JURUPOCA #4

NÚMERO 4 — AGOSTO, 16   2019
 

A honestidade intelectual e ética e seu grande instrumento, a dúvida constante, preservam a razão de seus delírios. Nestes tempos obscuros, mais do que nunca necessitamos das luzes trazidas pela razão.”

Jorge Coli, professor de história da arte na Unicamp, na “Folha”.  


“A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar.”
De um personagem do conto “A Natureza Ri da Cultura”, dedicado ao filósofo
Benedito Nunes, da coletânea “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, 2009.


“Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso.”
Trecho de “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, Companhia das Letras, 2018.



Opa. Vamos apear?

De Nooteboom para Hatoum para esta carta, que recebe o passe e cruza para o cabeceio da leitora e do leitor na meta da literatura — da viagem  — da literatura de viagem — e da viagem literária.

Conto em “A Arte da Viagem” que o York House de Lisboa, onde em outras eras se hospedaram Graham Greene e John Le Carré, é o cenário de uma passagem da novela “A Seguinte História:” (Nova Fronteira, 1995), de Cees Nooteboom. Acontece que o hotel da rua das Janelas Verdes é meu preferido na cidade. Notei a cena e suas coincidências — segundo Einstein, a maneira que Deus achou para seguir no anonimato — ao reler o livro de Nooteboom 15 anos depois de o ter resenhado para o jornal mineiro “Hoje em Dia”, em 1995. O autor holandês apenas mudou o nome do condado inglês, de York para Essex, Essex House, mas descreve o mesmíssimo hotel da Lapa lisboeta, situado quase em frente ao Museu de Arte Antiga, quartos, jardins e até as glicínias que embelezam seus muros.

Herman Mussert, o narrador de “A Seguinte História:”, cujo alter ego, Dr. Strabo, é autor de guias de viagem, como, aliás, o próprio Nooteboom, se hospeda sozinho no quarto nº 6, onde havia estado com a amante, a professora de biologia Maria Zeinstra, fazia 20 anos. Mussert segue depois numa excursão marítima para o Amazonas. Já nas últimas páginas, na tradução de Ivanir Calado, lemos:

“Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o Rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva. Eu não sabia quando seria a minha vez [de contar uma história, no jogo estabelecido entre passageiros do navio]; por enquanto estava contente em ouvir os outros e em olhar, em ler as passagens de suas vidas como se tivessem sido inventadas especialmente para mim”.

 
Hoje, perto de publicar meu livro sobre as várias dimensões da viagem, embarco no transatlântico de Mussert e entro na sua história, então já contada, para regressar à literatura brasileira e a Manaus, ou por Manaus, onde jamais estive. Volto à floresta, ao rio e à cidade traduzida, transliterada nas páginas de Milton Hatoum — outro autor com lugar em meu humilde cânone dos guias de viagem insuspeitáveis. Em obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, ou nos contos de “A Cidade Ilhada”, saio de casa, cruzo alguma servidão, aceno no caminho para alguns personagens conhecidos, como um certo pintor Arana, e ando até o porto dos Educandos; tomo alguma catraia e peço ao catraieiro que navegue comigo por igarapés e paranás; entro em becos, visito casebres, palafitas; provo peixe com farinha e banana, e em tabuleiros de ambulantes ou no Mercado do porto, alguma fruta; sinto nessa travessia, decerto, o mau cheiro das águas nas margens da urbe. A cidade, como tantas no país, é vítima da escrofulose do crescimento caótico e malsão. Essa doença aparece na narrativa com tintas de realismo, às vezes de ironia, lenitivo de quem tenta se livrar por um instante de uma realidade ofuscante:


 Não fomos ao cinema, ele preferiu caminhar. O sol forte dissolvia o contorno da paisagem. No fim da ponte, uma fila crescia na entrada do Éden: o edifício branco, agora acinzentado, acabara de abrir as portas. Atrás do Palácio do Governo uma mancha escura se movia lentamente nas margens do rio. Urubus, dezenas, bicavam dejetos deixados pela vazante. Um cacho de asas abriu um clarão, e no meio apareceram homens e crianças maltrapilhos. Mundo falou: “Nossa cidade…”. 

(…)“Um pedaço dessa história eu mesmo vou escrever”,disse ele, descontrolado. Escancarou a janela, assobiou e deu uma gargalhada: “Que paisagem magnífica, hein, rapaz? Esse igarapé cheio de crianças sadias, essas palafitas lindas, um cheiro de essências raras no crepúsculo. E quanta animação! Dominó, cachaça, sinuca… Como o povo se diverte no sétimo dia!”.

Trechos de “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, Companhia das Letras, 2005.  

Mas Hatoum não é um guia de viagem insuspeito só de Manaus e do Amazonas, mas de mezzo mondo, com circuitos por Londres, Paris, Barcelona, Berkeley, São Paulo e, reveladoramente, Brasília, na abertura desta trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Se Niemayer e Lúcio Costa planejaram seu desenho e o traçado urbano, os militares impuseram um garrote à capital infante e, ao plano piloto, sua própria arquitetura moral, sufocante, anti-iluminista e assombrada.

A narrativa se passa nessa cidade corrompida, aguarrás de ideias, artes e paixões, que é vista também do exílio parisiense por Martim, um dos jovens estudantes da UNB.

Ele e sua turma vêm o sonho de Brasília metamorfosear-se em quimera, ou barata kafkiana, entre o final dos anos 1960 e o começo da nova década — durante o “plantio do amor” no Brasil, essa monocultura de patriotas fundamentalistas. Por aludir a Gregor Samsa, na obra do autor tcheco (penso logo em “Carta ao Pai”) me parece gravitar o principal leitmotiv da ficção de Hatoum, a desagregação da família, o abandono e a crueldade paternais.

Em “A Noite da Espera”, título desse primeiro volume, esse motivo se expande num romance de formação sobre um país cujo ideal de mundo civilizado — para repisar a imagem tão cara ao imaginário dos “anos dourados”, com a música de Tom Jobim e a Bossa Nova de fundo — é dinamitado. Pensar que ainda tropeçamos nos detritos daquela implosão, favorece ainda mais essa leitura.

Mas cadê o segundo volume, Hatoum?


—   
 
A coprofilia parece ser le mot juste, o traço da psique e do caráter mais íntimo, essencial e revelador do presidente Bolsoargh. A cidadania está na fossa.  
 

 
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No mais, Anauê! Pão, pinga e liberdade!  




EU ME ACUSO

Me inculpam certa preguiça com nossa literatura e o atraso na leitura da ficção corrente. Espero que não me atirem no círculo do inferno reservado aos leitores colonizados impatrióticos. Pois vivo a me perguntar: como andará o cultivo do idioma numa era de tantas supersafras agrícolas, do “agro é pop, agro é tudo”? Se os poetas padecem, ao longo dos séculos, da angústia da influência, segundo o professor Bloom, haverá a angústia da impaciência de quem vive a ler e reler principalmente o que gosta? Não me crucifiquem antes da hora. Até que me esforço.
 

FERNANDA E GEOVANI

 
Por exemplo, no ano passado, anotei: “A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres, é interessante, e esse é o melhor elogio que se pode fazer ao livro. A história desvela os dilemas da gente de teatro que depende da TV, de uma elíptica Globo, para obter fama e dinheiro, por meio das desventuras de Mario. O ator começa na arte engajada e termina presidiário engajado, à frente de uma montagem de “Macbeth”. A narrativa esperta não esconde certa indigência da prosa. Mas há passagens brilhantes, como as do capítulo sobre a tentativa de um grupo teatral carioca de levar a revolução a miseráveis analfabetos do sertão nordestino. Também li o — muito bem promovido — “Sol na Cabeça”, de Geovani Martins. Notei o frescor de um apelo novo, a humanização literária de meninos (referências a moças e ao sexo são tangenciais) que tentam viver nas favelas do Rio. Fazem a cabeça com erva, LSD, “balinha” e no submundo são devorados por traficantes, milicianos e policiais. Dois dos 13 contos, “Rolézim” e “Estação Padre Miguel” se desenvolvem melhor.
 

NOBREZA AQUI

 
Confesso que não morri de vontade de ler os romances de Chico Buarque depois de “Budapeste”. Ainda sinto falta de mais angulação, sinuosidade, sei lá, nos seus personagens. “Estorvo” me é o mais memorável. Mas sei que é difícil largar qualquer coisa que Chico escreva; como nas letras das canções, a prosa está sempre no auge da florada, flui sedutoramente e infunde a mais alta nobreza do idioma.
 

NOBREZA ACOLÁ

 
Nobilíssima é a prosa lírica de Murilo Mendes neste “A Idade do Serrote” (2018), autobiografia reeditada pela Companhia das Letras, de ler em voz alta e lamber os beiços:


 “Cheira a domingo, é a flauta de Isidoro da flauta que se aproxima, uma pequena festa levantada no eco, jasmins-do-cabo orvalhando, o vácuo expulso, a evaporação da mágoa, um sub-céu incorporado à curva do meu ouvido; segundo Rimbaud, um vento de diamantes.”

NOS PLATÔS DE HATOUM 

Haveria, pois, de ler um monte de livro de tanta gente premiada nos últimos 20 ou 30 anos, ficção brasileira contemporânea, o trabalho de escritores heroicos num país mal-educado. Não faria outra coisa, é livro pra chuchu. Então, devagar. Não tenho a vida ganha nem mais tanto tempo assim.

Procuro pisar em chão firme e fugir da areia movediça da pura metalinguagem e das correntes mais radicais e estéreis do pós-modernismo. Volto, portanto, a Milton Hatoum, ao planalto onde se avista facilmente “Dois Irmãos” (2002) na paisagem aberta dessa literatura há duas gerações. Repasso “Cinzas do Norte” (2005), atravesso os contos — em geral, leves e ensolarados — reunidos em “A Cidade Ilhada” (2009) e, como digo acima, chego “Ao Lugar mais Sombrio” (2017), saltando desta vez “Órfãos do Eldorado” (2008), tudo nas últimas duas semanas.

Não faltam luz e brandura à prosa de Hatoum, à voz de seus narradores, na busca perseverante da narrativa através de paisagens escuras, pantanosas, tantas vezes sinistras entre a razão e o desvario. Essa essência de uma escrita que não despreza o diálogo com a tradição para mim ainda vai bem melhor que a infinita derivação linguística a se exibir no interior de sua bolha.


 
O SUICÍDIO CONTIDO

Releio “Uma Leitura Dissidente de Shakespeare”, ensaio de George Steiner incluído no livro “Nenhuma paixão Desperdiçada (Record, 2001)”. “Ich mag es nicht” (não gosto), Steiner cita Wittgenstein sobre “Rei Lear” e outras obras do Bardo, a quem, como quer o professor Harold Bloom, devemos atribuir nossa própria humanidade literária. Tolstói era outro célebre não chegado à saga das irmãs Cordelia, Goneril e Regan e seu pai debilitado.

Sobre o alcance superior da música em relação à literatura na elaboração mental do filósofo austríaco, autor do “Tractatus”, Steiner comenta que ele “confidenciou a Norman Malcolm — também filósofo, aluno e notório amigo — que o movimento lento do “Terceiro Quarteto de Brahms” havia, por duas vezes, evitado que ele se suicidasse”. Como se sabe, três de seus sete irmãos — Karl (afogamento), Rudolf (cianureto) e Kurt (tiro) — não tiveram a mesma iluminação.


A LITERATURA DO DESEJO

Em um ensaio luzidio, com o título da nota, que leio em espanhol, Ian McEwan diz que, depois de séculos e séculos em que o desejo, o sexo, o amor e o casamento foram o assunto dominante da poesia e da prosa, pela centralidade evolutiva do prazer na vida humana, e a paixão entre o mesmo sexo era encoberta e amaldiçoada, deve ser inevitável que o romance comece a retratar a nova e interminável demarcação dos gêneros, mas que essa missão demandará uma alta carga de talento.



JOÃOGILBERTIANAS

Recomendei aqui a aula informal de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto em seu programa da Rádio Batuta. Logo depois o site da “Piauí” botou no ar uma verdadeira “master class” de Arthur Nestrovski. Em quatro vídeos curtos, o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta a revolução joãogilbertiana na ordem do samba e do samba-canção, na maneira de cantar e tocar violão, o resgate inventivo que ele faz de compositores esquecidos e seu legado de um país da delicadeza. “João Gilberto é um daqueles”, diz Nestrovski, “em que primeira sílaba, o primeiro compasso abrem um mundo. Basta ele dizer uma palavra e a gente já está tragado para aquele mundo de João Gilberto. Isso tem a ver com uma capacidade única de infundir, não só de sentido, mas de afeto tudo que ele canta.” E a “Folha” estreou a série de vídeos “Ao Pé do Ouvido” muito bem, com o programa “João Gilberto: entenda a escola de samba do seu violão”, com ótimas ilustrações animadas sobre a divisão do canto quase falado em que a melodia negaceia genialmente com a harmonia.

 
TUDO A VER

Nestrovski, professor, músico e compositor, violonista clássico requintado, com várias gravações que incluem os belos álbuns “Jobim Violão” (2008) e “Chico Violão” (2010), acaba de lançar “Tudo Tem a Ver” (Todavia), coletânea de seus ensaios que relacionam música e literatura. Devo comentar o livro na próxima Jurupoca. 



BARULHO E REDENÇÃO

Minha autoconsciência é um crânio oco e rabugento. É o que dá muito ler, escrever e mentar. É o que dá a música bolsonarista de furadeiras nas paredes do meu condomínio eternamente em obras. O nível de ruído em qualquer cidade brasileira é absurdo, no trânsito, no falar gritado, no volume calamitoso da música — mais uma vez e inevitavelmente também bolsonarista — nas festas, com potência é suficiente para cobrir todo um distrito.

Saio escangalhado de casa na hora do almoço, na algaravia de escolares na troca de turnos. Procuro ruas menos barulhentas para chegar ao parque. Não consigo ouvir música, como faço sempre ao andar, nem pensar em nada.

Na primeira volta no parque olho o céu através das copas de mulungus, cutieiras, tamarindos, mognos, paus-reis, assacus, gameleiras, e nessas sombras abençoadas tento ouvir os passarinhos. É batata.

Logo retomo alguma capacidade mental, então volto a querer escutar música. Que seja algo propício à hora, alguma pedagogia mais difícil sobre o som e o silêncio. Consulto os álbuns salvos no Spotify e toco as obras para piano de Schoenberg com Florent Boffard. Se não é redenção, é consolação, o que me lembra o melhor programa de TV já feito, a série holandesa “O Belo e a Consolação”, ainda insuperado.
 



NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (1/2)

Conferindo assinaturas no YouTube me entretenho com Fred Hersch e Anat Cohen, com um álbum em duo editado ano passado. Tocam a linda “Child’s Song”, de Hersch, e que tal? aqui, “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. Quase morto pela Aids nos anos 1990 e recuperado, o pianista começou a compor uma música numinosa, que parece acessar as esferas mais altas da harmonia.

Por falar nisso, a melhor expressão musical de gratidão que conheço, literalmente dedicada a “uma graça alcançada” é o “molto adagio” do “Quarteto nº 15 op. 132” de Beethoven — se isso não é milagre, não quero saber o que é, mas creio que também possa evitar que um coração movido pela dimensão estética da vida cometa suicídio. 

NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (2/2)

Ainda outro dia, quando não havia streaming e sofríamos para importar discos — uma compra era retida nos Correios e pagava-se o dobro do preço para retirá-la — consegui a duras penas a caixa com 3 CDs “Song Without Words” (2001), que ouço sempre, e mais tarde o “Fred Hersh Plays Jobim” (2009). Vê-lo no palco, sereno e contido, aparentemente até meio distraído ao piano, com uma clarinetista tão expressiva, expansiva e afeita à música brasileira como Anat Cohen, que toca com uma alegria de fábula, é um deleite, um luxo só. Eu a vi em BH, há dois anos, apresentando com o sete cordas Marcello Gonçalves o estupendo álbum “Coisa” (2016), com transcrições da obra de Moacir Santos feitas por Marcello. Anat, israelense baseada em Nova York, de uma família de músicos, trabalha feito maluca, roda o mundo sem parar e parece se divertir incrivelmente com a música.


“Refugiados 4” (2015), de Liu Xiaodong, pintura que retrata refugiados sírios na Ilha de Lesbos,  Grécia.Crédito: Liu Xiaodong e Massimo De Carlo/Reprodução do “The New York Times”

REFUGIADOS (1/2)

 Jason Farago, no “The New York Times”, escreve sobre a mostra “The Warmth of Other Suns” (“O calor de outros sóis”), em cartaz na Phillips Collection, em Washington. Obras de 75 artistas retratam a emigração ou ecoam de alguma forma o deslocamento de pessoas no mundo, em um século de história. Farago começa por citar o ensaio de 1943 “Nós, os Refugiados”, de Hannah Arendt: “O inferno não é mais uma fantasia ou crença religiosa, mas alguma coisa real como as casas, as pedras e as árvores”, ela escreve. “Aparentemente ninguém está interessado em saber que a história contemporânea criou um novo tipo de seres humanos — o tipo dos que são postos em campos de concentração pelos seus inimigos e nos campos de internamento pelos seus amigos.” O que mudou? A ONU estima em 25,9 milhões o número de pessoas refugiadas, hoje, no planeta, a maior população registrada desde a Segunda Guerra Mundial. Crianças são mais da metade. O número chega a 70 milhões, se incluídos os deslocados dentro das próprias fronteiras. Mas o ponto central de Farago é que não há arte e cultura modernas sem exílio e emigração. Entre os artistas expostos em Washington — a proposta da exposição, inequivocamente política no governo Trump, o que dificultou sua organização — estão Anna Boghiguian, um armênio nascido no Egito de vida Nômade, o chinês Liu Xiadong, que montou um estúdio na ilha de Lesbos, na Grécia, onde desembarcaram milhares de refugiados, o diretor de cinema belga Chantal Akerman,o fotojornalista mexicano Guilherme Arias, e por sinal também Mark Rothko (nascido Rothkowicz), cuja família escapou de pogroms na Rússia imperial.
 

REFUGIADOS (2/2)

 Farago diz que, se assim desejassem, os curadores poderiam promover outra grande mostra apenas com obras primas de artistas obrigados a fugir de seus países. Lembra nomes como Marc Chagall, Piet Mondrian, Oskar Kokoschka, Max Ernst, Max Beckmann, Robert Capa, Lucien Freud, Eva Hesse, Dinh Q. Le, Ibrahim el-Salahi e Ai Weiwei. Refere-se ao que disse Edward Said, o filósofo e ensaísta palestino refugiado e radicado nos EUA, “em larga medida, a moderna cultura ocidental é a herança de emigrantes e refugiados”. O cinema americano não seria o que é sem Billy Wilder (austríaco), Fritz Lang (austríaco), Marlene Dietrich (alemã) e Milos Forman (tcheco), nem o desenho sem a influência da Bauhaus, incluindo Walter Gropius. A longa lista de escritores vai de Thomas Mann (alemão) e Vladimir Nabokov (russo) a Milan Kundera (tcheco). “Os refugiados fogem de país para país representado as vanguardas dos seus povos — se mantiverem a sua identidade”, escreveu Hannah Arendt no texto de 1943, com a frase citada parcialmente por Farago. O crítico do “Times”, a certa altura, abre o foco da questão numa eloquente panorâmica:
 

Entretanto, grande parte da arte, do cinema e da literatura sobre a crise atual representam erroneamente o refugiado como um estranho no Ocidente. Mas as história de guerra e deslocamento forçado moldaram, de fato, a civilização ocidental, desde a “Eneida”, de Virgílio. A história da origem de Roma é uma história da migração mediterrânea, que parte da costa da Anatólia, ponto de partida de muitos dos refugiados sírios de hoje, e pressagia outras sociedades fundadas por emigrantes, evacuados, refugiados e estrangeiros. Moisés, Jesus e Maomé eram refugiados. A festa de Ação de Graças é uma celebração dos refugiados, que fugiram da Inglaterra para os Países Baixos e depois a Plymouth Rock.




ESCOLHAS DO AEON

Separei dois textos do site Aeon, entre os que li de uma Jurupoca a outra. Martin Rees, professor emérito de cosmologia e astrofísica de Cambridge, pondo o pescoço para fora, como diz, explica tintim por tintim por que ciência dificilmente chegará a formular uma teoria de tudo, de toda a ordem do universo, e o reducionismo começa a gaguejar. Em “Black holes are simpler than forests and science has its limits” (“Buracos negros são mais simples que as florestas e a ciência têm seus limites”, ele escreve: “Podemos esperar grandes avanços em três fronteiras, o muito pequeno, o muito grande e o muito complexo. Entretanto (…), meu palpite é que há um limite para o que podemos compreender. Esforços para entender sistemas muito complexos, como nossos cérebros, podem bem ser os primeiros a atingir esse limite”. Para dar um passo além, especula, a ciência precisará recorrer a máquinas mais inteligentes. O outro artigo, mais divertido, “Being and drunkenness: how to party like an existentialist” (Ser e embriaguez: como festejar como um existencialista”), Skye C Cleary refaz as peripécias etílicas (respectivamente, uísque e vodca), dançantes e sexuais de Sartre, Simone de Beauvoir e sua turma, confronta seu hedonismo com a doutrina existencialista e, claro, o preço que tiveram de pagar por seus hábitos, incluindo ressacas, combatidas com anfetaminas, e cirrose, no caso de Beauvoir. Cleary conclui que nossos heróis festeiros da Rive Gauche não deixaram de ser existencialistas. Sempre se mostraram lúcidos sobre as consequências de fazer o que bem entendessem.


NOVELA DAS SETE

 Álvaro Costa e Silva, colunista da “Folha” no Rio, tem a leveza na escrita dos melhores cronistas. “Zeca Pagodinho, de forma sincopada e caprichando na divisão, e Teresa Cristina, sempre elegante, cantando em dueto o samba de Cartola e Elton Medeiros: ‘Finda a tempestade/ O sol nascerá’. Há muito tempo um tema musical de abertura de novela não exibe tanta qualidade e, de lambuja, lança uma ponta de esperança de que o pesadelo de estupidez em que o Brasil mergulhou um dia vai passar”, escreve o jornalista, autor do “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”. O texto me chamou atenção justamente porque eu também havia achado um refresco o tema de “Bom Sucesso”. Ele prossegue:

“Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm, é uma atração estranha e extemporânea em sua delicadeza. Outro dia, no meio de um diálogo banal, surgiu uma citação de… Cecília Meireles! Os dois protagonistas estão ligados, ora vejam, pelo amor aos livros. Antonio Fagundes faz um editor da velha guarda, que se recusa a publicar porcaria e, claro, está à beira da falência. A costureira Grazi Massafera cuida, sozinha, dos três filhos — e ainda encontra tempo para dedicar-se aos clássicos da literatura.”

 
O texto me encorajou a olhar um capítulo de novela, o que não fazia desde “O Bem-Amado” ou “Roque Santeiro”. Tem dó. Louvo o amor aos livros que a novela embebe, oxalá o transmita a milhares de telefãs. Mas na era dos seriados de altíssimas qualidade é duro de engolir o “naturalismo” preguiçoso na escala industrial das novelas.

O tal editor “interpretado” por Fagundes, que tem os dias contados, lembra… Antonio Fagundes em uma entrevista a Marília Gabriela, ou num comercial qualquer. A cena a que assisti, em que ele recomenda à sua acompanhante a leitura de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, parecia uma aula do “Telecurso 2º Grau”. Cadê um Pedro que fazia dupla com Bino em “Carga Pesada”? Já a linda Massafera é uma atriz fraquinha. 



O LIXO EMBURRECE

O NiemanLab, de Harvard, levantou uma série de estudos que parecem comprovar o que a intuição sugeria não é de hoje. Assistir habitualmente ao lixo televisivo ofertado pela TV por assinatura ou aberta, com atrações concebidas para entreter chimpanzés, torna as pessoas literalmente mais burras e propensas a votar em candidatos populistas. Um dos estudos citados, produzido com rigor por especialistas noruegueses, estimou que pessoas expostas por dez anos à TV a cabo com atrações “lowbrow”, desde que o serviço foi introduzido em uma localidade do país, foram rebaixadas 1,8 ponto nos testes de QI. 
 
 

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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