Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa na feira do livro de Gotemburgo, Suécia, em 2011

A transmissão da partida entre Boca Juniors e Palmeiras (25/04) me surpreendeu ao destacar a elegante figura de Mario Vargas Llosa na tribuna de honra do estádio. Como tudo que não pertença ao mundo da bola era alheio a eles, narrador e comentaristas da Fox Sports ignoraram a presença de um Prêmio Nobel na Bombonera. Para mim, vê-lo no campo aquela noite foi motivo de júbilo.

Poucas horas antes do jogo havia terminado de reler, agora em espanhol, “El Pez En El Agua” (Alfaguara, 1993; a tradução brasileira [“O Peixe na Água, Companhia das Letras, 1994] descansa nos sebos). A releitura só fez aumentar meu apreço pelo autor de “Conversa na Catedral”, “A Festa do Bode” e outras tantas grandes obras, incluindo o ensaio “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva, 2013), que nos ajuda a entender boa parte dos desatinos de um mundo banalizado pela imagem, pela tecnologia e pelo ditame das redes algorítmicas.

Peixe na águaO livro é magistral na profundidade e clareza do estilo belo e corrente com que narra a frustrada e agônica tentativa de Vargas Llosa de aplicar ideias e dignificar a política peruana. Como é sabido, ele constituiu o Movimiento Libertad e concorreu à Presidência do Peru, em 1990, sendo derrotado por Alberto Fujimori. É referencial ao retratar a formação da sociedade peruana e distingui-la na América Latina, em suas divisões e tensões étnicas e na pobreza e desigualdade abissais. É obra prima por alternar com fluidez os planos da experiência política e da autobiografia, desde a infância à formação literária, com o andamento de um grande romance. Os capítulos propriamente autobiográficos relatam o trauma da relação com o pai ausente e abusivo e os anos de formação do escritor. Muitos dos episódios, para o leitor de sua obra, se confundem com a ficção, na qual foram recriados.

Llosa ensina como a política pode ser concebida com fins civilizatórios e para o resgate da cidadania, o que é impensável fora da democracia, mas também como o populismo fez da América Latina um manguezal putrefato, onde só podem sobreviver e sobressair criaturas que se adaptam de corpo e alma, moral e intelectualmente, à vida que tal ecossistema degradado permite.

A propósito do lançamento do novo livro do autor, “La Llamada de La Tribu”, o premiado jornalista Juan Cruz, do “El País”, encabeça com “El Pez En El Agua” uma eleição dos cinco livros mais importantes de Llosa. “Este é um livro essencial”, ele diz. “É a melhor autobiografia que li de um escritor hispano”, ajunta, ao enaltecer o texto que “combina duas vocações que se vão encontrando: uma termina em êxito, a literária, e outra em fracasso, a política”. Cruz ainda comenta que os dois marcos que se entrecruzam no livro, a gestação do escritor e o fracasso na política, são definidos por chegadas a Paris, “acreditando que [a cidade] seguia sendo uma festa”.

Penso que não pode haver leitura mais recomendável a quem se interesse pela política, por suas bases, valores e práticas, em um universo muito familiar ao leitor brasileiro, e também pelo trabalho necessário à confirmação de uma verdadeira vocação literária  em uma vida dedicada à leitura e à escrita.

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