Jurupoca #13

Número 13, dezembro, 20

[...]

Às vezes, nas longas tardes
do quieto mês de dezembro
vou a uma serra que sei
e as coisas da infância lembro:
 
instante azul em meus olhos
vazios de luz e fé
contemplando a festa rude
que a infância dos bichos é...
 
[...]
 
Não tinha as coisas daqui:
homens secos e compridos
e estas mulheres que guardam
o sol na cor dos vestidos
 
[...]
 
Este campo
vasto e cinzento,
não tem entrar nem sair
e nem de longe imagina
as coisas que estão por vir,
 
e enquanto o tempo não vem
nem chega o milho ao paiol
solenemente mastigo
areia, pedras e sol.
 
Memórias do Boi Serião, Carlos Pena Filho.

Opa. Vamos apear?

Vou falar uma coisa pra você, a vizinhança, nada como a vizinhança. A gente entre quem lido. Estia um pouco e me lanço no mundo o mais cedo que posso. Já pro parque.  

As mangas da Alfredo Balena, verdes, róseas, polposas, começaram a cair.

Errei aqui ao prever que eram pra janeiro. Andavam de vez. Recolho uma, apalpo, sinto o volume, o cheiro e a abandono no meio-fio. Um passeante ainda sem o pequeno almoço que a desfrutasse.

À volta encontro Nilda, nossa ex-empregada e babá. Ela celebra deliciosamente novo grau na EJA, me mostra suas fotos impressas. Dou-lhe parabéns, subo Carandaí.

Nem queria, tinha pressa, trabalho à espera, mas não atalho. Caminho de sempre, Bernardo Monteiro, Timbiras, Ceará.

Sem grana, compro fiado da verdureira Natália. Ela bota banca na esquina do açougue, Ceará com Aimorés. Uma sacola deste tamanho, vou te dizer. Rabanete, beterraba, alface, cenoura, couve, bertalha, 22 pratas.

A caixa do açougue traz café recém-coado e oferece à Natália, oba, numa xicarazinha chique, de plástico, que me lembra a merenda na escolar.

Um freguês caçoa: dona Eugênia, café no copo da  diretoria, hein? A mulher do caixa aceita a graça, o comércio é pra isso, confiança a todos.

Ela me vê e quer saber por que ando sumido, ora essa. De temps en temps, é verdade, compro lá um quilo de linguiça, uns bifes de fígado, músculo para o Bourguignon.

Ela olha admirada a bengala que levo ao caminhar, acha graça. O povo fica intrigado, me param muito para perguntar. Como alguém pode andar lampeiro por aí, certinho, de bengala em punho?

Com um estoque de freixo, traduz o Houaiss no Ulisses. Tem razão o povo. Pra quê? Digo que é para me exercitar, que tenho dores nas costas.

Levo as verduras fiadas ouvindo música. Agora toca Poulenc, com André Previn, Trois pièces, OP. 48: II. Hymne. Modéré.

Extrato da Suite Française de Francis Poulenc… Os algoritmos são óbvios, burrinhos, mas me servem um Stan Getz que logo me tira desta esfera, em A Nightingale Sang In Berkeley Square.


 Keith Jarrett manda Blame It On My Youth, em seguida. Vou te contar.

Helahoho! helahoho!

A vida a sério, os seis quarteirões em que me locomovia, as seis pessoas com quem convivia, disse Ivan Lessa uma vez. A vida a sério. Apois.

Javier Marías finge nostalgia das duas primeiras décadas do século XXI, aquele tempo em que era comum a

“gente estar muito satisfeita consigo mesma, se considerar ‘supersolidária’, ‘empática’ a mais não poder, e se afanava em buscar ‘causas’ (tão próprio das pessoas tristes), e, se não as achava, as inventava. [Quando] Se decidiu que havia de pôr fim a toda injustiça, discriminação e ‘invisibilidade’, que ao passado havia de se castigar e a história, modificar, quer dizer, falsear.”

“Duas décadas de antipatia” é o título da crônica.

Helahoho! helahoho!

Não se pode criticar, não há mais jornalismo cultural crítico.

Joaquim Ferreira dos Santos lembra que Fagner ameaçou “lhe encher de porrada” uma vez. Joaquim criticou, lá nos anos 1980, a rendição do cantautor cearense aos beijos de língua do mercadão.

Não era nenhum Alceu, digo eu, sem renegar seus quatro primeiros discos. Mas Joaquim, um craque, vai dizendo,

O bom é gostar, caso contrário, [o jornalista cultural crítico] correrá o risco de ser apontado como preconceituoso […], o elogio babão corre solto, todo mundo querendo ser amigo da nova dupla sertaneja que chegou ontem de Goiás” […] Silêncio crítico […] Todo mundo quer ser gente boa, boa praça e meu querido. Paulo Francis e Tinhorão são glórias do passado. Assim como ‘jornalismo é oposição, o resto é secos e molhados’, [frase] de Millôr Fernandes. A buzinada do Chacrinha dentro do ouvido do calouro seria hoje considerada assédio moral no tribunal do Facebook. O resultado é o [funk] Malandramente...”

O resultado é Merval Pereira, no Globo. Soltar um ah negativo sobre Gretinha Thunberg — Nature’s 10 — é “anacronismo”, ele diz. Et tu, Merval?

E você, aqui, poderá dizer que me viu uma vez na vida do lado de Bolsonargh. Pelo menos ele se autodefiniu, ou se autoimpingiu, sem querer é verdade, como epítome do energúmeno.

Bolsonargh chamou Gretinha de pirralha. Pirralho, no Houaiss, é menino, guri, criança. Pejorativo? Jesus amado. Diz Merval (no dicionário dele, pirralho também é “criança ou jovem atrevido com pretensões de adulto”) que é misoginia, sexismo, as trevas, chamar alguém disso, um palavrão.

Todo mundo quer ser empático, solidário.

Crianças e jovens são atrevidos, os mais saídos, espertos, inteligentes. Tudo que a graciosa e pirralha Gretinha é, deus do céu.

Ah, a velha e boa e empática demopedagocia, doutor Merval. Nada como nadar com a corrente, quantos cliques isso não rende.

O que não rende clique nenhum, muito menos voto, tema que me persegue e encrua, é saneamento básico.

Os generais da ditadura endinheirada e a esquerda do lulismo nadando na grana das commodities deixaram praticamente intocadas as condições sanitárias de nossa miséria, na realidade de cada época.

Vinicius Torres Freire esclarece isso com distinção no artigo “Privatização do saneamento faz esquerda chorar lágrimas de crocodilo no esgoto”.

Renata Lo Prete, que comanda o melhor podcast matinal, entrevista Edson Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, e vemos o tamanho da fossa a construir. Está tudo nessa entrevista, tim-tim por tim-tim, caso você seja outro encruado interessado na questão.

Momentos de leitura salvaram um ano amargo. Um bom livro confirma nossa sanidade. Um bom livro nos faz sentir um pouco menos sozinhos. Em 2019 não havia como escapar do humor nacional, azedo e escaldado. Bons livros eram necessários.

Trouxe, comparti com você, creio, bons momentos de leitura nesta Jurupoca, 13 números, 14, já que partiu do zero. A carta foi procurando um jeito seu, e não pode parar de procurar. Mas o parágrafo acima é de Dwight Garner, do New York Times, adaptei um pouco a tradução. Mas vale pra mim, pra nós.

Helahoho! helahoho!


Você viu lá em cima. A capa do meu livro de viagem. Pra mim toda viagem é um livro, e todo livro é um livro de viagem. Rebento que chora por leitores como você. Saiu!

Que trabalheira me deram esses escritos, muito prazer também. Várias atualizações de viagem a viagem, leitura a leitura, texto a texto. Fui reescrevendo o livro e a mim. Saiu!

Em KDP, publicação independente, autopublicação.

O que mais pode fazer um escritor fora do eixo, excluído das cortes carioca e paulista? O livro saiu, em KDP, e pronto. Dei gratia. Saiu!

Algum tempo rumino a viagem. 1,4 bilhão de terráqueos estamos a bater perna no planeta. Algumas cidades não aguentam mais. Filas para subir e descer o Evereste com mortos no caminho. Selfies na Veneza inundada. Xixi nas ruas, fanfarras, ruído, gritos, gentrificação…

O que cabe, no meu rebento, é a viagem em estado de arte. Digo que levo ao viajar livros, filmes, músicas, quadros, arquitetura, sistemas de transporte, histórias sangrentas e festivas, de efervescência cultural. Sagrações de primaveras. Pra ver, rever e aprender, e aprender a desaprender. Bagagem levinha.

Trilhas de Proust. Trilhas de Joyce. Trilhas de Edmund De Waal. Trieste de Jan Morris, Claudio Magris, Svevo.

A Barcelona de Vázquez Montalbán e do detetive Carvalho, de Gaudí, do Palau de la Música, Jesus.

Berlim de Käthe Kollwitz e da Nefertiti, do jazz, de toda a geração dos 1910 e 1920 nas artes, de Angela Merkel também.


Lisboa de Pessoa na Baixa, no Martinho da Arcada, na Rua dos Douradores. Espanhas tantas que é bom nem começar, talvez por Goya.

Itálias, então? Quantas há? De olhos verdes, azuis, negros, cinzentos, terra, cor de mel. Tantas línguas, dialetos, quartos de hotel, luzes, drinques, tardes…

Em Lisboa descubro que meu hotel preferido, o da Janelas Verdes, é literário, cena de um romance, do Nooteboom. Lê-se sobre isso no capítulo 3, O que os guias de viagem do Dr. Strabo não revelam.

Em Copenhague queria ir atrás do fantasma de Kierkegaard e acabei numa prise de maconha, se isso existe, em Christiania, quase chapado por tabela… Capítulo 14: Diário congelado de Copenhague e Milão.

 Divago. O livro taí. Talvez, oxalá, você leia e goste.


Última Jurupoca do ano.

No Natal bimbalham. Tentarei sobreviver a mais um encontro com vivos e mortos. A data, depois de tantas, me leva sempre de volta ao final de Os mortos, conto do Dublinenses, e de volta a esse mesmo final no filme de John Huston,  

It lay thickly drifted on the crooked crosses and headstones, on the spears of the little gate, on the barren thorns. His soul swooned slowly as he heard the snow falling faintly through the universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living and the dead.

Espessa [a neve] pousava deposta em rajadas nas cruzes contorcidas e nas lápides, nas pontas do estreito portão, nos espinhos nus. Sua alma desmaiava lentamente enquanto ouvia a neve cair no universo e o leve cair da neve, como o pouco de seu fim definitivo, sobre todos os vivos e os mortos.

(Tradução de Caetano W. Galindo, Companhia das Letras, 2013).

 E nem a uma nevezinha nunca nestas Minas de sol a sós.

Bom fim de semana, boas festas!

Ah, surpresa.

Tenho um Papai Noel pra você.

O distinto destinatário estará entre os 7.233.112 (em 18/12) felizardos na Terra que já viram este vídeo, por certo. Não importa, precisamos de ver e rever Maria Callas cantar a Casta Diva. Até o fim.


Mas vai que você não gosta de ópera, nadinha. Que tal um samba de breque? Meu favorito é Baile no Elite, de João Nogueira e Nei Lopes, 1978… Norato e Norega, Macaxeira e Zé Bodega / nas palhetas e metais (E tinha outros muitos mais)

Ademã, que eu vou em frente, como falava o colunista turco. Se lembra ou não é do seu tempo? Provável não.


P.S.