Jurupoca #10

nÚMERO 10 — Novembro, 8, 2019


Opa. Vamos apear?

Acordo cedo e tomo o rumo do parque. Ao cruzar Alfredo Balena e Carandaí, nuvem que passa, sol oscila. As mangueiras me param. Pleno verdor, promessa em cachos. Tenho a renovação do seu ciclo na conta de acontecimento supremo da vida no Belo.

Então elas se carregaram novamente, e na hora?

O próprio tempo oscila.

O que guardarão essas aleias centenárias preservadas de corte, remanescentes, sobreviventes, a zelar pela avenida?

Dr. Pedro Nava, primeira turma de Medicina da UFMG, 1927, desfrutou do seu esplendor. Ave. Meu afilhado, quase doutor I., ainda desfruta do elegante sombreado.

Meu primeiro encontro/encanto com o mangueiral deu-se numa tarde chuvosa de domingo. Começo dos 1970. Viemos para uma sessão do Circo Moscou, com o mano J. e quem mais?

O circo fora instalado onde existira o Estádio Alameda. Depois subiram ali o Jumbo, hoje Extra, aquela feiura toda de quadra.

Mas o mangueiral nos redime. As mangas eram então amarelo-alaranjadas, mosqueadas.

Com a ventania, rebentavam no asfalto e no calçadão, como farão novamente, em dois, três meses.

Logo o tempo retomou seu curso mais ou menos ilusório. Ando no parque. Cruzo com os dois rapazes de aparência oriental. Vão pelos vinte e tantos. Habitués também.

Caminham relaxados, risonhos, enamorados, quem sabe? Conversam bastante, cada qual fixado na própria telinha como pela extensão dum neurônio, como pela corda do coração.

Caçarão pokémons? Haverá tal fartura desses seres no parque? Serão eles próprios, rapazes, pokémons?

Já me distrai a frase dum trompista que vem do Palácio das Artes. Abertura de alguma sinfonia. Qual? A frase tenta se apurar, evasiva como o canto de um sabiá ao redor.

Os suecos têm uma palavra (intraduzível, diz a Deutsche Welle) que expressa o gosto de acordar cedo para ouvir os pássaros: Gökotta, de “gök”, cuco, e “otta”, matutino.

Gökotta sim senhor. Benesse de quem anda no parque, além do arvoredo, dos lagos, das carpas, das garças, dos burricos, dos brinquedos simples que divertem crianças pobres que se contentam com as matulas maternas, biscoitos, picolés, balões, algodão doce tingido de rosa.

O parque não é nada gourmet.

Nesses dias dei de ouvir Arvo Pärt, sua Tabula rasa, na caminhada. Em O resto é ruído – escutando o século XX, Alex Ross fala do sucesso inesperado dessa música, lançada pelo selo alemão ECM nos anos 1980. Milhões de cópias vendidas.


O crítico da The New Yorker atribui a Pärt e a outros compositores, como Henryk Górecki e John Tavener, uma oportuna ponte do erudito contemporâneo com os ouvintes de pop/rock.

“Conseguiram apelar ao grande público durante os surtos de crescimento global dos anos 80 e 90: eles ofereciam o repouso de um oásis numa cultura tecnologicamente saturada”, ele diz.

“Uma cultura tecnologicamente saturada”. Anos 1980, 1990? Tenha a santa paciência. E hoje? O que é isso, gente?

A saturação se adensou no milênio a ponto de colapsar, estrela finada/buraco negro a nos sugar a todos?

Relaxamos e gozamos amalgamados, tudo fettuccine, cada qual-partícula, cada fóton qual, depois de penetrar os grandes lábios do tal “horizonte de eventos”?

“Uma cultura tecnologicamente saturada”. Eu é que sei.

Minha pergunta à vera é, pois, ninguém mais sente falta de uma pastoral, descanso verdadeiro, relaxamento, desconexão, ninguém mais se sente oprimido pelas cidades ruidosas e o planeta pelando assim-assado, enquanto mata o tempo (que nos mata) consultando celulares e teclando sem parar?

É possível ser sem smartphone?

Daí a DAIM.

O Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo.

Opa. Descobri a síndrome que explica a catástrofe cultural em voga. O novo flagelo da humanidade.

Dependência tecnológica, incapacidade de ler, de ouvir o outro, desinteresse por cinema — além do parque de diversão da Marvel — indiferença perante a história (acompanhada de arrogância em relação a tudo que havia no mundo antes de 2001).

Martin Scorsese, coitado, teve que se explicar, e o fez muito bem, por ter dito que os filmes da série Marvel não são cinema. Na batata. Claro, caíram-lhe em cima.

Venho matutando o tema, meditando. Talvez me deem no futuro um prêmio pela formulação do diagnóstico DAIM. Modestamente, digo que merecê-lo-ia.

Olha só:

Na Jurupoca #02 citei o Amos Oz: “Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da humanidade: ‘o jardim de infância global’, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos”;

Na Ju #06 comentei que em Serotonina Michel Houellebecq brilhantemente aponta a infantilização reinante no mundo ao mostrar a patética decepção do narrador, Florent, com Proust e Thomas Mann em favor de Conan Doyle;

Na Ju #08 tasquei que era sintomático, de quê?, da infantilização pandêmica, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a fofa Greta Thunberg.

 
Outros sintomas (secundários) da DAIM que estudei com diligência: o gosto pela fofoca; a suscetibilidade ao nacional-populismo e ao fanatismo em geral (esquerdofrenia ou psicose bolsonarista, e.g.); o empobrecimento do gosto musical com o domínio do transbrega sertanejo, do transbrega evangélico, do transbrega católico e de todo o chorume que escorre para dentro da cachola como as gotas de veneno no ouvido do pai do Hamlet; a obsessão com saúde; o sumiço dos cadernos culturais: no Brasil não sobre um decente.Todos cadernos de ex-cultura/puericultura. Me dão azia. Tá bom assim?

…. a idade também, repito a minha idade… 1961!… estou remoendo?… estou caducando?… tenho direito!… todo mundo que é do século passado tem direito a se repetir!… e santo Deus! a se lamentar!… a achar tudo chinfrim e idiota!

O parágrafo acima é emprestado. Mudei de século. Saiu 1894, entrou 1961.

1961! Foi quando saí do interior de minha mãe, dona H. (e ela de D., há cem anos neste 10 de novembro. À maneira do Nava, digo só: Saudade.)

O parágrafo emprestado está em De Castelo em Castelo (Companhia das Letras, 2004), página 17.

Ao subscrever um período de Louis-Ferdinand Céline, preciso tomar cuidados. Toc toc toc.

George Steiner prefere falar do gato do escrito, Bébert, que da pessoa, do homem, o doutor Destouches (Céline era o nome da avó materna e madrinha) e seu “antissemitismo homicida”, autor dos panfletos Bagatelles pour un massacre e L’école des cadavres.

Subscrevo também o parecer de Steiner, e acrescento outro qualificativo: asqueroso.

O homem Destouches não tem perdão, morreu, foi enterrado. Sua literatura é que perdura. E é das maiores.

“As grandes obras de ‘ficção real’ permanecem. Seu canto selvagem revive e renova a linguagem”. A resenha de uma biografia de Céline na The New Yorker, da coletânea mencionada na Jurupoca passada, acrescenta, ao se referir a Viagem ao fim da noite:

“A batida do rock, o martelar do heavy metal, do som como droga, detonam primeiro na linguagem da Viagem. Seu eco asfixiante não cessou”. Isso foi escrito em 1992. Em 2019, continua.

Para Steiner, vale a pena conjecturar que, como em Jonathan Swift, “o manancial da imaginação e da eloquência desencadeada é o ódio”.

E mais adiante: “O estilo privado e a obra literária de Céline estão imersos em um riso negro de proporções rabelesianas.” 

Rosa Freire d’Aguiar, grandíssima tradutora, diz no prefácio de Viagem ao fim da noite que o grande achado do autor foi “ser um Proust da plebe”.

Quando sai a Viagem, 1932, fazia só cinco anos da publicação de Em busca do tempo perdido. Proust se firmava como gigante literário.

“Ora, tudo o que em Proust era delicadeza, fineza, meios tons, harmonia”, escreve d’Aguiar, “em Céline era grosseria, crueza, violência, deformação”.

Céline, creio, sempre foi muito mais “fácil” de ler que Proust, e isso é mais verdadeiro agora, quando só os muito determinados, quase insanos, marginais do tempo, encaram À la recherche.

E de dizer isso morro de vontade de recomeçar os sete volumes, quase 3.000 páginas.

Penso que De castelo em castelo ou Viagem (falta ler Norte, entre suas obras que me interessam) podem despertar em refratários (olhada a DAIM aí, gente) e reacender em leitores preguiçosos o prazer inigualável da leitura.

É uma prosa revolta/revoltada que jamais inspira tédio, a de Céline. Vai muito bem em português, por sinal, graças a Rosa Freire.

E o nosso idioma anda num rame-rame danado, você não acha? É mister revivê-lo.

O texto de colunistas, romancistas, publicitários… para não falar da triste elocução na TV, anda frouxa, pasteurizada, medrosa, padronizada por corretores ortográficos, vai se saber.

…. a idade também, repito a minha idade… 1961!…

O leitor de Céline é provocado a cada página.

Ri-se muito com o destampatório de Ferdinand Bardamu em Viagem e do próprio Céline, ele mesmo o narrador em De castelo em castelo, sua crueza, seu nem-estar-aí.

Faz pensar num escritor acometido pela Síndrome de Tourette, tal a ocorrência de cus, rabos, grelos, fodas e toda uma xingatória que muito enriquece um vocabulário.

Mas é uma risada continuamente contraposta pela baixeza e a miséria humanas. Seus personagens estão sempre no fim da linha do realismo e com a navalha no pescoço da liberdade e da razão de viver.

Em De Castelo, o narrador desce aos infernos, ou a uma sucursal instalada por Caronte num cais do Sena, periferia de Paris.

Na primeira parte, antes que ele se detenha na escatologia de Sigmaringen, para onde fogem mil e poucos colaboracionistas da turmona de Vichy e adjacências, les collabos para os íntimos, ele visita os mortos e se assombra com seu desfile em pares e trios, todos andrajosos, falantes, carnicentos.

Descem dum antigo bateau-mouche dos passeios da infância do narrador, o La Publique, infância marcada pela rotina de tabefes, como cabia à melhor educação.

Quando volta da estação no inferno, cai de cama com a sezão. Prelúdio de Sigmaringen. Toda a passagem não deve nada a Proust. 



Falta pouco para as 7h, fim de outubro de 2019. Pärt me soa como música sacra nessa peça.  Ross conta que era mais ou menos assim há 30 anos:

“Para alguns, a estranha pureza espiritual de Pärt era um bálsamo contra o desespero: uma enfermaria de um hospital de Nova York tocava Tábula rasa para jovens com Aids em estado terminal, que em seus últimos dias pediam para ouvir várias vezes a música”.

E, depois de toda essa digressão (1961!), como fica meu mangueiral em frutos verdes da Alfredo Balena? Apois.

Aquela fração de segundo em que notei as árvores renovadas é que me salva, como agora a música de Pärt.

Tábula rasa. Estado que caracteriza a mente vazia, anterior a qualquer experiência (Houaiss). Intermitências do coração.

Naquela fração de tempo retive, graças às minhas árvores, o circo, J., dona H., meus idos que seguem aqui dentro.

Volto ao parque na manhã seguinte. Cadê as mangueiras?

Estão lá, belas, como sói, podadas com esmero, mas não como ontem. A luz não oscila ao nosso desejo, mas ao acaso. Pudera.

Se você me permite mais uma digressãozinha só, nasci quando o muro de Berlim foi construído; tinha 28 anos quando ele foi derrubado (festejei, brindei); e 30 a mais nas costas quando a Queda é pautada no mundo inteiro.

Um dos mil artigos que leio detalha o forte crescimento dos neonazistoides do partido AfD (Alternativa para a Alemanha) nos estados das antiga Alemanha oriental.

No leste europeu, mormente na Hungria de Vitor Orban, ídolo dos Bolsonaros, regimes autoritários roubam bilhões da União Europeia na cota de subsídios agrícolas e patrocinam sua forma particular de feudalismo corrupto.

Há coisa muito pior.

Quando me reaproximo do mangueiral me assombra a lembrança do esfaqueamento e morte de uma criança de cinco anos por um demente, em Betim, Minas Gerais.

Diacho, alguém pode pensar. A aleatoriedade rege pequenas e grandes tragédias. Rege nosso entra-e-sai no mundo. Rege tudo.

E como um lance de dados jamais abolirá o acaso, como ensina o Mallarmé, nos resta ouvir os passarinhos: Gökotta.

Bom fim de semana.



JURUPOCA, O AUTOR
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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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