[Texto originalmente publicado no segundo número da revista cultural Inclusive.com]


 

O voluntariado do formigueiro planetário desfila no bilionário calçadão virtual do capitalismo tecnológico. Não ganha um tostão, mas o que é a grana perto duma vitrine onde alguém pode compartir reflexos e refluxos com audiência Silicon Valley et Orbi, mesmo que fantasiosa, e ainda experimentar a sensação de que não está só, de que tudo que diga ou faça da própria vida é interessante? De fato, o voluntariado se sente encoberto pelo lindo arco-íris da luz que seus próprios olhos repartem. É inestimável.

O Facebook é hoje o que já foram a lenha a queimar na lareira e a fogueira invernal primitiva, é energia eletromagnética convertida pela maravilhosa engenharia, com pesquisa, desenho, desenvolvimento e elaboração algorítmica.

Quem conquista seu lugar nas redes, tem seu nicho num planeta cujo espaço é mais virtual que terreno e as timelines ocupam mais as horas da vida que as ruas das cidades.

Mas, ainda, não há de novo sob o sol. Ainda carregamos circuitos neuronais do cérebro reptiliano. Somos os mesmos “homo sapiens” que desabrocharam há uns 100 mil anos.

Os passeantes confortam-se ao assentar juízos, mas não se batem por consensos ou clamam pela verdade. Longe disso, o apelo das notícias falsas, bem ou mal fabricadas, seduz legiões de vigilantes ideológicos e guardiães da cidadania e da moral, sob a força gravitacional do rancor.

O linchamento de reputações é nosso equivalente à sanha dos patrícios romanos no circo. Na era das redes, a imprensa ou é indigna ou culpada por suspeita. Conectados não precisam se referenciar sobre os fatos e a verdade.

A comunidade virtual é uma comunidade vicária, onde o usuário agrega e corta amigos a bel prazer. Em geral, os grupos pensam da mesma maneira e alimentam as mesmas intolerâncias. Nas redes ninguém é forçado a enfrentar controvérsias como numa reunião de condomínio ou assembleia de esquina. Por isso o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) apontou as redes sociais como armadilha, assim, numa entrevista ao El País de janeiro do ano passado:

“Muita gente usa as redes sociais não para unir, não para ampliar seus horizontes, senão pelo contrário, para fechar-se no que chamo zonas de conforto, onde o único som que ouvem é o eco da própria voz, onde veem apenas os reflexos do seu próprio rosto. As redes sociais são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma trampa”.

A praça pública do Facebook parece reunir todos os vícios da democracia e suas virtudes mais estreitas.  Nas era das redes sociais vence o Brexit na Grã-Bretanha, um plebiscito derrota a Paz duramente acordada na Colômbia — ao que se seguiu uma feliz correção por mecanismos verdadeiramente democráticos. A Primavera Árabe, a propósito, o que era mesmo?

Mas a vitória do grotesco Donald Trump nas eleições americanas é o maior fiasco que os profetas do mundo como obra em progresso poderiam amargar, ou, por outro lado, a maior vitória da cultura do rancor. E o “trumpismo” pode ser o prelúdio da onda de populismo e xenofobia que parece se espraiar pela Europa.

Na era das redes sociais, as instituições republicanas não são aperfeiçoadas, mas o estatuto universal da correção política e a impostura intelectual mostram-se aptas para forçar os Poderes a celebrar decisões precárias exigidas pelos coletivos do voluntariado.

A verdade é que não damos a mínima para as gerações futuras. Continuamos a estragar tudo, ao patinar no presente. As redes instilam desinformação, ampliam a ignorância, potencializam a burrice e tantas vezes promovem a hegemonia mental de cérebros que operam ideologicamente em apenas dois circuitos neuronais.

A internet obviamente conferiu uma nova potência à humanidade e instaurou uma revolução no conhecimento. Mas o lado mais visível e gritante dos novos tempos são rodopios em volta do próprio eu, autobiografias que se perderão pateticamente nas timelines; não como retratos gregários na parede, mas patéticos autorretratos congelados no vácuo da humanidade.

 

 

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