Jurupoca #7

Número 7 — setembro, 27, 2019


Paul Klee, Harmonie der nördlichen Flora (Harmonia da flora setentrional) —
Óleo sobre cartão revestido sobre compensado (1927) — Zentrum Paul Klee Berna, Suíça. A obra pode ser vista na mostra Equilíbrio instável, em cartaz até 28 de novembro no CCBB de Belo Horizonte.

Opa. Vamos apear?

Como vão as coisas? Espero que tudo corra bem.

Apois. Não, ainda não vi Bacurau. Aguardo o filme envelhecer um pouco, como ocorre com qualquer novidade depois de uma semana. Na vida e nesta Jurupoca procuro não me apressar inutilmente.

O ritmo em que vivemos me faz pensar que não pode haver mais “clássicos”. Nada tem tempo de amadurecer antes de ser esquecido, e não é por acaso que a crítica (não falo de resenhas) desaparece. A avaliação média das comunidades online é o critério que conta para o entretenimento egotista da época.

Sinto que vigora uma sensação de que a alternância entre o dia e a noite se tornou um fardo, um despropósito para as vidas em looping — aliás, o próprio universo só fará sentido finalmente quando puder ser explorado pelas startups dos Vale do Silicone.

Renderíamos mais com 24 horas de sol na planície ondulada onde nos prendemos. Dormiríamos menos e teríamos mais tempo de checar o Instagram.

E há coisas demais no mundo. Filosofias falam em coisificação, reificação, você sabe, filósofos ficavam coisando, diria Murilo Mendes. Então. Em um mundo coisificado pela ciência e tecnologia etc., não me interessa tanta coisa assim.

Por exemplo, dou graças diante de um título da Ilustrada, caderno de ex-cultura da Folha, como “Autor de ‘A Sutil Arte de Ligar o Foda-se’ defende esquecer coisas pequenas”. Algo a menos para clicar e ler. A Folha não está sozinha nisso, claro. Jornais na internet vivem de cliques, e uns se adaptam aos tempos com mais dignidade que outros.

Ainda não vi Bacurau nem li a autobiografia aclamada de Fernanda Montenegro. Confesso que nesses dias me interessa realmente o mundo mais ou menos à mão ali na esquina.

Isso é o oposto da alienação, mas deixo para os filósofos do livro de Eilenberger (ver nota abaixo) a elucidação desse ponto.

Me interessam as árvores, lenitivo nos dias de calor opressivo, secura e fumaça vinda dos aforas de Belo [ao terminar este texto, começou a chover, dei gratia], e os passarinhos, cujo canto me fascina.

Me alegraram especialmente as floradas amarelas dos ipês, seus cachos rebentando contra o azul com uma beleza eternamente inédita.

Como de costume vêm de uma hora pra outra, como um prêmio na loteca. Até tentei passar, há mais tempo, fixas a sensação no Canto amarelo.

Mas há algo disfuncional. Passarinhos e árvores sobrevivem como podem. Os ipês são mais esplêndidos no inverno seco. Belô teve dias com 12% de umidade relativa do ar. Os sabiás baixam no pedaço e cantam dia e noite com a aproximação da primavera. Me intriga o rito dessas bacanais ornitológicas diuturnas. Os bichinhos, difíceis de avistar, andarão alucinados? .

Está difícil manter o ciclo da vida. Se a iluminação e o nível de ruído somem com o céu noturno e me enlouquecem no Belo, imagino o mal que não fazem às aves. Os pardais se picaram há tempos. Vieram os intrépidos bem-te-vis, periquitos e outras espécies sazonais. Mas algumas coisa está fora da ordem.

O título da reportagem já me angustia: Hacia un mundo sin pájaros (rumo a um mundo sem pássaros). O El País deu o estudo da Science sobre a desaparição de bilhões (sic) de aves, especialmente as mais comuns, inclusive pardais e, na África, também espécies de urubus.

O estudo afirma que desde os anos 1970 sumiu metade dos passarinhos mais conhecidos na Europa e na América do Norte. Não encontrei nada sobre o Brasil, mas basta pensar que vamos rumo ao fim da Amazônia, futura savana na previsão do climatologista Carlos Nobre.

Por falar nisso, os transumanistas e vidaeternistas poderão alegrar seu mundo com lindos pássaros e árvores artificiais, como no Blade Runner.


Dizia que há coisas demais para ler e comentar. Estou sempre por fora, por exemplo, dos últimos ritos inquisitoriais abertos contra os infiéis da cartilha moral vigente nas redes sociais.

O celular com internet fez do seu dono um juiz supremo com vitrine e tribunal, conectado com outros juízes supremos com vitrine e tribunal. Pois me perco na onda dos zelotes da vida digital.

Aboliram o direito de defesa e rejeitaram in limine o sursis, ainda que tenham convertido a pena ancestral de morte por lapidação em memes e tuitaços. Se não deixam cadáveres, desgraçam suas vítimas.


Klee no CCBB


Desenho de Paul Klee (Auch “ER” Dictator – Ele também é ditador), parte da mostra do CCBB. Crédito da imagem: Zentrum Paul Klee, Berna, Suíça  

A manhã da última segunda-feira, quase santa em BH com seus 23 ºC de máxima, me animou a ir à exposição de Paul Klee, Equilíbrio instável. Antes, andei um pouco pela Praça da Liberdade, que me pareceu mais ampla e aberta ao horizonte depois da última reforma.

Já no CCBB, o banzé de escolares não me impediu de ter uma hora deliciosa. Recorro a imaginação para apreciar obras como as de Klee. Tento recuperar o que sei sobre a ebulição das primeiras três décadas do século passado.

Penso na temperatura cultural de uma época de massacres, revoluções na ciência, reconfiguração das cidades, explosões artísticas, e as primeiras tentativas de fazer eclodir o ovo da serpente.

Incorporamos a abstração e já quase um século de diluição e cópia como incorporamos à linguagem noções de ciência e da psicanálise. Mas devemos aos pesados dias de Klee e seus contemporâneos boa parte da refundação dessa expressão artística.

Depois deles, com boas exceções, a arte se tornou apenas derivativa.

Fecho os olhos um instante para detectar, em cada tela e desenho, alguma radiação de fundo das ondas que disputavam ruas e galerias de Paris e, na Alemanha, de Munique, Dresden, Berlim, geradas por turmas exploratórias que se chamavam Cavaleiro Azul, Os Quatro Azuis, Grupo de Novembro e a escola Bauhaus, onde Klee deu aulas.

Noto o gosto de Klee por lilases. Aparecem em toda a trajetória retratada no CCBB.

A mostra forma um interessante painel que percorre seus desenhos de criança, o traço clássico do estudante de arte, os estudos da natureza, o amor pelo palco, as aquarelas e óleos da maturidade, como a composição geométrica Harmonia floral setentrional. Que ideia magnífica.  


Eilenberger e os quatro cabeções

Em Tempos de mágicos, Wolfram Eilenberger realiza a proeza de ruminar ideias filosóficas com grande clareza para a compressão de um leitor leigo, ainda que leigo ma non troppo, porque não há como percorrer suas quase 500 páginas sem um mapinha cultural previamente instalado

Filósofo de formação, ensaísta e jornalista, o autor ganhou a praça editorial europeia com o êxito desse livro, lançado no Brasil há dois ou três meses pela Todavia.

Não é para qualquer um o trabalho de mastigar o pensamento de quatro estrelas da filosofia em língua alemã — Martin Heidegger, Walter Benjamim, Ernest Cassirer e Ludwig Wittgenstein — e relacioná-lo com suas vidas e a intrincada década de 1919/1929.

Com técnica do jornalismo literário, a narrativa começa com o debate entre Heidegger e Cassirer realizado em Davos, na Suíça, em março de 1929. Por enquanto, temos um aperitivo do evento.

A pauta era “o que é o ser humano” no mundo depois de Darwin e das teorias de Einstein. Mas para o final do livro voltamos aos bastidores e à contenda em plenária dos dois luminares da academia germânica (Husserl, mestre de Heidegger, se aposentava).

A estação suíça de esqui, cenário de A montanha mágica, de Thomas Mann, no futuro deixaria a filosofia de lado para sediar o Fórum Econômico Mundial.

Eilenberger encara os quatro cabeções supracitados com elegância, desenvoltura e um esforço intelectual que mal notamos.

Nenhum deles facilitou a vida mesmo para os cérebros mais bem-dotados e treinados de sua época. Até um crânio como Bertrand Russel, mentor de Wittgenstein, penou para seguir as elucubrações do pupilo sobre a lógica da linguagem.

Na esfera pessoal, ninguém foi mais infeliz, e enrolado, diga-se, que Benjamim, coitado.

Cassirer, um tipo mais normal e o mais velho da turma, era o “o único a quem a sexualidade não alterou seriamente a existência, e o único que jamais sofreu uma crise nervosa”, concluiu Eilenberger.

Em sua produção teórica — cronologicamente do Tratado lógico-filosófico, de Wittgenstein até a Filosofia das formas simbólicas, de Cassirer, e no meio do caminho obras como Origem do drama barroco alemão e Rua de mão única, de Benjamim, e Ser e tempo, de Heidegger — o quarteto tentou reordenar a humanidade no mundo, horrorizado em geral com a crescente hegemonia da razão científica.

Um desafio e tanto diante do colapso do iluminismo e da crença no progresso contínuo da civilização.

Que civilização? A Primeira Guerra Mundial, encerrada em novembro de 1918, na véspera, portanto, dos eventos tratados no livro, havia deixado um cemitério com nove milhões de soldados e sete milhões de civis.

“Os quatro são os pais fundadores das escolas que ainda dominam a discussão [da filosofia contemporânea]: Heidegger, do existencialismo, da hermenêutica e da desconstrução; Benjamin, da teoria crítica e da Escola de Frankfurt; Wittgenstein, da filosofia analítica; e acredito que os estudos culturais não seriam os mesmos sem Cassirer”, resumiu Eilenberger para o El Pais.

Depois de 1929 e daquele período, apesar de tudo, áureo, o apocalipse. O antissemita Heidegger, agora reitor em Freiburg, põe as mangas de fora e dá vivas ao Führer.

Wittgenstein, de volta a Cambridge, na Inglaterra, reencontra-se na carreira acadêmica e segue perfeitamente excêntrico, mas produtivo.

Os judeus Cassirer e Benjamim são escorraçados pelos nazistas. Um se exila nos EUA, como professor convidado da Universidade de Yale. O outro cometerá suicídio com morfina num hotel em Portbou, nos Pirineus.

A filosofia alemã — e o próprio idioma, como mostrou George Steiner em Linguagem e silêncioEnsaios sobre a crise da palavra — jamais terão o mesmo vigor.

“A pobreza que vemos no cenário filosófico atual na Alemanha deve-se também a que o país nunca se recuperou do desaparecimento da grande tradição cultural judaico-alemã”, disse Eilenberger ao jornal espanhol. Eis um excerto do livro:

“Se houvesse uma convicção partilhada sem ressalvas por Wittgenstein, Heidegger, Benjamin e Cassirer nesse (e em outros) estágios de seu pensamento, era então a de que a forma de vida do ser humano é uma forma da linguagem. Nesse sentido, a língua não é uma forma simbólica entre outras, mas a mais importante e a mais elementar.”


O leilão dos escrúpulos

A  série Succession (HBO) vai para o trono das melhores do ano.

No último episódio da segunda temporada, reúnem-se para um fim de semana numa mansão duas famílias bilionárias. Vão tentar fechar a aquisição de uma grande empresa de mídia. Um quer comprar, a ferro e a fogo, para ampliar seu império; outro faz doce para aceitar a bufunfa e ceder sua respeitada rede para os filisteus rivais.

O primeiro lembra os Murdoch, da inominável Fox News. A outra família representa os restos de escrúpulo de uma aristocracia fiel ao jornalismo de princípios. Na hora do jantar, para demarcar terreno, a matriarca cultivada dá um mote qualquer para a filha improvar em cima de Shakespeare.

Mas na “América” de Trump isso não tem qualquer valor; o Bardo e Mickey Mouse dão igual. Estamos na era dos “fatos alternativos”, sob a influência das notícias falsas

A classe média se achatou e a desigualdade atingiu patamares de cem anos atrás. “Foda-se seu Shakespeare”, dirá mais tarde, de passagem, o patriarca casca grossa Logan Roy (Brian Cox), o perverso Murdoch vicário.

A sequência em que seu infeliz herdeiro Kendall (Jeremy Strong) acorda com os lençóis sujos, depois de ter apagado sob o efeito de álcool e drogas, enobrece a teledramaturgia americana.

O fecho tragicômico da série consagra uma rara produção adulta.


Distopia caricata

Outra produção da HBO que deu mais o que falar me pareceu menos feliz. A minissérie britânica Years and Years é, sim, a distopia orwelliana, como a definiram. Dá uma soprada nas grandes aspirações do mundo para escancarar o eterno retorno da Caixa de Pandora.

Estão à solta nesse mix transumanismo, histeria LGBTQ+Ipisilone, nacional-populismo, obsolescência da mão de obra humana, ondas migratórias, ameaça nuclear o escambau.

A opção pela comédia, tão ao espírito da época, adoradora do deus KKK, expôs demasiadamente a caricatura.

Nem Emma Thompson e um elenco de primeira salvam a parada. O excesso nos ingredientes da receita de sucesso estragou o cozido do roteirista Russell T Davies


Uma linda canção

Nada como uma linda canção, melodia e letra amalgamadas feito homem e mulher no mito do amor platônico, para nos consolar, quando a ouvimos ao acaso, como tocada no rádio, do contrário o efeito não se dará.

A canção da vez é Quatro, de Beto Guedes e Marcio Borges.

A letra diz “[…] Agora estou tão preso a ti / Meu corpo quer te levar (…) A nuvem pálida / No céu desses meus desejos / Encobre toda a paz / E põe no meu caminho quatro ilusões / Amar, viver, cantar e ser / O que eu não posso negar / Não / Teus olhos claros são meu farol […]”.

O arranjo dessa gravação do DVD de 2010 com orquestra de cordas, coro, flauta, violão de aço e viola terçados à mineira, tem a participação de Célio Balona num acordeom magistral.

A introdução já nos leva ao lugar e quem sabe ao porquê de termos guardados essa canção. Recuperamos o tempo perdido numa fração de segundo (Proust ensinou).

E a própria música nos traz de volta, surpreendentemente ainda vivos, lá e então. [Eis, aliás, o motivo de Exposição em PL].

O transe, por certo, é isso, transe, autoengano pregado pelo tempo, ou mais exatamente por nossa condição no tempo. Ouvir música quase sempre exprime alguma autocomiseração. E daí?


“A música brasileira tá uma merda. As letras, então. Meu Deus do céu. Uma porcaria.” — Milton Nascimento, 77 anos no próximo 26 de outubro,
em entrevista a Mônica Bergamo

João no Japão

Mas saiu um disco novo de João Gilberto, lá no Japão.

A notícia demorou a chegar ao Brasil. Um Blue Ray com 21 faixas e tiragem pequena de cinco mil cópias. As gravações resultam dos concertos gravados, nos dias 8 e 9 de novembro de 2006, no Tokyo International Forum.

Não se trata dos shows registrados no CD João Gilberto in Tokyo, da Universal, que são de 2003. João só autorizou essa edição, que antes havia vetado, pouco antes de sua morte, pelo que entendi. Os japoneses usaram sete câmaras nas filmagens, nenhuma no palco. O resultado é embasbacante.

Vemos em minúcias, por meio dos zoons, o trabalho do violão, a evolução e a variação de acordes e o dedão cuidadoso nos baixos. Há imagens simultâneas que facilitam nossas compreensão da potência do ritmo e da articulação do canto com a harmonia.

“É nítida a impressão de que os japoneses quiseram decifrar João Gilberto”, diz Luiz Fernando Viana, da Rádio Batuta. Ele convidou duas cobras criadas para comentar a peça, o violonista e professor paulistano Walter Garcia, autor de Bim bom – A contradição sem conflitos de João Gilberto, e o também violonista e professor baiano Aderbal Duarte, que está lançando Segredos do violão bossa nova, quem “há 40 anos estuda a forma de João cantar e tocar”.

O programa da Batuta extraiu os 21 áudios do Blue Ray, cuja importação sai por mais ou menos duas mil pratas.



Getz at The Gate

Stan Getz at The Gate. Nov.26.1961, álbum recém-lançado, traz uma gravação rara do saxofonista no Village Gate, em Nova York, de há quase 60 anos, acompanhado por um quarteto com o pianista Steve Kuhn na proa.

Uma das faixas é uma versão de doze eletrizantes minutos de Coltrane (Impressions). Boa pedida para os habituados ao Getz abrasileirado por Jobim e João Gilberto se aprofundar na sua grande obra.   

A democracia é fogo

Costica Bradatan, escritor e editor do Los Angeles Review of Books, sintetizou ideias essenciais sobre as margens estreitas da democracia. Está tudo lá. Se fosse um professor, promoveria o texto a recitativo em sala de aula até que meus alunos o decorassem. Cai bem a qualquer tentativa de pensar o que ocorre no Brasil, na Espanha e em meio mundo.

Saiu originalmente no New York Times e pode ser lido aqui em português. Numa palavra, ou numa sentença que revela o cerne da questão:

“Viver democraticamente é, principalmente, lidar com o fracasso e a imperfeição e alimentar algumas ilusões sobre a sociedade humana”.

Me permito reproduzir uns trechos:


(…)
Fundamentalmente, os seres humanos não estão predispostos a viver democraticamente. Pode-se até afirmar que a democracia é “antinatural”, pois contraria nossos instintos e impulsos vitais. O que é mais natural para nós, assim como para qualquer criatura viva, é procurar sobreviver e se reproduzir.

E, para esse propósito, nós nos impomos —implacavelmente, involuntariamente, selvagemente— contra os outros: nós os colocamos de lado, os subjugamos, os derrubamos, até mesmo os esmagamos, se necessário. Por trás da fachada sorridente da civilização, funciona o mesmo impulso cego para a autoafirmação que encontramos no reino animal.

Basta arranhar a superfície da comunidade humana para encontrarmos a horda. É a “natureza humana irracional e irracional”, escreve o zoólogo Konrad Lorenz no livro “A Agressão”, que faz com que “dois partidos políticos ou religiões com programas incrivelmente semelhantes de salvação lutem um contra o outro amargamente” (…). A história mundial, em sua maior parte, é a história de indivíduos excessivamente autoafirmativos em busca de vários cetros.
(…)
Este é, de modo geral, o contexto humano contra o qual a ideia democrática emerge. Não admira que seja uma batalha perdida. A democracia genuína não faz grandes promessas, não seduz ou encanta, apenas aspira a uma certa medida de dignidade humana. Não é erótica. Comparada com o que acontece nos regimes populistas, é frígida.
(…)
É necessário um senso de humildade para a democracia emergir. Uma humildade ao mesmo tempo coletiva e internalizada, penetrante, até visionária, mas verdadeira.

(…) Ser um verdadeiro democrata, em outras palavras, é entender que, quando se trata de viver junto, você não é melhor que os outros e age de acordo com essa premissa.


 
A direita na corda bamba

Na Piauí de setembro, Boris Fausto (Que falta faz uma boa direita) põe a direita liberal brasileira na berlinda. O social-liberalismo de quem “não vê antagonismo irreconciliável entre liberdade e proteção social”, defendido pelo não fanático do mercado e do Estado mínimo, vive um momento crucial.

Ou, diz Fausto, as ideias dessa direita se distinguem com clareza do conservadorismo autoritário ou vão perder novamente o bonde da história democrática do país. Desde a redemocratização, as narrativas de esquerda conseguiram pregar na direita liberal três estigmas, “de ser antipopular, antidemocrática e antidesenvolvimento”.

Agora, quando tenta se consolidar como alternativa, depois das eleições de 2018, usa o álibi da economia pra deixar de lado ataques à democracia. Foi o que a direita fez na ditadura, a despeito de o “desenvolvimentismo” dos militares ter se parecido tanto com as políticas dos governos petistas, sobretudo os de Dilma Rousseff.

“A direita liberal fará vista grossa ao bolsonarismo, no que ele tem de profundamente autoritário e mesmo incivilizado, em nome de uma agenda econômica que também é sua?”, indaga Fausto. “A ambiguidade lhe será fatal: se a maré virar, suas credenciais democráticas liberais estarão comprometidas; se avançar ela será engolfada pela onda do conservadorismo antiliberal”.


De volta para o futuro

Dorrit Harazim comentou a surpreende greve dos metalúrgicos nos EUA, que não paravam há mais de uma década. Uma unidade da GM com 600 empregados em Flint, no Michigan, conseguiu a adesão de 49 mil sindicalizados.

A montadora quer empurrar para o sindicato a conta seguro-saúde dos funcionários. “Mais: a empresa registrara um lucro de US$ 25 bilhões nos dois últimos anos, e sua CEO, Mary Berra, recebera um salário de US$ 22 milhões em 2018, 281 vezes superior ao do operário médio da empresa”, conta Harazim.

“Um deles resumiu assim o seu mundo em extinção: ‘Estamos lutando não só por nós, mas por nossos filhos e pelo futuro dos nossos filhos’.”




JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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