Jurupoca #12

Número 12, dezembro, 6, 2019

“Se estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor…”
 
Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas, Nova Fronteira, 2006, p. 53

Opa. Vamos apear?

Os altos da Serra, desde a janela de onde escrevo, acordaram tarde em pijamas. Dezembro cinza, fresco e úmido. Tempo bom pra costurar.

Tento chulear e cerzir livros, filmes, ideias, músicas, arte, cuidados, um esforço doido para dar uma ordenadinha neste mundo hiper-fragmentado. Ofício de viver. Apois.

Você viu a lista do El País? Os 21 melhores livros do século XXI. Eleição de 84 especialistas. Achei interessante, um tanto espanholada, claro.

Entraram Bolaño (2666, 1º), Sebald (Austerlitz, 2º), Vargas Llosa (A festa do bode, 4º), McEwan (Reparação, 5º), Tony Judt (Pós-guerra, 17º), Edmund de Waal (A lebre com olhos de âmbar, 21º). Tudo bem aí.

Austerlitz pra mim viria em primeiro, mas paciência.

E nada de Philip Roth. Como ousam? A mancha humana e Complô contra a América, é verdade, aparecem entre os 50/100 listados. Mas, Nêmesis? nem tchum, A humilhação? nem tchum, Fantasma sai de cena? nem tchum… Você o que acha?

Ainda não li, queria já ter lido, diacho, o segundo volume da trilogia de Milton Hatoum. Pontos de fuga.

Culpa, ele me escreve, “del reo correo del azar” (Julián Rios, Milton? O que o Google dá.), correios do acaso, que não chega meu exemplar autografado.

Nossos Correios vão tão bem quanto a Cemig, por falar nisso. Velas, vou te dizer, é item essencial por aqui nos últimos tempos. Estou atrás de lamparinas à querosene.

Duas vezes no breu em um mês a nossa quadra no Belo. E vá se falar em privatização de estatal. As corporações patrimonialistas e seus braços partidários, que não largam o osso, ameaçam te capar.

Veja o saneamento. Ter de preservar na miséria mais de meio país com esgoto exposto na porta de casa, faz parte.

Na escuridão de sábado passado íamos pela metade de Bacurau. O filme entrava no streaming. Não chovia nem nada, raios. Eu já pescava, é verdade. Trevas.

Fomos às velas, algum vinho… fade-in, fade-out. Duas, três horas. Luz que volta. Gritos no salão de festas do prédio, lá embaixo. Logo começariam a me torturar com hits de sofrência, você sabe, o tal subgênero sertanejo. Sou um sobrevivente desse tipo de tortura.

Voltamos a Bacurau. Vem a vingança tarantinesca contra tudo isto que está aí contraposto. Corisco, Virgulino, Maria Bonita voltam a justiçar no milênio. Cabeças cortadas.

Corre sangue no sertão contra a perseguição hightech olavo-carvalho-trumpista. Caçada humana.

Tony Júnior convoca a supremacia branca (“Eu te amo, Trump”. Quem disse?) para acabar com a raça daquele povo marrento.

Mas o povo, o povo que andava nas trevas viu uma luz, diz o profeta, não se deixa aluir.

E eu pescando de novo. Cada bagrão deste tamanho. A trilha guerrilheira, Sérgio Ricardo, Vandré (a dolente e bela Réquiem para Matraga), Tropicália, antropofagia…

Nada me livrava do ennui, do spleen baudelairiano, do mal. Como diria certo escritor brasileiro, a maré alcançava-me a garganta. Vou tentar de novo ver Cabezas cortadas, do Glauber. Acho que agora vai.

Bacurau me desaveio com o cinema, depois de uma semana de regalos. 

Vira com deleite Dia de chuva em Nova York. Estava saudoso do texto que entretém e acende alguma inteligência (a nossa anda tão desperdiçada!), das externas em Nova York como só as que Woody Allen consegue filmar, das cores íntimas de Santo Loquasto, da trilha jazzística de sempre, aqui dedicada ao pianista Erroll Garner.

A cena em que Gatsby (Timothée Chalamet) dedilha sedutoramente ao piano e canta Everything happens to me é apenas uma daquelas coisas, você sabe, passagens em que o cinema faz a vida justa. O melhor de Allen desde Meia-noite em Paris.

Vira agradecido O Irlandês (ou Ouvi dizer que você pinta paredes). E como.

Grato à Netflix por purgar um pouco sua culpa por tanto lixo pra criança “maratonar” (a breve era de ouro das séries já era. Acabaram Sopranos, The Wire, Mad Men...) com três horas e meia de arte cinematográfica.

Grato à arte de Martin Scorsese, Joe Pesci (como um magistral Russel Bufalino), Robert De Niro (que confere uma gravidade sólida e plana, da primeira à última tomada, ao irlandês Frank Sheeran) e Al Pacino (um Jimmy Hoffa perfeitamente humano).

Grato ao grande cinema.

Onde li que para Hitchcock o cinema era fruição de sonho e memória, um túnel fora do tempo presente?

Pois no Irlandês há muito de sonho e memória

Fade-in: Uma longa sequência sem corte percorre um desses ricos lares de idosos até a sala onde está Frank Sheeran em cadeira de rodas. Ele vai nos contar um conto. A.O. Scott, no The New York Times, a comparou com “the Copa shot”, a sequência de dois minutos e meio de Os Bons Companheiros.

A câmara segue Henry Hill (Ray Liotta) e a namorada no mítico dancing Copacabana desde uma porta de fundos, percorre uma labiríntica cozinha e chega ao salão, onde o casal é recebido com salamaleques pela gerência.

Há um fundo onírico no contraponto silencioso e recorrente entre Peggy Sheeran e seu pai. O olhar súplice da filha a inculpar o pai. Uma das belezas tristes desse filme.

O contraponto surge no ápice de uma cena magistral. Os chefões da máfia prestigiam a festa de Frank. Ele vai receber o prêmio honorário do sindicato dos caminhoneiros.

Frank escolhe o amigo Hoffa como padrinho, para apresentá-lo na cerimônia. Discursos, abraços, beijos, afagos. Tutto nel mondo è burla.

Durante o jantar dançante encena-se um jogo de altos cacifes — amizade e traição — e a velha diplomacia mafiosa tão ao gosto de filmes do gênero. O destino de Hoffa estará nas mãos do compadre.

Ainda: Frank no asilo espera a morte. Escolhe seu caixão verde-Irlanda, sepultura, fala com o padre, tenta falar com Peggy, mostra à enfermeira fotos surradas da família.

Nada de consolo na pátina do preto e branco. Apenas a convenção vazia do ocaso da vida. Mas os retratos doem, sabemos, tanto mais que Frank se mantém impassível. Ou o que dói dói em nós. apenas, no realismo?

Os amigos se foram. Família? Nunca houve. Memória e sombra. Trevas cobrem a solidão espessa do personagem que está no fim, coerentemente. Fade-out.

Se estou falando às flautas, o senhor me corte.

E antes de Allen e Scorsese, numa sessão da tarde no Belas Artes, no Belo, tinha visto Parasita, do coreano Bong Joon-ho.

Sim, há sinais da catástrofe pra todo lado neste estágio avançadíssimo do capitalismo, a fita me fez pensar. Que saída?

Não há mais utopias coletivas redentoras, revoluções, ora essa. As novas utopias são individuais.

Saúde, beleza, velhice, de preferência vida eterna, como querem os transumanistas da Califórnia, no dizer do filósofo Gilles Lipovetsky.

Sonhamos com bons empregos, boas escolas para os filhos, comida fina, viagens, tudo ao alcance do cartão de crédito.

Noves fora há no ar uma ameaça de guerra civil planetária, escassez, destruição, horror.

Não que a comédia de humor negro de Bong Joon-ho aluda a tudo isso. Neca. O diretor quer apenas fazer bom cinema, e faz. Pensar o filme é por nossa conta.

Ele filma uma história, o entrevero trágico entre um casal rico e ocidentalizado e uma família da pesada, na pindaíba braba, que pega as sobras da riqueza e rouba sinal de wi-fi pra poder se virar. Não há bons e maus, oprimidos e opressores.

Não me venha puxar da peixeira da revanche. O mundo é intrincado, a vida é dura. 

Eduardo Escorel, no site da Piauí, diz que o diretor é “detalhista e preciso ao extremo, a começar pelo título do filme, síntese perfeita do tema — entre outras variantes”. Escorel encontra no Houaiss que Parasita,

[…] “o adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino, designa na biologia “organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano”; diz-se também de “indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça”.

Só vendo a fita.

Uma das complicações do capitalismo pra lá de avançado, desigualdade e emergência climática à parte, é o  declínio da democracia.

Aprende-se algo sobre isso em dois livros bem falados, ambos de professores de Harvard. Nunca é tarde para aprender um pouco, repensar as coisas.

Diria até que esses dois livros são uma mão na roda para quem não sabe de tudo, como tanta gente, meu deus, que nem precisa ler mais nada além de memes e cards.

A história não se repete, mas rima, dizem.

A polarização extrema pode matar democracias. Generais e tanques também, claro. Mas o populismo atual atua como vírus. Destrói por dentro a imunidade do sistema.

Que a democracia está em apuros, todo mundo sabe. As duas obras vão atrás dos porquês, com pesquisa, trabalho de campo, erudição e método de primeira. Andam por caminhos diversos, ainda que o horizonte seja um só.

Em Como as democracias morrem (Zahar, 2018), Steven Levitsky e Daniel Ziblatt olham para a história das eleições em democracias liberais para entender o que se passou e se passa no mundo. A ênfase, claro, recai no país de Trump, mas o livro é rico em casos estudados na América Latina, Europa e Ásia.

“Embora as respostas populares aos apelos extremistas sejam importantes, mais importante é saber se as elites políticas, e sobretudo os partidos, servem como filtros. Resumindo, os partidos políticos são os guardiões da democracia”, escrevem.

E vão por essa linha. Cobram juízo dos políticos para barrar outsiders extremistas, inclusive, se necessário, aliando-se a adversários. Há bons exemplos de países onde os parlamentares cumpriram esse papel (Suécia, Áustria) e onde deixaram o barco correr (Venezuela, EUA) e autocratas tomaram conta do galinheiro.

Levitsky e Ziblatt dão grande importância à “tolerância mútua” e à “reserva institucional”. Também valorizam a obediência às regras informais do jogo, como as de uma pelada no futebol (falam do basquete de rua nos EUA), que não estão em nenhuma constituição, mas se não são levadas em conta a convivência em família ou na política vira um inferno.

“A tolerância mútua diz respeito à ideia de que, enquanto nossos rivais jogarem pelas regras institucionais, nós aceitaremos que eles tenham direito igual de existir, competir pelo poder e governar”, definem.

Reserva, o “autocontrole paciente, comedimento e tolerância”, ou “a ação de limitar o uso de um direito legal”, impede que a oposição vá com tudo para cima do incumbente para paralisar seu governo, com bloqueios, inquéritos e um outros artifícios.

O panorama que Yascha Mounk procura desvendar em O povo contra democracia (Companhia das Letras, 2019) é menos institucional. Seu foco é a economia, a sociologia e a tecnologia.

Seu livro quer entender, calma e extensivamente, o que leva alguém a votar pelo Brexit ou eleger Viktor Orban na Hungria e Jarosław Kaczyński na Polônia, para citar dois casos analisados.

Esses dois países são notórias “democracias sem direitos”, ou “democracias iliberais”, onde há eleições, mas faltam garantias individuais e liberdade de expressão.

Já na categoria “direitos sem democracias”, ou liberalismo antidemocrático, o abuso do poder econômico e a distância entre a população e seus representantes, por várias razões, fazem da política uma trama tóxica para muita gente.

Como diz o autor, instituições democráticas como o Congresso e a Suprema Corte começam a parecer canhestras “para uma geração criada no imediatismo do voto digital, plebiscitário, do Twitter e do Facebook, do Big Brother e do American Idol”.

Seus estudos vão mostrar que a democracia está falhando em dar respostas efetivas à desigualdade, à difusão do extremismo na internet e aos desafios da emigração.

A tecnologia digital, como, há 500 anos, a prensa móvel, reconfigurou o mundo. Na política, os populistas ganharam uma plataforma supimpa para driblar a mediação dos “difusores tradicionais”, jornais, escolas, sindicatos.

“Políticos com muitos seguidores nas mídias sociais podem controlar a pauta política ainda que suas alegações não resistam a uma checagem de fatos básica”, constata o autor. “É impossível entender a política atual sem entender a natureza transformadora da internet”.

O voto populista também é alimentado pela estagnação econômica e a desesperança em relação ao futuro. Nas últimas décadas as famílias pararam de prosperar como ocorria desde o pós-guerra.

Ainda há a questão identitária. Levas de imigrantes mudam a paisagem nas cidades, as tradições se partem.

Etnia, cultura, língua, nada está no seu lugar. E tome ressentimento. Os Trump e as Marine Le Pen da vida semeiam nesse campo soluções demagógicas e autoritárias.

“Wir sind das Volk”, somos o povo, cantam os extremistas alemães do partido AfD. O bordão ecoa na Áustria, Suécia, Holanda, Itália

Mas o que define o populismo? Para Mounk é

[…]essa reivindicação de representação exclusiva do povo — e é essa relutância em tolerar a oposição ou respeitar a necessidade de instituições independentes que com tamanha frequência põe os populistas em rota de colisão direta com a democracia liberal.
 

E “como os populistas não estão dispostos a admitir que o mundo real pode ser complicado — que as soluções podem se revelar esquivas até para pessoas bem-intencionadas”, ele diz, “precisam de alguém para culpar. E culpar é o que mais fazem”.

A resposta Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação Social da Presidência, ao bom editorial da Folha sobre os ataques do presidente ao jornal, ilustra à perfeição esse viés.

Como Wajngarten, a turma das artes também curte uma troca de sopapos digital. Vivemos tempos de empowerment. Nas redes sociais e nos petshops.

Seu Olavo de Carvalho, por exemplo, eu soube por acaso e só agora, ao ler um artigo estrangeiro — a bomba estou em setembro — revelou ao mundo que o filósofo Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, fundador da Escola de Frankfurt, é o verdadeiro autor das canções dos Beatles, uns paspalhões musicalmente semi-iletrados, no dizer do apocalíptico profeta de Bolsonargh.

Dúvida? Olha aqui.

O melhor dessa história é a repercussão que a revelação do 5º Beatle mereceu do britânico The Guardian. Pelas tantas, o didático suelto do jornal no formato pingue-pongue imagina a cena:

É 1963 e Lennon e McCartney estão lutando para escrever She Loves You. “She loves you”, diz Lennon. “O que vem a seguir?” “Yeah, yeah, yeah”, diz Adorno. “Brilhante, Teddy, simplesmente brilhante”, diz McCartney. O resto é história. 

Se estou falando às flautas, o senhor me corte.

O profeta Carvalho foi secundado por um provável discípulo, o teórico contemporâneo e maestro Dante Mantovani, eminente youtuber, novo mandachuva da Funarte.

Os Beatles eram comunistas, puseram em prática a Escola de Sacanagem de Frankfurt. Emético melhor? Dedo na garganta.

Enquanto isso, antes do massacre de Paraisópolis, pelo menos, o velho eixo cultural Rio-Sampa fazia um escarcéu medonho via redes sociais contra Elizabeth Bishop, poeta que seria homenageada pela Flip, a Festa Literária de Paraty.

Parece que não mais, você sabe, já citei aqui o Cercas, nesses tempos, líquidos, pós-modernos, melindrosos…

Pegaram pesado. Gaspari e Lisboa se opuseram à “selvageria” da malta digital.

Há 18 anos é mais ou menos isso. A Flip é o assunto do metiê. Aplaudem e desancam a eleição dos curadores. Ler que é  bom, sei não.

Eu mesmo dei uns pitacos sobre tais rusgas, lá em 2016, sem ferir ninguém.

Até cometi um poeminha (popenema) inspirado no Brinde ao juízo final de Drummond. Abra o link aí de cima e você vai entender. Diz assim:

Mais uma vez me estendo além da conta, que não se paga.

Intro

Sejamos didáticos-midiáticos:
popenema é um enema pop-poemático
para uso de coletivos

I
Poe-pê-peesi-á-pá: pá daqui
pá de lá e pronto: fiz agorinha
um indolor popeneminha.

II

No jardim concreto ao cacaso florescem arnaldos roxos
e antunes sempre-vivos; lá revoam maritacas oswaldianas,
e jaguaretes espreitam atrás das moitas de capinãs
a balouçar ao vento amigo.

III

Olhos vazados (para cantar melhor),
pintassilgos ilustres bicam o alpiste de P. Werneck,
piam na piauí e zanzam na companhia
de pinguins cossacos globais flipados.

III

1/2 dúzia de caroço sobre o Eu & Fim de Semana
do (p)o(et)a pop, atrás da portinha:
p
o
e
s
i
a
Bom, agora quem me corta sou eu.

Ao leitor

O envio desta Jurupoca passará a eventual.

No Natal, você sabe, bimbalham os sinos.

Preciso terminar o livro de viagem e lançá-lo ainda este mês; conto para você. E tem o trampo, ai de mim.

O título do livro, aliás, mudou. Agora é Turismo cultural e literário – Reflexões, relatos e diários de viagens a 60 destinos na Europa.

Bom fim de semana.


P.S.