Jurupoca #09

Número 9 — Outubro, 25, 2019

 No velho aparelho tocava o CD Chico Buarque (1989) na faixa Uma palavra, neste ponto:


“Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Opa. Vamos apear?


“Sabe, é bem curioso rever as matérias impressas daquele tempo. Claro que da maioria das coisas eu nem me lembrava mais (a gente vai deletando o HD da cachola quando se trabalha com informação demais). Constatei, feliz, que fizemos um ótimo trabalho e, incrivelmente, até senti uma pontada de orgulho de ser jornalista.”

(Bilhete via e-mail de Pablo Pires, jornalista contemporâneo de uma antiga encarnação nas redações.)  


Belo Horizonte arde. Vou à janela. O aglomerado da Serra, que se desborda nos contrafortes da Serra Curral, está mais uma vez coberto de fumaça.

A fuligem da tarde me chega ao nariz. Me sento para escrever e o horizonte opaco reflete um beco sem saída, emparedado nos limites da montanha de ferro.

Me vejo como o “inseto que cava/ cava sem alarme/ perfurando a terra/ sem achar escape […], em país bloqueado/ enlace de noite/ raiz e minério”, como descreve o Áporo drummondiano.

Mas eis que algo se desata, ainda que não a “orquídea antieuclidiana” do poema. Ou será algo da mesma ordem?

Apois.

Anotei: a Jurupoca está no ar. Olho para o que Pablo me escreveu, olho para o que logrei ao me afastar das mídias sociais e da angústia que aquilo trazia — e vamos para três anos de proveito —, olho para a questão geral do nosso feitio no mundo, olho para tudo isso e sinto que talvez, talvez, de peleja em peleja, como nos cabe, se aviste uma possível ria, estuário, foz.

Ai de mim.

Melhor ir devagar. O de Hollanda aí de cima, a me lembrar, como um responso: “Ilusão/ ilusão/ veja as coisas como elas são”.

Quem sabe, então, uma foz embrionária, em formação? E, por certo, ainda, ao sabor do acaso, geológico, talvez cardiológico, mas precipuamente celular: enquanto dure.

Pois tudo é provisório nesta “desconhecida/ E ansiosa e breve coisa que é a vida” (Borges).

E toda arte é inútil (Oscar Wilde), como sabemos.

Pode ser que cada página lida ou escrita, cada filme, disco, tal e coisa tenham alimentado o arroio que deu no rio que deu na pretendida foz, curso para o qual tantos afluentes debitaram sua contribuiçãozinha.

Cada riacho carregou um resíduo de terra, areiazinha e seixo para formar o delta temporário de cada qual — “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” (Wittgenstein).

O que se espera nessa altura não é bem pacificação, senão uma trégua prolongada, menos redemoinhos/sumidouros com seus vértices de dissipação, produtividade e apatia (não se pode esquecer o Beckett: Fail better).

As leituras no ônibus para o Belo foram distintas, e as da volta para casa, em Pedro Leopoldo, quando não dormia de babar, também.

Podia ser um jornal comprado na livraria do Tonico [ “— Por que não lê o de ontem mesmo, meu nego?”, reouço mamãe, depois de tomar mais 50 centavos, além da passagem e do lanche que ela se apertava para prover].

Podiam ser livros, alguns de leitura obrigatória por cair no vestibular, O Guarani, Triste fim de Policarpo Quaresma… e mais tarde livros emprestados das excelentes bibliotecas da Escola Técnica, depois Cefet (Química), e da Católica, depois PUC, e podia ser um texto xerocado ou panfleto.

A Jurupoca está no ar. Para quê? Para quem? Por quê?

Representar algo de um modo de viver provavelmente em extinção (“não está nada claro que continuemos a ler” – ver G. Steiner, nesta edição) e que isso possa ser sugestivo ou, no melhor dos mundos, inspirador para alguém.

O jornalismo cultural que eu e Pablo exercemos se prestava a isso, e teve seus frutos, como não!

A Jurupoca é um sucedâneo torto daqueles cadernos bem nutridos que, não sem boa vontade, digo que viraram suplementos anêmicos de ex-cultura, melhor dizer, puericultura.

Um sucedâneo que vai contra a norma de não se escrever uma linha sem pecúnia.

Sim, uma esperança. Mas, vá lá, a esperança “não é mais do que um charlatão que nos engana sem parar” (Nicolas de Chamfort).

Mas, o que é isso?, rapaz, canícula à parte, ainda não estamos no inferno, onde, como relata Dante, somos advertidos já no pórtico a renunciar completamente aos seus encantos, da esperança. Ou já estaremos?

Nusga, nu, né possível.

Já teria avistado Caronte, o barqueiro eterno, para quem devemos levar sempre uma moeda no bolso, a paga pela travessia do Estige e suas água turbulentas.

Assim talvez o grão-tinhoso, o fito, o cafuçu, o cramulhão poupe o desinfeliz da remada na testa:

“Caron dimonio, con occhi di bragia / loro accennando, tutte le raccoglie; batte col remmo qualunque s’adagia.”

(“Demônio Caronte/ com olhos em brasa/ acenando-lhes, recolhe todas;/ bate com o remo em quem se atarda”,
Inferno, canto III, tradução de Rosa Freire d’Aguiar.)

Caronte por Gustave Doré para a Divina comédia ilustrada

Um hebiatra literário

— Se mói glé?

— Será que se mói glé?

As falas de uma criança na praia, jogando com o nome do personagem Seymour Glass, com quem se encontrará dali a pouco, se enrolaram num ramo de meus neurônios como um velho par de tênis num fio elétrico.

Fiquei meio tonto com a vertigem da imaginação e a surpresa da mimese. Isso depois de ler uma vez, reler à noite e de novo, na manhã seguinte, Um dia perfeito para peixes-banana, o primeiro dos Nove contos (Todavia) de J.D. Salinger, na sublime nova tradução de Caetano W. Galindo.

Me parece improvável que, adolescente ou não, alguém fique indiferente à leitura de O Apanhador no campo de centeio ou desses contos.

.Salinger, morto em 2010, publicou sua obra conhecida até os anos 1960, então sumiu no mapa. Afastou-se da metrópole, dos jornalistas e dos leitores, literalmente se meteu no meio do mato.

Seu legado, aos cuidados do filho, Matt, é um enigma. Há uma baita expectativa sobre a publicação dos inéditos.

Talvez para atiçá-la, está em cartaz até 19 de janeiro de 2020, na Biblioteca Pública de Nova York, a exposição que reúne manuscritos, correspondência, inclusive com Hemingway, objetos e a velha e pesada máquina de escrever do autor.

Sabe-se que vida e obra de Jerome David formam um ácido intrincado de raiva, desânimo, mau jeito com mulheres e filhos e, pairando acima disso, o peso corrosivo do front na Segunda Guerra.

Minudências surgem na dissecação que Thomas Powers realiza no artigo At the End of a Dirt Road (No fim da estrada de terra), numa edição recente do London Review of Book.

O laudo de um crítico anatomista não me interessa tanto. Mas, por certo, ter à mão os livros de Salinger e, sem ser especialistas em nada, apenas comentador, desfrutar a leitura de um dos maiores escritores norte-americanos, falando de cronistas, da estatura de Hemingway ou John Cheever.

Para Esmé — com amor e sordidez é outra história extraordinária e célebre do extraordinário livro que é Nove contos. A narrativa do Sargento X. evolui em dois planos opostos, a noite do homem que sai da guerra mais ou menos vivo e a claridade da lembrança, cautelosamente cercada de doçura, de um breve contato com uma adolescente que passaria a lhe escrever.

Penso em Salinger como um hebiatra literário, um especialista no ser adolescendo. Seus textos revelam uma escuta incomum para a mitomania, a egolatria e também para o dom de fantasiar do espírito ansioso por viver que conhecemos apenas nessa fase da vida.

Sargento X., em treinamento em algum lugar da Inglaterra onde a inteligência militar prepara o Dia D, sai do quartel para espairecer, e algo o faz entrar numa casa de chá.

Sua desolação é quebrada pela presença jovial e alegre de Esmé, o irmãozinho da moça, Charles, e uma criada, que se sentam em mesa próxima.

Inteligente e precoce como outros personagens de Salinger, Esmé puxa com ele uma conversa reveladora e cativante. Toda a maestria da ambientação e a arte do mimetismo, como vejo esta cena, têm um foco que esplende na atuação de Charles, que, depois da irmã, se achega à mesa do Sargento X:

Naquele momento, senti um cutucão importuno, quase um soco, no meu antebraço, procedente da região de Charles. Eu me virei para o menino. Ele agora estava sentado numa posição bem normal na cadeira, a não ser pelo fato de que tinha a perna dobrada sob o corpo. “O que foi que a tijola disse para o tijolo?”, ele perguntou com voz aguda. “É uma charada!”.

“Revirei os olhos reflexivamente para o teto e repeti a pergunta em voz alta. Então olhei para Charles com uma expressão de perplexidade e disse que desistia.

“Não seja cimento!”, veio a piada, no volume mais alto.


Harold Bloom, RIP

“Em 27 de setembro de 2003, o caderno Magazine do jornal O Tempo publicou uma entrevista que tive a honra de fazer […] com o mestre Harold Bloom. Lembro-me de ele repetir as palavras ‘dear’, ‘oh, my dear’ com frequência, um lord”, rememorou Pablo Pires num post em sua página no Facebook.

Colaborei com Pablo nessa longa entrevista, que saiu num sábado, em três páginas standard, para nosso júbilo, por termos cumprido bem aquela missão autoimposta. E qual era?

Talvez, pôr o jornalismo cultural acima da manada, torná-lo menos provinciano no Belo.

Mr. Bloom, então aos 73 anos, já se achava adoentado, convalescendo de uma cirurgia no coração. “Eu acordo às 4h30, tenho que fazer ginástica para pôr meu corpo de volta à forma”, ele respondeu, ao ser inquirido sobre como levava sua rotina.

“Eu escrevo pela manhã, às vezes bem cedo, também à tarde. Eu escrevo todos os dias. Mas quando não estou escrevendo, estou lendo. Eu tenho que dizer: eu não consigo parar de ler, leio do momento em que acordo ao momento em que vou para cama. Tenho mais paixão por ler do que por escrever ou dar aulas. Mas, na verdade, eu não faço distinção entre as três atividades.”

Possivelmente o crítico mais importante e influente do nosso tempo”, no enunciado de um jornal, Harold Bloom morreu aos 89 anos, na segunda-feira,14, em um hospital perto da Universidade de Yale, onde detinha a Cátedra Sterling de Humanidades, menos de uma semana depois de dar a última aula.

Fernando Castanedo, estudioso de sua volumosa obra e que com ele privou de vários encontros, também se lembra da amabilidade e do trato carinhoso “(dear Fernando, my dear friend)” num tocante obituário no El País.

Quiçá com Mr. Bloom morra a erudição totalizante, capaz de abarcar o mundo literário desde sempre, ou pelo menos desde a herança cabalística (ele teve origem simples numa família judia de pai operário, e até os seis anos de idade não falava inglês, só hebraico e iídiche).

Na era do patrulhamento global, creio que também morra com ele certa coragem de contestar, de enfrentar ainda que quixotescamente a “expansão da ignorância instruída” (Saul Bellow no prefácio do livro do professor Allan Bloom, O declínio da cultura ocidental), movida pela paixão literária.

“Harold Bloom era um mestre que fez da literatura a religião dos desencantados”, enunciou o belo título do comentário de Antonio Gonçalves Filho .

Castanedo menciona a memória fotográfica do menino Bloom, que se gabava com os colegas de conseguir ler uma página inteira do New York Times apenas uma vez e, em seguida, reproduzi-la de cor, dom que atribuía a “algum antepassado cabalista” e que o elevaria como professor, para a felicidade de um grande alunato.

No seu obituário para a Folha, Arthur Nestrovski rememora igualmente as “lendárias aulas” em Yale e, por algum tempo, na Universidade de Nova York. “Bloom era uma força da natureza, conjugando memória verbal sobre-humana com enorme senso de humor e iguais doses de afronta”, retratou. Destaquei esta passagem do texto:

Um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges imagina um homem, ‘Funes, el Memorioso’, capaz de lembrar de absolutamente tudo o que vive, e os terrores dessa memória total.
 
Para os que o conheceram, Bloom, como leitor, parecia um Funes. Seus críticos, que não eram poucos, acusavam a teoria de só fazer sentido para um leitor assim, capaz de ouvir ecos e acentos de toda a literatura a cada novo texto.
 
Parece menos uma crítica do que involuntária expressão de apreço, numa ironia tipicamente ‘bloomiana’. Mas falta aí o reconhecimento da dimensão literária e humana da sua escrita. Raros autores foram capazes de escrever com semelhante verve sobre tantas obras e tantos assuntos, e com tamanho gosto.”
 
A prosa de Bloom é um influxo de vida. Só pode ser comparada a seu talento de orador, capaz de falar de improviso por mais de uma hora como se estivesse lendo um texto, citando longos poemas, sem consultar uma única página.

Capa do Magazine, caderno cultural de O Tempo, 23/09/2003


Palavra e vida

De um grande crítico literário para outro, este felizmente ainda vivo aos 90 anos, retirado em sua tranquila residência em Cambridge.

Como exercício para testar a saúde da memória, toda manhã ele traduz algum trecho de grego antigo para um dos idiomas nos quais sempre falou, leu, escreveu e ensinou, vindos do berço o francês, o inglês e o alemão.

Sou um apegado da escrita e da inteligência do filósofo e ensaísta George Steiner.

Judeu cuja família por pouco não escapa da França invadida por Hitler, ele podia ter entrado para a Escola Normal Superior de Paris, como desejava, mas a sorte o levou para o mundo anglo-saxão e, portanto, para outra visão de mundo, em universidades dos EUA e do Reino Unido.

Seu texto revela, além de erudição, o dom da honestidade intelectual. Entendo isso como a fluência clara de um estilo que é didático “naturalmente”, sem o pretender.

Pois, como ele mesmo diz, devemos ter como referência moral a “relação entre a palavra e a vida”.

Steiner foi o primeiro jovem humanista admitido no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, pelas mãos de ninguém menos que Oppenheimer.

Lá conviveu com Niels Bohr, de quem foi amigo. Nessa época deixou um posto bem remunerado e promissor na The Economist, em Londres.

Como ele diz, no “século da grande ciência, também do ponto de vista estético e filosófico, estar rodeado pelos ‘príncipes do universo’” e compartir um ambiente “de calma total” e o “ideal de investigação absoluta” fizeram dele o que é, um escritor avesso ao obscurantismo e à esterilidade que reinaria nas letras francesas na segunda metade do século 20.

“Desde então, e mais tarde em Cambridge, tenho a impressão de que nas humanidades vivemos no século do blefe, até limites insuspeitados. Não se pode blefar nas matemáticas ou na grande ciência: ou funciona ou não. Não se pode trapacear”, ele diz, com o que Harold Bloom talvez concordasse.

Acabo de ler a edição espanhola de Un largo sábado (Um longo sábado), livro curto e delicioso publicado originalmente em francês, com as entrevistas de Steiner concedidas a Laura Adler entre 2002 e 2014, e, até onde sei, não lançado no Brasil, e George Steiner en The New Yorker (Siruela) — a edição eletrônica brasileira com o título Um Tigre no Espelho (Biblioteca Azul) estava indisponível.

O último é uma coletânea de suas contribuições para a célebre revista norte-americana, onde sucedeu a Edmund Wilson, outro titã da crítica literária.

Os ensaios desse período sobre Borges, Cioran, Solzhenitsyn, Céline ou a amizade intelectual entre Walter Benjamin e Gershom Scholem me parecem leituras fundamentais.

A jornalista e filóloga Laura Adler, ao formular uma das perguntas desse “inebriante” livro que é Um longo sábado, propõe que a convivência com a comunidade de Princeton, nos anos 1950,  impôs “a precisão e o rigor analítico” com os quais Steiner iria depois espanar das “humanidades” o pó do hermetismo obscurantista.

“Na história europeia o senhor foi o primeiro a introduzir conceitos de um rigor quase matemático no seio da literatura, da mitologia e da história literária”, ela diz.

“Oxalá você tivesse razão”, ele diz, ao introduzir a resposta em que fala no “blefe”, com a modéstia natural de homem realmente cultivado.

Aqui, como em qualquer outra de suas obras, Steiner exerce o papel de um poderoso guia literário, recomendando leituras e releituras e iluminando outras tantas, a começar dos textos bíblicos.

Ele é um entusiasta do português António Lobo Antunes e se refere obliquamente à “boa literatura” brasileira.

Nestas Conversasiones con Laura Adler, subtítulo da edição El Ojo del Tiempo – Siruela, Steiner sustenta seu antinacionalismo arraigado, que o faz uma persona non grata em Israel, mas transmite grande vivacidade e entusiasmo ao abordar a história do judaísmo na diáspora e, sobretudo, seu entendimento sobre as razões da grande inventividade, produtividade em todos dos campos da elite científica e cultural, e resiliência de seu povo.

Além da fundação da literatura moderna, ele comenta temas sortidos como erotismo, música, seu outro grande prazer, enxadrismo (na juventude, estudante em Chicago, pensou em se tornar um mestre do jogo; há um ensaio sobre o tema na compilação da The New Yorker) e a ordem e a desordem do mundo.

Detém-se pelas tantas em uma das ideias recorrentes em seus ensaios, o “empobrecimento moral” de nossa espécie nos século da Shoah, do Gulag, da revolução cultural chinesa, de Pol Pot…

O que leva a esta questão terrível: a ilustração, contraintuitivamente, pode ter autorizado as maiores monstruosidades cometidas na história humana?

Como alguém que, à noite, ouve ou toca Schubert e lê um soneto de Shakespeare, ao acordar põem-se a torturar e exterminar seus semelhantes como se fossem insetos?

Steiner abomina o entretenimento rasteiro mas não é um “elitista” no sentido corrente, nada tem contra a televisão ou a música popular. Mas é realista. Sabe que o hábito de ler pode estar moribundo.

“Em termos históricos a escrita é recente; a escrita literária remonta ao Gilgamesh — o grande poema épico da antiga Babilônia — e chega mais ou menos até a atualidade”, ele diz.

“Não está nada claro que com a eletrônica moderna, com os meios técnicos de informação, com os arquivos eletrônicos cujas memórias superam milhões de vezes as memórias literárias humanas ou as gramáticas, não está nada claro que continuemos a ler”.

Me pergunto se Steiner se preocupou em espiar como operam as redes sociais.

Hatoum e Chico aqui, Llosa por aí 

Saem em novembro os novos romances de Milton Hatoum, o segundo volume da trilogia O lugar mais sombrio, com o título Pontos de fuga, pela Companhia das Letras, e, pela mesma editora, Essa gente, de Chico Buarque. Ambos já estão em pré-venda na Amazon.

Em castelhano já podemos ler Tempos recios (Tempos difíceis), novo romance de Mario Vargas Llosa, lançado na Espanha pela editora Manancial.

A narrativa desvela uma conspiração articulada pela CIA e a multinacional “bananeira” United Fruit para derrubar um governo eleito pelo voto popular e que pretendia instalar uma democracia moderna na Guatemala, há uns 70 anos.

Pesquei desta entrevista (em português) o trecho em que Llosa medita sobre a paranoia contra o imigrante na Europa e nos EUA (os negritos são da Jurupoca).

P. Mas [o terrorismo] têm um efeito nefasto na vida política.
R. Sim, estão empurrando muitos setores democráticos para o autoritarismo. Em nome da autodefesa se destroem grandes valores da democracia. Claro, é um dos perigos. Porém mais grave que o terrorismo islâmico é o ressurgimento do nacionalismo, isso que acreditávamos extinto na Europa, sobretudo depois das catástrofes das guerras mundiais. É o chamado da tribo, a ideia de que no passado existiu uma sociedade homogênea onde todos se entendiam, que é uma falácia, isso jamais existiu. A paranoia que existe hoje em dia contra o imigrante é uma manifestação de racismo. E isso que antes era malvisto agora deixou de ser. Os políticos inclusive podem falar contra a imigração dessa maneira racista e preconceituosa. É um problema muito sério da democracia.


No coco e no coração,
Mr. do Pandeiro e Dona Quelé

Lenine canta “pro rei da levada”, segundo a “lei da embolada”, na “língua da percussão”. E vai na “dança mugango dengo” com a “ginga do mamulengo”.

Claro que você sabe “quem fez o samba embolar, o coco sambar e a ema gemer na boa”.

O centenário do paraibano José Gomes Filho foi lembrado, discretamente, em 31 de agosto último. Jackson do Pandeiro é tão importante quanto Luiz Gonzaga, não tenho dúvida.

Quem se educa musicalmente no Brasil tem a percussão no corpo e no quengo, e compositores como Mr. do Pandeiro são nossos gurus, se não diretamente, por meio de discípulos influentes como Alceu Valença, talvez seu melhor intérprete, quei canta com o mestre o coco Papagaio do futuro, ou Zé Ramalho (também) da Paraíba, que o embolou com Bob Dylan.


Já Macedo Pimentel Oswaldo Lenine pode entrar para a academia com o Magnum opus que é Jack Soul Brasileiro, donde extraio as aspas iniciais dessa nota.

Letra e música jorram invenção, a história que universaliza nossos ritmos com suas divisões de entortar toda genealogia da escola vienense.

Sentimos a suingada das batidas e o canto se incorpora como uma entidade do candomblé, a um tempo no intelecto e no plexo solar (na acepção que o Michaelis informa: “Ocult.: chacra considerado o centro da vitalidade, da circulação nervosa, da inteligência e da distribuição de energia, situado na cavidade abdominal, abaixo do diafragma.”)

Não sei qual das duas é a melhor, se a versão original de Lenine (1999) ou a com ele e Fernanda Abreu (1997), tendente para esta, pela caprichada e feliz elaboração do arranjo.


Por falar no candomblé, esse crença desgraçadamente perseguida por pouco não me reconverteria.

Se dependesse dela, de Quelé, a quem tomei a bênção, eu, pobre agnóstico, ex-católico, frequentaria os terreiros mais afinados deste país.

Musicalmente sou um convertido, à Bahia, por certo, e a Clementina de Jesus, há muito. Boca de sapo, sobre o infortúnio de um marido que pula a cerca, é outro momento dourado da MPB clássica, da lavra de João Bosco e Aldir Blanc, dois de seus patronos ainda em função, dei gratia.

Em 1985 ela gravou pela EMI Music o LP Clementina e convidados, que traz essa faixa, outra lição de samba, cultura e arte popular. Começa em mi maior:

“Costurou / na boca do sapo / um resto de angu / — a sobra do prato que o pato deixou” Dá uma volta ao acorde inicial e manda o mote/refrão:

“Depois deu de rir / feito Exu Caveira: / marido infiel vai levar rasteira.”


“A sobra do prato que o pato deixou” é um tamborim fonético quase tão perfeito quanto o que Chico Buarque cobriu nos versos “Quem que te mandou toma conhaque / com o tíquete que te dei pro leite” (Biscate, do álbum Paratodos, de 1993).

Não me escapa, claro, a falta de correção ecológica da letra, mas, vos peço de joelhos: não me crucificais com anacronismos. Amém.

Só lamento pelos moços, pobres moços que não puderam conhecer e se formar na riqueza de nossa música popular mais imaginativa, tributária da melhor criação musical e da riqueza do idioma, ou não se interessam por ela, e agora ficam aí, coitados, a mercê de K-pop, sertanejo de butique, funqui isso, funqui aquilo e não sei mais quê.



Refugiados afinados

A Orquestra Mundana Refugi, como o nome sugere, é composta por artistas refugiados de várias nacionalidades (palestinos, sírios, congoleses…) que vivem em São Paulo.

O grupo, que já tinha apresentado no YouTube uma esplêndida versão de Caravelas, do último álbum de Chico, lança o ótimo Caravana Refugi, que traz aquela gravação e, também, entre as 11 faixas, um belo pot-pourri de Milton Nascimento e parceiros.

Entre os instrumentos usados nos arranjo da orquestra entram o kanum árabe (de cordas), a cítara chinesa e o bouzouki (da família do alaúde e muito popular na Grécia).



Pra início de conversa

 “Comigo me desavim
Sou posto todo em perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim”.
 
“Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?”.

Essas trovas muitíssimo sabidas de Sá de Miranda (1481-1558) podem, fica a dica, ser fixadas na parede dos psis do mundo de fala portuguesa. 

[Cena única]

Ao ver o cliente acomodado, caixinha de Kleenex e copo d´água à mão, o moderno alienista aponta o quadro com sua caneta-laser antes de dizer (e prescrever algum elixir d’alma):

— É isso, não é meu filho? E o que mais te incomoda?

— 

(“Imigo” é forma sincopada de “inimigo”).

Novo salto para a humanidade 2.0

A edição genômica parece estar entrando em seus dias de glória. Acelera-se a mais promissora e temerária revolução na ciência.

Depois do Crispr-Cas9 (crísper-cás-nove), a revista Nature anunciou (21/10) a descoberta de uma nova técnica de edição genômica, batizada modestamente de prime editing (“edição de qualidade” ou “de primeira”, se quisermos).

Seu inventor, o químico californiano da Universidade de Harvard, David Liu, também é conhecido por ter sido proibido de entrar em vários casinos depois de quebrar bancas de 21 (blackjack) com cálculos probabilísticos.

A minissérie em quatro episódios da Netflix Seleção Artificial, ainda que levada pelo ritmo chato e sensacionalista do documentário atual, mostra bem onde estamos. E a BBC Brasil mastiga bem o assunto nesta matéria.


Triste figuraça

Em uma entrevista recente, Ian McEwan havia analisado a figura ímpar do primeiro-ministro inglês. “Fico assombrado, porque é um homem educado e inteligente, com muito encanto pessoal. E virou um imbecil populista da pior índole”, ele disse.

“Comparo-o a um personagem de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Acho que em algum momento o pó mágico cairá sobre seus olhos e a cabeça de burro desaparecerá. E de novo será Boris Johnson. Apesar de ser um homem culto, e como tal com um senso do que é a História, mostrou uma profunda ignorância sobre o funcionamento da democracia parlamentar. E nesse sentido foi uma grande decepção”.

Esta semana foi a vez de John Le Carré, que aos 88 anos lança mais um romance de espionagem, Agent Running in the Field (“Agente correndo no campo”), inédito no Brasil, uma história que tem o Brexit de fundo.

Aqui, ele chama Johnson de “Mickey Mouse” e solta os cachorros:

Pergunta. O senhor disse certa vez que viu o Muro de Berlim ser construído quando tinha 30 anos, e derrubado quando tinha 60. Imaginou alguma vez a Europa em que vivemos agora e a crise provocada pelo Brexit?
Resposta. Parece-me algo impensável. É sem dúvida alguma a maior idiotice e a maior catástrofe que o Reino Unido já perpetrou desde a invasão de Suez [1956]. Para mim é um desastre autoinfligido, pelo qual não podemos culpar ninguém, nem os irlandeses, nem os europeus… Somos uma nação que sempre esteve integrada no coração da Europa. Podemos ter tido conflitos, mas somos europeus. A ideia de que podemos substituir o acesso ao maior tratado comercial do mundo pelo acesso ao mercado norte-americano é aterradora. A instabilidade que Donald Trump provoca como presidente, suas decisões de egomaníaco… Realmente vamos nos colocar à mercê disso em vez de continuar como membros ativos da UE? É uma loucura, é terrível e é perigoso. Eu não gosto politicamente, nem acredito nisso economicamente, e não entendo. Não entendo como chegamos a essa situação em que temos um Governo do Mickey Mouse de gente de segunda categoria. O secretário [ministro] de Relações Exteriores é alguém a quem realmente desprezo, nunca conheci essa gente, mas só produziu relatórios de segunda categoria, e é um homem muito estúpido e um péssimo negociador. Isso é que o penso sobre essa situação.


Sem comentários

Ruy Castro, em coluna na Folha, me chamou atenção para uma excelente entrevista de Fernando Eichenberg com o embaixador francês aposentado Gérard Araud em O Globo.

Foi quem deu um chega pra lá em sua excelência Bolsonargh, estadista cujo jaez o levou a concluir, em um vídeo nas redes sociais, que era “simplesmente insuportável viver em certos lugares da França”, aludindo à imigração, para, em seguida, levar esta pregada num tuíte de Araud:

“63.880 homicídios no Brasil em 2017, 825 na França. Sem comentários”.

(Me pergunto se S. Ex.ª Bolsonargh leu na vida ao menos o Almanaque Capivarol ou o do Jeca Tatu, do Biotônico Fontoura)

O melhor trecho da entrevista:

O senhor diz que seu paradoxo é acreditar, ao mesmo tempo, na razão e na loucura dos homens…
A História é uma grande coleção de atrocidades. Vivemos um período de loucura e de paixões. Veja os militantes antivacinas ou os terraplanistas. A palavra do especialista não existe mais. E há as mídias sociais. Antes, havia quatro bêbados em uma bar que falavam uma bobagem, mas aquilo ficava entre eles. Hoje, falam nas redes sociais e se tornam quatro mil imbecis. Há a difusão de falsas informações. Trump legitima os sentimentos de ódio e de desprezo que antes não se ousavam formular. O rebaixamento do discurso político é também o rebaixamento do discurso geral.



Merdunchos

Álvaro Costa e Silva lembrou o escritor João Antonio, “que andava na rua com o ouvido espichado para a fala do povo”. Entre o melhor dessa colheita [“…o povo é o iventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso…”, a lembrar as Galáxias (H. de Campos) e sua extração por Caetano em Circuladô de fulô] de Malagueta, Perus e Bacanaço — , o cronista elege a expressão “merdunchos”, os deserdados “que vivem naquela água e se viram justamente para conseguir algum dinheiro”, e comenta:

“Eles nunca foram tantos como no Brasil atual. A desigualdade no país, que já é um dos mais desiguais do mundo, só faz crescer. Pesquisa recente divulgada pelo IBGE mostra que, por qualquer medida, no último ano os mais ricos ganharam e os mais pobres perderam renda. O efeito da crise econômica no mercado de trabalho conseguiu até que os desempregados mudassem de nome — agora são chamados de empreendedores.”


Últimas notícias meio desconexas

—  “Diferença de rendimentos entre pobres e ricos é recorde, aponta IBGE — Pesquisa mostra que aumento da desigualdade coincidiu com queda no atendimento do Bolsa Família.” (FSP-16/10) —

— “Famílias em Belém vivem sobre o lixo à espera de obra iniciada em 2006 — Vila da Barca é uma das cerca de 450 obras do PAC para urbanização de assentamentos precários que estão paralisadas no país” (FSP-22/10) —

— “TJ do Rio prevê gasto extra de R$ 100 milhões com folha de pagamento em três anos — Em meio à discussões sobre Regime de Recuperação Fiscal, projeto foi encaminhado à Alerj, que prevê primeira votação para hoje” (O Globo-22/10) —

— “Em meio à crise no estado, TJMG é autorizado a gastar mais dinheiro com pessoal — Após alerta do TCE para gastos com pessoal em MG, Tribunal de Justiça questionou metodologia usada e conseguiu a liberação para aumentar despesa com servidores.” (G1-18/10) —

“Aqui não tem banheiro, não tem fossa, não tem nada’ — Em país onde ao menos 1,5 milhão de moradias não têm banheiro, falta de ação perpetua desequilíbrio sanitário”: Ananindeua (PA) – Na casa de Antonete de Castro Monteiro, 50, falta água potável, torneira, pia e um dos cômodos mais básicos: o banheiro. “Aqui não tem banheiro, aqui não tem fossa, aqui não tem nada”, resume ela, que vive há oito anos em uma casa de madeira construída por ela mesma na periferia de Ananindeua, no Pará, uma das piores em saneamento no país. (FSP-09/10) —

—  “Em cinco anos, doenças por falta de saneamento custam R$ 1 bi ao SUS — Para pesquisadores, gasto com ocorrências ligadas ao contato com água contaminada é subestimado” (FSP-17/10)


QUADRADO AO PÉ DA CARTA


JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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