Jurupoca #16

7, Fevereiro, 2020 — Carta 16


“Mas, neste momento, antes de tudo, trato de entender por que a distância que me separa do irracionalismo moderno é cada vez maior e, me atrevo a dizer, da crescente barbárie da mídia, da vulgaridade dominante. Creio que estamos atravessando um período cada vez mais difícil…”

Da entrevista póstuma de George Steiner, a quem o mundo literário e artístico perdeu essa semana, dada ao italiano Nuccio Ordine. O link anterior, em espanhol, é a tradução do El País do italiano original, do jornal  Corriere della Sera, com alguns tropeços, diga-se. A conversa entre Steiner e Ordine ocorreu em janeiro de 2014 e foi revisada algumas vezes pelos dois amigos.
MUTAÇÃO DOS SÁBADOS

Já gostei muito do sábado
por ser véspera de domingo.
O sábado era uma dia bonito, confortável, apaziguador.
Era o dia mais intenso
o mais fecundo dos dias.

Hoje, porém, os sábados fizeram-se meus inimigos.
Tornaram-se inóspitos, agressivos, terríficos e não me dão quartel.
Perderam a força, perderam a beleza, perderam o sentido.
Perseguem-me, martirizam-me
cravam-me flechas pelo corpo
para melhor me exporem ao apetite das feras.

É talvez porque continuam a ser a véspera de domingo.
E o domingo, meu Deus, não é um dia mas uma noite infindável,
sem esperança de remissão.

Pedro Dantas (pseudônimo de Prudente de Morais, neto (1904-1997). 

Antologia dos poetas Brasileiros – Bissextos contemporâneos, organizada por Manuel Bandeira, Nova Fronteira, 1996.


Opa. Vamos apear?

Salve a Geosmina do Rio Guandu. Salve o salvador do Silicon Valley.

Começo pelo último. Vai que o primeiro caia mal a um estômago fraco. A Jurupoca costuma ser lida no Café da Manhã, alguém me disse.

Ambos os assuntos me são caros, você já sabe, e decisivos. Um é pro país de ¡¡¡Bolsonargh!!!, outro é pro mundo e pra nossa espécie macacal.

Uma digressãozinha só. Desbarretei-me outra vez essa semana, em luto. Agora pelo Steiner. Falo dele no Post scriptum.

E depois de desbarretar-me pelo Bloom, pelo Scruton, ainda outro dia. O mundo deles, que é boa parte do meu, acaba com eles.

Pronto.  Entremos no Vale encantado do Silício, nesta Walt Disney pós-adolescente, prodigiosa mãe do capitalismo tecnológico.

Saiu em inglês um livro do balacobaco. Uncanny Valley. A memoir  (algo como Vale Bizarro. Memória, mas podia ser Vale Aberrante, também, creio). Escrito por Anna Wiener. O e-book sai por 42,07 paus.

Memórias de uma moça que, aos 25 anos, vai ganhar a vida nas startups. Como tanta gente recrutada pelo “ecossistema”, ela sabia patavina de programação, desenho e desenvolvimento.

Vinha do meio literário, dum emprego mixuruca numa agência de escritores em Nova York.

Em Nova York teve a primeira experiência no ambiente. A startup urdia um aplicativo de leitura (e-reading) para celular. Um Spotify dos livros.

Os veinteañeros (sou chegado nessa palavra do espanhol, para a gente dos 20 aos 29) fundadores levantaram três milhões de dólares numa piscada. A fonte, claro, são os fundos de capital de risco (“venture capital”). Pena que não se aventurem por aqui.



A Wiener logo se viu desperdiçada na firma, inútil num ambiente exclusivo e terrivelmente “focado”. Os fundadores não sabiam digitar o nome Hemingway e faziam muxoxo para visitar livrarias e bibliotecas.

Nenhum dos meninos morria de amores por livros, na verdade. Amavam consumidores, isso sim, diz a Wiener. O negócio era o desenho do aplicativo, a expansão da futura empresa, a projeção das receitas.

Vivia-se o sonho das startups avaliadas em mais de um bilhão de dólares, ditas unicórnios.

A ideia do app não era bem oferecer um meio eletrônico de leitura, ela flagrou. 

Era antes “sinalizar” para o assinante que ele era uma pessoinha up to date, com uma “experiência” avançada de leitura, ainda que não lesse, um app de desenho inovador e intuitivo. Um status tech, como ter o i-Phone do ano.

Ela acaba saindo, demitida. Mas o mercado editorial continuava a mesma bosta. O que fazer?

Com a ajuda de um de seus ex-patrões, voa direto para a para o coração do Big Data, periferia de São Francisco. Primeiro, se esfalfa numa startup de análise de dados. Esse ramo é o que há para se fazer milhões em meses.

Os clientes da companhia eram empresas de mídias sociais e comércio eletrônico, as mesmas que monitoram cada um de nossos cliques.

Então, já cansada, inclusive de sofrer com os maus bofes e esquisitices do CEO, pede contas e se transfere para outra empresa incubada, na área do software de código aberto.

As startups, você sabe, ditam o ritmo em que o planeta dança. O Vale do Silício vende produtos, serviços, “experiências”, necessidades impensáveis de que não tínhamos a menor ideia.

Mas, o que somos no mundo sem consumir tecnologia? É possível ser sem ser um rendido de corpo e alma às Big Tech?

Eu que vou saber? Com a palavra os filósofo heideggerianos?

Aqui entra a Wiener literata. Helahoho! helahoho! Ela expõe o mundinho masculino todo-poderoso com boa verve. Tem atenção e foco dum Joel Silveira, dum Gay Talese para nos dar detalhes do que viu, sentiu e anotou.  

Conta do viver certinho, solitário, mimado, misógino, relaxado, falso, pretensioso, idealizado, perfunctório e perfeitamente isolado dentro da própria bolha na cidade, longe do miserê das áreas sórdidas e fétidas ocupadas pelos sem teto.

Os techs namoram techs, “chateiam” com techs, dialogam e vendem em vocabulário tech.

Os fundadores das startups bem-sucedidas não se veem como homens, mas como midas, pré-unicórnios.

Ao procurar novo emprego, quando quer sair da analítica, a Wiener encontra a oferta de um recrutadores e fica tonta com tantas vantagens:

“Salário competitivo, plano de saúde, plano de aposentadoria, academia de ginástica, almoço, guarda de bicicletas, esqui em [Lake] Tahoe, passeios nos aforas do [Vale do] Napa, conferências em Las Vegas, cerveja na bica, cerveja artesanal na bica, kombucha na bica, degustações de vinhos, quartas-feiras de uísque, open bar às sextas, massagem onde se queira, ioga onde se queira, sinuca, pingue-pongue, pingue-pongue com robô, piscina de bolinhas, jogos à noite, cinema à noite, kart, tirolesa…”

Ela transcreve um e-mail:

“Configuração customizada: desenhe sua estação de trabalho definitiva com o último hardware. Mude o mundo que te rodeia. Trabalhamos muito, rimos muitos, damos grandes “toque aqui” [We give great high fives]. Não somos simplesmente outro aplicativo social. Não somos apenas outra ferramenta de gestão de projetos. Não somos só outro serviço de entrega.”

O livro se aprofunda na cultura startup, nos usos e costumes, na moral vigente na trilionária ilha da fantasia
.
Camiseta com o logo das empresas, jeans e tênis são o uniforme comunal unissex, pau pra toda obra. Na de formalidade no trabalho ou num restaurante chique.

Grandes fones de ouvido como extensão do corpo expelem beats de música eletrônica durante o trampo e depois. Alguém masca uma marca de tabaco sueco. Belisca-se o dia inteiro nas longas jornadas.

O empregado sem senso de ownership e belonging and affiliation — fazer de conta que o negócio é seu por todos os meios — estará fu, coitado.

Todo mundo bebe energético e cerveja de raiz. E namora por meio de aplicativos de encontro, onde busca encontrar seu igual em hierarquia e fé no além do homem.

Não se fala ou discute o noticiário, mesmo quando implica diretamente o ramo, nem uma bomba como os vazamentos do Snowden. O mundo que importa é o que estão refazendo no Vale da promissão.

Na startup de código aberto ninguém precisa comparecer à sede da empresa. Reuniões de trabalho por videoconferência são consideradas mais produtivos.

Cedo, ela descobre o negócio do biohacking. Para o biohacking, o corpo humano é uma plataforma produtiva, um hardware de carne, osso e sangue. Daí pro vidaeternismo é um passo.

Veinteañeros precisam melhorar a produtividade e “otimizar a cultura” digital. Usam aparelhos para medir gasto energético, controlar calorias, dormir melhor.

No trampo, recorrem a gadgets contra a dispersão. Certo bracelete aplica choques de 150 volts no distraído. 

Injetam testosterona nas coxas, tomam Ritalina e outras drogas que reivindicam o Humano 2.0. Isso aos vinte anos, lembre você, todo mundo no auge da vida.

Drogas  nootrópicas não aprovados pelo FDA dão um plus a mais, diria um amigo, na cognição. Uma dessas pílulas era fabricada pelo mesmo investidor que pagava o salário da Wiener, e ela se sentiu na obrigação de beber o troço.

“Eu tomei antecipando um aumento de produtividade, mas meu pensamento permaneceu bloqueado, chegando ao máximo nível habitual”, ela diz com cândida ironia.

O idioma, o patoá, é próprio, claro. A língua abastardada da internet é o esperanto deles.

Um colega da Wiener diz a ela: hoje me sinto meio “Gif”. Hum? Boiei, ela diz. “Lol”, ele diz. O acrônimo de laugh out loud, da troca de mensagens de texto, foi parar na fala. É como você dizer algo engraçado e seu interlocutor, em vez de rir ou gargalhar, soltar um “kkk”. 

Eta ferro.

O inglês vai pro saco no Vale do Silício como o português do ministro ¡Weintraub!, como a educação do ministro ¡Weintraub!. Quer saber? Melhor nos benzermos.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Ah, a Wiener também conta que no Vale Bizarro se pratica o “Modo Deus” como um rito de passagem.

Aproveitam o acesso a sistemas de clientes e antigas senhas de usuários em rede para xeretar a vida de quem ou o que mais quiserem. Os graúdos no comando obtêm qualquer informação que desejam.

E os caretas e céticos, duma figa, sabemos o que estamos perdendo.

A moça segurou a barra por quatro anos.

“Eu podia ter ficado […] pra sempre […]. O dinheiro e a facilidade do estilo de vida não foram suficientes para mitigar o atrito emocional do trabalho: o esgotamento, a repetição, a toxicidade intermitente. Os dias não pareciam distintos. Senti um vazio cada vez maior percorrendo meu estúdio toda manhã, girando na cadeira. Eu tinha desejo, se não a coragem, de fazer algo sobre isso.”

Pulou fora em 2018, com uma grana razoável, para unir o útil ao prazeroso. Hoje é repórter da revista The New York, a mais prestigiada publicação de cultura do mundo.

Seguiu em São Francisco, onde cobre cultura de startup e tecnologia. Deu-se bem a Wiener.

O Vale Bizarro trata da “aristocracia tecnológico-informática”, no dizer do Borja Hermoso, editor de cultura do El País, em uma pergunta que ele faz ao filósofo francês Gilles Lipovetsky.

Não dá pra entender as redes sociais e as revoltas que ajudaram a criar monstruosidades como o ¡Trump! e o Brexit sem pensar na cultura do individualismo, diz o Lipovetsky.

O celular da hora, a roupa da grife da hora, a viajem de avião da hora, o comer gourmet da hora, tudo é mandatório… E nada disso era coisa das gerações que antecederam os millennials. A vida era mais chã:

“Há pais que estão desempregado cujos filhos tem um iPad, um smartphone caro, um par de tênis de luxo… Antes, as aspirações eram trabalhar, comer e ter casa. Hoje são outras. Por exemplo, ir a Ikea [rede sueca global de móveis de “baixo custo”] comprar coisas fofas porque todos fazem o mesmo.”

Vivemos os padrões uniformizados e elevados do hiperindividualismo. Lipovetsky cita Alexis de Tocqueville: “Quanto menos desigualdades há, mais insuportáveis permanecem as que restam”. 

Apetrechos e aplicativos geniais do Vale do Silício igualam no raso a vida na idade das multitelas. “Uma sociedade cujos eixos exclusivos são as telas, o trabalho e a proteção social é uma sociedade deprimente”, ele diz.

A valorização das elites tecnológicas e da eficácia utilitarista cobra seu custo no fracasso democrático.

Mas é preciso pagar bem os professores e ampliar os gastos públicos com educação, cultura e arte, defende o filósofo, ou o que é ruim vai piorar. A escola e o ensino público de qualidade e a ciência são antes investimento que gasto público, lembra o homem.

Alguém tuíte isso a ¡¡¡Bolsonargh!!! e seus iluminados, por favor. Não tenho mais conta nessa rede. Não tenho mais conta em rede alguma. Mas elas nos perseguem.

As emanações de um ¡José de Abreu! e do “ódio do bem” se difundem e contaminam fora delas, das redes, como  o coronavírus, como o ebola.

Ainda me livro também do celular. Com uns vinhos na cuca, pensei em fazer como o Coutinho e sampar meu velho aparelho no Tejo. Afinei.

Agora considero o Liffey, inda mais por este rio ser um personagem do Joyce no Finnegans Wake. Quem sabe assim Anna Livia Plurabelle (ALP) não me dá uma linha.

O Liffey, aliás, é a própria cabeleira da ALP. ALP é mulher de  Humphrey Chimpden Earwicker (HCE) e mãe dos meninos Shaun e Shem e duma menina, Issy. Issy é uma nuvem que vira lágrima e se lança no Liffey, se convertendo em rio.

São fragmentos do livro o que sei. Contam-se nos dedos da ALP quem sabe o livro de cabo a rabo e não seja um estudioso seu de vida inteira.

Ah, minhas digressões. Perdão, senão…

Temos que trabalhar contra a degradação das qualidades criativas da pessoa”, diz o Lipovetsky, “da mesma forma que lutamos pela degradação do meio ambiente”.  

A humanidade valorizada pela cultura app é uma humanidade chapada. E o ser humano é esférico, curvo, complexo.

O filósofo fala de conhecidos, pesquisadores, matemáticos, físicos, engenheiros de alto nível que cantam em coros, cursam teatro ou pintura, tocam instrumentos. Isso deve trazer um sentindo mais pleno para a vida e o trabalho, ele conjectura.

 “A democracia não é só ter eleições livres. É formar indivíduos que saibam desfrutar, que sejam ricos em habilidades, e não apenas instrumentos de voto e trabalho”, ensina o autor de A felicidade paradoxal.  

Diz ainda que um dos maiores fracassos das sociedades ocidentais do pós guerra é a “democratização da cultura”. Ele fala de seu mundo, da Europa, dos EUA, talvez.

O que o Lipovetsky dirá do nosso mundo, de nós aqui? Helahoho! helahoho!

 Aqui me dou a deixa para saudar de novo a Geosmina.  Saudar os detergentes!

“Ao longo dos 31 dias de janeiro, 120,5 bilhões de litros de água contaminada por geosmina, o suficiente para encher 48.200 piscinas olímpicas, foram distribuídos para 9 milhões de habitantes da Região Metropolitana do Rio”, diz a reportagem de O Globo.  

A Geosmina (alguém precisa compor um baião para ela) fez aumentar o interesse pelo absurdo das estações de tratamento de esgoto e água conjugadas, como a do Guandu na prática é.

Graças ao escândalo da água podre distribuída na cidade maravilhosa, o país, quem sabe, comece a acordar para a merda toda.

Se o descaso com o saneamento básico virar hashtag e bater nos trend topics, meu Deus, vai ser uma revolução sanitária. E uma revolução sanitária, sabe-se de sobejo, repercute na educação e no trabalho. Civiliza.

Um biólogo foi passear no coquetel de fezes e despejos industriais do Guandu, a convite do Fantástico. Isso aqui é uma latrina, disse o prof. Encantos mil.

ETEs e ETAs são alicerces da civilização. O saneamento foi universalizado não é de hoje em qualquer democracia avançada, redigo.

Os avançados têm coisas menos tangíveis para postular, não é?, como a “democratização da cultura”.

Quem vai às praias, às torneiras, às urnas, sabe que país é este?

Quem vai aos apps, aos pet shops, aos estúdios de tatuagem, às butiques naturais, aos mercados orgânicos, sabe que país é este?

O Santíssimo sabe?

Quem tem que saltar língua negras pra sair de casa sabe que país é este.

Quando chove muito, então, que beleza! As crianças brincam ali, felizes como pinto no lixo. Ficam barrigudinhas, barrigudinhas. Depois vão à escola. E depois… Não tem.

O Belo sofreu com as chuvas, por falar nisso. Os podres da cidade, encanados, estouraram no Lourdes, este Leblon do Belo. Os podres do Belo vão pro Arrudas, dito rio, coitado, daí pro Velhas, então pro Chico e pro merdário geral do Atlântico.

Nunca vi passeata exigir saneamento básico. Não me lembro de cartaz algum de 2013 pedir mais ETEs e mais ETAs. Você viu, lembra?

¡¡¡Bolsonargh!!! tem casa no condomínio da Barra da Tijuca, de próspera vizinhança miliciana.

A Barra é um triste e horripilante esgotão. Uma Miami Beach miasmática cercada pelas exalações de suas lagoas.  

Nosso sonho de civilização é a Barra da Tijuca. Ainda vamos cumprir esse ideal.

Por parafrasear o Chico o mar do Leblon passa longe de limpinho. Não me lembro do Chico reclamar por saneamento básico, aliás.

Mais que isso, tuta e meia. Nonada.



OBITUÁRIO — O escritor Ian McEwan fez uma espécie de obituário do Reino Unido e seu adeus à Europa. Está no artigo titulado O Brexit, a ambição masoquista mais sem sentido da história de nosso país, está feito [original em inglês; versão em espanhol]. Um trechinho procê]:

“Façam uma viagem por rodovias desde a Grécia até a Suécia e desde Portugal até a Hungria. Esqueçam seu passaporte. Quanta riqueza, quanta exuberância há na gastronomia, nos costumes, na arquitetura e nas línguas desse acúmulo de civilizações, e que profundo e orgulhosamente diferente é cada Estado nacional de seus vizinhos. Nenhuma mostra de opressão de Bruxelas, nada da cinzenta monotonia comercial dos Estados Unidos continental. Tragam à memória tudo que aprenderam sobre o estado ruinoso e desesperado em que se encontrava Europa em 1945 e então contemplem os formidáveis logros econômicos, políticos e culturais: paz, fronteiras abertas, relativa prosperidade e fomento dos direitos individuais , a tolerância e a liberdade de expressão. Até o sábado [primeiro dia após a entrada em vigor do Brexit], esse era o lugar onde nossos filhos maiores, se quisessem, iam viver e trabalhar.”

SAUDADE. GEORGE STEINER —  Borja Hermoso, o citado colunista de El País, lembra saudoso do polímata, poliglota, polemista, mitólogo, semiólogo e crítico literário que foi George Steiner (1929-2020). O grande homem morreu nessa segunda-feira, 3, às duas da tarde, em sua casa-refúgio na Barrow Road, Cambridge, Inglaterra. “Já não suporto o cansaço da debilidade e a doença”, havia se queixado ao Ordine, a quem deu a “entrevista póstuma”, apenas alguns dias antes. Sua obra está aí e vos digo, caro juripoqueiro, é uma beleza. Clara, ilustrada, apaixonada pelos clássicos literários, pela filosofia e pela música. Steiner vai-se alguns meses depois do professor Harold Bloom e dias depois de Roger Scruton, com quem tinha certas proximidade, mais com o primeiro decerto. Destaquei no JS trechos da entrevista saudosa do Hermoso, em julho de 2016. Segue atual e necessária aquela conversa. Ler e reler sua obra em 2019 me ensinou algo e me deu grande prazer. Comentei nessa carta. Aqui os obituários da Folha de S.Paulo, do El Cultural de Barcelona, do The New York Times.

O CLUBEMilton e o Clube da Esquina, nova série do Canal Brasil [aberto para não assinantes na internet. Disponível no Now da Net, inteira]. Beleza pura para fãs do Clube, como este batucador de jurupocas. O bonito estúdio das gravações, nas montanhas de Minas, em Macacos, perto do Belo, é mais que apropriado. Bituca, um ser 100% música, rememora a épica produção do disco, velhas histórias. “Não tenho palavras” é seu bordão, e com razão. O que lhe cabe ele disse na obra. Basta que solte a voz. Apoiado pelos parceiros Lô e Marcio Borges e Ronaldo Bastos, recebe convidados para duetos como a linda Iza, com quem Milton se derrete, Criolo, Seu Jorge, Samuel Rosa, Gal, Maria Gadú e Ney Matogrosso. É uma abraçação e beijação só. Cada episódio desfila faixas do disco clássico com arranjos próximos dos originais. Vendo a série, noto que Um girassol da cor do seu vestido (Lô e Marcio Borges) Morro Velho (Milton), Canção de Sal (Milton), Cais (Milton e Ronaldo Bastos) e outras várias reinterpretadas na série ainda me levantam os pelos. Gal diz que ela e Milton haviam combinado ter um filho e o plano não deu certo, veja o leitor. “Que voz teria esse filho!”, diz o entrevistador Gabriel Leoni, todo babão. Milton cantando com Seu Jorge, às lágrimas, com Samuel Rosa, puro contentamento, com Ney… 2020 vai bem. Algo para se ver na TV.

GOYA EM DESENHO — O El País organizou um passeio pelos cadernos e desenhos do grande artista espanhol, os mesmos da exposição do bicentenário do Museu do Prado, até o fim desde mês. Cada um dos cadernos é associado à biografia, à análise artística e à cronologia do pintor. Ótimo trabalho de desenho, pesquisa e edição digital do jornal espanhol.


QUAL É A DE JURUPOCA?

(Há seis meses oferecendo o melhor em secos e molhados.)
Com afinco e aprumo, Jurupoca dedica-se ao jornalismo cultural, à literatura, às ideias; a comentar e selecionar conteúdos relevantes, o que se chama hoje de curadoria.Cada novo número se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia visceralmente o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental. Considere contribuir com a pesquisa e produção do boletim. Para fazer uma doação, quanto e quando puder, clique aqui para ser direcionado a uma conta UOL/PagSeguro, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6  —


Sobre o autor da carta

Antônio Siúves (1961-), coitado, vive em BH, no Belo, e gosta de andar a pé. É jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.