução de Ivan Junqueira (1934-2014).

O monólogo do narrador, filho ilustrado do modernismo, demarca em cada estrofe sua melancólica e neurótica (tem os “nervos em retalhos”) distância emocional do mundo, das banalidades que o distraem do que podia ser, viver, melhor, mas não tem certeza, ao lado da mulher a quem não ousa dizer o que deveria.

Será mister parar um pouco nas imagens, com calma, enquanto cai a noite no outono setentrional.

Não tem mais jeito.

Vamos nessa (o poema tem uma epígrafe Dante Alighieri, A divina comédia, Inferno, XXVII, que não vem ao caso aqui).

    Sigamos, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Se mistura às conchas das ostras:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão…
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.


   No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

Gostou igual desse (celebérrimo) céu a se estender como um paciente anestesiado sobre a mesa (When the evening is spread out against sky/ Like a patiente etherised upon a table)?

Sigamos, assim, a cumprir com nossa visita, e nossas vidas.

Bom, por mais que o poema pareça destinado a ti e a mim, hoje, é preciso mudar o necessário: ninguém mais fala em Michelangelo, mesmo na academia, creio, não seja para impor algo decisivo sobre a sexualidade, quem sabe o irrevelado gênero do, não por isso, gênio das artes.

Fala-se, hoje, muito, muito a sério, nos salões de silício ricamente erguidos nas nuvens, como bem sabemos, é do BBB.

O Prufrock jamais teria algo a expressar a um público capaz de gozar com esse show da vida.

Ruas que se alongam… como um tedioso argumento… E nos enredam em uma angustiante questão: “Qual?” Não me perguntes.

   A neblina amarela que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E assim estamos, como sinto, agora, transpondo: um densa neblina poluída cobre a sarjeta cobre toda perspectiva e poder de olhar, distinguir e selecionar.

(Penso nas grandes dúvidas do nosso tempo: que nova pose ousar?, qual o fundo florido ideal?, que imagem ponho no status?, que emojis uso para dizer tudo que sinto?, que branding persona devo exibir às 9 da manhã?)

E na verdade tempo haverá
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;

Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

   No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

(Ivan Junqueira nota em “tempo para matar e criar” a provável primeira referência direta ao livro do Eclesiastes na obra de Eliot. E haverá no poema outras referências bíblicas, você vai notar, a Lázaro e, de forma mais velada, a João Batista, o que perdeu a cabeça por Salomé dançar para Herodes Antipas. E também a Shakespeare. Mas não vamos nos perder nisso.)

Retomo:

Tempo para moldar um rosto para enfrentar os rostos que encontrares, diz o poema.

Então eu me pergunto se levamos quem somos moldados nas redes a encontros ditos “presenciais”.

Aí: qual o peso do pensamento, o valor das ideias?

Aí: o que foi feito do livro, da arte e da literatura?

Perguntas de algum desgarrado, calva à vista.

Qual o lugar para uma centena de visões e revisões no meio de milhões de imagens, janelinhas, memes, música barata composta por 30 autores?

Podcasts, reportagens, artigos, debates, vídeos e chats do Telegram, às centenas de milhares, sobre o BBB, nossa grande efeméride do milênio, nossa contribuição cultural com a bunda de fora para o mundo (o Corona já foi lacrado?), contribuição sucedânea da música popular, de novas bossas, de alguma literatura, alguma arte até, respondem minhas perguntas?

Mas que isso, tais perguntas não respondidas, ao menos nos dê um pretexto para fugir catiquinho, nos desgarrar no prazer de ler um grande poema, dando rédeas à imaginação.

Adiante.

E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
— Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas!”)
— Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Puxa vida: Do I dare/ Disturb the universe?

Batidas no liquidificador dos novos meios de comunicação, diluídas na régia régua homeopática (é importante lembrar que a tal da “memória da água” é pura alquimia), noções ideológicas como direita e esquerda e disputas de raça e gênero se transformam em “narrativas”, essa chaga, essa peste pós-tudo.

O que, você e eu, podemos fazer, então, entrar no certame, na contradança das narrativas, para nos sentir vivos, vivaldinos?

Não sei dançar o gênero, digo logo.

Quem gestou e pariu o flagelo do separatismo ideológico e do egotismo terminal?

Pergunto ao Eliot, ao Prufrock, humildemente, separados por 110 anos da escritura do poema, num país tropical amaldiçoado por todos os francos.

   Pois já conheci a todos, a todos conheci
—Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café:
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
   Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
—Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se me confino a fórmulas, gingando sobre um alfinete,
Ou se me sinto alfinetado a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
   E como iria atrever-me?

Tic-tac, tic-tac. Também me sinto alfinetado, a colear contra a parede, e, ai de mim, terei medido minha vida em colherinhas de café (I have measured out my life with coffee spoons)?

E já conheci também os braços, a todos conheci
— Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, se quedam lânguidos
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou se enredam num xale.
   E ainda assim me atreveria?
   E como o iniciaria?

O sr. Prufrock cai um pouco em si, na real, diante dos braços alvos e desnudos (também te lembrou Machado? Sedutores braços de Sofia no Quincas Borba, ou do conto). Por certo o perfume de um vestido faz alguém baixar à terra, lançar âncoras. Observamos até a penugem castanha desses braços, com olhos mais atentos, atrevidos.

   Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, debruçados à janela?

Eu teria sido um par de dilaceradas garras
A esgueirar-me pelo fundo de mares silenciosos.

É preciso pensar numa longuíssima duração, décadas, para entender um pouco as feições do bebê da regressão humana.

Estou certo de que o poema, a palavra poema em si, tornou-se uma palavrão não dito, pensado, sim.

A aliteração veio a propósito.

Mais perguntas: alguma educação e boa grana compram o quê?

Um corpo sadio, malhado e pintado.

Futuro, mais amanhã para, em paz de mar e monte, dispor de comidinhas e quinquilharias hi-tech, novas, das tais que serão enfiadas nos corpo, como extensão.

Compra séries engraçadas para claques de berçário.

Compra viagens que rendem selfies valorosas, essa superestesia do ego, e autossatisfação nas redes sociais.

   E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Acariciados por longos dedos,
Entorpecidos. . . exangues. . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
    servida numa travessa,
Não sou profeta — mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu sobretudo.
Enfim, tive medo.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo, não há como, entre parênteses, não lembrar do Poema em linha reta, mediante esse lacaio a reprimir o riso.)

E nenhuma existência será completa sem um celular de primeira linha à mão?

Até que se dispense o dispositivo, trocando-o por outro trem, é o tal e ditoso celular, se você me permite, a célula que guarda a engrenagem onde gira o tempo do bebê regredido — na corrida de todas as horas contra a marca da atualização de todos os aplicativos.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geleia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
  —Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
     Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer
     Não é nada disso, em absoluto.”

É preciso imaginar Lázaro sem celular, imaginar Lázaro sem Facebook, Lázaro banido das redes sociais, como um Donald qualquer, para figurar o que é bom pra tosse, o que é ser fiel ao Senhor.

Mas divago. Não é absolutamente isso o que quis dizer.

Mas, ninguém é de ferro, como diz Mario Vargas Llosa em A civilização do espetáculo, o entretenimento passageiro se tornou a aspiração suprema da vida humana, como, ele diz, “o direito de contemplar com cinismo e desdém tudo que aborrece, preocupa e lembra que a vida não é só diversão, também drama, dor, mistério e frustração.” [Livre tradução de La civilización del espetáculo, Alfaguara, 2012, pg. 59].

Multidões vão e vem a teclar, falando de quê?

    E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
— Tudo isso, e tanto mais ainda? —
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”

Ao entrar mais uma vez nessas imagens, espero que meu convite não te aborreceu, caso tenha vindo comigo.  

J. Alfred Prufrock a se debater com tantas incertezas, revisões, idas e vindas, opresso, e imagens do lá-fora cá dentro.

Mas e o mundo? Irremediável.

A grande poesia, sim, pode dar um alento, um lenitivo a homens solitários que se postam num bar com seu livro de poemas, seu jornal (quem, ainda?), a contemplar a fumaça que se eleva de uma xícara de latte.

Mas sigamos com nossa visita, já está terminando, num gran finale.   

   Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
Às vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

    Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

    Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e andarei pelas praias.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento rasga um claro-escuro nas águas.

Demoramo-nos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

[Extraído de T.S. Eliot – Obra completa – Volume 1, Tradução Ivan Junqueira, Editora ARX, 2004.]

Desses últimos versos, o que dizer?, do fecho. Me soam como monumento da poesia mais elevada já composta por nossa espécie, no inglês: “We have lingered in the chambers or the sea/ By sea-girls wreathed with seaweed and brown/ Till human voices wake us, and we drown.”

Mas vozes humanas nos acordam, e afogamos, deveras.

Sim, é apenas o alento do poema, nada além disso.    

Multidões vão e vem a teclar, falando de quê? Não se sabe.

Mas seu barulho nos acorda.                                  

Reprodução (detalha) de uma página do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock, de T.S. Eliot, em versão HQ    

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O ópio dos imbecis (1)

A religião, ópio do povo na famigerada frase de Karl Marx, e bem mais tarde, numa pirueta dialética, o próprio marxismo e a “ilusão de onipotência” da ideologia prepararam o cachimbo do ópio dos intelectuais, na genial definição de Raymond Aron. Até que engrolamos. Contrariando ilusões sobre o progresso humano em linha reta, “evoluímos” para o “ópio dos imbecis”, já traduzindo o título do livro de Rudy Reichstadt, cientista político que fundou e toma conta do Conspiracy Watch, Observatório de Teorias da Conspiração na França.

“O conspiracionismo está ligado às nossas paixões tristes”, lemos na apresentação de orelha”: “egocentrismo, misantropia, preguiça, covardia, medo, ciúme, ressentimento”. Reichstadt atribui a propensão a crer em tramas de pedófilos satanistas ou no terraplanismo a um “potente transtorno da personalidade narcísica”, como falou a Daniela Fernandes, do Valor. A “teoria do complô” também serve para encobrir o que não se consegue entender, ou, creio, simplesmente não se aceita, e para guerrear inimigos, vítimas da cólera, outra paixão triste, ou emoção negativa.


O ópio dos imbecis (2)

Reichstadt parte do óbvio ao lembrar que o conspiracionismo não nasceu ontem, mas andava mais pelo breu das tocas, antes de rejuvenescer com as tecnologias da informação e as redes sociais. Os jornais, onde as opiniões malucas e radicais acabavam enquadradas, se desidrataram como fonte dominante de informação. E no mundo paralelo, na contramão das rezas dos novos iluministas, a deseducação é geral. “O complô é uma força política, é um discurso ideológico que explica que não devemos confiar nos responsáveis políticos, na ciência ou na imprensa”, disse ele ao Valor.


O ópio dos imbecis (3)

Se boa parte dos médicos brasileiros prescritores, na batida do Caveirão.155mm, de óleo de cobra contra a covid, desprezam o método científico, o que dizer do vulgo diante da complexidade de um vírus, que não se pode matar como lombriga? E a coisa vai longe. Sua Excrescência Jumentíssima acredita que encontrar o remédio contra o
“bicho” é mais fácil e barato que desenvolver vacina. E os sábios de galinheiro caem matando. “É muito reconfortante, de uma certa maneira, pensar que não é um vírus microscópico que mata, mas sim um plano diabólico organizado por uma entidade chamada ‘Big Farma’ (as grandes indústrias farmacêuticas)”, propõe Reichstadt, “que tem um nome ou o rosto de Bill Gates, e que na realidade bastaria colocar essas pessoas na cadeia para resolver o problema da pandemia”.  


Que vergonha, doutores

“Minha mulher e eu pegamos covid-19. Nosso médico no Brasil prescreveu uma droga usada para tratar parasitas em gado”, diz o título da reportagem enviada pelo correspondente do Washington Post no Rio). A autonomia do médico deveria ter a ciência como tutora. Fora isso, o doutor derrapa no curandeirismo, ou ostenta bisonha ignorância sobre o método científico, se não entrega tudo ao diabo para seguir o Caveirão, que é como se juntar ao bando de um Lampião.


Bolsonavirus.22, a calamidade

Captura de tela de página do site da Indústria de Material Básico do Brasil (Imbel)

Augusto de Campos trata Caveirão.155 mm (para você que chega agora à Jurupoca: o nome Caveirão designa a natureza do incumbente, por favor, já o número, 155 mm, e aumentou!, o calibre de um bala de canhão) de Bolsonavírus-22. Mais de um terço dos brasileiros seguem infectados pelo, digamos, organismo, conforme o Datafolha. Reichstadt também disse ao Valor que estamos subestimando a (vamos de ão?) reeleição do Caveirão.155mm, ano que vem, caso a “histeria da população” continue sendo atiçada.


Titanic, o mais seguro

No El País, Javier Marías nos lembra dos passageiros do Titanic afundando, a gritar: “É alarme falso. Já está passando. Viajamos no navio mais seguro da história”. Vale para os políticos brasileiros, mas estes, aderentes, se explicam pelo oportunismo e cupidez. Quando à patuleia, Marías prevê que em 20 anos vamos perguntar como seres tão farsescos como Trump, Bolsonaro, Putin, Chaves, Maduro, Johnson, Duterte (citados pelo escritor) conseguiram seduzir e enganar as massas em seu tempo, da mesma forma como nos perguntamos sobre a paixão por Hitler e Mussolini em seu tempo. Tal é a velha e desgraçada incapacidade humana de reconhecer o perigo.


Cérebros vermiformes

O desgoverno homicida continua a exibir oficialmente suas pudendas, partes onde, logicamente, se localizam os cérebros vermiformes, meros apêndices, dessa gente, ora a reforçar o lobby das armas, quando beiramos 250 mil mortos por covid sem vacina, e a destruição da Amazônia, entregue oficialmente a  garimpeiros com dragas milionárias e sua “prata líquida”.


Patriotismo 2021

Meu coração, do tal país que éramos obrigados a nos ufanar ao som da dupla Dom & Ravel, está assim: verde-cadáver, amarelo-escarro, branco-cianeto, azul-vergonhoso, anil da anileira infestante e venosa.


Augusto por ZMW, bim bom

O poeta Campos, a quem Sampa, a cidade, não só a canção, deve muitíssimo, chega aos 90 anos, celebrado como deve ser. A Ilustríssima trouxe um ensaio primoroso de Zé Miguel Wisnik, primoroso em clareza, didatismo e bela escrita. ensina a ler e entender a obra de Augusto em seu valor e energia para intervir a cultura brasileira desde os anos 1950, como poeta e tradutor. Com luvas de lã, ZMW aponta a principal contestação da crítica acadêmica aos concretistas, por interposto autor, o argentino Gonzalo Aguiar, autor do citado Poesia concreta brasileira: as vanguardas na encruzilhada modernista” (Edusp, 2005). Aguiar refuta no concretismo a “teoria essencialista do progresso”, diz ZMW, “articulada em torno da absolutização do novo e da autonomia teleológica dada à forma, em meio às contingências explosivas que cercam a prática artística”. Bim bom. ZMW faz o elogio da, digo eu, caturrice de Augusto, num balanço da bossa concretista, desse jeito: “(…) sua atitude em relação à poesia se afina com a de João Gilberto para a canção, enquanto artista fiel ao grão incorruptível da sua arte, do qual não se afasta de jeito nenhum”. Vá lá. Mas ZMW me parece, talvez, se contradizer ao interpretar favoravelmente o poema Pós-tudo, de 1984, que deu o que falar, como alude, segundo ele por incompreensão ou má vontade dos comentadores. O ensaio ressalta o duplo sentido da palavra “mudo” no poema, atinente, a um tempo, à mudança, ao novo. Pero que pretensa mudança? O que mudou no concretismo, na “teleologia dada à forma”. Emudeceu a corrente? Não se renovou além de seus imitadores e diluidores? E aquele vetusto “fazer o novo” (Make it new, vindo de Ezra Pound)? Está caduquíssimo, ainda que vital num museu da poesia. Wisnik fala da “avaliação diminuidora” de quem vê em poemas de Augusto mero trocadilhos. Propõe “supertrocadilho ou “macrotrocadilho expandido”. Sei. O formalismo aplicado à poesia me lembra publicidade engajada, ou trocadilhismo supercult, tantas vezes.

O poema Pós-tudo, de Augusto de Campos, 1984. Reprodução da Folha

Mayrink

Elio Gaspari, Ruy Castro e agora Sérgio Augusto (Il miglior fabbro), de uma mesma geração, têm louvado Geraldo Mayrink (1942-2009) como um dos grandes textos do jornalismo brasileiro. A oportunidade ensejou o filho, o publicitário Gustavo Mayrink, construtor do site que traz ao público o acervo do jornalista, que passou pelo Jornal do Brasil, O Globo, Veja, Playboy etc. Mayrink, nascido em Juiz de Fora, começou no Binômio e praticou no Diário de Minas, como Fernando Gabeira, Fernando Morais, e, humildemente, este jurupoco, no seu primeiro emprego, e já nos estertores do jornal. Tive o prazer de almoçar com Mayrink em São Paulo, levado por um amigo comum, José Roberto Alencar, outro bamba da reportagem, numa manhã dominical friorenta e soalheira. Não que um texto de qualidade valha muito hoje, mas é delicioso deixar-se levar pelo correr da pena, digamos, pela fluidez, naturalidade e verve da escrita de Mayrink. Pego uma reportagem em destaque no site, sobre Chico Buarque, publicada na Veja em 1973. Tem mais informação concentrada que qualquer dos vários e ralos e baba-ovos perfis de Chico já editados. Vai um excerto:

Perguntas no ar

Os variados personagens interpretados nos últimos meses por Chico Buarque são, pela intensidade com que atingem o público, necessariamente contraditórios. Muitos de seus admiradores preferem ainda o Chico de outros tempos, menos elaborado, feliz com sua Joana debaixo do braço, carregadinha de amor. Para um reitor em Minas, suas palavras nada tinham de talentosas ou corajosas, classificando-as publicamente como a expressão de um bêbado e um imoral. Os censores, talvez excessivamente exasperados por alguns casos isolados, não lhe dão tréguas. Assim, cinco anos depois de ter escrito e vomitado a peça Roda viva, em que manifestava seu cansaço e irritação pelo fato de ser um ídolo do qual todos tudo esperam, ele está mais uma vez numa roda-viva de trabalho, receios e angústias. Como em 1968, é um ídolo – e, de novo, muitos esperam que ele seja e faça tudo.”



Foi show, antes de live

Maria Bethânia pode até reciclar Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, transpor essa música de combate à ditadura para a impostura selvagem do Caveirão, que dá certo. Bethânia tem o tamanho da MPB mais elevada. É uma espécie de sacerdotisa da canção popular. Não é preciso crer para acreditar no que vemos, na sua presença-domínio do palco, dos tempos e dos engates poéticos ao repertório. Ela fez um balanço equilibrado de sua longa carreira (recorda o show Opinião, quando substitui Nara, agradece diretores que a formaram nos palcos, e para o teatro, Fauzi Arap, Flávio Império…) e diz o que tem a dizer, agora, ao cantar Dois de junho, a música de Adriana Calcanhotto sobre o menino da empregada morto no Recife por omissão da patroa. Quem viu, ouviu, viveu uma deliciosa noite de sábado. Taí uma live que foi, na essência, um grande show, e não será a mesma coisa no VT.



Canções irmanadas

O samba-canção Estrada do Sol (Jobim, Dolores Duran), gravada por Silvia Telles em 1958, grande sucesso no mesmo ano com Agostinho dos Santos, num 78 RPM, e a valsa Chovendo na roseira (Jobim) são canções gêmeas em sua natureza. Nelas chove, o sol se abre e há um espécie de convocação comum à alegria de viver com quem se gosta. Chovendo na roseira foi composta como tema e um filme norte-americano justamente esquecido The Adventurers (Os Aventureiros, de 1970), depois gravada por Tom no LP Stone Flower (1970), com arranjos de Eumir Deodato. Em seguida ganharia a letra, na versão do álbum canônico Elis & Tom, de 1974, arranjada por César Camargo Mariano. É uma das mais perfeitas canções que pude escutar, e falo do mundo. A melodia claramente tem começo meio e fim, parece cantar e contar uma história por si própria, a quase no trazer aos olhos, como paisagem, as imagens que a letra adivinhou. A versão de Estrada do sol de que mais gosto é a de Nara Leão, do álbum duplo Dez anos depois, de 1971, produzido por Roberto Menescal e com o próprio, além de Luis Eça e Rogério Duprat nos arranjos. Nara canta acompanhada por um piano de leveza jobiniana, em que as notas caem como pingos de chuva, e um violão magistral. Tudo contido, exato, belo. Jobim conta que Dolores Duran (os dois são parceiros também em Se é por falta de adeus e Por causa de você) ouviu a melodia e não quis saber, mandou a letra no estalo, num papel qualquer, com um lápis de olho. O pesquisador Rodrigo Faour transcreve, a respeito, a fala de Tom no livro Dolores Duran — A noite e as canções de uma mulher fascinante (Record):

 “Dolores Duran, grande compositora, grande amiga, minha parceira em algumas músicas, entre elas Por causa de você. Fiz essa melodia e Vinicius começou a escrever uma letra e eu fui à Rádio Nacional à tarde, que naquele tempo era o centro da música, de tudo, no Edifício A Noite, na praça Mauá. Numa sala, tinha um piano, e entre esses colegas, a nossa Dolores. Tirou um lápis de sobrancelha da bolsa, escreveu uma letra e me disse ‘Outra é covardia’. E Vinicius, que gostava muito dela, aceitou. Ficou a letra dela. Uma das melhores letras que já fizeram pra mim”.

ESTRADA DO SOL – Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran

É de manhã
Vem o sol
Mas os pingos da chuva
Que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a bailar
Ao vento alegre
Que nos traz esta canção

Quero que você
Me dê a mão
Vamos sair

Por aí
Sem pensar
No que foi que sonhei
Que sofri, que chorei
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol

CHOVENDO NA ROSEIRA – Antonio Carlos Jobim

Olha!
Está chovendo na roseira
Que só dá rosa mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luísa, que é de Paulinho, que é de João
Que é de ninguém

Pétalas de rosa
Carregadas pelo vento
Um amor tão puro
Carregou meu pensamento

Olha!
Um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado
Adivinhou a primavera

Olha!
Que chuva boa prazenteira
Que vem molhar minha roseira
Chuva boa criadeira
Que molha a terra
Que enche o rio
Que limpa o céu
Que traz o azul

Olha!
O jasmineiro está florido
E o riachinho de água esperta
Se lança em vasto rio de águas calmas
Ah! Você é de ninguém


Marina, e vice-versa

Marina Lima, não é por nada, é das maiores sobreviventes de sua geração. Seu talento de compositora e intérprete, com fértil parceria com o irmão poeta e imortal Antonio Cícero, definiu o que ela criou e registrou. Notar isso é mole. Por exemplo: em 1984 ela gravou ou melhor, como dizem em espanhol, versionó Mesmo que seja eu, de Roberto e Erasmo Carlos (lançada por Erasmo no ano anterior), no LP Fullgás (Polygram/Philips, hoje Universal). É uma faixa inventiva, cheia de graça e vivacidade. A gravação de Erasmo pode ser mais potente (!) e dançante, mas a de Marina vibra, goza com a letra, com as ideias de gênero, claro, mas também com o preconcebido sobre a doçura feminina: note como a música desdobra-se em dois tempos, a suavidade quase de um canto-falado na primeira parte, bem feminil, e uma segunda, mais propriamente rock’n’roll, ou tecnopop. Ela fez bem em tirar a besteira  do “antes mal acompanhada do que só”. Marina intervém com uns cacos seus, na abertura, donde o delicioso xi…, antes da guitarra e da bateria e um sintetizador Roland Juno 60 entrarem com tudo. Uma abordagem mais restrita, acadêmica, diz o óbvio : “[…] Ferreira Filho cita a interpretação de Marina Lima da música Mesmo que seja eu de Erasmo Carlos, na qual o discurso romântico do eu-lírico é claramente masculino e direcionado a outra mulher. […] Quando interpretada na voz de Marina a música ganha também caráter de contestação do lugar comum dos gêneros nas músicas populares.” (de um blog da USP com post sobre a dissertação Nós Duas – Representações LGBT na canção brasileira, de Renato Ferreira). Contestação? A artista se diverte, não contestada nada, ou não pretende contestar nada, faz música, que incorpora para si. Muito além do lugar-comum LGBT-ipsilone. Há mais nos jogos, inclusive semânticos, entre um homem e mulher e vice-versa ao contrário do que um paper acadêmico e militantes de crachá podem sonhar.

MESMO QUE SEJA EU – Roberto e Erasmo Carlos

É, cada um de nós precisa
Precisa de um homem pra chamar de seu

Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão meu bem
Quando acordou, estava sem ninguém
Xi…
Xi… sem ninguém

Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
E no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera da solidão

Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão meu bem
Quando acordou, estava sem ninguém
Sei

Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
E no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera
Da solidão, oh

Com a força do meu canto
Esquento o seu quarto pra secar
Seu pranto
Aumenta o rádio
Me dê a mão

Aumenta o rádio
Me dê a mão
Você precisa é de um homem
Pra chamar de seu
Mesmo que esse homem

Seja eu

Um homem pra chamar de seu
Mesmo que seja eu
Um homem pra chamar de seu
Mesmo que seja eu
Um homem pra chamar de seu
Ah eu


Tá no filó

Me detenho só neste verso de Chico Buarque, do samba O Futebol, do disco de 1989 tão presente neste jornal:

[…]
Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
[…]

Não é pintura de emplacar em pinacoteca, nega? Traçamos no ar, no intervalo do compasso, a curva, lugar geométrico, quase a calcular o espaço que a bola traça e desenha: parábola, que é também para-bola, bola que para no peito ou pé, e o futebol sendo a um tempo parábola (narrativa alegórica) do homem comum. Bem, no ápice da parábola, curva, a bola roça o céu, para delírio das gerais no circo do coliseu. Um senhor chapéu, não se discute. Essa música é um biscoito fino que a massa, incrivelmente, não pode comer. Pena. Aliás, a massa nunca esteve tão distante dos biscoitos finos como hoje, dado o lixão…


Harrison por Ná

While my guitar gently weeps, clássico de George Harrison, foi belamente tributado por Ná Ozzetti. Chegou anteontem ao Youtube.

Um jornal para chamar de seu, mesmo que seja o meu

Jurupoca_58 — 12 a 18/2/2021 — Ano 2

Uma vista do Belo e do seu céu desde a janela da redação da Ju, na tarde de terça-feira (9)

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Aquilo que não havia, acontecia.

Ler João Guimarães Rosa é como ler a grande mitologia, só que nossa, daqui, nosso linguajar, graça cultural de uma ex-colônia portuguesa: tudo (e)feito mitológico agregado à grande tradição formadora.

Se o povo é o inventalínguas, Rosa é seu reinventor, com uma pontuação e sintaxe só dele, uma música própria e sedutora, capaz muitas vezes de fazer um leitor levantar do chão para cair em si.

A síntese dessa grandeza, por Caetano, nunca será suficientemente avultada, ou distinguida, ao menos até Língua se tornar, como defendo, um hino ritual introdutório das lições do idioma: “Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa”.

A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária.

Em verdade vos digo: o Brasil se prestasse teria seu Dia Grande sertão: veredas, seu Dia Primeiras estórias, seu Dia Sagarana.

Seriam nossos Bloomdays, o 16 de Junho dos irlandeses, adotado em toda parte no culto a James Joyce e seu Ulisses, para ufanarem de autor e obra com propósito e justeza.

O português rosiano ou machadiano ou drummondiano não iam mesmo ganhar o mundo, sendo ramo da última flor do Lácio, tão parcamente falada pelas gentes. Que ganhássemos o Brasil, então.

Sonho: teríamos circuito turístico, caminhada, celebração escolar, festa em bares, em teatro. Veríamos filmes, ouviríamos palestras e leríamos juntos páginas das obras para nos deleitar e sentir como civilização no rumo certo, ainda que prometida, em vez de uma gente culturalmente tonta e perdida, a perder tempo e espaço falando de BBB, que importa lhufas.

Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

Ilustro estas linhas, como quem usa iluminuras ricas e raras, com grifos de meu repasse pelo Primeiras estórias; não importa de onde, de que conto vem cada excerto do livro publicado em 1962: 60 anos ano que vem!

É magnífico: um parágrafo, dois parágrafos, três, e logo a costura inconsútil do inventor, e não há mais como abandonar o barco.

É como penetrar uma floresta virgem, uma natureza intocada, é como penetrar a desnatureza humana, uma Amazônia de arte.

O cume desse livro, e um dos cumes de todas as verdes serras do Rosa é o conto A terceira margem do rio, exemplo acabado da definição de Calvino de clássico: “Um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

Reli duas vezes e treli, a ver e ouvir uma aula de Zé Miguel Wisnik aberta na internet (aqui em fase dominante de professor de literatura de USP, ainda que o músico e compositor intervenha).

ZMW vai ler o conto, destacar frases, passagens, marcos, contextualizar, perspectivar, ensinar e, no final, depois de frisar a impossibilidade de se decifrar, de uma compreensão acabada da história, vai pontuar, para usar o verbo usado por ele, relações que iluminam a leitura do bom leitor.

A literatura, apois, é reescritura e reinvenção desde a primeira linha, a primeira fabulação, o primeiro sopro narrativo que diferenciou de vez (e segue a diferenciar) nossa espécie no tronco símio.

ZMW sugere um texto de Freud, Luto e melancolia, para nos ajudar a pensar o personagem do filho que fica, quando a família deixa seu rincão, que busca e parece não conseguir elaborar a desaparição de “nosso pai” e tocar sua vida.

Melancólico, diz Freud, é quem nunca acaba, para lá das deixas do tempo, a ruminação que o luto representa, quem não elabora a falta no olvido necessário para seguir remando.

Depois, sugere um volteio sobre o mito grego de Caronte, um exame desse barqueiro do Hades, como origem possível da ideia rosiana.  Ele, Caronte, é o encarregado de atravessar as almas pelos rios que dividem o mundo dos vivos do mundo dos mortos, Estige e Aqueronte.

O professor podia ter lembrado também, como me ocorreu, inspirado nele, que no costume grego clássico punha-se uma moeda sobre a testa ou a boca do morto, uma paga a Caronte por seu serviço, ou, se quisermos, ao enlutar/esquecer de quem permanece no mundo de cá.

Pois, como é sabido, “o tempo leva uma sacola nas costas onde carrega óbolos para o oblívio”.

É o filho mais novo quem deixa à margem do rio, em grotas, o alimento pouco (“rapadura, broa de pão, cacho de bananas”), sucedâneo de óbolos (moeda grega de pouco valor) para “nosso pai”.

E o que são nossas velas acesas, nossas flores de Finados, nossas prendas aos santos, regalos aos deuses deixados ao mar?

A terceira margem, este não-lugar, o indeterminado, é matéria essencial, argilosa, do ser.

A terceira margem também pode ser, matuto, o rio que o rio faz (Pessoa), e sua atração sobre quem vive à beira dele e se deixa levar por sua imagem-ação, ou se magnetizar, ou ainda pode ser a margem mais profunda de nós próprios, margem que tão raramente se abre em vau, e que nunca alcançamos de pleno, além, quando muito, em um que outro vislumbre.

Asa da palavra

Volto aos 21 contos do Primeiras estórias depois de ouvir mais uma vez, e mais atentamente, a música de Milton Nascimento e Caetano Veloso também chamada A terceira margem do rio.

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Milton fez a música do filme (1994) homônimo de Nelson Pereira dos Santos, e, creio, anos antes dera a composição para Caetano, como se diz, letrar.

Bituca conta no DVD A sede do peixe, digo de memória (o vídeo que se segue não tem créditos), que a música que compusera, ele logo atinou, cabia tão só a Caetano, e a mas ninguém (“… é aquele negócio, quando faço uma música eu já sei para quem vou dar: direto…”, diz Milton em delicioso miltês.)

Grato, Caetano na vez dele dirá que recebera a encomenda como um recado-dádiva de Milton, de Minas e de Rosa, e já meio pronta, insinuada no título posto pelo parceiro.

Com uma bola assim redonda, era só cortar e fazer o tento; com um passe desses, só marcar o golaço.

É que a letra lhe veio como descarrego (“sinceramente, foi sopa viu…”, ele diz se rindo com Milton). A faixa é do Circuladô, comentado na Ju#57.

Um lance para Rosa

No final da live Minas mundo, uma iniciativa acadêmica levada no final do ano passado, quando é entrevistado, toca piano e canta, ZMW lembra pelas tantas que Rosa dissera certa vez que seu conto chegou prontinho, “num dia luminoso em Copacabana”, diz ZMW, como uma bola que lhe houvessem atirado.

Era só pegar essa ideia-bola e deitá-la no papel, como história, como estória.

Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio.

Veja a leitora, o leitor, as jogadas desse mundo literário, como podem significar e esplender.

A TERCEIRA MARGEM DO RIOMilton Nascimento e Caetano Veloso

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio viu, vi
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Aí me volta aquela conversa gomosa se letra de música é  poesia. Creio que é gênero próprio, e que podemos seguir a chamar simplesmente de letra.

Mas, por certo, há letras e “letras”, como há poesia e “poesia” (o que dizer de tanta chorumela engajada-militante-diversa, cheia de espinhas no rosto, bom coração e autossatisfação a que chamam poesia? sem pejo algum, e a que dão exagerado espaço em eventos e nas folhas ex-culturais?, sem qualquer consideração e entendimento do que é poesia.)

Mas divago, e me escuso.

Caetano logra glosar o conto, dar a Rosa o que é de Rosa em prosa e verso, e logra fazer a letra-poema pertencer à música de Milton, sílabas que pedem para se cantar, e nisso louva a palavra que remete ao fundamento, à brasa, à proa, à asa da palavra, matéria da invenção poética.

Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo.

Travessia

A assinatura sofisticada, caetânica, surge no desfecho do último verso, na letra.

O santo-amarense agora deixa o curso do conto para remar no São Francisco de novo, depois de O ciúme (que é do disco de 1987).

O São Francisco aqui é o rio-esteio do Brasil, no dizer de ZMW na citada lição, o tronco gigante que ao se erguer ajuda pôr o país culturalmente de pé, portanto a existir.

A canção acende essa luz ao citar outro desfecho, o do Riobaldo Tatarana narrador, no parágrafo último da extensa prosa que perfaz a vastidão que é Grande sertão: veredas.

E de onde mais viriam estes: “Fora da palavra/ Quando mais dentro aflora/ Tora da palavra/ Rio, pau enorme, nosso pai”?, senão de: “Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou (…). O Rio de São Francisco — que de tão grande se comparece — parece é um pau grosso, em pé, enorme… (…). Travessia.”

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Um jornal para chamar de seu

Ora, veja o senhor. Jornal vem do latim “diurnalis”, donde diário, desde, é provável (Houaiss), o francês journal. Daí o registro do dia ou da semana, boletim, periódico, revista e magazine. O Jornal do Siúves, anterior à Jurupoca, tinha o sentido de diário blogado. Tentei à época, cruz-credo, criar uma página no Facebook com o nome Jornal do Siúves. Não deixaram, e até negaram meu recurso, sabe-se lá por quê. Mas o que essa nota tem para falar é que a Ju é carta, como referida desde que começou a ser enviada no formado newsletter, há dois anos e tanto, e também jornal, você concorda? A Ju é carta e jornal, semanário dedicado à cultura, às ideias e, claro, alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo. Minha esperança é que, agora, quando, praticamente, não há mais jornal por aí, como conhecíamos as folhas periódicas, impressas, e quase ninguém se recorda da última vez que comprou “seu jornal na banca”, a Jurupoca possa ser um jornal, jornalzinho, como queira, que você, leitor, leitora, possa chamar de seu. Sai toda quinta-feira no final da tarde, quase escurecendo. Sugiro a você que assine a newsletter (plataforma Tinyletter) para ser logo avisado que há uma nova edição no blog, e ter sempre um conteúdo exclusivo lá. Para assiná-la basta clicar aqui. Na página que abrir digite seu e-mail, depois só confirmar, conforme a solicitação enviada à sua caixa postal. Obrigado!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Uma vista do Belo e seu céu desde a janela da redação da Ju, na tarde de terça-feira (9)

Palavra crua

Por falar em palavra essencial, viva, para uma escuta, audição e leitura complementar ao abre dessa carta (mais propriamente ao poema-letra de Caetano), Uma palavra (faixa B3 do álbum da RCA Victor de 1989) é tiro certo. Com essa canção, Chico Buarque de Holanda mais uma vez nos resgata (e xeque mate!). Ou que tal estes versos: “…palavra dócil/ palavra-d’água para qualquer moldura…”? Quem, dadivado com a herança mais inventiva da língua portuguesa, e ultrajado pela crueldade e violência a que continuamente a submetem, não se sente recobrado? Eu me sinto.

UMA PALAVRA – Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento palavra


Um rubi no novo disco de Gal

Ficou um primor de brilho, precisão e agudez o novo registro de Gal Costa para a canção folk Negro amor, ótima versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti de It’s All Over Now, Baby Blue (a letra de Bob Dylan vai aqui) que ela própria havia gravado no LP Caras & bocas, do longínquo 1977. Gal canta essa faixa do novo álbum (da Biscoito Fino), lançado nesta sexta (12), com Jorge Drexler, artista uruguaio que vive na Espanha, que também se encarrega do violão. Não ouviu ainda? Não acredito! O novo arranjo, com violinos, violas (Felipe Pacheco Ventura, autor dos arranjo de cordas) e cellos (Felipe Pacheco Ventura), dá um colorido novo e forte à canção, uma dramaticidade que corta como faca.

NEGRO AMOR – Bob Dylan, versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti

Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol

Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada, negro amor

A estrada e pra você o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha a maluquice em seu lençol

Sob os seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada, negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores, e agora?

Até o tapete sem você, voou
E não tem mais nada, negro amor

As pedras do caminho, deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua

Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor


Allen queria ser Cecilia, e nós também!

Reprodução/TV Globo

Um Woody Allen aos 85 anos, cabeleira branca sem ver pente, sereno, paciente, recolhido em casa há quase um ano, vacinado de primeira dose. É um Allen assim que conversa com Bial. (E pensar que perdemos esse grande jornalista para o BBB por anos a fio). Aqui, Bial tira o melhor de Allen, que se permite falar de tudo com a inteligência habitual, inalcançável por seus perseguidores. Mas humorista e cineasta estão lá. E a eles devemos muito como promotores da vida mais vivível, da vida verdadeira, em clave proustiana. Ou, para falar nos termos de uma de suas primeiras comédias, humorista e cineasta tornaram, para quem viu seus filmes, a condição humana menos desencorajadora. Bial pede que ele se estenda sobre afirmação que faz no livro de memórias sobre Cecilia (Mia Farrow), de A era do rádio, ser a personagem de seus filmes que ele gostaria de ser. O mundo é um lugar triste e brutal, e a existência, sempre uma luta terrível, diz Allen. Que tal se fizéssemos como Cecília, e deixássemos nossa poltrona na plateia para entrar na tela, no filme? Mas não é o que fizemos, tantas vezes? Eu entrava em Manhattan (1979), me declarava a Mariel Hemingway e a livrava do assédio daquele coroa (a personagem tinha 17 anos, eu 18). Bial leva Allen a se repetir sobre sua predileção por Machado de Assis, o que é bom, e contar como descobriu o Memórias póstumas, e a lembrar que poderia ter filmado no Rio, e a rir da infâmia dos tradutores brasileiros que fizeram Annie Hall virar Noivo neurótico, noiva nervosa.


Onde assistir, por favor? (1)

O melhor comprimento de Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, o documentário de Barbara Paz (está fora da disputa do Oscar), é o curta-metragem dela própria Conversa com ele. Ela dirige um depoimento delicado e sincero de Drauzio Varella sobre o paciente e amigo, uma raridade. Vi semanas atrás boa parte, por acaso, no Canal Brasil. Estreou em 2018 na Mostra Internacional de São Paulo. Sumiu do mapa. Não se encontrar em parte alguma. Assim caminha nossa “indústria” do cinema.


Onde assistir, por favor? (2)

Outra: ganha uma turnê por Bollywood, quando passar a pandemia, quem informar ao jurupoco o que se faz para assistir ao documentário Garoto – vivo sonhando, de Rafael Veríssimo, sobre o violonista Garoto, apresentado em setembro último no 12º In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical. Aí vai pelo menos o trailer. Ouvimos Baden Powell, João Gilberto, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Rafael Rabello e cia falarem da importância do músico como criador e influenciador do violão brasileiro. Diz Yamandu Costa: “Garoto é o Brasil mais bonito que pode haver.”


No gargarejo

Um documentário em longa-metragem que estou no gargarejo para ver é Callado, de Emília Silveira, sobre o grande jornalista e romancista Antonio Callado, autor de Bar Dom Juan, Quarup etc. que está pronto desde 2017 mas estreia este mês (24) no streaming. Para um ideia da classe da intelectualidade que o país já produziu, e da verve e elegância do homem, não deixe de ver.


O ciúme na Indochina

Michael Caine é um ator no esplendor da arte de interpretar. É o que me fez ver tantas vezes O americano tranquilo, filme de 2002 dirigido por Phillip Noyce (remake de uma versão esquecida, de 1958, dirigida por Joseph L. Mankiewicz). Agora leio o livro de Graham Greene, lançado em 1955, que não deslustra o filme. Por certo, a literatura raramente é inferior à sua adaptação audiovisual, e não é o caso aqui, ainda que este não seja um Greene em plena força. A leitura aprofunda a prefiguração do Vietnã nos últimos anos de domínio francês na Indochina, e o beco sem saída em que a “América” se meteu. A simpatia de Greene pelos comunistas fica claríssima. Os diálogos quase didáticos entre o correspondente inglês interpretado por Caine e Alden Pyle (Brendan Fraser no filme), o agente secreto norte-americano, são extensos demais e chatos, professorais. Greene interfere muito nessas passagens, quando parece bulir com o narrador. O melhor da história, o mais verossímil, é o ciúme sexual de Fowler (jornalista madurão que abandonara a mulher católica em Londres, a quem nunca foi fiel, e a trai novamente em Saigon) por um Pyle em plena forma, que, nobremente, lhe tira dos olhos, e das mãos, a beleza tenra da ainda quase menina Phuong (Do Thi Hai Yen no filme). As tramas entrecruzadas tornam o livro febril e inesquecível no epílogo, quando Fowler finalmente desce do muro onde seu cinismo o mantinha; ou será que a decisão que ele, aparentemente por indignação e altruísmo, não passa de mera baixeza de um ego ferido?


O livro póstumo do mestre

Harold Bloom deu aulas na Universidade de Yale até uma semana antes de morrer, aos 89 anos, em 2019. Há anos perdera a mobilidade e tinha a companhia permanente de um tubo de oxigênio. Nunca deixou de ensinar. Nos últimos tempos, a reitoria de Yale arranjava um microônibus para levar alunos até sua casa, e ele se iluminava quando chegavam. Era capaz de dizer longuíssimos poemas de memórias e páginas enfiadas de romances; em noites insones, andava pela casa a recitar o Moby Dick. Leio no El País (o New York Times se tornou insuportável em cultura) sobre seu livro póstumo com título em inglês The Bright Book Of Life. Novels to Read and Reread (O brilhante livro da vida. Romances para ler e reler). Bloom começou a ler os livros que comenta e canoniza aos cinco anos de idade e os releu sem parar o resto da vida, alguns títulos várias vezes por ano. Entre seus autores mas diletos, nessa sua única obra dedicada exclusivamente ao romance, estão Cervantes, Tolstói, Proust, Faulkner, Cervantes, Melville, Joyce, Conrad, Virginia Woolf, Sebald…


Dúvida

Me pergunto se um leitor de Paulo Coelho conseguirá reler seus livros, ou se quase 100% do que hoje promovem como música será lembrado, não digo em 60 anos, mas no ano que vem.


Alguém tem que lembrar

O poeta norte-americano de origem sérvia Charles Simic, introduzido no Brasil numa coletânea da Todavia, se diz admirador de Jorge de Lima (O grande circo místico) e Drummond. E que gostaria de ter escrito A mão suja. Que um gringo nos lembre por vias tortas de um poema essencial tem tudo a ver com o destino do Bananão (Ivan Lessa). Mas que bom que tenha lembrado. É um dos primeiros poemas da Antologia poética, com as escolhas do próprio CDA. Começa: “Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ suja há muitos anos.” E lemos na segunda estrofe: “…A mão escondida/ no corpo espalhava/ seu escuro rastro./ E vi que era igual/ usá-la ou guardá-la./ O nojo era um só…”. O poeta se debate com seu ofício, que reputa indigno, vil, por sua mão não estar suja de terra, carvão, com casca de ferida, com o “sujo de quem trabalhou”.


Albert O. Hirschman

Mario Vargas Llosa faz um elogio refinado e a um tempo uma reflexão sobre suas próprias crenças e as do economista e intelectual judeu alemão Albert O. Hirschman (1915-2012), que foi chegado ao Brasil, onde cultivou amigos como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o crítico literário Roberto Schwarz. MVL parte do lançamento na Espanha de uma nova edição do ensaio que em português se intitula A retórica da intransigência, último livro de Hirschman, uma crítica ao reacionarismo de direita e esquerda em relação à política econômica e, sobretudo, à liberdade. MVL diz que Hirschman faz falta para nos ajudar a pensar um mundo em que os limites da ciência foram escancarados pelo coronavírus. “Quando a pandemia passar”, ele escreve, “os sobreviventes deste cataclismo medieval vão despertar num mundo empobrecido, no qual o Estado terá crescido em toda parte, sufocando a liberdade mais do que já sufoca, no qual os novos populismos, impregnados de racismo e nacionalismo irracional, se preparam para acabar com as últimas instituições e tomar o poder.” O tom do artigo traz uma estranha serenidade, mais cética que o habitual, e quem sabe mais compatível com o escritor que vive seus 84 anos. Impressiona como o fio e o brilho de sua inteligência se mostram ainda mais agudos.


Erros “escusáveis” (1)

“Se o presidente souber que estamos conversando, vai me foder”, disse o general da banda da Saúde em encontro com governadores, em outubro, ao anunciar que o governo finalmente assinaria contrato com o Butantan para aquisição de 140 milhões de doses da CoronaVac. Como se sabe, quando viu o acordo anunciado por governadores, Sua Excrescência Jumentíssima subiu nas tamancas. “Bolsonaro explodiu. Sua indignação em altos decibéis pôde ser ouvida nos gabinetes próximos à sala do presidente no Palácio do Planalto”. Bem antes, em fevereiro, o então ministro Mandetta fora a São Paulo anunciar, ao lado de Doria, a antecipação da campanha da vacinação contra a gripe, na preparação para a pandemia que se avizinhava. Ao ver ao vivo a cerimônia, Caveirão tentou desesperadamente falar com o ministro pelo celular para ordenar que ele abandonasse imediatamente o evento. São destaques da reportagem “O sabotador — Como Bolsonaro agiu, nos bastidores e em público, para boicotar a vacina”, na Piauí desde mês, despedida de Malu Gaspar da revista, com grande classe. Até as nuvens de Brasília sabem que Caveirão sempre fez e andou para a pandemia e seus milhares de mortos. Sua obsessão com Doria e 2020 é absoluta. O senador Pacheco, novo presidente do Senado, encontrou uma forma original de matar a mãe para conquistar o poder, ao dizer à Folha que os “erros de Bolsonaro na pandemia eram escusáveis”.


Erros “escusáveis” (2)

Nota 10 para Vinicius Sassine pela reportagem da Folha, semana passada, com detalhas de como o governo torrou milhões e envolveu cinco ministérios, estatais e Forças Armadas no “projeto Cloroquina”. Norte e Nordeste receberam o grosso das remessas da droga. Devem merecer, conforme a ótica de Sua Excrescência. Os mortos, nas duas regiões, abatidos pela gripezinha, ou incentivados a não usar máscaras etc., clamam por si. Sassine atualizou sua matéria nesta quinta (11), revelando que o governo usou a Fiocruz  para produzir 4 milhões de comprimidos de cloroquina, com recursos emergenciais destinados ao combate da Covid.


 Arthur Lira

Como Oscar Wilde, acho que minhas primeiras impressões das pessoas são invariavelmente certas. E tenho as piores do novo presidente da Câmara dos Deputados. A ponto de, topando com ele à noite por aí, bater em disparada.

O zoo humano chamado BBB

Esta Ju é dedicada à memória de Geraldo Carozzi,  generoso amigo e compadre, a quem devo virações, iluminações e angústias, e para Silvane, Maria e Aninha. Espero que aceitem meu carinho e imensa saudade.

Jurupoca_57— 5 a 11/2/2021 — Ano 2.

Como a famosa casa de (in)tolerância global fatura com a prostituição da privacidade e a direção do show, ao parasitar a ordem moral das redes sociais, deixa o barateamento do sexo em segundo plano

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Vi 15 ou 20 segundos. Nunca mais.

Quando estreou, era janeiro de 2002, labutava na redação do jornal O Tempo.

Editor de cultura, devia ao menos saber do que tratava.

Então, por dever de ofício, assisti (resisti) a 15 ou 20 segundos, e nunca mais “espiei” a tal casa, para entrar no jargão do marketing massacrante e nauseante que promove o negócio.

Naquele quarto de minuto devo ter corado de constrangimento.

Minha simpatia por meu semelhante se esboroara. Minha empatia chocava com a explosão atroz de vulgaridade da vida alheia.

Bastava.

Senti vergonha pela prostituição da privacidade e da intimidade contratadas com o cachê de uma audiência gigantesca faturada pela maior emissora do país.

Lenocínio televisual explícito? Sintoma agudo da doença que é o culto à celebridade destampado pela internet?

Se aquilo não era um tipo de pornografia estendida ao espírito, com a psique roubando o set das  genitálias, o que era? e era livre!, quase em cadeia nacional de televisão, eu pensei.

Naquele circo romano eletromagnético, o público eliminava o cristão caído no “paredão”. Não havia derramamento de sangue, claro.

Feras devoravam gladiadores e expunham suas vísceras, senão seus intestinos, para delírio da plateia, mas ninguém matava, ninguém morria. Tudo limpo e platinado entre plim plins. 

O show da vida, ao contrário, era um criadouro de celebridades a estourar feito pipocas na gordura fervente da exposição, como estrelas-borboletas que logo vão se apagar na renovação de um mundo dominado pela civilização do espetáculo, e pelo que chamo orgia da frivolidade.

Mais tarde, algumas subcelebridades também tentariam a sorte na famosa casa de (in)tolerância global, matadouro simbólico da individualidade. Tudo passaria a caber na “casa”.

No início era o verbo, e depois disso?, embasbaquei.

Um termômetro moral do Brasil

Nunca mais vi o Big Brother — franquia da produtora holandesa Endemol, criada em 1999, que conquistou a Terra (realizada em quase 80 países) — além daqueles 15 ou 20 segundos, repetindo a cantilena.

Ai de mim, o que terei perdido desde então, ao já começar envelhecer, longe por tanto tempo da grande “atração”?, ignorante do chorume mais fresco que a televisão brasileira é capaz de produzir e derramar em enchentes.

Terá valido a pena o que fiz no tempo que matei não vendo a chorumela com três meses de duração!

Como pude rejeitar o circo eletrônico que faz vibrar multidões, e me manter distante da zoação e da zoeira multitudinárias?

Em apenas duas décadas, o BBB encontrou para o calendário nacional como o Dois de Fevereiro na Bahia, o Carnaval e os feriados santificados.

O reality alimenta o bate-papo no trabalho e no boteco, ocupa o jornalismo e colunas de fofocas online, promove debates, bomba no Google e nas redes sociais

E mais que tudo isso: torna-se vitrine de pensatas com pretensão a fazer sociologia e antropologia cultural no calor da hora?

Ai de quem está por fora.

Descobrirá o que é a vida de um pinguim perdido em Cuiabá.

Destaque da homepage de O Globo na manhã desta quinta-feira (4/2). O BBB é maciçamente promovido em todos os canais e programas de maior audiência do grupo, além dos veículos noticiosos

Leio que o BBB, mormente agora, na 21ª edição, se transformou num “termômetro moral do Brasil”, a coqueluche, como se dizia antanho, ou o sucedâneo do Corona, afinal o vírus já encheu o saco de todo o Bananão (não confundir com o Brasil, por favor, do acrônimo patenteado).

Joana Oliveira, no El País Brasil, comparou a estreia do programa à final do Super Bowl, a decisão da temporada de futebol americano nos EUA que torna desertas as ruas das grandes cidades.

Quem sabe, me perguntei, a lembrança do Super Bowl vai poupar almas mais sensíveis de um paralelo entre o BBB e nosso futebol ou mesmo com nossas novelas na era de ouro.

(Sem bem que depois do Halloween, já começamos a festejar no país o Dia da Marmota. Ainda haveremos de celebrar o 7 de Setembro cantando o The Star-Spangled Banner, aquela musiquinha chata que ouvimos tocar à náusea em toda Olimpíada.)

Entendo, ao correr por fora, que a produção não mais induz os confinados à fornicação, ao fuque-fuque “debaixo do edredom”.

O que agora excita corações e mentes e, imagina-se, os países baixos da audiência (além dos óbvios baixos instintos) é a ordem moral que emana das redes sociais: o linchamento do pensar e opinar fora do enquadramento.

Joana Oliveira nota que a edição é “impregnada do medo do cancelamento e [uma] ode ao ‘fada sensatismo’ (sic) [de “fada sensata”, expressão que não conhecia; estou sempre por fora desses “babados”], mas, ainda assim, conclui a analista, “as lentes do racismo se apresentam”.

Meu deus, pensei, sério?

O BBB 21, me inteiro então, tem mais negros (com o partitivo “cultura negra LGBTQ+ incluso) e “agroboys” (subespécie social definida por Joana como “homens brancos com estética padrão”. Que diabos será uma “estética padrão”, matutei, sem encontrar resposta).

Seu texto conclui que esse, digamos, mix de tipos humano pinçado do espectro social e da nova consciência pelos produtores da TV Globo, “foi o suficiente para que se acendessem os alarmes de possível masculinidade tóxica, uma das marcas registradas da edição anterior.”

Aí que está o busílis, ouço falar o delegado Rosalvo.

O BBB fagocitou a conversa ética furada, a “problemática” moral que galvaniza as redes sociais.

O verdadeiro show da vida global, campeão dos campeões de audiência, também seria capaz de decifrar o “subconsciente coletivo” do país.

Ou seja, para entender quem somos, sugere o texto de Joana, é imprescindível “espiar” e avaliar o BBB, como um adolescente “espia” e avalia o Porntube.

Cansados dos escândalos e das tragédias, a audiência do programa, ou o Brasil inteiro, demandava mesmo um “alívio cômico”, arremata Joana com benevolência.

“Em 2021, transar já era”

Em O Globo, o bamba Joaquim Ferreira dos Santos lista as espécimes estratégicas reunidas na arca da Globo: “negros, brancos, homens, mulheres, gays, playboys”.

JFS reflete, desolado, que na primeira semana do BBB nenhum casal ainda havia copulado (ele se refere ao intercurso sexual no zoo televisual, ao xumbregar pavloviano induzido pela direção, como “transa”) sob o edredom, para, segundo ele, curtir a “clausura no bem-bom”.

O cronista registra, como velho filósofo de imprensa que é:

“Em 2021, transar já era. Ninguém parece estar aí para esse troféu antigo. O melhor a se fazer com o próximo é o cancelamento”.

E aí que está o busílis…

Hoje, na “casa”, estão “…todos seguindo o princípio das redes sociais de onde vieram. Vence no jogo quem lacra primeiro”, arredonda JFS.

[Para um registro mais chão e mundano sobre o que está no ar e corre nas veias abertas do Brasil, além do Corona, me informo com Mônica Bergamo, entre outras nossa melhor colunista de redes sociais: “As buscas pelo termo ‘tortura psicológica’ cresceram 610% no Google no Brasil entre 27 de janeiro e 2 de fevereiro, em relação aos sete dias anteriores. O aumento foi impulsionado após a cantora Karol Conká ter sido acusada por internautas de torturar psicologicamente Lucas Penteado no reality show Big Brother Brasil (Globo).]

Espetáculo ideal para um mundo doente

Há mais de duas décadas os realities shows dominam o entretenimento televisivo.

Há realities aos milhares, de comida, gincanas em paisagens inóspitas, e, não duvido, de pets, caranguejos desarvorados e teiús geneticamente modificados.

Crianças, idosos, artistas, intelectuais, celebridades, todo tipo humano pode ser recrutado e exibido no espetáculo em que glória, orgulho, superação, choro, angústia e raiva produzem um efeito semelhante, mas vicário, ao que era provido no paleolítico pelo folhetim, pelo romance, pelo cinema e mesmo pela TV antes da internet.

Mas o modelo “BBB” (o nome comum Big Brother é uma usurpação cultural do romance de George Orwell) é a mãe de todos os filhotes que dominaram o gosto brega por emoções fabricadas e adocicadas a preço de xepa.

Era previsível que a televisão para sobreviver se deixasse parasitar, como o jornalismo caça-clique, pela internet, os aplicativos e as redes sociais.

Criadores como os do Endemol Shine Group perceberam lá atrás que um mundo culturalmente esvaziado e doente, diante do galopante “empoderamento” das massas pela internet, abria grandes janelas de oportunidades para um formato de diversão que se adequasse à nova era, como o petróleo ao motor à explosão.

Ficaram bilionários.

A vida alheia exposta em sua completa banalidade, e a carnalidade mais desencantada e escancarada, confundida com a inocência de um brinquedo num parque de diversão, podiam preencher o vazio e a fome fútil de uma audiência-espiã.

O reality se revelou um zoológico humano dinâmico, campeão, que pode ser “espiado” na transmissão captada por dezenas ou centenas de câmaras, e tal audiência vende comerciais a peso de ouro (30 segundos ocupados no intervalo valem R$ 500 mil, segundo o El País).

O público pagante, que assina a “atração”, terá acesso a vômitos, arrotos e flatos dos “brothers”, eu me pergunto? E por 3 meses! (Antes uma praga do Apocalipse).

Pois deveria! Isso mudaria o paradigma da coisa.

Somente a exposição completa e escatológica da nossa humanidade, não apenas do sexo e dos baixos instintos, da incultura e da vulgaridade, mas também da excreção diante das câmaras, além do estapeio físico e mental, despiriam o show de seus disfarces de entretenimento moderno embalado por uma produção caríssima, com recursos tecnológicos de ponta, e revelaria a todos sua mágica.

Seria o fim de qualquer pretensão de valorizar a cultura e a educação como nortes da civilização, e daí?

Concordo com Joaquim Ferreira do Santos que a incorporação da cultura do cancelamento, que ele chama de “país do cancelamento”, ao reality show da Globo é decepcionante.

Antes acompanhar estrepolias debaixo do edredom, à guisa de um pornô soft censura livre.

O sexo afinal é o sexo, apaixonado, romântico, civilizado, selvagem, pago, vil, solitário, animal, pornográfico.

Já a hipocrisia do militante da nova moral “canceladora” é um vício, ou pior, um distúrbio, um desvio monstruoso proporcionado pelos novos meios de comunicação que, como um vírus, parece ter contaminado três quartos da humanidade.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Obrigado

Muito obrigado (grazie millie) a V.M., P.J., R.M e N.T. pela colaboração regular. Esse incentivo encoraja cada frase de cada nova edição da carta, por mais que o subscritor pense em dar os trâmites por findos. Nessas horas cinzentas o acode vossa leitura e atenção. É quando ele cantarola com o Chico (do Disco da Samambaia) e jura que “vai até o fim”.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

O Bar e Cervejaria Brasil como paisagem desoladora. Foto do autor.

Ao Bar e Cervejaria Brasil,
in memorian

Há séculos deixei de ser botequeiro, como alguns amigos a quem o Corona tortura na abstinência de prosa, trato livre, embriaguez controlada e compartida com amigos e a cumplicidade de garçons camaradas. Mas tinha o meu canto familiar, que não existe mais. Não era nenhum The Lamb and Flag, o pub de Oxford de 450 anos, vítima mais célebre da ruína econômica trazida pela pandemia, ou uma Casa Botín, o restaurante madrilenho de 300 anos famoso por seus leitões de leite na brasa, obrigado pela primeira vez a fechar as portas. Meu bar fora aberto há pouco mais de três décadas. Era apenas mais um entre restaurantes e bares mais ou menos históricos do Belo e do Brasil forçados a entregar a rapadura. O bar e a cervejaria Brasil, meus vizinhos na Aimorés e na esquina de Aimorés com Maranhão, depois, com novo proprietário, o Bar e Cervejaria Brasil, em único ponto, na ladeira próxima da rua Maranhão, era uma espécie de quintal do nosso apartamento, ou extensão onde recebíamos nossas visitas. Alguns garçons, como o sempre risonho e carinhoso Zezinho, se mantinham para contar a história, e o cardápio ultraconservador resistia com bravura às novas modas, com sua picanha na chapa, seu torresmo carnudo e seus bolinhos da Alzira, a lembrar dias melhores. Suas mesas nos recebiam em rodas familiares e tertúlias literárias, políticas ou a simples conversa que desmancha no ar com a saudável umidade relativa do chope, da cerveja gelada e da cachacinha. Nos últimos tempos não via mais lá o Beto Guedes, último dos moicanos de seu círculo. Mas havia o painel que homenageava a velha e célebre clientela, como honorários sócios-fundadores: Ronaldo Bastos, Milton, Toninho Horta, Lô Borges, Beto… a turma toda. Rente a uma das fotos do pessoal do Clube da Esquina elegi a Mesa do Jove, em honra do irmão que se fora logo depois, mas onde tivemos a sorte de tomar um porre de chope e boa cachaça para nos prevenir de um resfriado, depois de nos encharcarmos até a alma na tempestade que desfizera uma passeata no Belo. Depois disso fazia questão de que nos sentássemos sempre naquele canto. E lá se foi meu bar, e o bar de tanta gente que se dava com um aceno ou mesmo um olhar; lá se foi Mesa do Jove e tudo mais, como é da vida. Parafraseando Drummond: o Bar e a Cervejaria Brasil, nossa íntima Cervbras, agora é só um retrato na parede. Passa-se o ponto. Mas como dói.

Vista do Bar e Cervejaria Brasil na ladeira da Maranhão, entre Aimorés e Bernardo Guimarães, no Belo. Foto do autor

Babenco

Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, documentário de Bárbara Paz que concorre ao Oscar este ano, é antes de tudo um filme para gente grande. Não é fácil de ver, embora celebre o amor à vida e à criação de um grande artista, dono de uma obra grandiosa. Não é fácil porque encarar e, mais ou menos, aceitar a morte é o mais duro dos aprendizados. Esse é justamente o papel que vemos o cineasta representar sem heroísmo, mas com bravura. Hector Babenco atua para expor a fragilidade humana na doença, diante morte, e ainda assim ser capaz de criar e demonstrar seu apego ao viver. Babenco diz numa gravação que devíamos chamar os amigos para morrer, “passa lá em casa que hoje é o dia da minha morte”, cito de memória. Algo, quem sabe, como se passa em As invasões bárbaras, o filmaço de Denys Arcand, ou como a própria cena de Babenco de um jantar ou almoço honorário a que somos brevemente admitidos, antes de a porta se fechar para quem não é íntimo da família, mas há tempo de notar o orgulho jubiloso dos amigos agradecidos pela vida e obra do homenageado. Entre os comensais avistam-se Fernanda Montenegro, Paulo José, Chico Díaz, Fernanda Torres e outras estrelas. A cena final, filmada na baia de Hong Kong, como a realizar um sonho de Babenco, é pura exaltação ao cinema.


Sophia Loren, ó céus

O curta-metragem O que Sophia Loren faria?, na Netflix, é um refrigério. A vida, sabemos, não é essa Disneylândia imbecil que parece ter roubado todas as atenções do mundo, essa conversa-cocô que inflama as redes sociais. A vida verdadeira é dura, mas existe a luta, e a graça e a beleza. A história das duas mulheres octogenárias, a ítalo-americana Vincenza “Nancy” Kulik e sua ligação com Sophia Loren, de quem desde sempre foi uma fã sábia, é como uma paisagem do outono setentrional no esplendor. A inteligência e o talento natural para atuar da vovó Kulik encontram a gratidão que não apenas ela mas todo amante do cinema deve a Loren, este paradigma insuperável de mulher.


Convite de Santiago

Silviano Santiago resenha (modo de dizer) no Estadão Rastejando até Belém (Todavia), rara tradução brasileira de Joan Didion, coletânea de ensaios da autora, hoje com 86 anos. Com a classe e erudição habituais, o professor, crítico e romancista estende ao leitor um convite tentador. Mas Santiago respalda seu texto — ao traçar um panorama do “novo jornalismo” como gênero norte-americano— entre outras referências, citando a reportagem-ensaio de Lilian Ross sobre Hemingway (ela grudou no escritor durante dois dias em Nova York, nos anos 1950, com a permissão dele), que reputa inédito. Não é. Saiu na Serrote # 27, e sua leitura foi empenhadamente sugerida nesta Ju.


Convite de João Marcelo Coelho

O Estadão, louvado seja, ainda se pratica o velho e bom jornalismo cultural. Ao apresentar Democracy! Suite, o crítico musical João Marcelo Coelho nos convida a ouvir imediatamente o novo o novo álbum do grande Wynton Marsalis. Gravado em septeto da Orquestra de Jazz do Lincoln Center em novembro do ano passado, Marsalis se inspirou na divisão ideológica que fazia e faz sangrar os EUA, ao compor as oito faixas da suíte. Sua matéria, a música, soa muito mais apropriada que palavras para conduzir o ouvinte pelo clima de ruína, inconformidade mas, para um genial artista negro de valor reconhecido e celebrado, também esperança de superação. Por mais que algum terraplanista ou tarado conspirativo tente, não dá para dizimar o jazz, ou a música, na guerra ideológica.


Pérolas aos poucos (a série)

Sopro de flor, de Dominguinhos e Zé Miguel Wisnik, com Ná Ozzetti e Duo Fernando Sagawa (flauta) e Franco Galvão (violão) era visto até a última terça, quando deitei cá esta nota, por apenas 194 felizardos. Pobre de quem não ouvir.


O circuladô da linguagem de Campos & Caetano

O texto das Galáxias, de Haroldo de Campos (1920-2003), segue assim:

“…pois o povo não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do invisível no crisol do incrível no seu galope martelado e azeite e eixo do sol mas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circuladô de fulô de fulôôô…”

Caetano Veloso botou música no trecho inicial dessa mesma página poética (espécie de conto fragmentário) da poesia que constela o livro de Haroldo.

E deu o nome da faixa (Circuladô de fulô) a seu álbum de 1991: Circuladô, pois sabia que havia forjado uma grande parceria com o poeta graúdo em erudição, professor, ensaísta e tradutor, e sabia Caetano que fizera um grande disco, que ainda tem Itapuã, Baião da Penha, Neide Candolina, A terceira margem do rio etc.

O compositor encontrou a melodia prima, exata e mesmo, talvez, soprada pelo texto, para transpor a prosa poética e incorporar o fragmento das Galáxias à então música popular brasileira.

E a página-passagem do livro se inspira na mais brasileira das músicas, a dos cantadores de feira, repentistas e sublimes criadores que nada mais precisam que seu dom e a artesania de seus instrumentos rústicos.

Haroldo decanta na página o povo “inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso” etc. e tira temperos do nordestino, cor da aridez, doce da dureza da vida miserável e transpira na linguagem a maravilha da língua portuguesa.

Caetano (violão e arranjo), Tavinho Fialho (contrabaixo), Jaques Morelenbaum (violoncelo), Marcelo Costa (berimbau) e Oswaldinho (acordeão) dão conta belamente do recado, que aí vai (a gravação dedicada por Caetano a José Almino):

CIRCULADÔ DE FULÔ Música de Caetano Veloso sofre fragmento de Haroldo de Campos em Galáxias (Editora 34)

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen
e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata
velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para
outros não existia aquela música não podia porque não
podia popular aquela música se não canta não é popular
se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada
na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria
física e doendo doendo como um prego na palma da mão
um ferrugem prego cego na palma espalma da mão
coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro
prego cego durando na palma polpa da mão ao sol

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá

o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá

e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me
esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto
que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim
me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito
e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem
faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre
que me ensinou já não dá ensinamento

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô
de fulô e ainda quem falta me dá


Malu Gaspar n’ O Globo

O Globo, no calcanhar da Folha em circulação impressa, cumpre mais uma etapa rumo à transição definitiva do papel para o online. Quer, anuncia a empresa, de uma vez por todas se tornar deveras um “jornal nacional”, ainda sendo carioquíssimo entre as três ou quatro folhas de circulação nacional. A ver.  Tem novos colunistas recrutados pelo critério dominante da “diversidade”, conforme a voga seguida do marketing engagé, mas o único craque do jornalismo do novo time chama-se Malu Gaspar. Malu deixa a Piauí e o Foro de Teresina. O podcast sofrerá um dano talvez irrecuperável sem ela. Por grandes jornalistas que sejam, Fernando de Barros e Silva e, sobretudo, José Roberto de Toledo, têm a isenção afetada por um forte viés esquerdista, muitas vezes esquerdofrênico. O programa perderá o equilíbrio e o esforço incomum de apurar, sujeitar-se aos fatos e reportar com brilho que a participação de Malu assegurava. Sua estreia n’o Globo é prometida para o final do mês. Com ela, o plantel global detém os passes de duas mulheres que são as estrelas de maior grandeza do jornalismo brasileiro hoje. A outra assina Renata Lo Prete.


E se o esgoto deságua
no Planalto Centrão?

Se fosse uma força viva, o esgoto lutaria contra a canalização e sua desnaturalização nas estações de tratamento. Se fosse uma força viva, o esgoto correria para desaguar no Planalto Centrão, onde se veria intocado e preservado de ameaças civilizatórias. A metáfora, eu sei, parece antidemocrática. Não é. Um democrata tem o direito de tapar o nariz o tempo que precisar, e torcer, ainda que sem respirar direito, para que a democracia não se degrade muito quando atacada por forças da imundície.


O grande responsável (1)

O doutor Drauzio Varela conclui assim o artigo claro e preciso do último domingo na Folha, sobre a responsabilidade de Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.105mm, na desgraça que atinge o país há quase um ano (vale colecionar, por mais óbvio que seja): “Esse sistemático boicote [à vacina, à ciência etc.] justifica mais de 220 mil óbitos? Ele é o único culpado? É claro que não, a culpa é de muitos, especialmente dos egoístas estúpidos que se aglomeram sem máscara nos bares e nas festas. No entanto, pela natureza do cargo que ocupa, os absurdos que fala e a indignidade dos exemplos que dá, o presidente da República tem sido o grande responsável pela disseminação da epidemia. Não é por acaso que somos o segundo país com o maior número de mortes.”


O grande responsável (2)

Recomenda-se também ler no mesmo jornal a coluna de Celso de Rocha de Barros intitulada A vacina deu a medida de Bolsonaro. Eis a conclusão do texto: “Enquanto isso, os ventos da economia internacional começam a soprar a favor do crescimento. Quem vai aproveitar melhor essa maré favorável será quem puder botar gente vacinada na rua para trabalhar e consumir. Se qualquer outro idiota tivesse vencido a eleição de 2018, seríamos nós. Entretanto, no que depender de Bolsonaro, passaremos a próxima alta das commodities doentes em casa, ou nos matando uns aos outros na sucessão de crises políticas cada vez piores que o presidente contrata diariamente?”


Bruxas soltas no Itamaraty

Sobre um estudo sério da diplomacia brasileira e se voo cego e rebaixamento no obscurantismo de uma pregação contra a conspiração “globalista” guiada “marxismo cultural” (uma leitura míope da obra de Antonio Gramsci, filósofo italiano que a escreveu nos anos 1930), não deixe de ler a reportagem do Valor Como as teorias da conspiração guiam a agenda internacional de Bolsonaro.


Carnaval do Judiciário

Entre auxílio-saúde e auxílio-alimentação, indenização por férias não tiradas, ajudas de custo ou gratificação pelo exercício cumulativo de atividades, entre outros “ganhos extras”, o Judiciário lambeu R$ 1,4 bilhão dos contribuintes em 2019, mostra o site da Piauí.

Memento mori ao revés: lembre-se de que viveu

Jurupoca_56. 29/1 a 4/2/2021. Ano 2.

“Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava – cré que o caroá levanta flor. Eh, bom meu pasto… Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.”      

João  Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

“A vida que esvai distraída, entre os dedos da hora, tirando da mão até a memória do tato dos meus idos. Só persistimos, se tanto, na usura da memória alheia, à véspera do longo esquecimento.”

Darcy Ribeiro – Maíra

“Longe, longe, ouço essa voz/ Que o tempo não levará.”

Milton Nascimento e Fernando Brant — Sentinela

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

As epígrafes acima são do capítulo final de um manuscrito encalhado, a que dei o nome de Meu boi morreu.

Na travessia dos 40 anos cedi à tentação (e à necessidade) de recuperar um tempo que me picava, por começar a decair na memória ativa, como uma mosca vai sendo engolida pelo âmbar, antes de virar relíquia pré-histórica.

Nesse prurido do tempo se debatia uma outra travessia: o parto longo e doído do crescimento, da adolescência para o mundo adulto.

Abreviei esse parto ao narrar a passagem de um derradeiro Carnaval (ou pré-carnaval) para Quarta-feira de Cinzas, o equivalente à transição do desregramento à abstenção, ou ao resgate das promissórias que, jovens, emitimos contra nós próprios.

Primeiro saíram umas crônicas no jornal O Tempo, depois o manuscrito frustrado. Nele, conto a odisseia foliã de um rapaz comum.

Durante um desfile do Boi da Manta — festa pré-carnavalesca de uma cidade que reinventei como Nossa Senhora de Primavera, mas pode chamar de Pedro Leopoldo,— tento reencontrar a disponibilidade, o calor e a excitação sem margens de alguns amigos no último baile de suas fantasias, ainda ilhados por grandes premissas (imposições) hormonais.

O desfile começa antes, no aquecimento das turmas no quintal das casas, ora de um ora de outro camarada.

É hora de abrir a função etílica, vestir velhos trajes de baile das irmãs, borrar o rosto com maquiagem e, pouco antes de sair à rua, aderir ao cordão das oncinhas e gatinhas mascaradas e alvoroçadas, já à porta. Quem é quem, quem é de quem?

Então seguia-se a reunião do cortejo na concentração. Logo a brincadeira ganhava a rua principal de Primavera e íamos atrás da banda; depois do retorno tinha o gran finale: a representação do “enterro” do Boi, que amanhã era Carnaval!

O manuscrito interrompe os atos dessa via sacra profana, como um Rimbaud da roça, para revisitar (pela última vez) iluminações e temporadas no inferno do autor em Primavera, na tentativa de fixar, na despedida da adolescência, a gente cúmplice do melhor da festa, ou da liberdade da vida na festa que compartimos. (Essa cumplicidade, para quem tem a sorte de conservar amigos, nos ajuda muito a envelhecer.)

Não acho ruim, ao reler o texto agora, um trechinho do final dessa história, o epílogo das epígrafes, intitulado “Desce o pano (cena solta)”, inspirado na foto do alto:

“Então o Boi, meu bem, jamais. O sol da tarde fazia cintilar o rol de garrafas vazias ordenadas e expostas como troféu contra o muro do quintal, ali na concentração, onde o Almirante inda outro dia nos preparava caipiríssimas como só as dele. Memento mori ao revés: lembra-te de que viveu.”

Bom, outra passagem que me acode dessa odisseia provinciana, e que na verdade me foi lembrar o livro natimorto, é uma revelação com cor, cheiro, gosto e potência, uma revelação — ou o que em crítica literária chama-se “epifania” (fenômeno que ocorre, diz George Steiner,  quando ‘o objeto se manifesta e se impõe ao observador’) — trazida em um sábado: um sábado-madalena proustiana.

“O sábado se abria pleno na tarde enlanguescida e cantava dentro de mim”, releio, “quando recebia no rosto a familiar brisa rósea, por carregar o capim dessa cor, a soprar dos altos da colina e da linha férrea, como que para rematar a conjunção que tornava Primavera, aquele dia no tempo, um lugar incomparavelmente bom de se viver.”

Sabemos que os sábados da adolescência jamais se repetirão na repartição e nos escaninhos do tempo.

Manhãs e tardes de sábado ainda guardavam certa sensação de eternidade, um eco de fundo da força gravitacional da infância, uma esperança difusa e sensual que nos tange como bichos que somos.

Meu personagem levava esse anseio ao chegar de bicicleta à casa do irmão, e logo se ver sozinho em sua sala ampla, com uma acústica fabulosa, dádiva de sua construção rústica,  da tapeçaria e de velhas madeiras resinadas.

Na sala havia um aparelho de som novinho da marca Sony, com boas caixas e amplificação. Sucedeu de o primo Egon (nome que emprestei do primo de Pedro Nava nas Memórias), ligar o aparelho na função rádio, achar a Mineira, ou talvez já a Inconfidência FM no dial analógico e deixa estar.

Então ele ouve a música que vai ocupar toda a sala e, mais que a sala, o próprio universo ao redor; a canção vai soar ali, apenas ali naquele instante, como a “profecia de uns graves coados no véu da musa Euterpe, a ‘doadora de prazeres’. Havia uma energia fabulosa naquele canto negro, uma força capaz de modular o tecido da existência, dotando-a de sentido e substância.”

A geração de Chico, Caetano, Edu Lobo etc. aponta o violão e o canto de João Gilberto em Chega de Saudade como o clique decisivo que fez de cada um o artista que cada um veio a ser.

Não me tornei artista, talvez poeta bissexto, mas nasceu ali, por certo, ou ali se aprofundou, naquela tarde de sábado nos anos 1970, minha afeição e meu amor por nossa dita música popular, ao menos a música popular (hoje impopular, mas o que digo, música erudita?, elitista?) que havia naquela época, e sua dádiva consoladora: graças a Milton Nascimento, sua voz, seu violão e esta canção: Morro velho (composição de 1967 classificada em sétimo lugar no II Festival Internacional da Canção, sucesso de Travessia, seu primeiro disco).

no sertão da minha terra… fazenda é o camarada que ao chão se deu… fez a obrigação com força… parece até que tudo aquilo é seu…

As versões do próprio Milton e Elis (álbum da Philips Elis, de 1977) são canônicas.

Ponho ambas aqui para relembrar aquele sábado “milagroso” e sua revelação; relembrar meu manuscrito e “A Turma”, a quem é dedicado); relembrar o moço para sempre engolfado no âmbar do tempo, como um inseto primevo, ainda que, mesmo em tal estado, persista na memória de seus comparsas, no dizer de Darcy, até a “véspera do grande esquecimento”.


O autor da Ju e seus camaradas clicados no aquecimento, antes de nossa entrada triunfal no desfile do Boi do Manta

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Eh, Meu boi

…Homens ficaram no chão/ olhando as estrelas/ mas sem poder vê-las/ no céu brilhar…

Meu boi morreu é uma narrativa sarapintada de música. Há tardes com amigos para ouvir o último Genesis ou Pink Floyd, muito samba, marchinhas e canções brasileiras como No colo da serra, de Toquinho e Vinicius, cujos versos ilustram um dos escritos do livro manqué. Falei nos sábados e penso que era capaz de escrever mais sobre as várias feições dessa estação na semana. (Pus algo no Moral das horas, inclusive no poema que nomeia o livro e termina em Tarde de sábado,/ de sol, de não, de louvor.// Entrementes, a amizade/ era massa de júbilo  a assar/ numa roda de Brahma,/ em qualquer lugar.) O passeio de sábado no camelão tinha um sabor bem temperado, quase musical, havia uma quebra na rotina familiar, e tarefas como lavar o fusquinha do irmão para defender o cigarro e a cerveja, e havia um olhar e um cheiro de moça que não saíam da gente, memória e antevisão. E havia a missa, por certo. A gandaia começava depois da bênção do padre, … ide em paz e o Senhor vos acompanha…, desde a saída da matriz. O Altíssimo de fato nos seguia (e protegia) em copos-sujos, clubes periféricos (como esquecer o baile de Rainha do Alho, em Prudente de Morais?) e liceus, liceu como sinônimo (mineiro, segundo o Houaiss) de lupanar, baiuca, serralho e bordel. (Nossa geração prestigiava, eventualmente, Lolote e Lourdinha, casas de excelência no ramo, naquele tempo imemorial.)


Sonhos envelhecem sim

Sonhos não envelhecem? Os ainda moços Bituca, Lô e  Márcio Borges fizeram a linda Clube da Esquina II. A letra, que veio depois da música e do disco de 1972, deu um mote a essas turma, e o título das memórias de Marcio. Mas sonhos envelhecem sim. Claudicam, definham, murcham e croack. Vão antes de quem sonhou. Nossas carcaças sobrevivem a eles, quando somos pouco mais que isso, carcaças.


Com Greene no Haiti

“Preferiria ter sangue em minhas mãos a ter água, como Pilatos”, escreve o doutor Magiot, o heroico médico comunista de Os farsantes, romance de Graham Greene, traduzido antes no Brasil, e creio que mais apropriadamente, como Os comediantes. O livro é o melhor retrato que conheço do Haiti sob Papa Doc Duvalier e sua milícia sanguinária Tonton Macoute. Naquela “horrível favela flutuante a poucas milhas da Flórida”, como define Magiot, apenas a indiferença é imperdoável perante a crueldade institucional. Mas Greene, como sempre, ao espremer a moralidade católica e militante do comunista, diante do crime e da injustiça (ele próprio se definia como um “católico agnóstico”), expõe o limite e o absurdo de crenças e práxis. Seu narrador, Brown, fala em causa própria ao defender os falsários (ou comediantes), os indiferente sem causa, sobre candidatos a heróis tutelados por Marx ou Jesus Cristo:  “… por timidez ou por falta de interesse suficiente, descobrimos que somos os únicos realmente comprometidos — comprometidos com todo o mundo de maldade e bondade, com os sábios e os loucos, com os indiferentes e os equivocados”, lemos pelas tantas, antes da conclusão desse parágrafo, que cita Wordsworth: “Não escolhemos nada a não ser continuar vivendo, ‘girando no curso diurno da Terra. Com rochas e pedras e árvores’.” Mas a comédia humana de quem se aventura na Terra de Papa Doc também é carnal. Brown padece de ciúme da amante, talvez por ver na esposa do embaixador a figura da mãe que o abandonara ainda menino, a quem nunca pode amar. O rum, mas principalmente o sexo, tornam sua existência suportável naquele inferno.

Graham Greene (1904-1991) em 1939. Foto Wikimedia Commons (domínio público)


Homenagem a Elza

Elza Soares fez 90 anos em 2020. A revista da União Brasileira dos Compositores publica em seu número de fevereiro textos de Chico Buarque e Caetano Veloso em homenagem à artista. Ambos tem grande relevo na vida de Elza. Chico e família a acolheram em Roma, no final de dos anos 1960, quando a massacravam por aqui por ser amante de Garrincha, e Caetano deu-lhe o ombro para chorar e a fez renascer como cantora, quando a chamou pra gravar sua paradigmática Língua. O Globo adiantou os artigos. O de Chico, especialmente, é do balacobaco, uma série de instantâneos de Elza em várias épocas com parágrafos introduzidos por Se acaso você chegasse, nome do samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, um dos primeiros e maiores sucessos da hoje nonagenária, gravado em 1960. Vai uma pitada:

“Se acaso você chegasse ao Teatro Record em 1968 e fosse apresentado a Elza Soares, ficaria mudo. E ficaria besta quando ela soltasse uma gargalhada e cantasse assim: ‘Elza desatinou, viu’.”


Ela e eu

Essa é uma de tantas canções de Caetano (gravada primeiro por Bethânia no LP Mel, de 1979, e mais tarde por Simone e Marina, só!) que me fazem um bem danado, pela beleza da melodia, poesia e rigor na versificação. O último verso diz assim:

Outro homem poderá banhar-se
Na luz que com essa mulher cresceu
Muito momento que nasce
Muito tempo que morreu
Mas nada é igual a ela e eu

Até onde pude verificar, Caetano a gravou pela primeira e única vez no registro do show Ofertório, dele e filhos, em 2018.



Enquanto isso, no ex-caderno
de ex-cultura…

Recorte da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

Seus problemas se acabaram. Você, progressista que odeia a Globo desde criancinha, e você, das hostes terraplanistas do Caveirão, que vive a xingar a ‘Globolixo”, já podem ver sem culpa o verdadeiro show da vida.

Recorte da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

Para fazer colunismo de rede social basta um telefone esperto, ensina Mônica Bergamo a estudantes de jornalismo.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

O menino que fez o título idiota acima deve se considerar um progressista especialista em “funk de raiz”, daí o segundo título idiota. Certamente não sabe quem é Nara Leão. Apenas cogitar que Nara já foi uma mocinha “frágil de joelho bonitinho”, em 2021!, revela uma ignorância suprema e irreversível.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (23/01)

Mais colunismo de rede social e mais uma inculta e exemplar reportagem de ex-cultura, tal gênero criado na Barão de Limeira.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (24/01)

“Veja”, “leia”, “saiba”. O caça-clique é imperativo e generoso como pau de galinheiro.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (22/01)

Retratos do Brasil no melhor ex-caderno de ex-cultura do Brasil. Não tem preço.


Sua excelência veterinária

Recorte (captura de tela) no site da revista Piauí (21/1)

O Dr. Laurício Monteiro Cruz é o homem ideal para o cargo que ocupa no Ministério do General da Banda da Saúde. Ora, doutor Cruz, cura-te a ti mesmo e aos seus. Neguvon e Ripercol para todo mundo aí, tá ok?


Leite Moça e leite de jumenta

Sua excrescência jumentíssima, Caveirão.105mm, e os seus parecem encher piscinas olímpicas com leite condensado, ou tomam porres homéricos em bacanais animadas com o produto da Nestlé, uma multinacional suíça. Se ainda fosse leite de jumenta (o Kg do seu queijo pode custar 3 mil reais, veja no vídeo), poderiam alegar que patrocinavam o agronegócio nacional, que é pop, e tudo ficaria em família, entre iguais.


Olha o nível, Caveirão: language!

Sua excrescência jumentíssima, segundo Eugenio Bucci “um atendo ambulante à Constituição”, tem o linguajar do machão violento e analfabeto a ostentar a própria ignorância, como o fedor que emana de um lixão. Esta publicação de família não vai repetir o que nosso pré-fascista disse (vai no vídeo abaixo para quem tem estômago) sobre a imprensa, reagindo ao escândalo do leite condensado, o Moçagate. Líderes autoritários ou totalitários desde Hitler abominam a imprensa. Trump (toc, toc, toc), Caveirão, Orban, o polonês Kaczyńsk são aprendizes dessa escola. “Nos nossos dias, os fascistinhas de Facebook que repetem o xingamento ‘Globolixo’ ecoam a campanha nazista baseada na palavra infamante Lügenpresse”, anota Bucci, citando a palavra alemã que pode ser traduzida como “imprensa mentirosa”. O que Bucci não diz, ou diz pisando em ovos, é que a Globo há muito é a nêmesis tanto da direita antidemocrática como da esquerda mais excitada que exalta os ditadores de Cuba. O epíteto Globolixo difrata o eco do bordão “Abaixo a Rede Globo” de décadas atrás. São iguais nessa noite antidemocrática.

A vacina obrigatória do impeachment

Foto da exposição Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

 Jurupoca_55. 22 a 28/1/2021. Ano 2.

XX – O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia, 

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus. 

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia. 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

7-3-1914

Arquivo Pessoa: O guardador de rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

O rio da minha aldeia, música de Tom Jobim sobre poema de Fernando Pessoa em fase Alberto Caeiro — faixa A1 do LP da Som Livre A música em  Pessoa (1985), e CD da  Biscoito Fino (2002). O arranjo orquestral é de Paulo Jobim, com Tom ao piano.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Ah, que bom seria haver vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista, o antivacinista, o freguês da conspiração Q (“pedófilos satanistas tramam o domínio total do mundo”).

Talvez uma nova proeza da bioengenharia com o RNA mensageiro ajudasse.

Escancarar fatos, documentos, expor a realidade diante dessa turma é perda de tempo.

Essa franja da humanidade, conspirativa, sempre existiu, e existirá, suponho, até o advento do pós-humano, e aí será tarde demais para a ação do imunizante.

A 55ª Ju (a publicação segue no vermelho, a pedir a contribuição do leitor) põe a bailar umas notinhas sobre o tema, misturadas a goiabais e abacaxizais mas, você vai ver, também traz uma singela sugestão para que comunguemos o pão e o vinho duma canção de Zé Ramalho: Beira-mar, derivada de Apocalypse, folheto de cordel de sua autoria publicado em 1977.

Antes o caldeirão costumeiro, Janeiro trouxe esta semana ao Belo, não mais que de repente, alguma brisa e um céu azul do qual as nuvens pareciam ter sido banidas.

“O meu olhar azul como o céu/ É calmo como a água ao sol./ É assim, azul e calmo,/ Porque não interroga nem se espanta…”

Ah, que bom seria incorporar a serenidade (fingida) por Pessoa na pele do Caeiro, sentir que o rio da minha aldeia não faz pensar em nada, ou que, por pertencer a menos gente, é mais livre.

Minha aldeia é uma metrópole infectada por um vírus solerte, cujo “rio”, o Arrudas, tem emanações que permitem apenas a urubus estar ao pé dele.

Minha aldeia, minha pátria, é o mundo (“… Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa…”), ora transido e em transição.

Mas é preciso salvar (saudar com tiros de salva) e saldar a inauguration, como dizem lá, a posse de Joseph R. Biden.

(Vi a posse. Que alívio notar o decoro, a decência, a educação e a elegância restaurados no discurso público e no convívio humano. Sem esse básico alento, viver é um inferno. A propósito, me encantei com a menina poeta Amanda Gorman.)

Poetizo uma aldeia global com uma vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista… Tolice.

Melhor tentar em mim mesmo o Emplasto Brás Cubas, criado pelo personagem de Machado para “aliviar nossa melancólica humanidade”.

Sei que é preciso forcejar, cada um como pode, neste distrito da aldeia global chamado Brasil, pela aplicação da vacina do impeachment!

Abaixo o deletério xamã das grotas milicianas!

Pela desjumentização do Brasil!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


A vacina do impeachment (1)

A democracia precisa ser imunizada contra um governo que coleciona crimes de responsabilidade. “Impeachment é para quem dá as costas para a Constituição”, ensina o ex-ministro Aires Brito.  Em entrevista à Folha ele recitou o artigo 78 da carta: “O presidente assume o compromisso de observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro…”.  Lembrou que a saúde é dever do Estado e direito de todos. “Salta aos olhos: ele promove aglomerações, não tem usado máscara, não faz distanciamento social. Respostas como “e daí?” ou “não sou coveiro” não sinalizam um caminhar na contramão da Constituição?”, indaga Aires Brito, que chancela o impeachment pelo “conjunto da obra”. A resposta é cristalina.

Projeção em prédio no centro de São Paulo. Captura/recorte de foto de Amanda Perobelli – 15.jan.21/Reuters

A vacina do impeachment (2)

Nossa sanidade precisa ser imunizada contra a loucura, a incúria, o negacionismo e a náusea permanente da razão. O governo de Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.105mm, teve e tem ministros que deveriam estar recolhidos à Casa Verde (que me perdoem os humanistas da luta antimanicomial). Mas não. Os lelés estão soltinhos da Silva, como este das Relações Exteriores. Como o deixaram entrar no Instituto Rio Branco? Eu lhe receitaria, à maneira do Caveirão e seu general da Saúde, doses maciças de Haldol.  

A vacina do impeachment (3)

Ignorar a ciência, zombar da medicina e receitar, receitar, leitora amiga (como um estúpido macho decante orgulhoso de própria estupidez—como militar refugado convertido em deletério xamã das grotas milicianas), tratamentos precoces” não bastam para o impeachment? O lenga-lenga de Rodrigo Maia e da oposição é um menosprezo face a sordidez de uma realidade de desgoverno e desvario.

Sennett na fossa

Abatido com as cenas do putsch contra o Capitólio (ele se desculpa mais de uma vez com o entrevistador pelo desânimo), levando a pandemia com a mulher em Londres, Richard Sennett não se perde em bizantinices. O sociólogo diz ao Clarín que é preciso desnazificar (se refere a uma “versão mais suave do nazismo”) e destrumpificar os Estados Unidos. Sennett foi seguidamente, em longa campanha, chamado de “impatriota” por um senador republicano, apontado como prócer da conspiração da “elite cosmopolita” que teria vendido o país às corporações.

Desjumentizar o Bananão

E se vamos destrumpificar os EUA, é mister desjumentizar o Bananão (tks, Lessa).

Elas e eles góstiam

Como Dona Santinha Pureza (Nádia Carvalho), a personagem da Escolinha do Professor Raimundo abusada pelo marido que, diante da indignação do mestre, diz o bordão “eu góstio!”, os adeptos do QAnon também góstiam, conclui o perfil de uma soldada dessa seita no New York Times. Valerie Gilbert é uma nova-iorquina endinheirada educada em Harvard. Várias vezes por dia ela entra no Facebook para atualizar seu voluntariado contra a cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás que governa o mundo e da qual fazem parte Joe Biden, Lady Gaga e possivelmente até o leitor desta Ju. É difícil trazer essa gente para a realidade, reconhece a matéria. Mike Rothschild, um pesquisador do fenômeno, diz ao jornal que essa gente, que também pulula por aqui (como imitadores), não baba nem é vítima de gurus promotores de lavagem cerebral. A resposta é mais simples. Quem acredita em Q gosta de acreditar e de compartilhar sua crença, não vive sem isso, como um adicto não vive sem seu pico. Esfregar fatos e realidade na cara do crente é perda de tempo. Uma conspiração puxa outra num novelo eterno, por mais que, para quem insista no contrário, o Sol nasça toda manhã com o giro terrestre.

Hatoum e a dor no peito de Manaus

No artigo para O Globo  ‘É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia em Manaus‘, Milton Hatoum vê (e comenta) as cenas que apertaram o peito da humanidade civilizada com tutano e coração. Manauara, autor de uma rica ficção ambientada no Amazonas, o também professor e cronista Hatoum se atém aos problemas do Estado, castigado, não é de hoje, pela pororoca da corrupção. Lembra que mais da metade dos domicílios de Manaus não tem acesso ao saneamento básico. Não tem saneamento, mas ostenta a joia da Arena da Amazônia, dádiva do lulismo na Copa do Mundo. “Há décadas o povo amazonense é vítima de descaso, humilhação, enganação, crueldade”, registra o escritor, para encerrar: “Morrer por falta de oxigênio é ápice desse exercício de crueldade. Não deixa de ser uma tortura, que sempre soube (e sabe) usar sua lógica e sua logística.”

Contra a tirania das big techs (1)

O professor da Universidade do Texas em Austin Michael Lind ironiza o banimento de Trump do Spotify. Coitado, “não pode mais compartilhar suas listas de música!”, lamenta em Tablet. As grandes corporações da tecnologia se tornaram uma tirania fora de controle, acusa o escritor, sem compromisso com a lei e a ordem. O Google se transformou na versão século 21 das páginas amarelas; a Amazon não é submetida à mesma regulação imposta aos varejistas, como o Uber não é taxado como as companhias de táxis.  “Em teoria”, ele segue, “é fácil tirar o ‘e’ protetor das empresas de tecnologia e redefini-las como empresas de transporte e prestadoras de serviços públicos. Os velhos conceitos do direito costumeiro são flexíveis e serviriam de base a uma nova legislação, com uma exceção”.

Contra a tirania das big techs (2)

A exceção, claro, são as redes sociais. Seu modelo de negócio é protegido das regulações contra difamação e obscenidade, a que editores de livros e revistas são submetidos, no caso norte-americano. FB e Twitter estão isentos de responsabilidade editorial. Se essa proteção for retirada, muito provavelmente essas mídias se dissolveriam. Mas e daí? Justiça seria feita! Um jornal sério, aqui ou nos EUA, não publica artigos sob pseudônimo sem saber quem é o autor, mas qualquer tarado extremista se sente à vontade para “postar” o que bem entender a hora que desejar, como a fazer uso da própria latrina. Se uma minoria é massacrada depois de um chamamento de carrascos via Face, como os rohingya em Mianmar, ou se a democracia é minada a tuitadas, essas corporações dizem que o problema não é delas, ou fazem o que pode, ou, para manter as aparências, promovem uma limpeza pontual aqui e ali.

Contra a tirania das big tech (2)

Demétrio Magnoli, na Folha, alerta sobre os festejos (esta Ju também celebrou!) dos “progressistas” contra o cancelamento de Trump na internet, inclusive, como vimos, pelo Spotify. Nos EUA, os magnatas das big techs são quase todos alinhados com os democratas, ou a esquerda “liberal”. Pois deveriam, diz Michael Lind, se adaptar às mesmas regras que seguem publicações de esquerda ou centro esquerda, como as revistas Salon ou Jacobin. Que direita e esquerda tenham seus próprios meios de comunicação regulados, defende Lind. Magnoli vira outra página: “Que ninguém se engane”, anota, “no caso das plataformas globais de mídias sociais, os banimentos seletivos não derivam de padrões éticos mas de cálculos de negócio”, diz, referindo-se aos processos de monopólio que enfrentam nos EUA. O colunista parece ter lido o artigo de Lind, ao concluir sobre a necessidade de o poder público determinar a qualidade da “curadoria” da informação nas redes sociais”: “É hora de derrubar a muralha do privilégio, submetendo-os [os “plutocratas” Jack Dorsey, do Twitter, e Mark Zuckerberg, do Facebook, que Magnoli denomina “Editores Supremos”] ao mesmo universo de regras de responsabilidade que regula a imprensa. Ah, isso implodiria o modelo de negócio dos gigolôs da xenofobia e do extremismo? Que pena…”.

Contracapa, a série

Assisto a Contracapa, série paranaense, ou curitibana?, em cartaz na fajuta plataforma Looke, no fajuto Now da NET/Claro. A série mistura suspense policial com um drama sobre a vida na redação de jornal em crise, em transição terminal do imprenso para o online. Assistimos a esse filme desde o início do século. Mas ninguém antes o havia rodado no Brasil. Em meio a mais um passaralho, o jornalismo dá lugar ao entretenimento fútil caça-clique. Cada recorde de visitação online exibido em telões é aplaudido. Quando mais baixo e vulgar um conteúdo, mais clique; quando mais obscenidade e extremismo, mais clique. A ficcional Gazeta Brasileira, como toda a imprensa regional, depende de verbas públicas para sobreviver, jamais terá o “rabo preso com o leitor”, o que degrada toda redação e o ofício. Para cortar despesas só faltam regrar o consumo de água filtrada. A história é realista e se vê que quem propõe o enredo é do metiê. E quem viveu a realidade de um jornal em crise crônica se reconhece facilmente nos personagens do bom elenco, ainda que haja muito amadorismo em toda a produção. A série se perde ao tentar “humanizar” os jornalistas da Gazeta, revelando os dramas pessoais e familiares. Isso torna 70% dos episódios puro culebrone televisivo, como os hispânicos chamam o novelão. A história seria melhor contada em 5 ou 6 episódio, em vez dos 13 com 52 minutos de duração! Entre outras precariedades, a trama escancara a miséria da roteirização no Brasil. Há uma meia dúzia de escritores creditados em Contracapa. Para que tanta gente?, a gente se pergunta. O resultado são cenas arrastadas e diálogos inacreditáveis, além de atuações precárias. Estranhamente, o seriado exclui sequer insinuações de sexo ou namoro da vida dos jornalistas.

O corpo e o sangue da arte
de Zé Ramalho em Beira-mar

Superprodução (dirigida pelo cineasta Ivan Cardoso) bancada pelo cantautor: Xuxa Lopes, Zé do Caixão, Zé Ramalho, Monica Schmidt, Satã e Hélio Oiticica de parangolé em foto do LP A peleja do diabo com o dono do céu

Pinço uma faixa de um LP, um clássico popular, um ícone do fantástico na MPB, um prodígio de criação artística.

Beira-mar é uma das menos esotéricas (ou lisérgicas) canções de Zé Ramalho (Brejo da Cruz, Paraíba, 1949), fruto de um prévio livreto do autor. E uma de suas letras mais bem trabalhadas na oficina poética.

Beira-mar é um dos rubis de seu segundo disco pela CBS, A peleja do diabo contra o dono do céu, gravado em junho e lançado em setembro de 1979, apenas três anos depois de o artista baixar no Rio com uma mão na frente e outra atrás (Garoto de aluguel – Taxi boy, outra faixa do disco, tem tintas autobiográficas), e tornar-se uma exótica paixão nacional.

A gravadora botou muita grana na obra de sua estrela em ascensão, como ainda era praxe naquele finzinho de uma era de ouro.

Deu-lhe liberdade autoral para definir o repertório e compor os arranjos de base. O produtor Carlos Alberto Sion dividiu a direção de estúdio com Zé, e convocou o regente Paulo Machado para escrever os arranjos de cordas e metais.

Agora, veja você, a CBS foi amarrar na produção da capa idealizada por Zé. Mas ele não quis saber de mesquinharias. Tirou do bolso o que precisava —não era uma merreca — para embalar o álbum com o luxo que sua arte demandava e merecia. O pesquisador Marcelo Froes conta que Zé já cuidava da produção gráfica de seus LPs, inspirando-se nas cultuadas capas do Pink Floyd.  

O cineasta Ivan Cardoso dirigiu a produção que juntou, além do próprio cantautor, Zé do Caixão (José Mojica Martins) e Satã, produtor e guarda-costas do cineasta mestre do nosso Terrir, a atriz Xuxa Lopes, a cantora  Mônica Schmidt e o artista plástico Hélio Oiticica, envergando um de seus parangolés, em sessões de fotos na feira de São Cristóvão, conforme Froes, e num casarão abandonado de Santa Tereza, no Rio, segundo verbete da Enciclopédia Itaú cultural.

Beira-mar cristaliza o espírito de A peleja do diabo contra do dono do céu. O repertório alude à obra de Aldous Huxley, ao cinema de Glauber Rocha, ao folk de Bob Dylan.

Mas o que pulsa pra valer é o sangue da rítmica nordestina, e a inspiração da literatura de cordel. O verbete da Itaú aponta influências do repentista Otacílio Batista (1923) e do cantador surrealista Zé Limeira (1886-1954).

Numa das fotos da capa, o artista é tentado por uma vampira (Xuxa Lopes) e o diabólico Zé do Caixão (José Mojica Martins)

A canção é extraída do cordel Apocalypse, escrito por Zé, que seria retomado em dois discos futuros.

A estrutura da letra deriva do martelo-agalopado, modalidade de repente com versos decassílabos e acentuação na segunda, quinta, oitava e 11ª sílabas.

O resultado do arranjo é o pão que corporifica o corpo e o sangue da fusão de gêneros com o colorido instrumental. Quem o toma, ao ouvir a canção, percebe o milagre da transfiguração da música em júbilo e consolação.

Trompas e cordas emolduram violões de 12 cordas (Geraldo Azevedo) e nylon (Zé), o baixo-condutor de Novelli e a percussão com bongôs (Chacal), ganzá (Borel) e triângulo (Cátia de França).

BEIRA-MAR – Zé Ramalho

I

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

II
Por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Há peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar

III

E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar


Luxuosamente, Bituca

Mônica Salmaso e André Mehmari interpretam o repertório de Milton. Coisa finíssima. Mais uma vez juntos durante o reinado do Corona num show com “ingresso consciente”, fazem um espetáculo marcante, íntegro, rigoroso e galvanizante. A seleção do repertório de Milton e parceiros é diferenciada e impecável. Mais uma vez Mehmari (piano e marimba de vidro) nos encanta a cada compasso com variações harmônicas que jogam com melodias e o pathos das cações. E a Salmaso? Ora bolas, neste momento ela é nossa maior cantora. Teco Cardoso (flauta baixo e sax soprano) é convidado deste concerto luxuoso.

Pérolas aos pouquíssimos

A Blue Note, na série Lives pela arte com “ingresso consciente”, apresenta Ná Ozzetti e Dante Ozzetti. Os irmãos atiram, em uma live pandêmica, suas pérolas aos poucos, ou pouquíssimos. Não deixe de se incluir neste happy few, afinal você é leitora ou leitor desta Ju. O repertório base de Ná me remete à sofisticação do cabaré alemão dos anos 1920, ou da atual Ópera Cômica de Berlim.


Dá licença, ô do #MeToo,
mas vou falar de Woody Allen

Woody Allen: The Origins Podcast (em inglês). A apresentação do programa revela como os EUA estão cultural e politicamente encalacrados; sim, te ouço comentar: qual a novidade?, por aqui sempre estivemos. Pois é. O apresentador tem de justificar a mera escolha de Allen como entrevistado. Será preciso lembrar, sempre, que o cineasta foi desgraçado pela moralidade macarthista de esquerda do país, presente grandemente no #MeToo e outros movimentos lacradores. Mr. Allan Stewart Konigsberg foi inocentado pela Justiça da acusação, levantada pela ex-mulher, de ter abusado da própria filha, num processo limpo e cabal. Mas isso vale um peido para os caçadores de reputação que o destroçaram vivo, e tentaram se alimentar de seu gênio e da sua arte. Que sofram uma épica indigestão!