O inferno em Florença

Così discesi del cerchio primaio/ giù nel secondo, che men loco cinghia/ e tanto più dolor che punge e guaio.”

“Assim desci do círculo primeiro/ ao segundo, que espaço menor envolvia,/ maior porém na dor, que fere fundo”.

A divina comédia – Canto V – Dante Alighieri[i]  

[i] Alighieri, Divina Commedia, Edizione Integrale Tascabalili Economici Newton, 1993

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Florença, 12/10/2005 – Um grande escritor norte-americano. Foto do autor
 

Vou te contar. Na tarde ensolarada de 12 de outubro de 2005, em Florença, depois de atravessar o Rio Arno pela ponte Santa Trinità, desci ao Averno, ou seja, ao inferno.

Estávamos na cidade já há quatro noites, eu e R. Comprara em Paris, na pequena The Red Wheelbarrow, na Rue de Saint-Paul, das mãos da simpática canadense Penelope Fletcher, um exemplar de bolso de Plot against America[i], romance de Philip Roth. A edição brasileira de Complô contra a América[ii] ainda não saíra.

Há mais de duas décadas sou leitor fervoroso do senhor Roth. Penso ter lido quase tudo dele. Entra ano, sai ano, quando o nome dele não é (ver notas no final do texto) proclamado vencedor do Nobel, a afronta varre o mundo em uma onda de indignação, e nela, modestamente, contribuo. Iniciei a leitura do Plot no voo entre Orly e Pisa e continuei a ler no trem para Santa Maria Novella.

O escritor era um companheiro naquela etapa da viagem. A história sobre o pesadelo de um país, os Estados Unidos, governado não pelo presidente Roosevelt, mas pelo piloto Charles Lindbergh, um antissemita aliado do Reich, não me saía da cachola.

Pois fato e ficção iriam se amalgamar. Algumas horas antes, na manhã daquele lindo dia, logo depois de cruzar o saguão da bilheteria e penetrar o pátio do museu Bargello, eu via, a dez passos de mim, e afirmo no passado imperfeito, o próprio escritor. Era ele e era eu.

Acompanhei de perto, discretamente, sua vagarosa e atenta visita. Vi que ele examinou com cuidado o busto de Constanza Bonarelli, amante de Gian Lorenzo Bernini. Logo na primeira sala, excitado, quem sabe lúcido, cochichei com minha mulher e, num leve gesto de cabeça, apontei Mr. Roth, agora um pouco à frente. R. não associou o nome ao homem e fez pouco caso do meu achado.

Depois da visita ao museu, me lembro bem, passeamos pela cidade e mais tarde fomos almoçar na Enoteca Bonatti, onde notamos a presença de uma officer norte-americana, que estaria em Florença para alguma convenção de agentes públicos de segurança. A mulher, uniformizada, era cortejada por colegas carabinieri. Como se sentaram à mesa depois da nossa, tivemos que nos levantar para lhes dar passagem. Os italianos se mostraram amigáveis e se desculparam pelo incômodo, menos a officer, que sequer nos sorriu. Durante o almoço ela iria se comportar exatamente como os tiras durões dos seriados norte-americanos. Enquanto esperávamos os pratos, provando um Sangiovese decantado, aproveitei para atualizar meu caderno de notas, incluindo o que chamei “Encontro com Philip Roth no Bargello”. “Ele é alto, emaciado, tem o rosto anguloso e a pele avermelhada. Era acompanhado por uma mulher distinta, 15 ou 20 anos mais jovem”, anotei.

De jeito maneira, pensava comigo, então, eu perderia uma segunda chance de cumprimentar, quem sabe até mesmo tomar o autógrafo do autor de Operação Shylock – uma confissão, caso voltasse a topar com ele. Esse romance é sobre um duplo do escritor, outro Philip Roth, que o persegue em Jerusalém em uma trama que envolve a iminência de novo Holocausto. Ainda tínhamos alguns dias na cidade e, com sorte, poderia revê-lo.

Só não podia imaginar, apesar da improbabilidade do evento matinal, que meu desejo se tornaria realidade dali a pouco, uma hora depois da sesta, no chamado Oltrarno, quando saímos novamente para bater perna.

Ao atravessar a Piazza dei Frescobaldi e dobrar à esquerda no Borgo S. Jacopo, eu avistava quem? Mr. Roth, mais uma vez. Sorte? Ele e a mulher caminhavam calmamente, ao lado do rio. Era agora ou nunca, me desafiava. Cheio de suspeita valentia, deixei R. seguir à minha frente e abordei Mr. Roth já perto da Ponte Vecchio, no pequeno balcão de uma galeria, onde pararam para apreciar as águas amareladas do Arno. Ao me aproximar, entabular uma saudação e emendar o pedido de uma fotografia, notei que algo estranho sucedia.

Mr. Roth e companheira pareciam aflitos, ainda que amigáveis; ambos erguiam os braços, num gesto parecido ao de quem sofre um assalto. Até que pude compreender o que tentavam me dizer. Na verdade, queriam ansiosamente me alertar, please, sir, I’m afraid… it’s a big mistake. Foi como se me prevenissem da queda de um piano ou de um Boeing sobre minha cabeça, tarde demais. Sei que tudo desabou. Tonto, arruinado, eviscerado, vi meu sangue escorrer pelo piso verde e caí como um corpo morto cai – no dizer de Dante.

Entre rubro e lívido, absurdamente tentei me safar. Sem pejo de manchar a imagem da minha pátria, apresentei-me como brasileiro. Balbuciei em inglês, habitualmente já manco, oh, oh, oh, sinto tanto, também leio o senhor, li todos os seus livros publicados no Brasil pela Companhia das Letras de mister Schwarcz etc.

Com delicadeza, Martha Bernhard — era este o nome da senhora John Updike — para se ver livre da criatura comprida e seca que os assediava, propôs que eu tirasse logo minha foto e, compreendi, terminássemos a esquete de pastelão, por minha culpa, minha máxima culpa.

Passado um instante eterno, bati a foto acima. Um risonho e resignado Mr. Updike, entre canteiros de buxo-anão e espadas-de-são-jorge, com uma bolsa azul nos braços, congela-se contra a Ponte Vecchio e a corrente alaranjada do Arno.

Agradeci o casal, desculpei-me ainda mil vezes e tentei, então, me arrastar até onde R. me esperava, à sombra de um salgueiro, na urgência de me suicidar com o primeiro alfinete que encontrasse. Nada disse a R. ali, naquele instante, e poupei-a do duplo vexame. Temi perdê-la, caso considerasse o sinistro, que ainda agora, ao recordar, me queimava por dentro, que dirá por fora.

Até onde pude averiguar, este é o único registro daquela passagem por Florença, provavelmente a última do autor de Busca o meu rosto. Isso não me causa surpresa. Num tempo em que o livro agoniza em estantes mofadas e um candidato ao Nobel não é páreo para uma Lady Gaga ou uma Anitta, celebridades literárias não merecem mais atenção de paparazzi ou da imprensa local.

Confesso, vexado, que ainda não havia lido qualquer obra de Mr. Updike, nem seu badalado Brazil, lançado em 1994, nem a gloriosa sequência Coelho corre, Coelho em crise, Coelho cresce e Coelho cai.

No ano seguinte, me chegou às mãos o conto My father’s tears (“As lágrimas de meu pai”, publicado pela revista The New Yorker de 27 de fevereiro de 2006 (data da edição em papel) — a apenas cinco meses daquele dia trágico em minha existência. Passei uma vista no texto e estremeci ao deparar com uma passagem sobre Florença, “Our hotel in Florence was a small one with a peek at the Arno… The concierge looked up the next train to Rome, the other couple saw us to the Florence station… and were destined never to see together”. Não consegui terminar a leitura, temeroso de que aquele mico internacional que pagara, envolvendo duas celebridades literárias, houvesse se convertido eternamente em ficção.

Nota: John Updike morreu em 2009, aos 76 anos, vítima de câncer pulmonar, e Philip Roth em 22/4/2018, aos 85 anos, de insuficiência cardíaca.


[i] Roth, Philip, The Plot Against America, Vintage Books, 2004

[ii] Roth, Philip, Complô contra a América, tradução Paulo Henriques Brito, Companhia das Letras, 2005

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