Jurupoca #6

ÚMERO 6 — SETEMBRO, 13 2019


“Deus é um roteiristas medíocre, quase cinquenta anos de existência me levaram a essa convicção, e da maneira geral Deus é um medíocre, tudo em sua criação tem o selo da imperfeição e do fracasso, quando não da pura e simples maldade, claro que há exceções, necessariamente tem que haver, a possibilidade deve subsistir nem que seja como isca, enfim, estou divagando, voltemos ao meu tema, que sou eu mesmo, não que seja especialmente interessante, mas é o meu tema.

Michel Houellebecq em Serotonina, p. 123-124, Alfaguara, 2019. Grifo do original.


“Não sou só um cachorro, também sou seu autor e todos os que me contemplam, pois sou antes de tudo pintura, já que sem ela eu não existiria!

Fecho do ensaio O cão de Goya, de Antonio Saura, Serrote # 27, 2017Goya, Perro semihundido, 1820-24. Óleo transferido de mural para tela. Museo Nacional del Prado, Madri.

Opa. Vamos apear?

Há 200 anos, Goya mudava-se para a Granja del Sordo,
onde iria pintar o que há de mais soturno na arte espanhola

Cada um de nós pode ter um pequeno museu particular na teia neuronal. Tenho cá o meu, e é ele que se abre e me visita, ao léu, não o contrário.

Algumas das Pinturas negras de Goya, por exemplo, tomam amiúde essa iniciativa. Iluminam-se de repente e se insurgem. Pedem que as veja para que eu me recorde, emende, reconheça, ou apenas tente compreender que o jogo entre luz e trevas é uma constante no mundo.

Penso agora no Perro semihundido (Cão semiafundado), velho camarada, como se verá, e no Duelo a garrotazos (Duelo a bordoadas), obras que copiei do Museu do Prado sem que percebesse.

Como todo mundo sabe, as Pinturas negras foram retiradas das paredes da Quinta del Sordo, uma casa de campo nos arrabaldes de Madri, e remontadas em tela.

Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) obtém a escritura dessa chácara do surdo, pela qual desembolsara 60 mil reales, e muda-se para lá em 1819, há 200 anos portanto.

O pintor andava realmente surdo, fraco e, como homem de valores liberais, triste com os rumos da política reacionária de Fernando VII. No ano seguinte ele começaria a pintar a série mural da casa.

O que talvez nem todo mudo saiba, eu não sabia antes ler a biografia de Robert Hughes (Goya, Companhia das Letras, 2007), me preparando há alguns anos para uma viagem a Madrid, é que sob a noite fria da série aterrorizante de pinturas havia luz e calor.

Estudos radiográficos revelaram paisagens “luminosas e líricas”, diz Antonio Saura (já chego a ele), “tendo o pintor transformado abruptamente essa amável companhia num espaço de terror e de pesadelo”.

Conforme Hughes, era “relativamente pastoral” o tema das pinturas originais, criadas para decorar e embelezar a casa. Sob o canibal Saturno devorando o próprio filho, por exemplo, encontrava-se uma silhueta dançante com um pé erguido.

Hughes especula se as imagens da Quinta del Sordo possam ser entendidas como “protestos contra o absolutismo vacilante e injusto” que reinava na Espanha.

Mas dificilmente Duelo a bordoadas e, ainda menos, Perro semihundido, seriam apenas representações políticas. Vão muito além disso.

Para o crítico australiano, “o anseio aterrorizado daquele cachorro por segurança e por seu dono ausente é a miséria do homem num mundo sem consolo do qual Deus se retirou. Não sabemos o que significa, mas seu pathos nos comove a um ponto inenarrável”.

O melhor texto que pude ler sobre o cão de Goya é o ensaio do artista espanhol Antonio Saura (1930-1998), publicado originalmente em 1996 e traduzido na Serrote #27 (2017), com ilustrações do próprio Saura — a séries Retratos imaginários de Goya e Cães de Goya, compostas ao longo de quase quatro décadas.

Esse autor produziu uma investigação profunda, crítica e metacrítica, filosófica e pictórica sobre o Perro semihundido. O ensaio tem como epígrafe Emily Dickinson: “A dor se parece com um grande espaço.”

Ele diz que as Pinturas negras são o que há de “mais assombroso” em toda a arte espanhola, “e um dos exemplos de expressividade mais significativos e extremos da história da arte, antecipando-se de forma magistral a conceitos expressivos que só no século seguinte se manifestarão de verdade”.

O conjunto de pinturas da Quinta del Sordo não se destinava a mais ninguém que não o próprio Goya, ajuíza Saura. “São uma ilha na história da arte: não se coadunam sequer com a arte pela arte, mas com a arte para si mesma. Forma destinadas exclusivamente ao seu próprio destino”, define, acrescendo que são “libertárias porque não haviam sido condicionadas pelo juízo alheio nem destinadas a ser julgadas, admiradas e entendidas”.

O artista-ensaísta revela um fôlego prodigioso ao percorrer talvez mais de 20 interpretações distintas e conflitantes sobre o mistério do cachorro perdido. Como vemos o animal no quadro?

Encoberto por um barranco, talvez atolado na areia movediça, quem sabe a imergir na lama ou num rio, contraposto a um espaço infinito entre amarelo e dourado, tem a cara erguida, sutilmente virada à direita da tela, e o olhar melancólico dirigido a alguma coisa que surge ou se esfuma no céu.

“(…) é evidente o espírito subterrâneo que é ao mesmo tempo racional e anima essas pinturas dominadas por uma reflexão melancólica sobre a existência e o aniquilamento provocado pelo tempo”, diz Saura numa passagem, enquanto percorre a, por assim dizer, fortuna crítica das Pinturas negras, detendo-se no quadro do cão.

Passo ao largo da análise puramente plástica e pictórica do quadro elaborada por Antonio Saura para destacar algumas das análises a que o autor recorre para enfrentar os mistérios que cercam o Perro Semihundido.

Priscilla E. Muller contesta os intérpretes que veem o cão como a representação do animal a proteger seu dono, baseados no fato de que a imagem original ficava na parede contígua ao quarto do artista na Quinta del Sordo, ou mesmo Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada do mundo dos mortos.

Nesse caso, crê-se que Goya, decrépito, se sentia mais pra lá do que pra cá. A autora prefere pensar que a expressão do cão, com seu olhar um tanto desorbitado, denuncia para quem a vê uma aparição, um testemunho. “Essa aparição poderia indicar uma forma de despertar, um reencontro com a luz da realidade para dissipar as horrendas criaturas engendradas pela escuridão no abandono da razão e da inteligência.”

Para Diego Angulo, a chave para as Pinturas negras é Saturno, em seu duplo significado de deus da melancolia e da morte. Ele se pergunta se o próprio Goya na velhice não teria consciência de estar sob seu domínio ao conceber as pinturas da sua casa e a maioria de suas gravuras.

A melancolia é regida por Saturno, me ensinou Moacyr Scliar em “Saturno nos Trópicos” (Companhia das Letras, 2003). Soturno, corruptela de Saturno, é o ser melancólico. Saturno no corpo humano rege o baço, sede da bile negra.

Historiador da arte e um ex-diretor do Prado, Angulo diz que o cão nos leva a tocar o “triunfo sombrio” e “a vitória da ignorância sobre a ilustração”, o que é grandemente evocativo sobre o mundo em 2019.

“É a ideia da fatalidade da morte que, unida à barbárie humana, inspira o Duelo a bordoadas e o Cão condenado a morrer enterrado na areia”, escreveu.

O quadro em essência é uma obra mediúnica, “na qual a imaginação do pintor toca sutilmente para ressuscitar com angústia formas perdidas nas trevas através do Gênese”, interpretou André Malraux. Saura elege esse ensaio do autor de A condição humana como o mais bonito já publicado sobre Goya.

Para quem ou o que olhará nosso cão? Não se sabe. Trata-se, pode até ser, de um ato de “devoção associado ao sentimento de fidelidade”, considera o historiador da arte alemão Fred Licht, para quem essa pintura é a mais “eloquente e surpreendente do conjunto”; quem sabe o animal ainda espera que seu dono regresse?

O fato é que está perdido e sem salvação. Este ensaísta considera a cena “uma espécie de intriga em suspenso, uma eterna e fútil esperança como única função vital no vazio.”.

O filósofo, poeta e novelista italiano Guido Ceronetti entendeu que “na súplica percebida na imagem manifesta-se uma visão da condição humana que nenhum paradoxo teológico, nenhuma luz metafísica poderia pacificar, já que só expressa solidão, privação e necessidade.”

É a imagem de nós mesmo, diz Saura, para completar a citação desse escritor, “e essa areia, ou essa outra coisa em que o cachorro está afundando, é a vossa casa, a vossa cidade, a vossa indigesta história nacional, o mundo, a esfera da vida, o sistema solar, a vida e o sonho da vida. Como eu poderia esquecer esse olhar canino, tão pequeno dentro do imenso furor das Pinturas negras, se é o meu próprio olhar?”

Já Artur Lundkvist, escritor e crítico literário sueco, opina que talvez Goya tenha visto a si mesmo, ou uma pessoa qualquer, no destino do cão, “sem esperança nem possibilidade de salvação.”

Pois o jornalista e historiador norte-americano Richard Schickel vai nessa mesma linha, mas direto ao ponto, ao expressar o que andará pelo coração de quem contemple este quadro:

“Não podemos deixar de pensar que é talvez o último autorretrato de Goya, e nele o artista teria representado, mais que sua pessoa, seu espírito se debatendo com uma energia voluntariosa para escapar da submersão final.”


O que leva um artista a “decorar” o interior de sua casa com cenas mortificantes como as Pinturas negras? Justamente, eis a pergunta que fascina biógrafos de Goya e os críticos de arte que se enfronharam nessa inestimável herança da humanidade. O ensaio de Antonio Saura nos dá um amplo panorama de toda essa busca.

Imagino que o privilegiado que rompesse o retiro do artista e visitasse a quinta podia lembrar-se da frase que Dante esculpiu na porta do inverno: “Renunciai a qualquer esperança vós que entrais”. Não há esperança, não há consolação. É isso aí.

Ao escrever um post no JS, há alguns anos, já no final do texto recebi a visita de Goya, quero dizer, de uma obra do pintor.

A tela se iluminou numa projeção desde o museu do eu, de que falava no primeiro parágrafo. O cão se aproximou de mansinho e se colocou ao meu lado.

Compungido, me confessei, nas raias da autoficção. Três anos depois, tive que atualizar aquele registro confessional com uma entrada no diário, como se segue.


Trecho do post de 25.jul.2016

Entre e o verão e o outono de 2015, a morte partiu minha família. Cúmulos-nimbos da Indesejada se fixaram em nosso céu com a nitidez de um quadro de Goya. Diante do céu que se instalou entre nós, sou o cão de Goya, a indagar inutilmente as sombras que se formaram. Tenho dois irmãos vivos. Outros dois nos deixaram quase ao mesmo tempo: Alfredo, que contava 64 anos, a 16 de abril, em consequência de um AVC hemorrágico que o desfez durante uns 70 dias num leito hospitalar; um mês antes, aos 61 anos, Edna Marta, não sabemos bem por que nem de quê.  

Entrada do diário de 27.jan.2018 (noite, breve atualização)

O cão de Goya, então, mais que um visitante inopinado, hoje vigia minha insônia. Anteontem, o céu oscilava repartido entre o azul, o cinza e o amarelo.

Esperava há algumas horas no interior de um hospital na horrível periferia de Nova Lima, ou nos aforas de Belo Horizonte, dá igual, onde a presença humana conseguiu luxuosamente, ao peso de milhões, destruir toda a harmonia da paisagem natural.

Por volta das três da tarde, um médico intensivista com o avental verde em desalinho e a máscara abaixada no queixo nos chamou e nos conduziu a uma saleta já dentro do CTI.

Esperamos cerca de meia hora, como se tivessem nos transportado para um planeta inóspito, antes que o doutor se dignasse a retornar para comunicar o que sabíamos. Cansado de esperar, andara até onde estava o corpo, submetido a cuidados terminais.

A luz de Joviano tinha se apagado, seu organismo não suportara a progressão fulminante de uma infecção que os médicos não conseguiram diagnosticar nem controlar. Estava há poucos dias de fazer 69 anos.

Pues mi perrito, cariño, lo sabes. Pero hasta aquí todo bien.   

Bordoadas

“Duelo a bordoadas”, pintado no mesmo andar da quinta na qual ficava o Perro, mostra dois homens com roupas velhas e barrentas chafurdados numa disputa feroz que só terminará na morte de um deles ou de ambos.

Estão rente à tela, um tem o rosto ensopado de sangue, outro ergue o braço para se defender de um golpe. O cenário, de uma luz crepuscular e fria, lembra os ermos das terras de alguma fazenda. Por que se batem? Nunca saberemos.

“Mas alguém que olhasse para esse quadro em 1820 poderia muito bem relacioná-lo com o sofrimento generalizado na Espanha” — escreve Hughes — “com aquele mundo homicida de liberales e de Anjos Exterminadores, em que alguns homens massacravam outros atrás do muro da cidade ou do chiqueiro por causa de sua lealdade a um rei absoluto mas imprestável.”

Por outro lado, ele considera, entre outras linhas de interpretação, que talvez Goya “quisesse apenas criar uma imagem de agressão masculina irracional, autoprogramada”.

Goya nos dá o que pensar ainda agora. A praça pública planetária das redes sociais ecoa todos os vícios da democracia e suas virtudes mais estreitas. Os participantes confortam-se em ditar juízos, bordoadas, não almejam consensos nem clamam pela verdade, além da própria.

Mas será que isso tem importado de fato à humanidade, ao menos a quem tentar ler pensar? O deslumbramento reinante me leva a crer que não.

Na Quinta del Sordo, Goya — repetindo Antonio Saura — praticou a arte para si mesma. Mas não é assim que muitas das grandes obras perduram, encantam e intrigam geração após geração? Talvez seja esta, sim, a melhor chave para sempre voltarmos as Pinturas negras.


Goya, Duelo a garrotazos, 1820-4. Óleo transferido de mural para tela. Museo Naconal del Prado, Madri.

SELFISMO, NARCOSE NARCÍSICA

Narciso vem de narcose, entorpecimento, diz Marshall McLuhan, ao associar o mito à ideia fundadora dos meios de comunicação como extensão do homem, título do seu livro de 1964, traduzido no Brasil por Décio Pignatari.

Narciso “havia-se adaptado à extensão de si mesmo e tornara-se um sistema fechado.” O canadense, proclamado pela revista Wired o “santo padroeiro da era digital”, mostra que Narciso não está vidrado por si mesmo, mas sonado, baratinado pela própria extensão, como ficam os dependentes de selfies.

“E não deixa de ser um sintoma bastante significativo das tendências de nossa cultura marcadamente tecnológica e narcótica o fato de havermos interpretado a história de Narciso como um caso de autoamor e como se ele tivesse imaginado que a imagem refletida fosse a sua própria!”, ele escreveu há uns 60 anos.

Surge uma nova tecnologia midiática e seus gadgets, e a pessoa se perde, fascinada, fora de si. A imagem usada por McLuhan é a da autoamputação. A mania ou o vício selfístico, se me dão licença, tem a ver com isso.

A pessoa não se percebe à mercê da técnica e do aparato. Daí pode ocorrer que não consiga ver mais nada, quadro, pintura, paisagem, nem ler em profundidade. Como o viciado que toma sua dose de crack, o selfista (se me dão licença de novo, prometo não abusar) vai tentar se satisfazer com a próxima selfie, a próxima autoimagem captada e disparada nas redes para seu autodeleite, que afinal não é tão deleitoso assim.

McLuhan também emprega a imagem do luto, quando perdermos alguém da família e nos sentimos amputados em nosso ser. E recorda o “salmista hebreu” (Salmos 115: 23-8) na passagem sobre o idólatra de ouro e prata que se transforma no objeto idolatrado.

Nas palavras de McLuhan,


“O homem de uma sociedade letrada e homogeneizada já não é sensível à diversa e descontínua vida das formas. Ele adquire a ilusão da terceira dimensão e do ‘ponto de vista pessoal’ como parte de sua fixação narcísica, excluindo-se assim da consciência de um Blake ou do Salmista, para os quais nós nos transformamos naquilo que contemplamos.”  

INFERNO NARCÍSICO

Os verdadeiros humanistas, cultos e preparados para remar contra a maré sedutoramente, desapareceram quase todos da imprensa pátria. Que alguém com menos de 50 anos ouse ler e pensar em profundidade é quase milagroso, ainda que seja um português e mande seus textos de Lisboa.

Digo isso para saldar mais uma vez João Pereira Coutinho, colunista da Folha. “O turista moderno passa horas e horas nas filas para comprar ingressos. Quando finalmente está na presença daquele quadro, daquele vitral, daquela escultura, o turista demora cinco segundos, talvez dez. Não para contemplar a obra depois de uma longa espera; para tirar um selfie com ela”, descreve o professor de política (a Ilustrada, coitada — que no domingo em que escrevo essa nota traz na capa um texto espetacular sobre a volta do “pornô light” à TV aberta, com o qual, ninguém duvida, o jornal ganhará centenas de milhares de cliques valorosos — ainda tem um Mario Sergio Conti, pelo menos).

Coutinho fazia um relato de suas férias na Itália em agosto, auge do verão europeu, e conclui: “O turismo de massas não é apenas um inferno físico; é um inferno narcísico, em que o viajante nunca sai verdadeiramente de si próprio para se render a algo que é melhor, mais belo e mais importante do que o seu patético sorriso.”

Batata. Sobre o tema, vou me estender em “A Arte da Viagem”, o livro que devo lançar em alguns meses.

O TANGO DA SEROTONINA

Michel Houellebecq humaniza com maestria a alma perdida de uma vítima de sua época, o pobre diabo “perdedor” que pensa em se jogar nos trilhos do trem.

Seu Florent, narrador de Serotonina (Alfaguara, 2019), me lembra nas passagens mais vivas o Holden Caulfield do Apanhador nos campos de centeio e o Ferdinand Bardamu de Viagem ao Fim da Noite, ainda que Houellebecq não tenha a genialidade de Salinger e Céline.

O miserável Florent, um agrônomo respeitado enquanto aguentou o trampo, tem grana e namorou muito antes de se arruinar e perder o desejo, e desse lugar remói o passado e costura seu fim. Perto do meio século de vida, ainda não é gente grande nem vai ser, como tanta gente.

Inepto para construir uma relação adulta, apenas vislumbra o amor, estragado pelo machismo e a pornografia, como tantos homens. Sua decepção com Proust e Thomas Mann, já no final do livro, em favor de Conan Doyle, é brilhantemente patética, e sintomática sobre a infantilização do mundo.

O estofo cultural europeu e a mente aguda não o pouparam da vacuidade. Houellebecq culpa hiperbolicamente os antidepressivos (Florent toma altas dose de Captorix, no romance um inibidor seletivo da recaptação da serotonina up to date, donde o título do livro) pela destruição da libido, e até, perigosamente, pela destruição do caráter, como a sugerir que a indiferença da apatia leve alguém a se aproveitar de um flagrante de pedofilia, e simplesmente não chamar a polícia.

Com Florent, Houellebecq fustiga a social democracia europeia em crise, a torturante burocracia de Bruxelas para o velho modo de ser da França profunda, e ridiculariza o politicamente correto e a idiotia reinante no mundo do consumo e do entretenimento vulgar.

Regredimos, diz o narrador, à fase oral, e uma prova disso são os onipresentes shows de culinária que dominam na TV, ou a restauração como sucedâneo da arte. É um ótimo livro.

Depois de minha decepção com Partículas elementares, de 19991, talvez eu me atualize com Houellebecq. Uma obstáculo é sua obsessão com o sexo e o mundo pornô, por mais que se entenda seu realismo.

Freud, inteligentemente, é referido por antonomásia como “o fantoche de Viena”. Algumas passagens de Serotonina me fizeram admirar o juiz americano da Suprema Corte no início do século passado, Oliver W. Holmes Jr, grande defensor da liberdade de expressão. Aos 90 anos, ele pediu a uma secretaria que lesse para ele O amante de lady Chatterley”, de D. H. Lawrence, e a certa altura a interrompeu: “Filha, não vamos acabar este livro, sua chatice não é aliviada por sua pornografia”.

Não à toa, Serotonina se refere obliquamente à História do olho (Cosac y Naify, 2003) de Georges Bataille. Mas Bataille sabia se impor, como artista, sobre as fantasias sexuais mais escatológicas de nossa espécie.

História do Olho põe a pornografia no devido lugar, que é o do rendição à brutalidade, à impotência da imaginação, à incapacidade da fantasia, além da diminuição da vontade.

ARTE EM OBRAS

Beatriz Sarlo, esta grande crítica literária argentina, com sua escrita na cadência da própria respiração e fala, o que é raro e admirável, narra nesta crônica (El arte de instalar) com a ironia dos sábios a experiência desconcertante que a fez, ao visitar um centro de cultura em Buenos Aires, confundir uma estrutura em obras com uma instalação artística, logo ela que já viu de tudo em décadas de esforço analítico para tentar elucidar mirabolâncias como aquelas de Damien Hirst, aludindo aos cadáveres de bichos a apodrecer em caixas de aço e vidro.

Y, con todo este entrenamiento que, debo decirlo, nunca fue tedioso, el domingo pasado confundí a un grupo de operarios con una performance. Se me habían cruzado las líneas del ‘arte’ y la ‘vida’, porque ya estaba acostumbrada a que muchos artistas las cruzaran”, ela diz, para concluir: “Lo que al principio fue una revolución estética se fue convirtiendo en una repetición academicista.”


Esforço maior que o de Sarlo exige-se dos curadores para escrever apresentações em que, desde o álibi da prosa poética, torturam cruelmente frases e conceitos impensáveis para nos explicar como e principalmente porque devemos valorizar obras como cabos de vassoura encostados em paredes, atrações que atraem multidões às grandes galerias do mundo e aos leilões de arte em Londres e Nova York.

CONSERVADORISMO E ATRASO

Na carta anterior, dizia que o conservadorismo defendido por Roger Scruton não pode ser entendido sem se ter em conta a história política e cultural inglesa, com direito costumeiro e tradições tão arraigadas quanto os seus gramados.

O quiproquó atual com o não faz nem sai da moita do Brexit ilustra o inferno que podem ser os mecanismos seculares de deliberação política, que ainda hoje pedem bênção à rainha.

“A mãe de todos os Parlamentos é uma anomalia. Sem conseguir depor a monarquia após uma revolução fracassada, no século 17, e sendo uma potência imperial em vez de ter passado por uma guerra de libertação, o Reino Unido nunca teve um momento de fundação constitucional”, escreve James Butler no The New York Times, em artigo traduzido pelo Estadão.

“Isso traz consigo um peso conservador muito forte. Sob essa pompa ritualística, o Parlamento tornou-se muito poderoso ao longo dos anos. Um premiê com uma maioria confortável, como Margareth Thatcher e Tony Blair, pode refazer o país. Mas, sem uma maioria sólida, o Parlamento resiste ao líder mais ambicioso.”

Bem, o que eu queria dizer, a respeito das leituras equivocas de Scruton no Brasil por certa direita, é que fui buscar, lendo Elio Gaspari, a passagem de um artigo de Fernando Henrique Cardoso que esclarece o eu que falei sobre ser inconcebível conservar miséria e iniquidade, em outras palavras, o conservadorismo brasileiro só consegue atender ao reacionarismo do prefeito do Rio de Janeiro e seu eleitorado pentecostal, quanto tenta proibir, em nome das criancinhas, revistinhas de super-herói: 

Sobre a “esquerda” e a “direita” no Brasil, há anos eu repito a frase que ouvi do historiador Sérgio Buarque de Holanda quando examinava uma tese de livre-docência sobre a política brasileira no Império. No trabalho, o autor confrontava o pensamento liberal, o conservador e o progressista. Sérgio, referindo-se a um personagem simbólico de nossos conservadores naquele período, perguntou com certa ironia ao candidato: você acredita que Bernardo Pereira de Vasconcelos lia Edmund Burke (um clássico do conservadorismo inglês, que via com maus olhos a Revolução Francesa)? Não, respondeu o próprio Sérgio, ele não era um verdadeiro conservador, não defendia ideias; ele era apenas um “atrasado”.

FESTA

Esta Jurupoca não pode deixar de celebrar a queda espetacular, ainda que provisória, de Matteo Salvini na Itália, e as trapalhadas de Boris Jonhson no Reino Unido. Um, pagliaccio mussolinesco, apostou que poderia desfazer o Governo italiano e convocar novas eleições, fiando-se na grande popularidade e na vitória de seu partido, Liga, nas eleições do Parlamento Europeu — e perdeu feio; outro, farsesco maganão, faz o que pode para concluir o Brexit na marra — e até aqui se deu muito mal.

Suas derrotas, depois do espernear autoritário para levar adiante o populismo nacionalista em seus países são sinais alentadores para quem se descabela com a ascensão do fanatismo.

Acenam para Putin, Bolsonargh, Trump e tipões do leste europeu, a turma regredida, anacrônica, de ideias fracas e miolo mole, que alimenta a ira do recalcado. Se bem que Trump, em campanha pela reeleição, demitiu essa semana seu principal cão de guerra, Bolton Bigodeira, conselheiro de Segurança Nacional. Bigodeira não aceitava que Trump afrouxasse a linha dura.

Lembra um Dr. Fantástico feio à beça. Na Casa Branca, tinha como missão recomendar ataques a torto e a direito na cabeça de infiéis do America First. Ele integra a “Bancada da Bomba” em Washington, diz o embaixador José Maurício Bustani ao Estadão.

Na metade de seu mandato na presidência da Opac, a Organização para a Proibição de Armas Químicas, para o qual tinha sido eleito em 1997, Bustani foi pressionado a deixar o cargo pelo governo de George W. Bush, representado por Bolton, um dos pais da tramoia denominada operação “armas de destruição em massa”. O embaixador revelou ao Estadão que o modus operandi de Bigodeira não difere dos piores mafiosos, neste início de sua entrevista ao jornal:


Como foi sua experiência com Bolton?
Foi traumática. Esse homem foi me visitar lá em Haia (sede da Opaq), uma história que está sendo contada em um documentário do cineasta José Joffily. Ele chegou na minha sala, me ameaçou, me deu 24 horas para abandonar a organização e ameaçou minha família. Disse que sabia onde moravam os meus filhos, que iriam atrás deles. Foi de uma violência inédita.   

PIOR NÃO FICA

“Populismo, nacionalismo e xenofobia ganham eleições em vários países do Ocidente. Sentimentos de ódio e intolerância contaminam o debate político: rejeição do outro, do estrangeiro, do diferente; rejeição das “elites”, das instituições, do “establishment” em todas as suas representações (partidos, sindicatos, mídia); medo do futuro e fechamento dos países em si mesmos são atitudes que se espraiam”, lamenta Fernando Henrique Cardoso em Crise e reinvenção da política no Brasil (Companhia das Letras, 2018), livro lançado antes da eleição de Bolsonargh. Sobre o que plantou tudo isso, o ex-presidente repete o que todo mundo sabe: “A democracia representativa é cada vez mais percebida como um sistema elitista, disfuncional, minado pela corrupção, insensível às necessidades e demandas das pessoas comuns. É como se todos os governantes se equivalessem, na medida em que nenhum se revela capaz de proteger a sociedade das crises econômicas, da extinção dos empregos, da violência ou da desigualdade.” Logo, “tá cansado de política? Vote no Tiririca”.

A REBELIÃO DAS MASSAS: AGORA É PRA VALER

Fernando Vallespín, no El País (Cómo los tertulianos suplantaron a los intelectuales), analisa a derrota dos “intelectuais públicos” e suas variações para a grita das facções tribais extremadas que se propagam pelas redes sociais e abominam novas e velhas formas de medicação.


“La actual vituperación de las élites se ha extendido también a quienes tenían la función de orientarnos. Ortega se equivocaba. Ha habido que esperar a la expansión de las redes sociales para que se produjera la auténtica rebelión de las masas, aunque ahora hayan cobrado la forma de enjambres virtuales. Detrás de esto se encuentra, desde luego, el proceso de desintermediación, que ha roto con el monopolio de los medios tradicionales para ejercer su tutela sobre la opinión pública. O la posibilidad potencial de acceso directo a conocimientos que hasta ahora solo eran accesibles para un grupo de iniciados. O el predominio de los afectos sobre la cognición —“solo me parece convincente lo que encaja con mis sentimientos”—. O la enorme polarización política que se nutre de un consumo tribalizado de la información y la discusión (las famosas cámaras de eco). O la desaparición de la deliberación detrás de lo meramente expresivo.” 


No Brasil, é triste que bons candidatos a exercer o papel de “intelectuais” público” não resistam ao apelo das redes sociais, onde assumem tricheiras, tendo de se adaptar, melhor dizer se rebaixar ao meio, onde o equilíbrio e a reflexão não ganham tantos likes. E o que eles poderiam fazer? Em que tribunas falariam? É tarde. O intelectual enamorado de ideias, “barrocos profetas vociferantes”, na imagem de Darcy Ribeiro em Maíra, dele, Darcy, que talvez tenha sido o último dessa espécie.

LITERACIA

As professoras Márcia Barbosa da Silva e Gabriela Borges explicam em artigo publicado pela Folha o que é e qual a importância da educação para a mídia, tema de uma notinha da Jurupoca #5.

Elas chamam “midia literacy” de “literacia, ou alfabetização midiática”. Literacia? Está no Houaiss: qualidade ou condição de quem é letrado, mesmo que “letramento”. O pé do texto diz o essencial:


  (…) O educador deve ter em mente o papel da literacia midiática na formação dos alunos. Ao contrário do que se imagina, a literacia midiática não acontece somente colocando os estudantes em contato com as mídias/TIC (Tecnologias da informação e comunicação).

O acesso é importante, mas não suficiente para o desenvolvimento das competências midiáticas. De fato, as pesquisas apontam que ter domínio da tecnologia não garante ser competente nas outras dimensões. Pelo contrário, o grande acesso às tecnologias indica a urgência em fomentar processos educativos de desenvolvimento de todas as dimensões de competência midiática desde a educação básica.  

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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