Alberto Manguel na Biblioteca de Borges, isto é,
Biblioteca Nacional de Buenos Aires, e o “Poema dos Dons” para esta tarde

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O escritor, tradutor e editor Alberto Manguel. Foto: albertomanguel.com

O escritor, tradutor e editor Alberto Manguel assume em meados do ano o cargo de diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, posto já ocupado por Jorge Luis Borges.

Em dezembro do ano passado, Manguel falou de Borges ao jornal argentino “Clarín”:

— Quando conheci Borges na livraria Pygmalion [onde Manguel trabalhava], em 1964, ele me convidou a participar das aulas de anglo-saxão que dava no próprio gabinete, na Biblioteca Nacional, na Rua México. Participei por um tempo e durante anos me converti em um dos que liam para ele [o autor do “Aleph” ficava cego]. Quem diria que, mais de 50 anos depois, eu iria me encontrar em sua posição. Oxalá ainda estejam lá a cadeira e o escritório que ele usava e que pertenceram a Paul Groussac [outro diretor da Biblioteca, citado por Borges no “Poema dos dons” – veja abaixo.]

Penso que Manguel, autor de “Uma História da Leitura” (1997) — uma trajetória do leitor em 6.000 anos de história — e coautor do “Dicionário de Lugares Imaginários” (ambos saíram no Brasil pela Companhia das Letras) é um dos maiores críticos literários em atividade, capaz de escrever com grande agudeza e de uma maneira completamente livre do pedregulho acadêmico. Há pouco comentei no jornal a lição de um de seus textos para o “Babelia” do “El País” em espanhol, sobre os 400 anos do nascimento de Shakespeare e Cervantes.

A ideia desta nota é de Sylvia Colombo, na Folha. Espinafrei a repórter aqui há poucos dias, mas hoje quero reconhecer a ótima matéria que ela assina na capa da “Ilustrada”.

Aos 69 anos, nascido em Buenos Aires, Manguel deixou a Argentina em 1973 e viveu no Canadá e na França. “É um dos autores argentinos com mais projeção global”, diz “O Clarín”. Atualmente, dá cursos nas universidades Columbia e de Princeton, nos EUA.

À Sylvia Colombo —sobre sua volta à capital argentina— Manguel diz algo de grande beleza e sabedoria a respeito da memória, algo de que temos consciência, mas nem sempre levamos em conta para valer:

“Voltar a Buenos Aires é estranho. Quando alguém deixa um lugar no qual aconteceram coisas importantes —no caso, minha adolescência—, esse lugar vira, na memória, um cenário que vai se modificando para acomodar as lembranças que vamos fabricando para nos consolarmos de estarmos longe.

Vamos mudando tanto essa geografia, do mesmo modo como mudamos a cara de uma pessoa que no passado amamos e já não vemos há tempos, que, quando voltamos a encontrá-la, já não a reconhecemos. Sinto que não volto para a minha Buenos Aires, mas, sim, a uma nova cidade, que devo descobrir e aprender a amar.”

Para fechar esta nota em tom maior, transcrevo meu poema favorito de Borges, seguido da tradução de Augusto de Campos, extraída de “Quase Borges” – 20 Trasnpoemas e uma Entrevista” (Musa Rara/Terracota, 2013).

POEMA DE LOS DONES

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Occidente, siglos, dinastías,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga
Que se parece al sueño y al olvido.

POEMA DOS DONS

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como e esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

[Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.

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2 thoughts on “ Querem falar de cultura a sério? Vamos pra Argentina ”

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