O decálogo do Quem Escreve Nunca Alcança (*)

I  Escrever é porejar.

II – Quem escreve nunca alcança. Procura e não acha; quando acha, passa. Quem escreve, escreve, é bem sabido, para preencher o oco do oco de entreinhas. Melhor era pescar no ribeirão ou cortar lenha para o jantar. Mas, veja-se, quando escrevo pescar no ribeirão e cortar lenha para o jantar, obrigo-me a refletir que não há mais ribeirão, não há mais peixe, não há mais fogão nem mata há. Logo, furo a batida metafórica pela saúde do artesanato – o bom fado de quem sabe confeccionar algo relevante, mesa, cadeira, carretilha.

III – Quem escreve nunca alcança. Não é a glória nem a posteridade nem o poder nem a fama.

IV – Quem escreve quer ser lido e quem não é lido não deixa de escrever, pois se deixa, alcança menos. Quem publica e não é lido e quem publica e é mais-vendido nunca alcançam.

V – Quem escreve menospreza os sentidos ou vive as sensações no sentido translato, em sua capa vicária.

VI – Quem escreve nunca alcança e se cansa, mas escreve; se não escreve, padece do não escrever, um padecer pior.

VII – Melhor que escrever é tirar leite, pastorear ou, como disse o Raduam, o cheiro do alho frito no azeite vale mais que qualquer romance. Tem razão esse autor; pena, não tem razão esse autor.

VIII – Quem escreve às vezes fosforesce.

IX – Quem escreve às vezes dança.

X – Quem escreve às vezes vê. Mas quem escreve nunca alcança.

 

(*)Poema do "Moral das Horas" (Manduruvá, 2013, Belo Horizonte), pág. 52.

 

 

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