Diário apaixonado de Trieste

Em minha opinião esta cidade é existencialista, e sua finalidade é ser ela mesma.”
 — Jan Morris

Mesa do Caffè Stella Polare com o “Il Piccolo” de 18/03/2019. Foto: Antônio Siúves

A ignorância é o pior dos guias.

Como sempre faço antes de viajar, li e vi tudo que podia sobre Trieste.

Ler, pesquisar, anotar é dar chance à sorte, abrir caminho ao acaso.  

Ao regressar, me sentia perfeitamente ignorante, mas estimulado, a fim de costurar os retalhos do pouco que pude ver e sentir numa cidade rica e complexa, que jamais atrairá multidões de turistas.

Eu me dava conta de que haveria de viajar a Trieste outras vezes, para um dia, quem sabe, me tornar uma espécie de aluno aplicado e tentar o vestibular.

Cidade mercantil e jardim

Mas, por hora, estou sentado no Caffé Stella Polare, ao lado da Igreja de Santo Antônio milagreiro (Divo Antonio Taumaturgo), diante do majestoso Canal Grande.

Minha xícara de café com leite e o croissant al cioccolato estão servidos.

Hoje é segunda-feira, 18 de março de 2019. Finalmente, abro a edição de “Il Piccolo”, jornal da cidade fundado em 1881, que havia comprado meia hora atrás na praça San Giovanni.


A Piazza dell’Unità vista do Molo Audace, em Trieste, Itália. Foto: Gal Botelho

A manchete, ao estilo meio cifrado dos jornais italianos, me entra no ouvido como som de carrilhões:

“Trieste da 3 secoli/ Porto Franco/ attira gli stranieri” (Trieste há 3 séculos/ Porto Livre/ Atrai estrangeiros”. 

Hosana nas alturas, pensei. Tinha me escapado que estaria aqui, agora, em data tão significativa para Trieste.

Alegra-me o acaso.

Trieste é Trieste graças à abertura do seu porto pelo imperador austríaco Carlo 6º, em 1719.

O status garantiu ao lugar privilégios fiscais e certa autonomia que estimularam seu comércio e a geração de riqueza.

A cidade era protetorado austríaco desde 1382, mas nasce, então, para valer, e começa atrair a gente estrangeira — alemã, eslava, grega, armênia, hebreia, grega — que irá constituir sua herança material e espiritual.

Uma nova cidade é construída no chamado “Borgo Teresiano”, à beira do Adriático. A filha de Carlos 6º, Maria Teresa, comanda o canteiro de obras.

Escavam o Canal Grande e aterram salinas para erguer um bairro em estilo neoclássico com toques barrocos.

O desenho coube a “antigos egressos da Academia de Belas Artes de Viena”, conta Jan Morris na minha tradução espanhola (2017) de “Trieste and the Meaning of Nowhere” (Trieste e o sentido de nenhum lugar), principal obra de referência sobre a cidade no gênero literatura de viagem.

Os arquitetos “se propuseram a criar algo original, uma cidade mercantil que também fosse uma cidade jardim, plena de verde e fontes, ao mesmo tempo que obedeciam as leis imperiais relativas a saneamento, segurança e proporcionalidade”, complementa.

Caderno de “Il Piccolo” sobre os 300 anos do Porto Livre. Foto: Antônio Siúves

Trieste torna-se, desde então, porto avançado de Viena; logo, porto de grande calado e um dos maiores e mais estratégicos para o comércio internacional, à época.

Cidade de Apolo e Mercúrio

Trieste, lembra Claudio Magris — celebrado escritor e professor de literatura alemã, em artigo para o caderno especial desta edição de “Il Piccolo” — é a “cidade de Apolo e Mercúrio, poesia e comércio organicamente inseparáveis, uma alma dupla que não se poderá cindir.”

Assim como o comércio e a finança, a música, a poesia e a literatura, e, já no século 20, a psicanálise, agregariam valor e civilização à cidade recostada na Eslovênia e Croácia, e a um estirão de Veneza — província mítica desta mesma região, o Friuli-Venezia Giulia.

“A Trieste nascida com o porto livre é cidade assimiladora e cosmopolita. Cidade de iniciativa vital, de aventura também fraudulenta, de companhias marítimas que comerciam em vários continentes, mudam de nome e proprietário, falem e renascem; bem mais tarde [será a] cidade das grandes companhias de seguro”, resume Magris no artigo.  

A inelutável decadência desata com a Grande Guerra e a implosão do império austro-húngaro.

As províncias mais a leste vão formar o Reino da Iugoslávia e Trieste é incorporada ao Reino da Itália — para se tornar definitivamente italiana em 1945.

Trieste hoje é rica, mas, por certo, distante anos-luz da cidade que experimentou uma era miraculosa e manteve o aplomb de potência centro-europeia, da “mitteleuropa”.

A Trieste do século 21 aposta no avanço da globalização (na contramão do nacionalismo italiano em voga) e mira o sucesso de Singapura, Hong Kong, Dubai, Duisburg (o porto seco alemão é o maior da Europa).

“Nascida e renascida, separada por 300 anos. Em 2019, observatórios internacionais atribuem ao porto de Trieste a inédita possibilidade de um reavivamento oferecido pelas voltas da geopolítica mundial.”

“Uma coincidência bizarra na história: exatamente três séculos atrás, em 1719, o imperador austríaco fez de uma vila de pescadores a porta de entrada dos bens do Levante para a Europa Central.”

Manifestação em defesa dos imigrantes e das mulheres. Piazza dell’Unità, Trieste.

Os dois trechos acima estão na abertura da entrevista do “Piccolo” com o atual presidente da Autoridade Portuária de Trieste, Zeno D’Agostino, a quem caberá fazer acontecer as oportunidades que surgem.

“O nosso futuro se joga na economia azul e na manufatura”, diz o executivo ao jornal.

A economia azul se refere à exploração sustentável do ambiente marinho.

“…a minha alma está em Trieste…”

Ainda nos tempos áureos, no ano de 1902, desembarca na estação central de Trieste um jovem escritor irlandês em formação chamado James Augustine Aloysius Joyce (1882-1941).

Aqui viveria, aos trancos e barrancos, com a mulher, Nora Barnacle, e o irmão mais novo, Stanislaus, ou manteria laços com esta cidade até o começo dos anos 1920.

Depois de “O Retrato do Artista Quando Jovem”, de “Dublinenses” e, principalmente, do “Ulisses”, a literatura mundial jamais será a mesma.

Essas obras, além da peça “Exilados”, foram escritas ou, no caso do “Ulisses”, esboçadas em Trieste, onde Joyce dava aulas na Berlitz Scholl of Languages (Via San Nicolò 32), perto do café onde leio “Il Piccolo”.

Joyce é festejado logo ali, neste mesmo Canal Grande, com estátua erguida no centenário de seu nascimento, em 2004, e com um busto no Jardim Público, na mesma ocasião.

Uma placa ao pé da figura de bronze do escritor cita frase de uma carta sua a Nora, de 27 de outubro de 1909:

“…la mia anima è a Trieste…” (“…a minha alma está em Trieste…”).

Joyce foi assíduo deste Stella Polare. Aqui encontrava amigos como o escritor Italo Svevo para aperitivos e tertúlias.

Conforme o folheto que eu trouxe do minúsculo e simpático Museu Joyce Sveviano, foi neste café, em 1907 e 1808, que Joyce leu para Stanislaus cada capítulo do “Retrato do Artista Quando Jovem”, tão logo o terminava.

Joyce apreciava os cafés da cidade. Os de Roma, onde morou por breve período, não se comparavam aos de Trieste, ele dizia.

Colaborou no jornal da cidade, então chamado “Il Piccolo della Sera”.

Escrevia em ótimo italiano e dominava o dialeto triestino.

Em “Microcosmos” (Companhia das Letras, 1997), Claudio Magris conta que em carta a Svevo, de 5 de janeiro de 1921, Joyce se refere ao seu livro mais famoso nos seguintes termos:

Ulisse ossia Sua mare grega” (“Ulisses, ou seja, a puta que o pariu”. “Tu mare grega” sendo um xingamento muito triestino.

O irlandês gostava de ir a igrejas, adorava os rituais religiosos e amava o bel canto, tão presente em seus livros.

Também era chegado aos lupanares instalados junto ao mar, na città vecchia, particularmente a uma casa de tolerância tratada por ele e Svevo de “Il metro cubo” (“O metro cúbico”.

Frequentemente tomava porres e precisava ser levado em casa nos ombros de algum companheiro de farra.

O pouco que ganhava ia da mão para boca.

Pobre Nora. Mulher e filhos provaram o pão que o diabo amassou. Significativamente, escreveu Joyce:

And Trieste, ah Trieste ate my liver” (“E Trieste, ah Trieste, Triste comeu meu fígado”).

Trieste cultiva seu passado literário e artístico com afinco.

Em toda a cidade encontramos placas alusivas a essa história, estátuas e monumentos dedicados a artistas e intelectuais.

Existem itinerários de Joyce, Svevo, do poeta e romancista Umberto Saba e de Rainer Maria Rilke.

Rilke, natural de praga, escreveu no castelo de Duíno parte das clássicas “Elegias”, pináculo da poesia em língua alemã.

Duíno se incrusta nos altos de um platô, diante do mar, no povoado homônimo, a meia hora de carro do centro de Trieste, rumo norte.

Aroma irresistível de café

“Trieste sempre foi uma cidade de bares, uma cidade de restaurantes (ainda que dificilmente um paraíso gastronômico) e, sobretudo, uma cidade de cafés”, diz Jan Morris.

“Já em 1830 haviam sido concedidas mais de uma centena de licenças a cafés, e alguns deles ainda sobrevivem: os Cafés Históricos de Trieste, como agora são chamados pelos operadores de turismo”, relata.

“O Tommaseo, o degli Spechi [dos espelhos, belíssimo] o Tergesteo, o Stella Polare, o San Marco, todos datam dos tempos dos Habsburgo e mantêm a tradição de alta burguesa”, acrescenta.

Há anos li na revista “The Economist” artigo sobre o melhor café da Europa. Depois de muito peregrinar, o felizardo autor do texto concluía que a honra sem qualquer dúvida cabia a Trieste.

Para um cafeinômano como o que vos fala, acendeu-se ali uma luz que nunca se apagou.

O aroma da rubiácea nos tenta nas ruas de Trieste como o canto das sereias tentou o Ulisses homérico, sem que precisemos nos mandar amarrar no mastro do navio.

Scipio Slataper, outro cultuado autor triestino imagina Trieste despertando “entre uma cesta de limões e um saco de grãos de café”, em “Il mio Carso”.

(Trieste está sitiada entre o Adriático e um imenso altiplano de rocha calcária que os geólogos denominam Karst; os italianos, Carso; os eslovenos, Kras e os croatas, krs.)

Esta cidade é sede da Illy, marca italiana de café (e das máquinas de café) por excelência.

Os Illy são uma de suas famílias mais afortunadas e tradicionais, e um dos pilares da economia local.

Riccardo Illy, a quem Morris distingue no livro pela “refinada elegância”, foi prefeito de Trieste de 1993 a 2001.

San Marco, um “café de verdade”

O Stella Polare, devo admitir, mesmo escrevendo daqui, tem seu encanto, mas não é o café mais atraente de Trieste, nem o mais fiel à própria tradição.

Vista do interior do salão principal do Caffè San Marco, em Trieste. Foto: Antônio Siúves

A deferência cabe ao San Marco, que fecha às segundas-feiras e está a menos de dez minutos a pé daqui.

A fama de “democrático”, para início de conversa, é mais que apropriada ao lugar.

Executivos em ternos de corte impecável, estudantes, professores, turistas e a variada freguesia cruzam-se e compartilham os espaços de dois venerandos salões que ostentam uma velha classe vienense.

Já estive três vezes ali, duas ainda bem cedo, para a primeira xícara de latte. Vivesse em Trieste, lá bateria o ponto diariamente.

Você pode passar horas no San Marco, a prosear, ler, escrever, talvez namorar as estantes da livraria entre os dois salões da casa.

Trago na sacola, por exemplo, meu exemplar de “La Giornalaia” (“A jornaleira”), da série policial com o detetive Proteo Laurenti. Seu autor é o alemão Veit Heinichen, que labutou em Trieste como livreiro.

Trieste, por sinal, resiste aos tempos, aos modismos e aos imperativos da tecnologia nos costumes.

Ainda é uma cidade de livrarias e há sebos, inclusive móveis, por toda parte.

Jornais impressos, pelo que se percebe no movimento dos cafés e nas ruas, têm assegurada boa sobrevida por aqui.

Claudio Magris, grande habitué do San Marco, dedica à casa o primeiro capítulo de seu “Microcosmos”.

“O San Marco é um café de verdade, periferia da história marcada pela fidelidade conservadora e pelo pluralismo liberal de seus habitués”, define o professor.

“O café é uma academia platônica, dizia nos primórdios do século Hermann Bahr [escritor e dramaturgo austríaco] — que também afirmava sentir-se bem em Trieste, porque naquela cidade tinha a impressão de não estar em lugar algum. Nessa academia não se ensina nada, mas apreendem-se a sociabilidade e o desencanto”, diz uma passagem do livro.

“Pseudocafés são aqueles em que acampa uma única tribo, pouco importa se de senhoras de bem, de rapazes ambiciosos, de grupos alternativos ou de intelectuais atualizados. Toda endogamia é asfixiante (..)”, ele diz.

Magris também compara os frequentadores do café a “náufragos agarrados às próprias mesas”.

Mais à frente, cita um célebre habitué do San Marco nostálgico da civilização Habsburgo:

“Se ainda houvesse o Império, tudo teria ficado igual, o mundo teria permanecido um Café San Marco, e acham pouco? É só olhar para fora!”.

“É só olhar para fora!”, repito comigo, já na segunda xícara de café no Stella Polare.

“La fora” vejo o Brasil de Bolsonaro e a Itália de Matteo Salvini, e tenho vontade de me agarrar feito náufrago a esta mesa do Stella Polare.

Queixo caído

Hoje é segunda-feira, repito. Cheguei a Trieste anteontem, sábado, em voo de Munique.

Malas guardadas, era ver o mar.

Trieste pode não encantar quem a vê da janela do trem que traz o visitante do aeroporto, ou quem percebe a falta de originalidade de seus subúrbios.

Mas contemplá-la pela primeira vez desde o passeio marítimo, como fizemos no sábado, fez meu queixo despencar.

Um magnífico conjunto arquitetônico, formado por prédios bem conservados desde as antigas glórias, reluzia diante do Adriático, bem como a abertura cósmica que representa a Piazza dell’Unità d’Italia — um dos corações de Trieste.

“A praça aberta ao mar foi claramente modelada na San Marco veneziana e (cochiche) é ainda mais deslumbrante”, arriscou-se Helen Pickles no jornal britânico “The Telegraph”.

Também anotei — e conferi — as impressões da “destination expert” do “Telegraph” ao caminhar por Trieste e observar a “sequência gloriosa de influências arquitetônicas e étnicas” (eslava, germânica, latina):

“No espaço de 15 minutos, encontrei igrejas ortodoxas sérvias, greco-ortodoxas e evangelistas helvéticas, enquanto a sinagoga da cidade é uma das maiores da Europa”.


Pôr do sol observado do Molo Audace, em Trieste. Foto: Antônio Siúves

O Molo Audace, diante da Piazza dell’Unittà, atrai muita gente (os turistas quase sempre são italianos) para apreciar o pôr do sol — um dos mais belos da Terra, segundo muita gente boa e viajada.

Depois de um ou dois splitz — os drinque à base de Aperol, de cor vermelha ou alaranjada, tão ao gosto de Trieste — no degli Spechi, café-ancoradouro refinado e acessível para quem quer curtir a praça de camarote, você estará em ponto de bala para ver o ocaso no Molo Audace — um píer de 200 metros mar a dentro construído em 1751.

Ao contemplar o astro mergulhar no horizonte entre laranjas ígneos e cinzas que anunciam trevas, pensei em aplaudi-lo, conforme faz há décadas o pessoal do Arpoador, no Rio de Janeiro. Mas, sóbrio, me contive.

Cidade melancólica

A baia de Muggia vista da janela do barco Delfino Verde. Foto: Antônio Siúves

Da janela do barco em direção a Muggia, pequena e adorável província ao sul de Trieste, pensei na ideia de melancolia, tão associada a Trieste.

Havia apenas eu e minha mulher a bordo do Delfino Verde numa manhã cinzenta, gelada e que prenunciava a chegada do La Bora, o temível vento adriático que levou Stendhal — ele trabalhou aqui como funcionário do governo francês — a escrever que lhe dava “reumatismo nas entranhas”

“A melancolia é a principal expressão de Trieste”, diz Jan Morris, um ex-soldado britânico que nos anos 1970 completou sua mudança de sexo. Até então assinava James Morris.

“Em quase tudo que li acerca desta cidade, ao longo dos séculos os escritores evocam sua melancolia”, ela observa no livro.

A escritora lembra que Aristóteles propagou a crença de que os homes interessantes possuíam uma veia melancólica.

Marcel Proust, gênio francês autor do clássico “Em Busca do Tempo Perdido”, nunca esteve na cidade, mas faz seu narrador, Marcel, considerar Trieste um “lugar delicioso onde a gente é pensativa, o por do sol é dourado e o sinos da igreja soam melancólicos”.

Zeno Cosini, herói de “A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo (pseudônimo de Aaron Ettore Schimit), e maior obra literária de Trieste, é um doente imaginário, obcecado com psicanálise e dado a constantes crises de melancolia.

Aliás, o leitor do livro de Svevo que sai do San Marco para o Jardim Público (Giardino Pubblico Muzio de Tommasini), como nos sugere Magris, não pode deixar de pensar nos encontros furtivos e fingidos de Zeno com Carla, sua amante aprendiz de canto de dezesseis anos.

Fingidos porque ela só queria permanecer alguns minutos sentadas ao lado do amante, como se eles não se conhecessem. Um capricho a que Zeno cede depois de muito relutar.

Miramare

Castelo e Miramare, Trieste. Foto: Antônio Siúves

Melancólico sem retoque é o lindamente singelo castelo de Miramare, postado contra o mar a nordeste de Trieste, inaugurado em 1860.

Estabelecido em um parque magnífico e muito bem cuidado, a joia que é Miramare foi construída a mando de Maximiliano de Habsburgo, arquiduque da Áustria, para presentear a esposa amada, Carlota.

O casal jamais desfrutaria dos luxuosos aposentos do castelo e das maravilhas do recanto onde existe.

Envolvido num ardil francês, Maximiliano embarca de mala e cuia para o México, onde ia liderar na América Latina um suposto governo de união de potências europeias.

Logo a tragédia. O sensível Maximiliano cai em mãos do bando revolucionário de Benito Juárez, é posto diante de um paredão e fuzilado.

Carlota, poupada, regressa à Europa, para terminar seus dias em desvario.

O significado de nenhuma parte

Jan Morris, hoje aos 92 anos, tirou da passagem já citada de Hermann Bahr um leitmotiv para seu livro, cujo epígrafe é um verso de Wallace Stevens:

Eu era o mundo em que andei, e o que vi,
Escutei e senti brotava de mim mesmo.”

A obra revela um amor profundamente enraizado por Trieste. A respeito do título ela diz, já nas últimas páginas:

o significado de nenhuma parte, esta utopia “meio real, meio desejante, pode ser o que fez um escritor afirmar que “a melhor forma de patriotismo era um espírito generoso de amor”.

Creio que é o máximo que um apaixonado visitante de Trieste pode aspirar, ao querer voltar a esta cidade fronteiriça, encruzilhada de caminhos e civilizações que se preserva dos modismos e neuroses de uma cultura e um mundo ordenados pelo Vale do Silício.

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