Enojei-me dos cadernos de comida


“Esta es una realidad enraizada en nuestro tempo, la partida de nacimiento de las nuevas generaciones, una manera de ser, de vivir y acaso de morir del mundo que nos ha tocado, a nosostros, los afortunados ciudananos (…) a los que (…) la liberdad, las ideas, los valores, los libros, el arte y la literatura de Occidente nos han deparado el privilegio de convertir al entretenimiento pasajero en la aspiración suprema dela vida humana y el derecho de contemplar con cinismo y desdén todo lo que aburre, preocupa e nos recuerda que la vida no sólo es diversión (…)”.

Mario Margas Llosa, “La Civilización del Espetáculo” (Alfaguara, pp. 58-59).

Me enjoei de cadernos de comida,
enojei das notícias de moda
nauseei em viagens pasteurizadas
por páginas que naveguei
e mareei nas ilustradas.

Eram dez e oito da manhã de sol fresco,
deitei o verbo na sala
ao ler jornais sabáticos
banidos de livros,
livres de livros enfim
tais folhas renovadas —
matilha à morte
a morder o rabo
velho do tempo novo.

Sex like pets,
glória dum colar,
província tagarela
a brincar na quermesse,
no pornô das almas conversas
na zoada da presentificação.

E você, seu gordo,
a vampirizar,
sua diária digital,
sua hemorragia de entretenga,
sua recreação,
seu refocilamento,
tudo que te enche os intestinos
e atrofia-lhe a alma.

Pois morro antes nesta translação,
fico e desfico por aí à toa
toda hora a pregar e dar marradas,
quixote abestado que sempre estive.

O romance acabou, me planto em Tolstoi,
o jornal morreu, me pego no blog
aos 100 anos do Swann,
festejado no The New York Times
(“All the News That’s Fit do Print”),
très chic, n’est-ce pas?

Até te ver bela da janela
a te digitalizar,
a te expandir na tela
até gozar
até estourar cada pixel-pixé
e sumir no borrão.


Versão de um dos poemas da antologia Moral das Horas (Manduruvá Edições Especiais, 2013). 

5 respostas em “Enojei-me dos cadernos de comida

  1. Pingback: A arte da comida e a seita dos chefs – Jornal do Siúves

  2. Pingback: Viagem em torno de pintxos e ‘copas’ – Livro de Viagem

  3. Pingback: Nota na Cult # 187 | antônio siúves

  4. Muito bom o diálogo do texto do Vargas Lllosa com seu poema, dos outros textos citados, apropriados.

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