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Depois de censurar, ou, como se diz, descontinuar a exposição Queermuseu em Porto Alegre, subjugado pela lábia moralista de neobrucutus, o Instituto Santander Cultural continua a prestigiar nossa vanguarda artística. Que não se diga o contrário. No caso que aqui se relata, é verdade, o estímulo às artes visuais se dá à revelia da instituição multinacional e de seus curadores, até onde se sabe.

As marquises de uma agência premium (dir-se-ia gourmet?, afinal, suas propagandas mostram tantas comidas finas) do banco Santander em Belo Horizonte, estabelecida nas esquinas de Aimorés com avenida Brasil, diante da portentosa e repulsiva estátua do mártir mineiro, há muito abrigam moradores de rua desbancados. Com seus carrinhos de supermercado, trastes e panos e papelões, um grupo teima em passar suas noites ali, a despeito das diuturnas intervenções higiênicas do pessoal do Santander. Na manhã do último sábado (28/04), o transeunte que subia Aimorés, mal acostumado ao fedor das intervenções nada higiênicas dos sem teto, podia deparar, além da ausência dos maus odores, algo novo e raro no local. Uma obra de arte contemporânea fora concebida e era exposta gratuita e universalmente no local.

Santander4A técnica usada pelos artistas anônimos na obtenção do fundo negro e a dilatação do pigmento cinza que revistia a fachada podia (peço licença poética) ser chamada de carbonização aleatória conjungada ao happening culinário, que consiste no aquecimento de uma panela de sopa com letras de macarrão, batatas da xepa e migalhas de carne. Um cinzel ou canivete parece ter sido empregado na abertura da fenda na argamassa para revelar a boca larga e branca, suavemente iluminada pela luz de abril no sábado.

O conjunto remetia o observador a um grande buquê de flores do mal ou a veste luxuosa de uma beldade de Klimt, sem dourados, é certo, mas decorado por reluzentes transparências de apliques de organdi. As formas circulares e ciliares sugeriam frutos, peixes cegos de abismos oceânicos e pequenas expansões atômicas, como que transpostas da imaginação de um Hieronymus Bosch ou, quando menos, de um curador do ar.

 

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