Jurupoca # 2

 NÚMERO 2 — JULHO, 19   2019


O lugar onde sempre estamos certos

Do lugar onde sempre estamos certos
nunca brotarão
flores na primavera.

O lugar onde sempre estamos certos
é batido e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
esfarelam o mundo
como uma toupeira, um arado.

E um murmúrio será ouvido no lugar
onde havia uma casa —
destruída.

Yehuda Amichai – Terra e paz – antologia poética, tradução Moacir Amâncio (Bazar do Tempo)

“Assim, um boato dirá: “Oh, o homem está ficando velho!”. Um romancista medíocre escreverá: “A velhice é uma coisa tão triste!”. Mas Tchékhov pode escrever sobre um velho médico curvando-se para uma moça desmaiada, tomando seu pulso, erguendo-se e pronunciando estas três palavras devastadoras: “Eu esqueci tudo”.

Amós Oz em “Como Curar um Fanático: Israel e Palestina: entre o Certo e o Certo”, tradução de Paulo Geiger, Companhia das Letras, 2016.

“João Gilberto cria uma dialética suficiente para transformar a melodia num organismo que se autossustenta, que não precisa de apoios externos para se desenvolver. Não podemos dizer, de fato, que o canto de João Gilberto se apoie sobre os acordes do acompanhamento. Muitas vezes, o que se ouve é o contrário, acordes pendurados no canto como roupas no fio de um varal. Na música erudita, a composição mais próxima a esse estilo é o ‘Prélude à l’Après-midi d’un faune’, de Debussy, sobretudo a primeira parte, onde a melodia é harmonizada repetidas vezes com acordes diferentes, que mudam sua cor sem mudar seu sentido.

Lorenzo Mammì em “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova” — “Novos Estudos Cebrap, n. 34, São Paulo, nov. 1992, incluído em“João Gilberto”, organizado por Walter Garcia, Cosac Naify, 2012.


Opa. Vamos apear?

Um dos capítulos de “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura” cuida dos ritos e peregrinações de um viajante guiado pelo amor aos livros e às artes, para quem toda viagem é também uma viagem literária.

Descobri que escritores como Marcel Proust, Goethe, Sebald, Fernando Pessoa e Machado de Assis, além de compositores, arquitetos e cineastas são guias de viagem insuspeitáveis, ainda que por vias laterais.

É o caso de Machado. Parece que a excursão mais longa do escritor foi do Rio a Petrópolis, embora o confidente de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” tenha viajado bastante pela Europa, quando moço, e mais ainda o Conselheiros Aires, do “Memorial”, diplomata idoso quando escreve seus diários.

Em “Esaú de Jacó” encontrei uma reflexão desse mesmo Aires que me fez pensar em como viajamos no advento das mídias sociais: “O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio”.

Machado fala da ironia (“que está acaso na retina”) e do papel da imaginação para “ajudar a memória a esquecer” o que é fortuito e breve.

Ora, quando alguém viaja e deixa-se levar pela ânsia de fotografar alucinadamente cada instante, uma função mais íntima do olhar se desfoca, e dádivas instantâneas se esfumam. Perdemos a “pose” do invisível, a contra-imagem de algo que só pode ser evocado em nós, exclusivamente em nós.


Amós Oz, João Gilberto, Angela Merkel, Fernando Pessoa e o Nobel de Química Roger Kornberg quase tropeçam uns nos outros nas notas abaixo, e elas sim falam umas com as outras, ao repartir as principais leituras e ideias que remoí nas últimas duas semanas.

Também me tostou o bestunto o ataque cerrado de milicianos virtuais contra jornalistas e o próprio jornalismo profissional.

A carta ficou um tanto extensa, e olha que tesourei muita coisa. É minha sugestão para suas leituras de fim de semana.

Que tal sugerir em suas redes sociais a assinatura desta newsletter por meio do link http://tinyletter.com/asiuves?

E me dizer, respondendo a este e-mail, o que você acha desta Jurupoca? 

No mais, keep calm and read on.


NOVOS NA ESTANTE

Li no início do ano “De Amor e Trevas”, o romance autobiográfico do israelense Amós Oz (1939-2018), cujo fundo, fechado e extenso como a noite, é a narrativa do suicídio da mãe do autor quando ele tinha 12 anos.

Anotei no diário em fevereiro:

“Descubro um grande narrador, aprendo algo mais detido sobre a história do judaísmo e do sionismo, sobre Jerusalém, a formação de Israel e sua Guerra da Independência, os massacres dos judeus asquenazes, centro-europeus, por nazistas, poloneses, ucranianos e vizinhos da mesma laia, e também sobre a vida interna nos kibutizim. Percebo um caráter proustiano na obra e uma grande beleza na história de amor filial, carregada de devoção e dor, de amor e trevas”.

Aos 57 anos, conhecer um novo escritor como Amós Oz me alegra pacas e estimula a me aprofundar em sua obra, o que faço agora.

Havia dedicado 2017 quase exclusivamente a releituras, mas me embreei logo depois da passagem de ano novo em V.S. Naipaul (fica para uma próxima carta) e Oz.

Passava da hora de me dedicar a ambos. Neste mês, quando uma massa de ar polar nos deu uma grata semana de inverno real em Belo Horizonte, percorri três volumes curtos de Oz. Dois reúnem palestras, artigos e ensaios (“Como Curar um Fanático: Israel e Palestina: entre o Certo e o Certo”, de 2016; e “Mais de uma Luz: Fanatismo, Fé e Convivência no Século XXI”, de 2017); o terceiro, mais recente, suas entrevistas com a editora Shira Hadad (“Do que É Feita a Maçã – Seis Conversas sobre Amor, Culpa e Outros Prazeres”, 2019)”.

Me sinto recompensado, enriquecido, encantado.

PARA LER HOJE

Ler, nesta altura do campeonato, “Como Curar um Fanático” e “Mais de uma Luz” (a obra de Oz é editada no Brasil pela Companhia das Letras e traduzida por Paulo Geiger), além de intelectualmente excitante, é reconfortante para um cidadão brasileiro — e para qualquer pessoa em sintonia com o mundo, chocada com as novas ondas de populismo nacionalista, aborrecida com a soberba, a ignorância e todas as formas de agressão. Esse leitor se sentirá menos isolado. A prosa de Oz, um pacifista ligado desde a adolescência à esquerda israelense, muito combatido em seu país, estila sabedoria, quer entender o mal e graduá-lo, criticar com profundidade o extremismo e não se omitir sobre questões cruciais — como a defesa reiterada de um acordo de concessões entre árabes palestinos e israelenses que estabeleça dois estados e a entrega dos territórios ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias.

FALAR BAIXO

Na última das conversas de “Do que É Feita a Maçã” — divididas em seis partes que tratam com intimidade, em um profundo exercício de inteligência, memória e autoconsciência, da escritura e a influência autoral, da cultura israelense e da crítica, do amor e o sexo — ele diz que em “Como Curar um Fanático” tentou, “para variar, falar com calma. Dizer baixinho coisas que eu dizia gritando”. Ao terminar esse livro eu havia retido exatamente os andamentos da calma, da fala que tenta se expressar com cuidado e consideração pelo eventual leitor adverso que ousasse lê-lo e a quem, talvez, os textos pudessem mudar. Mas, lucidamente, ele se mostra cético: “Será que isso me garante um novo público? Não sei. Às vezes é exatamente a fala tranquila que desperta a ira e a agressão dos opositores.”

FANATISMO COMPARADO

A curiosidade, sobretudo a de nos imaginarmos na pele do outro, o humor e o ceticismo são antídotos de primeira linha contra o fanatismo, receita Oz, apelando à humanidade da leitora e do leitor, fanático ou não. Advoga, por sinal eu também, que caminhar é ótimo para nos ajudar a dimensionar as coisas, a colocá-las na “proporção correta”. Ao andar, aprendemos a ouvir “as pedras no deserto, ou as estrelas sobre o parque da cidade rindo silenciosamente” de predições alucinadas que invocam supremacia e direitos eternos. Ele se diz titular emérito da cadeira que propõe: “Talvez já seja tempo de toda escola e toda universidade começar a ministrar um curso sobre fanatismo comparado”. Que grande ideia. O fanático sabe contar até um e é um “ponto de exclamação ambulante”, perfila. “O fanático é a menos egoísta das criaturas. O fanático é um grande altruísta”, diz, indo mais a fundo na psicologia da mente dogmática. “Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo. Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar.” O fanático, talvez, também queira nos enlouquecer, me ocorreu, como emenda.

FINS E MEIOS

“Como Curar um Fanático” foi originalmente publicado em 2006. Oz parece ter antecipado nossas aflições aqui e agora: “Acredito que a síndrome de nossa época é a luta universal entre fanáticos, todos os tipos de fanáticos, e o resto de nós. Entre os que creem que seus fins justificam os meios, todos os meios, e o resto de nós que julga que a vida humana é um fim em si mesma.”  

REPOSTAS SIMPLES

Estudar e argumentar é mais custoso que recorrer ao exagero, à piada, e transformar em caricatura a razão que procura se sustentar em terra firme. A sobrecarga cognitiva diante de argumentos contrários leva, talvez a maioria das pessoas, a se abrigar em atalhos mentais simplistas. Com diz André Lara Resende em um artigo para o “Valor” (“Brasil de hoje e o conservadorismo vitoriano”, para assinantes do jornal) “o radicalismo e o dogmatismo, seja ele qual for, de um extremo a outro, é muito mais atraente do que a racionalidade ponderada”. Oz conclui o mesmo ao atribuir o fanatismo ao fato de que “quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples”. Ele arremata essa ideia com uma perspectiva “evolutiva”:


“Fanatismo e fundamentalismo muitas vezes têm uma resposta com uma só sentença para todo o sofrimento humano. O fanático acredita que se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta, às vezes junto com seus vizinhos. O fanatismo é muito antigo. É muito mais velho que o islã, o cristianismo e o judaísmo. Mais velho do que todas as ideologias. Infelizmente, penso que, assim como a violência, o fanatismo também é um componente permanente da natureza humana, um ‘gene ruim’ que existe em quase todos nós. O fanatismo muitas vezes origina-se na vontade imperiosa de modificar os outros pelo próprio bem dele.”

RAIVA E AMOR À EUROPA

Oz relativiza o europeísmo e ataca o “nariz empinado” de europeus sem autocrítica que reagem com altivez ao fanatismo e aos conflitos intermináveis entre árabes e israelenses, tidos por tolos e lunáticos. Assenta que ambos os povos são vítimas históricas da Europa, diferentemente: os árabes pelo “colonialismo, o imperialismo, a exploração e a humilhação”, os judeus, pela “discriminação, perseguição, pelos pogroms e finalmente pelo pior genocídio sistemático da história”:


“Quando pessoas me falam atualmente sobre a vantagem, a superioridade, da cultura ocidental, sobre seus alegados rivais no leste ou no sul, não consigo deixar de me lembrar, ao menos de tempos em tempos, de que a Europa, quase o menor dos cinco continentes, derramou em sua história mais sangue inocente de que todos os outros quatro continentes (desde Aníbal até a Al-Qaeda e desde Gêngis Khan até o Isis) juntos. Seu próprio sangue e os sangue de suas vítimas.”

Oz teve um primo assinado por nazistas e seus pais e avós foram escorraçados por asseclas nazis, perdendo tudo, inclusive afetos e memórias de lugares que consideravam seus. Embora o escritor seja amado no continente e tenha sido premiado na França e na Alemanha, e saiba valorizar a herança cultural dos pais e avós, judeus assimilados e cosmopolitas, portanto, ele diz, os “verdadeiros europeus”, ele deixa patente sua raiva ao se definir como “não europeu”.

ETA VIDA BESTA, MEU DEUS

Oz me consola quando vejo que divido com ele uma convicção que há tempos me parece ser um dos traços mais óbvios e notáveis de nossa era, convicção que também me encafifa porque não é tão óbvia assim para muita gente, ou simplesmente é negada pelos novos cândidos e cândidas: “Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da humanidade: ‘o jardim de infância global’, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos”.

FANÁTICOS CONTRA O JORNALISMO

Cabe ao leitor avaliar e criticar a qualidade de um periódico, sua linha editorial, sua capacidade de dimensionar os fatos para escolher se os aloca em manchetes, títulos ou notinhas, contestar a má qualidade de uma reportagem e descartar articulista desonestos com dados e ideais. Me refiro ao jornalismo profissional de jornais e sites que não dependem do dinheiro público para sobreviver — aos trancos e barrancos nas últimas duas décadas, cujos departamentos comerciais não invadem a redação para impor, direcionar ou abortar coberturas — o que vi acontecer tantas vezes na província mineira e me fez sentir na pele essa frustração. Mas o jornalismo em crise na era digital, contraposto pelas patrulhas ideológicas das redes sociais, apesar de sua relevância indiscutível, enfrenta muito mais que seus inimigos de sempre. Defronta a fúria de multidões que só conseguem ouvir os pregoeiros de próprios ódios e preconceitos, ou os ecos da própria ignorância. Quando escrevo esta nota, a jornalista Miriam Leitão e o sociólogo Sérgio Abranches são desconvidados a participar de uma feira literária em Santa Catarina. Ameaças de milicianos virtuais bolsonaristas amoleceram a organização do evento. Miriam é odiada por fundamentalistas de esquerda e direita. Isso só poderia justificar os muitos prêmios que recebeu.

CONSPIRANOICOS NA PRAÇA

Reinaldo Azevedo (um jornalista que não sabe falar com calma e parece estar sempre a um passo do fanatismo por si mesmo) cunhou (link para assinantes da “Folha”) a expressão “terraplanismo contábil”, praticado por quem nega a necessidade de ajustes na previdência social. Pego o bonde de Reinaldo, engato nele outro vagão e o nomeio “terraplanismo jornalístico” a síndrome que acomete quem lê a imprensa do século 21 como se lia os panfletos de opinião na época da Revolução Francesa, e não é capaz de distinguir uma reportagem de um editorial ou peça de opinião. Lulopetistas, bolsonaristas, terraplanistas de todo jaez creem que leitores de jornais são páginas em branco a serem preenchidas pela opinião alheia e por “fake news”, como Trump e Bolsonaro se referem a tudo que sai nos jornais e os contraria. Democracias estáveis com níveis elevados de educação convivem melhor com as diferenças de opinião, o que não é fácil. É para poucos — uma minoria talvez infeliz — ser capaz de ler uma análise com a qual discordamos, ou até uma indesejada matéria bem ancorada em dados, sem entrar em desespero e sair pedindo a cabeça do autor da matéria e achincalhando a imprensa. O pensamento conspiranoico percebe forças ocultas como romanos criam em augúrios nas vísceras de aves. Grassa aqui e acolá. (Conspiranoico: fisguei o termo lendo o bom Javier Marías no “El País Semanal” (em espanhol), romancista consagrado e colunista do diário.)  

O POVO NÃO É BOBO…

Noto os bordões disparados contra o jornalismo desde que entrei para a Comunicação da PUC, ali por volta da morte de Tancredo e a posse de Sarney. Hoje, a esquerda extremada divide o palanque e o clamor com a direita que lhe é simétrica. Não frequento passeatas, mas creio que a grita “o povo não bobo, abaixo a Rede Globo” (que, diga-se, já ecoou razões mais justas, mas hoje é compartilhado com bolsonaristas) ou contra a “imprensa golpista” perdeu fôlego para os berros no ouvido da “extrema-imprensa”. “Folha de S.Paulo”, diário oficial da esquerda”, definiu um leitor ao comentar um artigo do jornal. Um médico que consulto, ao lembrar que sou jornalista, vai logo arengando contra a “má vontade” da imprensa com Bolsonaro. O papel da imprensa, eu lhe pergunto, é ter “boa vontade” com os governantes ou — na famosa expressão dos jornalistas que cobriram Watergate (link em inglês) — apurar a melhor versão que se pode obter da verdade? O jornalismo deve adular os poderosos ou prestar conta ao leitor, como quem deve se comprometer, dos atos e palavras de quem foi eleito para zelar universalmente pela coisa pública? O leitor pede o tratamento que é devido a um adulto educado ou merece ser mimado como criança idiotizada?

MISSA PARA A IMPRENSA

Não sou coroinha da imprensa. Bem longe disso. Falei em outra carta que pertenço à diáspora das redações há mais de uma década. Ha algum tempo até mandei celebrar uma missa para a imprensa em artigo para uma revista, onde digo, matutando precisamente sobre a infantilização das massas ou melhor, das tribos, na era digital:


“O apelo dos jornais em luta pela sobrevivência — pautado em concessões à política de bandos, à banalidade, à fofoca, à controvérsia oca, ao culto da celebridade — soa cada dia mais tonto. Alguns contorcem-se como enguias sacadas do mar para tentar se sobrepor à segregação ideológica animada pelo Google e pelas redes sociais.”

Mas não aceito a oposição fanática ao trabalho jornalístico, quando ele é absolutamente necessário para nos guiar pelas galáxias de fofocas e sandices em tempos de pós-verdade.

O CAIXOTE DE QUEROSENE JACARÉ 3.0

Nelson Rodrigues não podia imaginar o meio nem a proliferação de youtubers que se vendem como pastores da ideologia política. Mas a essência, creio, é a mesma. Na era digital, o YouTube entre outras coisas é o caixote de querosene Jacaré onde o cretino fundamental bota banca. Vale a pena ver de novo: em uma entrevista a Otto Lara Resende na TV, Nelson reaviva uma de suas sábias imagens (está por volta dos 3’ no vídeo): “É o cretino fundamental. Ponha o cretino fundamental em cima dessa mesa, ou de um caixote de querosene Jacaré e você mande ele falar, ele dá um berro, imediatamente, milhares de cretinos fundamentais se organizam, se arregimentam, se aglutinam.”  

ANGELA DOROTHEA MERKEL

O melhor da “Piauí” deste mês — com inacreditável destaque para uma pulp fiction sobre o filho 02 de Bolsonaro, em um perfil que gasta tinta demais com tão pouca figura — é, para variar, um texto traduzido. Esse traz uma excelente análise histórica do governo Angela Merkel, assinada por René Pfister, editor da revista alemã “Der Spiegel” (“Merkel e as Trevas”, para assinantes). Folgo em saber que Merkel tira de letra as três longas sabatinas anuais que, desde as últimas eleições, é obrigada a enfrentar no Parlamento. “Depois de uma hora na escolinha de Merkel, os deputados costumam ficar atordoados com tanta informação, e não seria de admirar se a chanceler ainda lhes passasse algum dever de casa”, comenta Pfister. No poder desde 2005 e a dois anos de deixar o cargo de chanceler, Merkel deu uma lição na Europa ao abrir seu país a milhares de imigrantes em 2015, sabendo que perderia popularidade com a decisão. Ela encampa a bandeira pelo clima e a luta contra o nacionalismo. Doutorada em física, criada na antiga DDR, fala um russo “aceitável”, segundo o articulista, leva uma vida pessoal discreta e se apresenta com grande modéstia aonde vá. “A ideia de que seja possível corrompê-la é tão plausível quanto a suposição de que Trump leve a sério seu voto de fidelidade conjugal”, diz Pfister.

MEMÓRIA CURTA

Como nenhum outro líder hoje no poder, Merkel percebe que o mundo está doente. Desde o fim da Segunda Guerra se vão 70 anos. O esquecimento das movas gerações permite que a praga do nacionalismo e do populismo volte a brotar em todo canto. Ela relaciona o presente à sangueira das guerras religiosas, da Reforma Protestante à Paz de Augsburgo, em 1555. Passada a onda de choque e os augúrios da paz, seguiu-se a Guerra dos Trinta Anos, que começa em 1618 — “um inferno que aniquila cerca de um terço da população do território que é hoje a Alemanha, deixando em ruínas cidades como Magdeburgo”, ela gosta de citar. Amós Oz, em “Mais de uma Luz”, mostra essa mesma apreensão:


“Nos anos mais recentes parece que [o] ‘tributo’ de Stálin, de Hitler, dos militaristas japoneses, está se aproximando de seu prazo de validade. A vacinação parcial que recebemos está se esgotando; ódio, fanatismo, aversão ao outro e ao diferente, brutalidade revolucionária, o fervor em ‘esmagar definitivamente todos os malvados mediante um banho de sangue’, tudo isso está ressurgindo.”

Assim caminha a velha Europa, pressionada por Trump — com quem, quando o encontra, conta Pfister, Merkel tem de desenhar qualquer ideia mais complexa para que ele a capte, como um Rolando Lero na Escolinha da Professora Merkel — Vladimir Putin e o obscurantismo reacionário dos Salvini.

DOENÇAS IDEOLÓGICAS

João Pereira Coutinho, comentando um artigo da “The Economist” na “Folha” (“A doença das ideologias”, para assinantes), alinha com classe a crise do conservadorismo dos partidos tradicionais na Europa — grande parte da nova direita foi atacada pela “metástase do espírito reacionário”, como diz — ao desastre da “nova esquerda”, com seu tribalismo identitário e abandono da base social dos seus eleitores, por ter-se tornado “individualista, narcísica e capturada pelos dramas minoritários”. A luta de Angela Dorothea Merkel, 65 anos, talvez refletida em suas tremedeiras em público, parece ser a luta vã de quem, ao envelhecer, passa a ser tratado com condescendência, e a lucidez prepara o próprio obituário.

TRÊS BRINDE A JOÃO (1/3)

Em gravações como “Ave Maria no Morro”, de Herivelto Martins, e “Pra que Discutir com Madame”, de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, ou “Preconceito”, de Wilson Batista e Marino Pinto, João Gilberto quintessenciou o samba, como Matisse quintessenciou a cor na pintura. “O artista é a força incontrolável: depois de Van Gogh, nenhum olhar ocidental pode contemplar um cipreste sem notar nele o princípio de uma chama”, diz George Steiner no ensaio “Alfabetização Humanista” (incluído em “Linguagem e Silêncio” – Ensaios sobre a Crise da Palavra”, Companhia das Letras, 1988). O samba reinventado por João, à parte seus apelos, como em “Eu Sambo Mesmo”, de Janet de Almeida, não é feito para sambar, mas para se ouvir em silêncio.


TRÊS BRINDE A JOÃO (2/3)

Caetano Veloso diz¹ que foi trabalhando em “Rosa Morena” (no lado B de “Chega de Saudade”), samba de Dorival Caymmi, que João “criou o estilo, a batida, o jeito, tudo”. Caymmi comenta² graciosamente o parecer do conterrâneo: “É um ardiloso! Ele é perigosíssimo. Sem intenção a gente faz [a música], mas João está atento. Ele não tem ouvido nem orelhas, ele tem outros aparelhos […]. É um mistério.. Então, ele veio assim: ‘Rosa’ [canta] e o vazio que fica aí, para você pensar em acabar com o mundo. […] Mas o homem sabe ocupar as zonas vazias sem mexer naquele pedaço.”

(¹,²) “Um músico entre músicos – O ourives do espaço vazio, de Stella Caymmi, incluído em “João Gilberto”, organizado por Walter Garcia, Cosac Naify, 2012.


TRÊS BRINDE A JOÃO (3/3)

Chico Buarque, Caetano Veloso e Paulinho da Viola cantam “Preconceito” e “Escurinho”, de Geraldo Pereira, louvando os compositores desses sambas, todos pobres e marginalizados, ao recriá-los. Quem ilumina os três, como um tambor de luz, é João Gilberto.


NAS NUVENS

Pessoa e o “Livro do Desassossego” ainda à cabeceira, donde não saem tão cedo. Li ontem antes de dormir um tópico.

Começa com “Nuvens…” O poeta ergue novamente, como um condenado pelos deuses da poesia, a rocha do absurdo do exíguo, instável, determinado e derivante na existência:


“Nuvens… Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens… Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero!”

A VIDA É QUÍMICA, SEU MOÇO

Fernando Pessoa escrevia apesar de si mesmo (“escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo”). Haveria um poeta com seu caráter hoje, assolado pelo reducionismo terminal da ciência de nossa época? O cientista Roger Kornberg, ganhador do Nobel de Química, entrevistado pelo “El País”, diz que podemos prescindir de Shakespeare ou de Cervantes, “mas se você não souber nada sobre química, não se beneficia de tudo o que foi alcançado pela civilização”. Bem, eu fiz química, na velha e boa Escola Técnica Federal de Minas Gerais, e não é que via beleza em certos compostos dos íons complexos de cobre que preparávamos em laboratório, na sua variação infinita de verdes, como a de tantos mares, e aquilo me levava longe e era, no entanto, “só química”? Kornberg (premiado por mostrar o mecanismo da síntese de proteínas comandada pelo RNA) encontra vida e consolação na ciência. Com a palavra o doutor:


“A vida é química: nada mais e nada menos. O funcionamento do cérebro é tão pouco compreendido que se tende a associá-lo a significados mágicos ou místicos. Mas quimicamente o cérebro é uma coleção de fios e interruptores. Todos os cérebros humanos são mais ou menos iguais e as pequenas diferenças são resultado de diferentes padrões nos interruptores, baseados em uma combinação da nossa genética e das nossas experiências. Mas, no final, é química, nada mais e nada menos, embora as pessoas resistam à ideia. Muitas pessoas querem associar às suas próprias experiências algum significado especial, como a religião. Mas é química.”


“Muitas pessoas” querem associar suas experiências também à música de Mozart, Alban Berg ou João Gilberto. Ainda acabo voltando a meus compêndios de química.

QUÍMICA E LIBERDADE

No livro mais recente de Ian McEwan, comentado na Jurupoca #01, o narrador Charles Friend, incitado pela mente artificial de Adão, seu androide particular, exercita a própria autoconsciência ao questionar suas sensações: “Mas um estado de espírito pode corresponder a um rolar de dados. Uma roleta química. O livre-arbítrio demolido e estava eu me sentido livre.” Sim, livre como um táxi, emendaria Millôr Fernandes.

POEMA DO INSTA

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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