Jurupoca #08


Número 8 — outubro, 11, 2019


Rio cinza 1 – 2017. Foto: A. Siúves


Opa. Vamos apear?

Espero que esteja tudo bem com você, caro amigo. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta carta. Eis o que me pus a cismar no último quindênio, meus “rendimentos de intra-imo” (Joyce via Houaiss) mais intrínsecos só para você.


Apois. Descobri que tenho algo em comum com Allan Stewart Königsberg: o gosto pelos dias nublados.

Woody Allen esteve em San Sebastián, no País Basco, a rodar mais um filme, com o título provisório de Rifkin’s Festival, e falou disso.

Eis o homem que é uma “controvérsia andante”, na expressão do El País. A produtora Amazon vetou a distribuição da comédia romântica Dias de chuva em Nova York nos EUA, pressionada pelo movimento #MeToo.

Mas o filme estreia nesta sexta-feira (11) na Europa. Aos 84 anos, o diretor é um pária, um morto-vivo em seu país. Sua obra monumental também foi parar no fundo da lata do lixo do ostracismo.

Não vou render o assunto. Acredito que uma obra que nos define, pois define a cultura cinematográfica há mais de meio século, não pode ser apagada da história, à la mano estalinista.  

Pois na ótima conversa com o editor de cultura Borja Hermoso, Allen diz algo sobre luz e sombras que delimita nosso “estar no mundo” [a tradução do El País Brasil tem uns lapsos]:

“Por qué adora los días de lluvia? ¿Por qué mejor los cielos plomizos que el sol?

Porque la luz es más bonita. Y porque creo que en esos días las personas piensan más desde su interior, desde su alma. La mía es un poco triste… y si abro la ventana por la mañana y hace sol, me resulta desagradable. En cambio, encuentro que las ciudades son hermosas bajo la lluvia. París, Londres, Nueva York, San Sebastián son muy bonitas…, pero si llueve son mágicas. En San Sebastián, por ejemplo, el clima es una bendición, el verano parece primavera. Y llueve. En mis películas lo importante sucede casi siempre cuando llueve. Pero quienes invierten en ellas se quejan de que es caro rodar con lluvia. Sobre todo porque, cuando quiero rodar con lluvia, casi nunca llueve y tenemos que fabricarla y usar cisternas. Yo a veces llamo a Dios para que haga algo, pero nada, ni una nube.”

Meus dias favoritos também são cinzentos, friorentos e chuvosos, ainda que dispense as invernadas e o vento feroz, típicos de Copenhague ou Cambará do Sul, digamos.

Mas é bom poder andar pelas ruas molhadas, a pé ou de carro, e curtir o reflexo das luzes de mercúrio nas paralelas inscritas pelos pneus, como canta o Belchior.

Que tal ouvir Paralelas na versão bonita versão dessa música, do disco com Gilvan de Oliveira, de 1999?

O Belo se transforma em outra cidade em dias assim, um burgo mais suportável. As tintas de chumbo do céu aplacam a luz ríspida do período quente, comumente de setembro a maio, iludindo a feiura das vias e construções.

Num dia desses me veio este A chuva é cult, aí no Quadrado ao pé da carta, que passa a constar como seção desta Jurupoca.

ambém gosto do Rio mais do que nunca nos meses de maio, junho e julho, quando a cidade costuma estar encoberta e a temperatura civiliza-se, como nos dias em que tomei, desde o Forte de Copacabana, duas das fotos que ilustram esta edição.

Walter Salles captou isso encantadoramente já na abertura da coprodução francesa Chico Ou o País da delicadeza perdida, de 1989, como um delicioso poema visual.

Bom, Allen falou e disse. Traduzindo: “Porque a luz é mais bonita. E porque acredito que nesses dias as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma. […] e se abro a janela pela manhã e está ensolarado, acho desagradável. Por outro lado, vejo que as cidades são lindas sob a chuva.”

What do you mean? – Oviedo, Espanha, 2015 – Foto: Rachel Botelho

Dias cinzentos são comuns no País Basco, onde Allen filmou, depois de rodar Vicky Cristina Barcelona na Catalunha e em Oviedo, a capital das Astúrias que lhe rendeu, em gratidão, a estátua acima.

O aguaceiro é uma característica da vida de Bilbao ou San Sebastián. Me sinto muito bem naquelas bandas. Em um passeio por povoados ao norte de Bilbao, há poucos anos, procurei casar essa sensação de bem-estar com meu apreço às aves marinhas mais comuns em quase todo o planeta.

Este fragmento é de uma das crônicas de viagem à Espanha, capítulo do livro que venho prometendo nesta Jurupoca — e que logo há de sair:

“De Bakio tocamos para Bermeo, a uns cinco quilômetros à frente. Ao descer do carro me dão boas-vindas adoráveis gaivotas, a fazer sua ronda no porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves ousadas e referentes, que parecem filhas, senão frutos do mar. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.”

Consta que Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil, samba que emplacou 80 anos em agosto, em uma noite de toró no Rio. Impedido de sair de casa, o compositor foi sentar-se ao piano para saudar um país ensolarado, lindo e trigueiro.

Nos últimos dias fiz o oposto de Ary. Me tranquei em casa para fugir do sol e do calor e me refugiei no País Basco, por meio das 512 páginas de Pátria, o magnífico romance de Fernando Aramburu que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil. A obra vendeu mais de um milhão de cópias e é adaptada pela HBO.

Chuva nunca falta na retratada vila euskaldun — onde se fala apenas a língua basca, o euskera — não nomeada mas manjada, nos aforas de San Sebastián (Donostia).

A intempérie é comum na rotina das duas famílias, bons vizinhos de compadrio e tudo mais até a cisão causada pela perseguição e violência do ETA (Euskadi Ta Askatasuna — basco para Pátria Basca e Liberdade).

Chove na vila quando é cometido o crime de sangue, episódio que proporciona medianas às triangulações tecidas na narrativa.

Pelas artes da memória, inspiradas também nas reminiscências do autor, revisitamos os tempos sombrios em Euskal Herria, e a luz que eles roubaram de país, mães, filhos e amigos.

Um percurso longo que vai dos dias mais tempestuosos a um período recente [houve, em 2018, o adeus às armas da organização, depois de 50 anos de terror. Os fatos são narrados no ótimo documentário El fin de ETA, disponível na Netflix, e neste vídeo.]

Todos se conhecem e se dão a qualquer hora na vila. Na lida entre a horta, o açougue, a padaria, o bar e a igreja, um empresário extorquido que se recusa a contribuir mais uma vez com o bando tem a marca da peste pichada nos muros, e vai achar porcarias na caixa de correio.

O que era amigo-irmão ainda ontem, parceiro de tragos e partidas de mus na taberna e voltas de bicicleta aos domingos, beneficiário da gratidão por tantos favores, hoje é um traidor, de quem o medo e a covardia exigem distância: 

“Saiu de casa bem cedo com seu traje de ciclista e a bicicleta, e não pôde acreditar nos próprios olhos. Txato isso, Txato aquilo. Herriak ez du barkatuko. Nesse nível. E, quando chegou à praça e se incorporou ao grupo de cicloturistas, notou, o quê?, notou alguma coisa, certa aspereza nos cumprimentos. E olhares que evitavam os seus. E sentiu falta das gozações das outras vezes, mas também ele poderia estar mais suscetível e fosse vítima das próprias fantasias e receios.”

O ódio cristalizado no dogma (que sempre “lacrou”) entusiasma adolescentes que só podem contar com a própria força e seus superávits hormonais.

As vias da educação e do amor não estão disponíveis no momento, e há sucedâneos gloriosos para o sexo. O racismo é patente no ambiente abertzale, do esquerdismo partidário da “pátria” independente.

Chefões embuçados sob o signo do machado e da serpente (força e inteligência política, bietan jarrai em basco) atiçam a energia e as carências de seus potenciais soldados, gudaris.

Seduzem pretensos heróis, que depois são treinados na cartilha que autoriza a matar e, claro, eventualmente morrer pela causa. Gora ETA.

Em gangues rivais, esses jovens buscam aceitação e reconhecimento dos comandantes, e para isso disputam seu campeonato particular de quem faz mais estrago:

“Vem logo, Koldo, Koldito, correndo se for o caso, mas não me falhe. Por que tanta pressa? Porque não queriam que os jarraitxus de Rentería passassem na frente deles. Já tinham sido mais espertos uma vez e ficaram com a glória. Como? Botaram fogo em uma van novinha de mais de vinte milhões de pesetas, uma Mercedes, e isso sim afeta os cofres municipais. Enquanto eles tiveram que se contentar com um Pegaso velho e ferrado, que ainda por cima queima muito pior e não custa nem a metade. Até livraram a prefeitura dos gastos que teria com um ferro-velho.”

Aramburu é um ‎donostiarra, natural de San Sebastián, que vive na Alemanha, onde trabalha como professor de espanhol, desde 1985.

Seu distanciamento me parece ser um ponto essencial dessa obra. Se não deixou minas terrestres em sua guerra contra o “Estado” (seus membros evitam a denominação Espanha), o ETA intoxicou o País Basco e a própria Espanha com profunda degradação moral.

Nada mais apropriado que a literatura para penetrar em campo tão aviltado. 

Há, já mais para o final do livro, uma reunião pública organizada pelo Coletivo das Vítimas do Terror, a que o médico Xabier, que teve o pai assassinado e se tonara um alcoólatra, atende depois de muito relutar.

Com a coragem de dois copos de conhaque, ele finalmente entra no auditório, onde palestra um escritor que não é identificado, o que não é necessário. O disfarce não chega a ser ardiloso, como diz o narrador de um conto de Salinger.

O homem está falando: “— Também escrevi contra o crime cometido com alguma desculpa política, em nome de uma pátria onde um punhado de gente armada, com o vergonhoso apoio de um setor da sociedade, decide quem pertence a essa pátria e quem deve abandoná-la ou desaparecer”, discorre.

“Escrevi sem ódio contra a linguagem do ódio e contra a desmemória e o esquecimento tramado pelos que tentam forjar uma história a serviço do seu projeto e suas convicções totalitárias”. 

Escrever sem ódio contra a linguagem do ódio é justamente a principal chave do romance.

O discurso indireto livre, técnica idealmente necessária aqui, me parece, é empregado com grande habilidade, não sem algum “esteticismo”, o estilismo que ocorre, na definição de James Wood, quando o autor se intromete na narrativa.

“Graças ao estilo indireto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor”, explica Wood em Como funciona a ficção (Sesi-SP editora, 2017).

“Habitamos, simultaneamente, a onisciência e a parcialidade. Abre-se uma lacuna entre autor e personagem e a ponte entre eles — que é o próprio estilo indireto livre — fecha essa lacuna, ao mesmo tempo que chama atenção para a distância”, agrega.

Em uma passagem de Pátria especialmente feliz, já em um tempo adiantado, dois irmãos, vítimas do ETA, caminham no Paseo Nuevo de San Sebastián.

Atrás deles está a escultura de Jorge Oteiza Construcción vacía [em aço corten, premiada na Bienal de São Paulo de 1957 e que nos remete a Amílcar de Castro]. O que essa obra tem a “dizer” é o mais significativo no encontro entre os dois:

“O sol, já se retirando, desenhava uma faixa de cintilações que se moviam na superfície marinha. Barcos? Nenhum. Uma lancha voltando, próxima à entrada da baía, e mais nada. Xabier e Nerea se debruçaram no parapeito. Ele cobria a incipiente calvície com um gorro escocês; ela, que até alguns anos antes usava boinas de lã, estava com o cabelo descoberto. Atrás de onde estavam se enferrujava, entediada, esperando a próxima tempestade, a escultura de Oteiza. A poucos passos dos dois irmãos, um pescador olhava fixamente o vaivém de boia nas águas ondulantes.”

O nacionalismo revolucionário, eivado de marxismo-leninismo, avalizou o assassinato de 867 pessoas, conforme o número da defensoria pública basca de atenção às vítimas.

Registre-se que militantes do ETA sofreram a brutalidade da polícia, em graves desvios do Estado democrático de direito.

A violência e a desrazão até hoje desagregam, separam amigos, amantes, definem histórias de vida e impõem zonas cinzentas aqui e ali.

Tudo enredado no absurdo. Cada página de Aramburu revive essas circunstâncias com a necessária sutileza e mesmo com delicadeza. Se assim não fosse, como um ficcionista poderia tentar repor a crença na humanidade?

É apenas por ocasião da publicação do romance na Espanha, em 2016, que o céu começa a desanuviar-se.

O perdão (barkatu – em basco ao mesmo tempo perdoar, perdoa, perdoe) e a reconciliação, com o fim das mortes e o julgamento dos assassinos, podem trazer de volta, para quem sobreviveu, a velha ordem de um dia após o outro, ainda que, para alguns, o sol volte a brilhar tarde demais.

A ficção amalgama o horror e a amargura que perduraram por décadas de  ódio, fúria e desgraça, tudo, no final das contas, como é corrente na história, para nada. 


Rio cinza 02 – 2017 – Foto: Antônio Siúves


“Our Boys”

Nas áreas fronteiriças entre Israel e Palestina, divergências inimaginavelmente antigas andam bem longe da paz.

Não há esperança de conciliação depois que o fel do nacionalismo e do ódio racial e religioso conseguiu amargar até as pedras do deserto.

O seriado Our Boys, em cartaz na HBO, traz uma noção clara e multifacetada dessa realidade.

Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro, tachou de “antissemita” a produção da rede Kashet, escrita por três roteiristas israelenses, dois judeus e um árabe — a opiniãoquivale a uma espécie de atestado de idoneidade antipopulista e antinacionalista.

Embora parta da comoção causada no país pela morte bárbara de três jovens judeus, Naftali Frankel, Gilad Sha’er e Eyal Yifrach, por membros do Hamas, em julho de 2014, a série, não se ousadia, se detém no ato de vingança atribuído a esse episódio.

Duas semanas depois daqueles eventos, o menino Abu Khdeir, de 16 anos, é sequestrado perto de casa, em Jerusalém Oriental, e logo cruelmente assassinado.

Our Boys acompanha o trabalho de investigação da Shabak, a agência israelense de segurança interna, e o indiciamento e julgamento dos três acusados pelo crime, dois deles menores de idade.

As ações policiais permitem que o roteiro, por um lado, focalize a via-crúcis dos pais de Khdeir, emparedados entre a dor e a pressão de líderes do Hamas que o requerem como mártir da facção.

Por outro, nos aproximamos da pregação religiosa e da doutrinação dos jovens nas Yeshivás, instituições judias dedicadas ao estudo do Talmud e da Torá.

Nesse universo, onde vivem as famílias das vítimas do atentado do Hamas e dos assassinos de Khdeir, alimenta-se o velho estranhamento entre judeus asquenazes, de ascendência urbana e cosmopolita, e colonos sefarditas ultraortodoxos.

O diálogo entre os algozes, na noite em que saem de carro para caçar sua vítima, expõe as raízes do mal de maneira a um tempo sutil e explosiva.

Vemos que a Bíblia judaica é pau para toda obra. Tanto ensina que a lei proíbe matar o inocente quanto pode sugerir uma interpretação oposta, a justificar a vingança.

Os efeitos da retórica de milhares de horas de doutrinação decoreba sobre a pureza da fé em um deus contra a animalidade da crença alheia são devastadores nas cabeças mais vulneráveis.

Ao ver andar na rua uma grávida árabe-israelense, um dos rapazes, ao defender que ela serviria ao propósito do grupo, comenta: “Olha, vai assando um terroristazinho”.

O comparsa cita com autoridade certa sabedoria rabínica: “Mate-o enquanto é tempo!” A sequência é de uma brutalidade vomitória. As explosões e cenas de tortura de matriz hollywoodiana não passam de terror infantil perto disso.

“A série é incomumente corajosa ao deixar persistir a incomodidade moral, e consegue comover sem oferecer falsas esperanças, uma raridade inclusive em dramas mais bem feitos, escreveu Emily Nussbaum na The New Yorker.

Depois de assistir a uma porção de séries medíocres, a exemplo de Fauda, na Netflix, Our boys realmente é uma boa surpresa na teledramaturgia israelense.

“Reconheço que a série tem profunda verossimilhança, desde as cozinhas estreitas de Jerusalém até os quintais dos assentamentos e as ruas iluminadas pelas luzes do Ramadã por onde caminham as famílias  muçulmanas”, diz Nussbaum.

O enfoque distanciado da narrativa, conduzido com serenidade, e que procura adentrar o submundo do fanatismo, extrapola o que há de mais específico no enredo para, quem sabe, sugerir alguma disciplina racional em um mundo ameaçado pela polarização, inclusive a nosso triste mundinho brasileiro.


O irlandês vem aí

Al Pacino, Joe Pasci e Robert De Niro estrelam o novo Scorsese IrishmanO Irlandês, com três horas e meia de duração.

Passou no New York Film Festival, antes de entrar no circuito americano, para chegar à Netflix, salve, salve, já em novembro — a operadora busca o mesmo sucesso de Roma.


 Lida tradutória

O leitor brasileiro tem uma baita dívida de gratidão com Paulo César de Souza, grande e fino escritor que emprestou suas artes à lida tradutória. Nos últimos tempos ele se concentrou nas obras completas de Freud e Nietzsche, editadas pela Companhia das Letras, projetos que agora está por concluir.

A Folha lhe dedicou um bom perfil, ainda que um pouco preguiçoso na recolha de depoimentos sobre o personagem, inclusive aqueles que poderiam apor restrições ao trabalho de Paulo César, mas isso é o usual no jornalismo brasileiro.  



Drummond inédito

O livro Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto, lançado este mês pela Unesp e organizado por Marcelo Bortoloti, traz 68 cartas trocadas entre os dois escritores desde os anos 1920, e, como especial achado, três poemas inéditos de Drummond. Eis um deles, divulgado pela Folha:


Religião

Bichinho quer ir s’embora da sala
pra dormir no sol do dia bonito.
Mas a porta da sala está fechada
e ele não pode abrir a porta.
Bichinho planta-se de cócoras muito solene
diante da porta e põe-se a adorá-la.
Põe-se a adorá-la para que ela se compadeça.  

Oh, Greta

É sintomático, creio, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a sueca Greta Thunberg.

Leio que que ela levou os pais a deixar a carne, depois os converteu à dieta vegana e, ainda aos 13 anos, os fez abolir as viagens aéreas, o que limitou a carreira internacional de sua mãe, a famosa mezzo-soprano Malena Ernman.

Diga-se que a Suécia é ponta de lança do movimento mundial que incentiva as pessoas a trocarem o avião por meios de transporte de baixa emissão de gases-estufa.

A expressão “flygskam”, algo como “vergonha de voar”, define tal anseio. (Na Europa, vou de trem sempre que possa).

“Me sinto muito bem em ser ouvida”, disse Greta ao New York Times. Seus pais foram na maré da celebridade e lançaram este ano um livro sobre suas decisões sob a influência da petiz.

“O movimento ambientalista escolheu dirigir-se ao mundo pela voz de Greta, numa tática que busca circundar um debate complexo entre adultos. ‘Como vocês ousam?’, exclamou a jovem na ONU, quando a pergunta certa é: ‘Quem ousará contestar as palavras emanadas de uma adolescente pura que clama apenas pelo belo e pelo justo?’”, escreveu Demétrio Magnoli. “A fuga da política, contudo, convida a política a ressurgir, pela porta do populismo”, opinou.

A pequena Greta, que fez careta para Trump na ONU, faz muito bem a parte dela, ao tornar-se a heroica escultura viva de um mundo juvenilizado.

Merece a admiração que desfruta, e me simpatizo com ela. Mas é raro encontrar em colunas e editorais uma perspectiva mais larga, filtrada pela leitura extensiva, à luz da histórica.

É como se a pequenez do alcance mental e moral da política contaminasse tudo. Predomina o imediatismo da fofoca e a opinião estéril, a informação suspeita obtidas das “fontes” de cada um.

Greta condena os “traidores dos seus sonhos” e emociona multidões que se informam e formam certezas pelas redes sociais, como parece ser o caso exemplar de certo presidente da República.

As redes, para quem nelas vive imerso, são uma espécie de túnel sem fim, onde em cada página rola o presente eterno dos desconectados da história.

Parece que a mensagem jamais poderá mesmo se impor ao meio, para a glória de McLuhan, amém.

A mocinha exige um veganismo geral e irrestrito, e emissões zero de carbono, já!. Isso distrai a má consciência do ambientalismo de moda.

Quem dera fosse uma questão de banhar o planeta com o pó de pirlimpimpim da Greta-Emília.

“A tendência de aquecimento global inscreve-se tanto no ciclo natural do interglacial em curso, iniciado 15 mil anos atrás, quanto na emergência da economia industrial, em meados do século 19”, contextualiza Magnoli.

“O consenso científico diz que a contribuição humana é decisiva. As mesmas tecnologias e modos de produzir que alçaram a maior parte da humanidade acima do patamar da fome crônica provocaram a elevação das emissões de gases de estufa.” O colunista acrescenta:


 A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são mais que “palavras vazias”. O discurso de Greta flutua acima da história, ignorando os intercâmbios econômicos envolvidos na equação do desenvolvimento sustentável, e paira além da política, colocando no saco genérico de “traidores” os governos engajados em custosos programas de transição energética e os líderes que, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, se escondem nas profundezas do obscurantismo. […]  


Ao acaso, lendo Paulo Roberto Pires na Quatro cinco um, sobre Simone Weil, me ocorreu que a filósofa francesa também foi uma menina prodígio, e meio tiranazinha.

Era obcecada com a fome no mundo e não dava tréguas a quem visse pela frente com seu trololó. Ainda inspiradora, sua obra se tornou um marco do humanismo no século 20.

Alguém poderia sugerir sua leitura a Greta, como passatempo em suas viagens, nunca de avião, entre uma e outra aparição pública.    


Atenção, patetas, é fantasia! 

Houve uma época em que obras com a dimensão das de Fellini, Bergman, Visconti, Woody Allen, Glauber, sei lá, galvanizavam a reflexão, a crítica, as ideias sobre a beleza e o sentido de viver.

Hoje são os heróis da Marvel que falam à imaginação das gentes, entre uma e outra maratonada na Netflix.

Ou um filme como o novo Coringa (Joker), da DC_Comics, cujos produtores se viram obrigados a alertar o público, supostamente de crianças e adolescentes mimadas e cabeças-de-vento, que não se enganem, ao que acabaram de assistir é mesmo ficção, ouviram?

É o corrente. Há muitos anos notei a tendência, ao ver o longa-metragem de 2012 Os Três Patetas, em Portugal Os Três Estarolas, com um aviso no final para que não se repetisse em casa as marteladas na cabeça, dedos nos olhos etc., e os créditos revelavam o segredo daqueles truques.

Moe, Larry & Curly divertiram minha geração a ponto de fazer doer nossos peritônios. Não me recordo de nenhum incidente com aquelas gags, na vida real. Mas não.

O tempora, o mores!  (oh, tempos, oh, costumes), bradava Cícero nas Catilinárias. O jornalista e escritor espanhol Manuel Jabois fez um ótimo comentário a respeito.



Amélia, a IA de verdade

Fale com a Bia (acrônimo de Bradesco Inteligência Artificial). Parece que o futuro vem aí com as assistentes virtuais.

Tem a Joice da Oi, a Aura da Vivo, a Lu do Magazine Luiza e, vejam só, a Amélia da Shell. “Esses nomes femininos viraram a forma de ‘humanizar’ a interface automatizada de marcas”, diz esta reportagem de Lílian Cunha.

Humildemente, tenho cá a Marina, do supermercado da esquina, que me escreve e-mails diários com ofertas imperdíveis.

E uma voz feminina me liga na antevéspera para confirmar minha consultas num hospital do Belo; confirmo, e no dia seguinte recebo um SMS automático para testar minha convicção.

Dois dias depois, um robô solicita minha opinião sobre a qualidade do serviço prestado. Noto que os assistentes são sempre fêmeos. Não haveria sexismo em reproduzir no mundo da IA certos estereótipos?

Ou, quem sabe, pelo contrário, o espalhamento de assistentes e secretárias nos algoritmos agora seja o sal da terra, uma libertação de tarefas consideradas subalternas?

Nesse caso, os jornalistas estariam solidários com essas e outras tantas categorias profissionais.

O advento da IA é saudado como mais um passo do imparável progresso humano. As empresas começam a usar e vender aos seus clientes a novidade como mais uma vantagem tecnológica, benefício de valor agregado perante a concorrência.

O fato de estarem cortando postos de trabalhos aos borbotões, inclusive de jornalistas, pois os robôs já reportam nos esportes, na economia e na previsão do tempo, não diz muita coisa à opinião pública.

Quando os bons serviços da Bia são proclamados nos intervalos comerciais do Jornal Nacional, os criativos da publicidade parecem convictos de agradar no atacado com suas, como gostam de dizer, epifanias, ao concederam tais miçangas e espelhinhos hi-tecs à bugrada. Como já disse aqui, acho burra a inteligência artificial.

A propósito, deu no Valor:


 Mais da metade dos empregos formais e informais no Brasil (58,1%) pode ser substituída por máquinas nos próximos dez a 20 anos, o equivalente a 52,1 milhões de postos de trabalho. É o que mostra um estudo da consultoria IDados, obtido pelo Valor, que cruza a base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE com um estudo da Universidade de Oxford que separa as ocupações em faixas de risco de automação.

Um exemplo bem-acabado dessas profissões ameaçadas é a condução de automóveis, táxis e caminhonetes (98% de probabilidade de automação), tarefa que tende a ser substituída por carros autônomos, como os famosos veículos da Waymo, a divisão de automóveis sem motorista do Google. Também estão na lista os cobradores, entrevistadores de pesquisa de mercado, balconistas de serviços de alimentação e garçons, por exemplo.


  É isso aí. Bom fim de semana e até a próxima.


QUADRADO AO PÉ DA CARTA

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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