Diário embriagado de Berlim

Numa quarta-feira à noite do mês passado, a cantora Veronika Harcsa e o violonista Bálint Gyémánt, ambos húngaros, lançavam seu novo disco (“Shapeshifter”) no A-Trane, em Charlottenburg.

A casa estava cheia e o público bebericava cervejas e coquetéis. Curtia-se uma noite de jazz, típico programa berlinense.

No terceiro número, convidaram ao palco o baixista Nicolas Thys e o baterista Antoine Pierre, ambos belgas, e seguiram em quarteto.

A vibração dos músicos logo se refletiu na concentração da audiência e na inconfundível alegria que a música proporciona.

Atrás de nossa mesa sentava-se um grupo encabeçado por Stefanie Marcus, diretora do selo alemão Traumton Records, gravadora de Harcsa.

Cantora inventiva, de técnica virtuosa e grande alcance, Harcsa se dirigiu várias vezes a Stefanie, a quem, compreensivelmente, se mostrava grata.

Na era do streaming, produzir um novo disco de jazz autoral não é para os fracos.

Sim, Harcsa, como é praxe, anunciou que o CD estaria à venda na casa, ao fim do concerto. Suponho que seja assim, com apresentações e divulgação direta, que músicos de grande valor como ela estejam ganhando a vida.

Veronika Harcsa se apresenta no clube A-Trane, em Berlim

Nos intervalos entre os números, ela fez graça com os músicos — contando um atropelo na chegada da banda a Berlim — e até da desgraça do seu país, o que levou a plateia a uma espécie catarse.

A Hungria é governada por Viktor Orbán, um populista e nacionalista alinhado a Putin, Trump e “Bibi” Netanyahu que busca minar a democracia de seu país e os alicerces da União Europeia.

Orbán e a Hungria estão entalados na garganta de quem teme a degeneração fascista que se espelha pelo planeta. Por isso rimos.

A audição confortável de jazz, em qualquer época do ano, é uma dádiva que poucas cidades no mundo repartem com Berlim.

Na noite anterior, no B-Flat, assistimos à performance do saxofonista e compositor Peter Van Huffel e seu octeto berlinense, incluindo a cantora Sophie Tassignon.

A música de Van Huffel, nascido no Canadá e dono de uma celebrada carreira internacional, foi uma surpresa na sua desconcertante “proposta pós-tudo”, como a definiu um crítico.

Cada set, em que até o baterista Christian Marien seguia partituras, moldava e ordenava um bem-humorado caos de dissonância, atonalidade, ruídos eletrônicos e formas sonoras iteradas.


Peter Van Huffel com octeto mandam brasa no B-Flat, Berlim

Alguns improvisos, como os do trombonista Matthias Müller, eram de arrepiar, talvez nos limites da música contemporânea, hoje, ou a expressão de um jazz genuinamente europeu. A-odo, onde estive em viagem anterior, compõem meia dúzia de deliciosos clubes de jazz em Berlim.Oferecem programação diária, ótimas atrações, bons preços e ambientação charmosa e reverente à tradição das casas do gênero.

CIDADE VESTIDA DE CINZA

Dois dias antes de Harcsa subir ao palco, no início de uma tarde de segunda-feira, descíamos em Tegel, vindo de Copenhague (ver continuação deste diário no próximo post).

Berlim nos recebia ensopada e metida num manto gris que não mudaria até o final da semana, quando tomaríamos um trem na relativamente ainda nova e grandiosa Hauptbahnhof (Estação Central, em plena operação desde 2006) só para dar um pulo em Munique e, na manhã seguinte, voar para Trieste.

O inverno europeu de 2019 ainda em fevereiro começou a labutar com apressada primavera, mas mal podia-se perceber o fenômeno em Berlim.

Ainda assim eu pude vê-la, a primavera, nas árvores do Tiergarten, bem em frente ao Reischtag, caminhando por ali deste os fundos da Hauptbahnhof.

Os primeiros sinais dessa imensa e poderosa capital, observada da janela do táxi, foram de uma cidade próspera que não para de se reinventar.  

Há construções por toda parte, quarteirões inteiros de prédios residenciais sendo erguidos e uma infinidade de intervenções urbanas.

Veem-se surgir novas estações de metrô e museus, monumentos e sítios históricos, novos ou em reforma.

Berlim definitivamente não é didática sobre as baixas taxas de crescimento da Alemanha.

Havia reservado outra vez o The Circus, na Rosenthaler Platz, na área da antiga Berlin oriental, entre as áreas de Scheunenviertel e Prenzlauer Berg.

O hotel, que mantém um albergue qualificado na mesma praça, perdeu jovialidade e exuberância; seu lobby e bar como que murcharam, e a qualidade do atendimento decaiu um pouco.

Tivemos um problema inusitado com a reposição de toalhas e o cofre do quarto, pifado na segunda noite, pifado permaneceu até nossa saída.

Mas estávamos famintos ao chegar. Encaminhado o check-in tardio, como da primeira vez em Berlim, procuramos o Sophieneck, a cinco minutos a pé do Circus, para restaurar nossas forças.

O pub de comida alemã tradicional também já não era aquele.

Uma única e resfolegante garçonete, coitada, rodopiava pelo salão feito bailarina, a fazer o que podia para atender dez ou doze mesas cheias de comensais.

Não está fácil ganhar a vida em nenhuma parte.

ACERTANDO A HORA

O chucrute, a salsicha com batatas e a cerveja escura sem graça do Sophieneck não me nocautearam nem desanimaram.

Nada me faria perder o último dia e as últimas horas da exposição comemorativa de cem anos do Grupo de Novembro (“Freiheit – Die Kunst der Novembergruppe – 1918-1935”), na Berlinische Galerie, inaugurada em novembro de 2018.

Para lá eu e minha mulher nos mandamos, de Uber.

Aliás, esse aplicativo em Berlim nos permite chamar igualmente táxi com taxímetro ou van. Os preços, como pude constatar, são próximos e razoáveis.

O Grupo de Novembro, nome calcado na revolução alemã de 1918, era um desaguadouro de tendências modernas (Nova Objetividade, O Cavaleiro Azul, Bauhaus, Expressionismo, Modernismo ou Estilo Internacional, O Círculo) e artistas radicais.

Participaram da onda pintores e escultores (Vassili Kandinski, Lyonel Feininger, Käthe Kollwitz); arquitetos como Walter Gropius e Ludwig Mies van der Rohe; compositores (Alan Berg, Kurt Weill) e Bertold Brecht, dramaturgo e poeta.

A mostra e a galeria me proporcionaram prazer e descontração e me repuseram no clima.

Tão logo deparei um George Grosz, o icônico, como crítica social, e de humor ainda selvagem “Os Pilares da Sociedade”, acertei meus ponteiros com a viagem, a arte e uma cidade absurda e culturalmente rica e cosmopolita.

TESOUROS DA ILHA DOS MUSEUS

Na manhã seguinte, dedicamos quase quatro horas à Museumsinsel.

Como ocorre sempre que me dedico a observar seguidamente centenas de obras de arte em um museu, como ao acordarmos de um sono tecido de sonhos, consigo fixar apenas o que, na algaravia, me pareceu mais vivo e intrigante naquela hora.

Ou fixo o que me embriaga.

Posso dizer, parafraseando o crítico da revista “The New Yorker” Peter Schjeldahl, a propósito dos Tintoretto que ele viu na National Gallery de Washington: as obras que guardo são as que mais realimentam minha fé na arte como meio de revigorar o mundo. “Estou mais sóbrio deste então”, diz Schjeldahl, “mas o efeito permanece”.

Assim, ainda trago comigo, em semissobriedade, quadros como os de Adolph Menzel (1815-1905), entre eles “Der Fuß des Künstlers” (O Pé do Artista, de 1876, ou o retrato do seu pé direito doente), uma “antisself”, por assim dizer, algo chocante, pintado por um Menzel já envelhecido.

Trago uma pintura singela de Otto Nagel (1984-1987), “Weddinger Jungen”, de 1928, compadecido das figuras desoladas de dois jovens do distrito berlinense de Weddinger em uniforme militar, como que saídos do alistamento.

Trago a beleza tantalizante de uma escultura de Rudolf Belling (1886-1972), “Kopf in Messing” (Cabeça em Latão) que me faz pensar uma mulher de olhos fundos e penetrantes.

No Altes Museum namorei o retrato de Lise Tréhot, de 1864, amante de Renoir, pintado pelo artista em 1864 (ver foto no slide show, no alto desta página).

Afirma-se que a moça contava 20 anos quando foi retratada.

Lise se assemelha mais a uma Lolita no esplendor dos 16, meio entediada ao pousar longamente para um pintor obsessivo.

Por aquela época Renoir, aos 23 anos, buscava se acertar entre os velhos caminhos da tradição e os novos rumos da revolução estética.

Ler depois na revista “Piauí”, ao chegar em casa, o incrivelmente instrutivo artigo de Lorenzo Mammi sobre o “Rosa e Azul” do Masp, me ajudou a entender melhor o quadro de Berlim.

Olhei e espiei muito mais nos museus da Ilha berlinense, pinturas, relíquias, esquifes, múmias, pergaminhos e registros arqueológico — me fascinam as pequenas cadernetas com anotações a lápis reproduzindo hieróglifos em letra miúda, bonita e precisa. Me recordaram certas iluminuras em livros de horas.

A MAIS BELA CHEGOU

Mas devo registrar aqui uma notícia: 3.359 anos dois da aparição desta obra, alguém, alumbrado, se deteve mais de meia hora à frente e à volta do busto da rainha egípcia Nefertiti, e ali não permaneceu mais tempo pois sabia que o esperavam alhures.  

Senhores, a eterna beleza ainda encanta e seduz, como seduziu gregos, quiçá, troianos — e tantas outras multidões, desde então, se derramaram por ela.  

— E peço licença poética para fazer meus, rapidamente, por empréstimo, a ode de Keats à Urna Grega (“Inviolada noiva de quietude e paz,/ Filha do tempo lento e da muda harmonia…”—

Não me parece justo que um terráqueo nasça e morra sem o gozo de percorrer a pinacoteca vaticana rumo à Capela Sistina, ou a Alhambra dos Nazaries em Sevilha, ou andar por Paris, Veneza, Florença e Roma ou, acrescento, ver-se diante da Nefertiti, uma vez que seja, ao menos para perceber que a simetria apurada pela arte parece estar inscrita em nosso DNA.

HELLO KÄTHE

Depois de fatigar minhas retinas diante de tanta tentativa besta de artistas contemporâneos ao expressar a dor ou a esquisitice humanas, ou dizer algo sobre os esquecidos, desvalidos e deserdados da terra — questões eternas — em mirabolantes e escalafobéticas instalações, ver as gravuras e esculturas de Käthe Kollwitz (1867-19450) é uma redenção e, por certo, uma (re)educação artística.

O museu dedicado à artista, em Charlottenburg, é um primor de síntese e adequaçã=Além da técnica e do vigor das águas-fortes, litografias e esculturas, do traço expressionista a um tempo austero e ressaído, suas obras expressam um teor documental — desespero materno na guerra e na fome foi seu quase seu único Leitmotiv —, que ao mesmo tempo é atemporal e alusivo e cuja tensão apenas a grande arte é capaz de conter.

Uma litografia, “Brot!” (Pão!, 1924) estampa uma mulher de costas e recurvada com duas crianças famintas a lhe agarrar a saia.

O foco do quadro não é o contingente, o social, ou é menos isso, mas antes a transcendência do ser dilacerado da mãe de quem não vemos o rosto, e nem é preciso, pois alcançamos seu coração dilacerado.

Em outra obra — sua primeira xilogravura, de 1921 — vemos a figura de Karl Liebknecht no leito de morte e as distintas expressões de uma dúzia de pessoas que assistem ao funeral.

“Brot!” (Pão), litogravura de Käthe Kollwitz, no museu dedicado à artista em Berlim – Foto: A. Siúves

Ela havia desenhado a cena dois anos antes, após o assassinado do líder socialista parceiro de Rosa Luxemburgo.

O traço expressionista destaca o rigor mortis e a reverência de um amigo ou simpatizante sobre o corpo, mas, do conjunto exala a solenidade de uma pintura clássica.

Käthe e seu grupo, a Nova Objetividade (Neue Sachlichkeit), quiseram ir além da desilusão com a nova República Alemã, diante do crescente extremismo de direita, e com os ideais do expressionismo.

Buscaram exprimir um realismo mais engajado. Käthe foi uma artista engajada, por certo, mas do tipo de engajamento que percorre a história da arte e jamais sairá de moda.

Pelo menos enquanto o Vale do Silício não emplaca a Humanidade 2.0 e a vida eterna, nos quais derrama tantos bilhões.

Saindo pelos fundos do museu Käthe Kollwitz, você pode se sentar para refletir sobre tais questões e, sugiro, também sobre a riquíssima história da arte alemã, no retirado e elegante café da vizinha Literaturhaus Berlin, cujo teto transparente nos enseja o céu invernal e os altos ramos das árvores do jardim.

Depois disso, seu dia em Berlim haverá de estar ganho.

ESTAÇÕES DA HISTÓRIA

Não tive tempo de visitar as exposições que celebram o centenário da Bauhaus ou conhecer o memorial Topografie des Terrors, como planejara.

Mas revistei o Denkmal für die ermordeten Juden Europas (Memorial aos judeus mortos da Europa) e o Jüdisches Museum (Museu Judaico), com sua arquitetura em pedra negra, enviesada e marcante, e registros comoventes de como era a vida socialmente integrada dos judeus em Berlim, antes da aparição da Besta. O museu também apresenta, até o próximo 1° de maio, uma extraordinária exposição sobre Jerusalém.

Para além das controvérsias sobre forma, oportunidade e sentido, esses monumentos são duas entre muitas estações ou passagens de Berlim, assim me parece, indispensáveis para nos pôr a par da história da cidade, da Shoah, da Europa e, silenciosamente, nos levar a meditar sobre a vergonha toda que nos enxovalha a condição humana.  

PASSAGEM PELO SHOPPING

Minha caderneta de viagem aponta uma sessão de compras no shopping Karstadt de Kreuzberg, cuja freguesia é quase exclusivamente turca e árabe.

Esperei longamente os amigos em um bar na cobertura da loja, recostado numa poltrona com uma taça de vinho e a boa vontade da moça que atendia os pouquíssimos clientes naquele início de tarde, a me oferecer petiscos.

Tentava tratar um achaque de dor nas costas apanhada nas andanças sob chuva e friagem.

Numa mesa a dois metros da minha, um casal discutia rispidamente, em turco, supus — depois de ver na Netflix algumas séries no idioma.

Creio que pude imaginar a essência da cena.

Primeiro, trocaram palavras cheias de fagulhas. Ela a lhe cobrar promessas e desfeitas.

Mas, Allahu Akbar, chegam a um entendimento. Reinaria a paz, ou não.

Em quase uma hora que ainda passei ali depois do entrevero, o sujeito derramou uma arenga sem fim nos ouvidinhos da mulher, cobertos por um hijab.

Ele falava, ela escutava.

Pobre dela, pensei, e mais pobre de mim, saindo dali para tomar o metrô de volta ao hotel, me preparar para jantar e, bem cedo na manhã seguinte, dizer mais uma vez auf wiedersehen a Berlim .

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