Festa madrilenha entre vivos e mortos

dsc02099
Burgos. Foto: Antônio Siúves

O outono se mantém aberto em Burgos neste domingo. O resto parece cerrado. Quem não tem um carro alugado não pode ir a Santo Domingo de Silos ver o claustro do mosteiro beneditino do século XI, nem à pequena Covarrubias. Todas as locadoras estão cerradas. O único ônibus que me deixaria no distrito não sai da garagem aos domingos. Quando sai durante a semana, só vai numa perna. Quem quiser que pouse por lá e retorne bem cedo na manhã seguinte, ainda sem poder visitar a abadia milenária. Um táxi com bandeira dois nos custaria uma fortuna. Melhor esquecer por agora.

Sem ânimo de percorrer logo cedo a gigantesca catedral de Santa Maria, cujas torres gêmeas, como ogivas de dois foguetes, no dizer de Cees Nooteboom, aguardam eternamente sua decolagem bem em frente ao nosso hotel, decidimos ir a pé até o Real Monasterio de las Huelgas, que está cerrado inesperadamente, por um funeral. A planta do museu arqueológico da cidade, a dez minutos de táxi dali, que guarda as tumbas visigóticas que ansiava por ver, também cerrada, em reformas.

Mas o Outono, não. Caminhamos mais de uma hora pelo Paseo del Espolón, à beira do Arlanzón, cercado por plátanos e vegetação que durante nossa andança oscilava entre o verde e o amarelo, amarelo que se estende ao chão, ao passar do passeante. A urbanização em torno do rio cristalino é vital para quem vive aqui, presume-se, e ajuda o forasteiro a entender por que Burgos é chamada “cidade do futuro” na propaganda oficial. É uma ordem e beleza que na Espanha eu vira apenas em Sevilha, nos quilômetros do parque planejado à margem do Guadalquivir. A temperatura não passa de seis graus, quase não venta, o sol dá as caras. Penso se alguém pode desejar graça maior.

Cheguei ontem de Madrid pela manhã, em trem. Aproveito as duas horas e meia no conforto da poltrona do meu vagão, enquanto cortamos a meseta rumo ao Norte, para ruminar os quatro dias corridos que tivemos para rever a grande cidade, gozar a arquitetura do museu Reina Sofia e, no dia seguinte, revisitar Velázquez no Prado, com a possível familiaridade com  a obra do pintor que adquire o leitor do livrinho de Ortega y Gasset, lançado há pouco no Brasil, e ainda mais íntimo, as salas de Goya, com a carga do livrão Robert Hughes sobre o artista editado pela Companhia das Letras, que consegui terminar este ano. Mas a pintura, e mesmo a notícia da eleição de Donald Trump (que as gravuras de Goya da séries Caprichos e Desastres, anteveem aos meus olhos), registrada em uma edição do El País concluída às 6h30, foram apendiculares nesta passagem por uma Madrid gelada e seca.

Pela primeira vez, desfrutei a chance insonhada de festejar um encontro europeu com minha família. Bebemos muito vinho, inclusive jerez e manzanilla na escura e inacreditável taberna La Venencia, demos risadas, passeamos muito por Los Austrias e nas ruas em torno da Calle de las Huertas. No delicioso Café Central, para assistir ao quarteto de “jazz cigano” The Hot Norvege, brindamos à memória de nossa mãe, que teria feito 97 anos aquela noite. A trazíamos conosco, como a irmã, como o irmão, como a sobrinha, como a cunhada que se foram há tão pouco. Vivos e mortos, inebriados, compartilhamos a música inspirada em Jean “Django” Reinhardt. Ele também, por certo, compareceu.

dsc02097
Burgos (novembro de 2016). Foto: Antônio Siúves

Colabore com a Jurupoca

Se você costuma ler este jornal com frequência, e nele encontre valor, considere, encarecidamente (a JU é a única atividade do autor), contribuir com o jornalismo independente, por meio de doação ou assinatura espontânea. Saiba como fazer isso clicando aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s