Jurupoca #15

24, Janeiro, 2020 — Newsletter Nº 15



Do pobre B.B.

Eu, Bertolt Brecht, venho das florestas negras.
Minha mãe me trouxe para as cidades quando
Eu estava no seu ventre. E o frio das florestas
Vai ficar, até minha morte, me acompanhando.

Na cidade de asfalto estou em casa. De cara
Fui recebendo a unção dos enfermos: jornal.
E tabaco. E birita. Desconfiado
E preguiçoso e satisfeito no final.
[...]

Vom armen B. B., de BERTOLT BRECHT – POESIA, introdução e tradução de André Vallias. Perspectiva, 2019.


Opa. Vamos apear?

Meu caro, o tempo morde e arranca nacos devagar!, um verso de Bertolt Brecht em Sobre a canseira, traduzido por André Vallias.

Amiguei com o  livrão recém-saído, 583 páginas, 300 poemas, bilíngue, a maior antologia de B.B. em português.

A vida é curta demais, e passa muito devagar. Não estou satisfeito; por isso não estou satisfeito”, anotou o poeta, dramaturgo etc. em 1925. 

Encomendei o livrão depois de ler a animada resenha do Mario Sergio Conti. Brecht lhe vai muito bem. Ele é culto pacas. Um cético com o poder, o capital graúdo, a burrice, um francófilo social-democrata o Conti.

Outra anotação de B.B., 28.12.1952:



O sinal mais inconfundível de que algo é arte ou de alguém não entende a arte é o tédio.Ele é tão violento quanto o prazer, no caso contrário. A arte deve ser um meio de educação, mas sua finalidade é o prazer.”


A poesia do Bertolt é uma poesia na veia, mundana, inconformada, irônica, antibélica, potente, vital. Eu diria até que, em certo sentido, estaria em um braço da poesia “concreta”. Coisa de comunista, enfim.

Não presenteie Bolsonargh!, Weintraub ou o ex-secretário de Cultura Roberto “A arte brasileira será heroico-nacionalista. Ou não será nada” Alvim com um exemplar. Coice na certa. Lixo ou fogueira na certa.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Na Lenda do soldado morto, um cadáver é considerado apto para o combate. Tentam colocá-lo em forma, nas fileiras, fedendo, arriado, a ferro e fogo. A máquina da guerra o requisita. Diz uma das quadras de B.B.:

À frente vai um cavalheiro
De fraque e peito reforçado
Consciente do dever primeiro
De um alemão para com o Estado.

O Cântico de Orge me encanta, como vários dos poemas da primeira fase, 1912-1924. Imaginei que alegraria meu irmão desbocado, que se foi desta há dois anos, amanhã à tarde, com quem me ponho a recitar:

Orge me disse: O lugar que mais estima
Nesta Terra sempre será a latrina.
Lugar plácido em que a gente se recosta
Tendo em cima estrelas e debaixo, bosta.
[…]
Lugar de humildade em que você descobre
Que é humano, e sai desta vida sem um cobre.
Um lugar em que se deixa o corpo em paz
Mas depois, com força, um bem também se faz.
[…]
E o que você é por fim se descortina:
Um sujeito que devora — na latrina!

Edificante. O Conti, que também pinçou a ode de Orge, pegou um gancho nestes versos de Contra a sedução:

Não se deixem seduzir
ao trabalho e à servidão!
Por que o medo? Vocês vão
se extinguir com a bicharada
e depois não tem mais nada.

Pra dar um recado:

“Contra o conformismo, o poeta faz uma conclamação que cai como luva nesse Brasil no qual o poder ataca aqueles que trabalham, bota fogo na Amazônia e não faz nada quando centenas de tartarugas morrem intoxicadas por petróleo no litoral.”

Tocam foco na Amazônia, na porra das árvores. Deixem que toquem, dizem os incumbentes ultras. O Brasil é nosso! A floresta é nossa! O planeta é nosso!, bradam os verde-amarelíssimos.



Depois, com a Austrália em chamas, vem a narrativa (argh!) e, como diz o Lima Barreto do Policarpo Quaresma, a fúria atroz dos autodidatas: Não vão chiar agora?

O Macron, a Merkel, a Greta não vão tascar os criadores de Cangurus? Cadê as ONGs bandidas?

Só benzendo mais uma vez: In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Quem me observa aqui? Quem em que mundo em que tempo lerá essas palavras escritas?, matuta o Stephen Dedalus no episódio Proteu, do Ulisses.

Quem lê, ama as palavras, a literatura, depois do audiovisual, dos apps, dos memes, dos emoticons?

Ó, telefonista, a palavra já morreu… Mas não vamos deixá-la feder, entregue aos chacais. Sou por um enterro digno.

Quando alguém diz “querem mudar a narrativa” deseja impor outras “narrativa” ou “fato alternativo” ou defender a verdade dos fatos, a verdade factual?

Narrativa é uma palavra usurpada da ficção, apropriada como embrulho da mentira.

Versões prevalecem sobre os fatos quando duas “narrativas” vão à liça brigar.

Desculpe a digressão. De volta às chamas. 

A Amazônia está para a Austrália como os miolos de Bolsonargh! e do Salles-Amoníaco para os de Einstein.

Se você sofre com algum conspirativo ativo, algum furioso autodidata, tendente ao negacionismo etc., recomende a bonita entrevista que o físico Ricardo Galvão (doutor pelo MIT etc.; espia o Lattes do homem), ex-presidente do Impe, deu à Globo News. Esta matéria do NTY, em inglês, também explica por que a Austrália é um papo à parte.

Eu sei, eu sei. Com o terraplanismo genérico, com todos os Pedros Pedreira, é perda de tempo. Mas, digamos, noblesse oblige.



A jornalista e escritora espanhola Rosa Montero é uma que se empenha contra as mentiras dos fanáticos. Temos que “rebater cada mentira dos energúmenos”, ela diz.

Rosa recorre a lições do filólogo alemão Victor Klemperer (1881-1960), judeu escorraçado de seu país pelos nazi, ele e a mulher gói, que não aderiu ao Reich e entregou o marido, como tantas alemãs casadas com judeus fizeram:

“Klemperer explica como as palavras mentirosas dos totalitarismos envenenam as mentes. Denuncia “a hipocrisia afetiva do nazismo, o pecado mortal da mentira consciente empenhada em levar para o âmbito dos sentimentos as coisas subordinadas à razão (…) e arrastá-las para a lama da obnubilação sentimental. É uma lúcida definição dos desaforados populismos que medram pelo mundo: a armadilha consiste em untar as ideias com o grude das emoções baratas, até convertê-las em uma massa informe incapaz de ser processada mentalmente. O respingo sentimental está tanto nas patriotadas de Casado y Abascal como nos de Puigdemont e Torra [a ultradireita e os próceres do separatismo catalão]. Está em Trump e em Maduro (o que dizer do Vice-ministério para a Suprema Felicidade Social do Povo criado pelo atual governo venezuelano?), e está em toda a gente má que quer tirar proveito de seus enganos.

Helahoho! helahoho!

Quem se engalfinha por narrativas opera com baldes do “grude das emoções baratas”. Breiam prodigiosamente a goma em mensagens contra a imprensa, a cultura e a educação.

Guerras de narrativas. Você tem a sua, tenho a minha. Vamos resolver nas redes sociais.

Sei.

Me inclui fora dessa.

Na guerra de narrativas, a verdade factual é o cachorro do Quincas Borda, de nome Quincas Borba. Rubião endoidece, coitado, acaba no hospício, e abandona o animal, que definha e morre nas ruas de Barbacena.

Até a premiação, em fevereiro, veremos narrativos engajados a terçar estocadas retóricas sobre o filme da Petra Costa, Democracia em vertigem

Indicado ao Oscar!

Defendo, a propósito, a criação de uma categoria no Oscar do melhor fubá estrangeiro, da melhor farinha de mandioca, a pimenta mais porreta. Seríamos imbatíveis. Mas divago.

Imunes às labaredas das narrativas, o Labaki e a Malu Gaspar, em dois podcasts excelsos, analisam com acurácia o documentário da Costa.

No primeiro, o diretor-fundador do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários, em episódio do Café da Manhã, dá uma aulinha sobre a natureza do documentário. Passe logo para a entrevista dele, é o que vale.

Labaki defende o filme como obra de arte, sustenta uma compreensão ponderada do gênero, mas não baba nem se exime da crítica à diretora.   

Bem melhor é o escrutínio da repórter da Piauí, campeã do Foro de Teresina. A incrível Malu levantou duas dúzias de omissões factuais na narrativa da cineasta mineira sobre o impeachment de Dilma e sobre ela própria, Petra.

Não dá pra engolir o negócio do escâner na foto do jornalista Pedro Pomar — mentor dos pais de Petra — morto pelo Exército na Chacina da Lapa. Sumir com as armas do documento original e não contar nada disso pra ninguém, caluda, é mesquinharia, Sá.



Aliás, foi o repórter Tiago Coelho, do site da Piauí, quem levantou a lebre.

Hum.

O Barbosa, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento de Dilma, acha o filme um barato. (O homem é um narrativo, claro, como demonstrou em seus embates com colegas). Explica-se na coluna Hollywood também desconfia de golpe. O texto é instrutivo, se você é imune aos narrativos.

Caluda! Sem ter feito nada, quieto no meu canto, ouço o berro de lacradores, bolcheviques, populistas e guardas radicais do “lugar da fala”.

Que não venham pra cima de Mariella Augusta Masagão.

Essa escritora crepitou no artigo Intelectualidade anêmica e tribal condena arte brasileira à banalidade. Raridade hoje em dia. Tem que manter isso, viu? Saiu na Ilustríssima domingo passado.

A doutora em literatura pela USP põe os cornos para fora e acima da manada na chave do grande polemismo. Sobra pra todo mundo.

Masagão dá uma banana para a regressão dos polos em conflito, ao tribalismo rastaquera, à turma do grude emocional, aos narrativos. Aponta sem dó o vácuo vigente, o medo e a mediocridade cultural decorrentes.

Tentado, roubo quatro paragrafinhos dela. O segundo tasca o filme da Petra, prepare-se:

[…]
Quais adjetivos merece uma praça editorial que chama Márcia Tiburi e Olavo de Carvalho de filósofos e onde há mais escritores do que leitores? Como aceitar uma inteligência que fecha os olhos ao escândalo do populismo nas artes e aos épicos bíblicos que agora constam do cinema brasileiro?

Falando em cinema, as aventuras da pobre menina rica e suas leituras políticas do Brasil desde a abertura —que, com sua forma simplória e seu texto ordinário, não só se prolongam por mais de duas horas como também expõem o público a um registro algo patológico— chegaram a Hollywood. No entanto quase todos os comentários foram no sentido de apoiar ou deplorar tão somente as questões de militância do caso Petra Costa [Não é bem assim, Mariella, vide Labaki e Malu.] […]
O sequestro da totalidade pela esquizofrenia, do engenho e da arte pelo comezinho, eleitoreiro e venal afastou as musas e chamou para nossa epopeia o medo e a ira. Com censura e sem crítica, a proliferação de escritores, filósofos e sábios não encontra resistência racional ou estética, apenas da moral e dos costumes.

Ocorre que atribuir valor à arte em função de algo que esteja fora da sua especificidade é como afogar uma recém-nascida somente porque não nasceu menino; e impedir a arte de tratar qualquer assunto é como proibir todas as crianças de brincar.
[…]

Vi e revi o filme da Petra, na Netflix.

Pouco se me dá se lhe derem ou não o Oscar.

Comentei o filme na Ju (para os íntimos) #zero, numa nota apressada, depois de ver a primeira vez. Não sabia da história das armas. Errei feito na mão.

Eram tantas emoções. Sou fraco do coração, frágil ao pathos, ao patológico. Aquela gemedeira… Mas nem sempre as razões do coração me vencem.

Na segunda vez, vendo a fita de cabo a rabo, neca de lágrimas.

As lamúrias da narração não bateram, não subiram. O grude barato não colou.

Não ajudou eu ter tentado, entre uma e outra sessão no Arte 1, ver Elena, o documentário anterior de Petra, sobre a perda trágica da irmã em Nova York, narrado no mesmo tom lamurioso.

No frigir dos ovos, narrativa por narrativa, Democracia em vertigem é melhor que O mecanismo, o mexidão militante de José Padilha. Ao menos tem as cenas de bastidores cedidas por Ricardo Stuckert (o “Velásquez do poder petista”, diz o Conti). E mostra bem a ascensão dos ultras, o voto verminado e podre de Bolsonargh! na abertura do processo de impeachment…

Mas, entre o filme e a série, uma narrativa e outra, escolho neres.

Tuta e meia. Nonada.

A MORTE À MÃO — No 75º aniversário da liberação de Auschwitz, o historiador Nikolaus Wachsmann, autor de KL. Uma história dos campos de concentração nazistas (inédito no Brasil), retrata a “vida sentida” no Lager e defende a importância de sabermos como era a experiência dentro do campo de extermínio; a degradação, a dimensão emocional e sensorial na prisão, a morte sempre à mão. [Em espanhol] O El País Brasil verteu o artigo principal da mesma edição do Babelia, Livros saídos do horror de Auschwitz, propondo a literatura essencial sobre a Shoah.

É PRECISO ABOMINAR. “Tremendo erro”, diz Dorrit Harazim, sobre a tentativa de se ressuscitar Goebbels. A sempre distinta colunista de O Globo conta algo sobre as posturas corajosas do grandíssimo pianista Igor Levit, odiado por antissemitas semprevivos.

SAUDADE: FELLINI. A profecia de Fellini completa 100 anos é ótima leitura para uma celebração da memória do magistral cineasta.   

SAUDADE: AMÓS OZ. David Grossman, outro destacado escritor israelense, honra a memória do amigo, há um ano de sua morte, no final de 2018. [Em espanhol]

SAUDADE:ROGER SCRUTON. Ele também era músico, pianista, compunha. Vou recordá-lo sempre a ouvir seu tema [aos 32 segundos no vídeo] da abertura do melhor programa de TV já feito. O jornal de Barcelona El Cultural dedicou-lhe um obituário correto. O Coutinho falou e disse na coluna A direita brasileira que transformou Scruton em pai de santo deveria lê-lo pela primeira vez. Luciano Trigo lembra a campanha asquerosa que ele sofreu nas redes sociais. Mas nada se compara à homenagem honrosa, sábia e sincera que lhe faz Mario Vargas Llosa (Elogio de um reacionário), que dele discordava em tudo e reafirma isso, mas admira a sinceridade, a educação, o amor pela arte, pela música e pela humanidade.


CAÊ. Caetano Veloso & Ivan Sacerdote, voz, violão, clarineta (Sacerdote é doce revelação) é delicioso desde a primeira faixa. Um Caetano ainda mais cadenciado, joãogilbertiano, a voz  bem marcada pela aspereza dos anos. São releituras. A tristíssima Você não gosta de mim é uma das melhores; minha preferida? Peter Gast. Na Folha online encontro a notícia do lançamento quase esquecida no fim da lista de títulos da Ilustrada. Na capa da edição, batata, a 1001ª fofoca sobre o caso Weinstein. Puro clickbait, como deram pra chamar caça-clique em português.  

ARQUITETURA PARA SONHAR. Os 20 prédios que serão notícia em 2020. Para quem tem olhos para a arquitetura mais inovadora.


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Sobre o autor da carta

Antônio Siúves (1961-), coitado, vive em BH, no Belo, e gosta de andar a pé. É jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.