Jurupoca #17

21, Fevereiro, 2020 — Carta 17

Bacanal - Manuel Bandeira
 
Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!
 
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!
 
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!
 
Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!
 
O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!
 
A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

Ouça uma interpretação do poema e sua recitação neste programa da Rádio Cultura.
 

Opa. Vamos apear?

Pega o pirão, esmorecido! Só ser for no Recife.

Evoé Baco! Evoé Vênus! Evoé Momo!

No Belo não senhor.  Para pegar o pirão aqui, melhor se prevenir, decorar a cartilha da PBH.

Os bedéis da prefeitura oficializaram um Carnaval identitariamente imaculado, como requer a patrulha do pensamento orwelliana.

Se bobear, um folião arrisca-se a incorrer em uma pilha de preconceitos. Uma mera fantasia pode revelar, entre tantas, “atitudes racistas, machistas e LGBTQIfóbicas” (sic).

Cuidado com o pirão! Que fantasia é essa? Eu sei e vou dizer.

Millennials radicais do “lugar da fala” condenam a apropriação cultural indébita. Dizem que é “estratégia de dominação”.

Se eu sair de cipriota turco estou ferrado. Alessandra Negrini saiu de índia no pré-carnaval de Sampa e foi vítima da “cultura do cancelamento”.

A atriz foi cancelada nas redes sociais idiotas. Tóóóinnnn!

O extremismo millennial abriga linchadores virtuais. Mas não pode ser denominado, metaforicamente, inquisitorial, por favor. Não estudaram o ponto.

Não leem muito, é sabido. Pouco sabem do mundo, mas esse pouco que sabem serve ao ofício de juiz da conduta alheia nas redes estúpidas.

 “Cultura do cancelamento” é coisa de bronco extremista.

Veio da politização do ressentimento ou da “Escola do Ressentimento”, na expressão de Harold Bloom (1930-2019).

Bloom se referia, em sua obra e nesta entrevista em português, concedida há 25 anos, ao fenômeno em língua inglesa. Há muito a onda bateu no Bananão, como Ivan Lessa chamava a pátria amada, e é atual como nunca, senão vejamos:

Folha – Em seu livro [O cânone ocidental], o senhor escreve que “nós estamos destruindo todos os padrões intelectuais e estéticos nas ciências humanas e sociais, em nome da justiça social”. “Nós”, aqui, significa presumivelmente “eles”, se não “vocês”.

Harold Bloom – Não sei como é o caso no Brasil. Para os países de língua inglesa, de maneira muito marcada, “nós” significa simplesmente a academia. Nos Estados Unidos, como na Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, a situação foi tomada pela maré terrível do que eu chamo de Escola do Ressentimento. Fundamentalmente, o que ocorreu — e parece agora impossível de ser revertido — foi uma coalizão de, entre aspas, “feministas”, “marxistas”, “neo-historicistas”, “materialistas culturais” e teóricos de inclinação francesa — Lacan, pseudo-Lacan, pseudo-Derrida, pseudo-Foucault. Esta coalizão representa hoje cerca de 70% dos professores em meio de carreira, e mais da metade deles são cultuadores fanáticos da Escola do Ressentimento. Não estão interessados em literatura, ou na filosofia tradicional; decididamente não têm o menor interesse por interpretações convencionais da história ou pela história das ideias. Não têm interesse algum por aquilo que eu chamo de crítica literária, que é o que o mundo sempre considerou como tal, desde Platão, Aristóteles e Longino até uns 15 anos atrás.

Helahoho! helahoho!

A vigilância da conduta e opinião policia consciências e põe, inclusive a imprensa, na defensiva.

Raríssima gente tem ânimo de transgredir os vetos das milícias identitárias.

Ou da guarda oficial da Prefeitura do Belo.

Ah, se a cambada suportasse ler mais de dez linhas, que bom seria.

Sugeriria então aos país de canceladores — como palmadas simbólicas — que impusessem às crias a leitura de Como curar um fanático, do Amós Oz.

Eu sei. Provavelmente cancelariam o Oz do mesmo jeito, mesmo morto, como tantos escritores mortos são cancelados, lacrados e censurados.

Tudo dá no mesmo pré-iluminismo obscurantista e tapado.

O fanático é desprovido de autoironia, e impotente para tentar ver o mundo da janela alheia, como receita o Oz.  

Mas, ia dizendo, no novo Carnaval do Belo, cuja animação não se via desde quando jogavam o entrudo, a fantasia ideal é a do hipócrita, meu irmão. 

Vigiar fantasias é mentalmente raso, quando não insano. É fútil pacas.

Fantasia é sinônimo de sonho, de devaneio. O Carnaval costumava ser entendido como intervalo, pausa transgressora, consagração de Baco.

Evoé Momo!

O Houaiss ensina que na etimologia de Carnaval está carnevale, o afastamento ou abandono da abstenção antes da quaresma, nas vésperas das Cinzas.

Como alguém pode atestar que outrem não possa sonhar/devanear/transgredir?

Quem se fantasia comete ato impróprio contra quem? Deveras?

Acaso o folião que se fantasia no Carnaval vai militar, fazer política, lutar contra outros foliões, defender preconceitos?

Carnaval não é comício nem passeata, sô.

Evoé Vênus!

A foliã e o folião querem mesmo é se acabar, pegar o pirão. Ou não se sabe mais o que é Carnaval.

Mas vamos deixar de lado os prolegômenos e a chatice.

Vamos esquecer o tédio virulento das patrulhas que tentam sufocar o Carnaval.

Vamos pular longe da gangue que não suporta a liberdade e se rói de ciúme da alegria geral. Mete o cotovelo e vai abrindo caminho

Helahoho! helahoho!

Quero falar de coisas boas, do que merece nossa atenção. Quero fugir da futilidade e da fofoca, certo?

Num dos ótimos programas Fronteiras do Pensamento, série exibida no Canal Curta, o filósofo alemão Peter Sloterdijk interpreta com verve e beleza a ideia do abismo em Pascal.

Somos os únicos animais que sofremos da “doença ontológica”, diz o Sloterdijk.

Por olhamos para trás. Por queremos saber de onde viemos, ao cismar com a origem de tudo. Depois da modernidade, acrescenta, depois da “morte de Deus”, passamos a olhar também para o futuro. E Pascal?

Pascal era assombrado por um buraco. Nesse sestro, avistava um vão profundo à sua esquerda, onde estivesse. Esse vazio o atraia.

Para resistir à atração, o físico, matemático e teólogo cobria o buraco com uma cadeira. Acreditava que Deus era o devido ocupante da cadeira sobre o oco.

Já Sloterdijk humaniza o abismo. Somos um ser cercado por duas cáries, o antes e o depois. Dois vazios a preencher.

A alma humana necessita assim de duas cadeiras, que são uma só, diz o alemão. O que preenche nosso vazio é a ficção, são as narrativas.

Revia o programa como Sloterdijk e cismava com o livro que andava a ler, um romance da polonesa Olga Tokarczuk, a mais recente Nobel de Literatura, compartido com o austríaco Peter Handke.

Sobre os ossos dos mortos, lançado em novembro passado, me fazia pensar nas palavras do alemão.

Ao terminar de ler, sabia que tinha em mãos um romance deveras excêntrico.

Confesso que jamais li nada parecido. Mas não leve muito a sério o comentário que se segue. É muitíssimo pessoal.

A obra deu o que falar onde apareceu, ganhou um prêmio importante e rendeu um filme que não vi, mas parece ter sido bem-recebido onde passou.  



Neste fevereiro meio nórdico no Belo, de dias cinzas e noites friorentas, me entretiveram as andanças, elucubrações e cismas de Janina Dusheiko, a intrigante e múltipla narradora.

Ela nos enreda desde o primeiro parágrafo numa armadilha. O leitor é a presa que, como um animal desprevenido a vagar pela floresta, cairá no laço do epílogo, e pode ou não gostar disso.

A senhora Dusheiko envelheceu, sofre várias moléstias e tem crises de choro.

Mas enfrenta com destemor o brabíssimo inverno de uma aldeota polonesa na borda da República Tcheca.

Em rondas diárias, ela toma conta das casas vazias durante a estação e presta conta aos seus proprietários.

“Antes da guerra, nosso vilarejo era chamado de Luftzug, ou seja, Corrente de Ar, mas hoje em dia resta apenas Lufcug, já que oficialmente não possuímos nenhum nome”, situa o leitor.

Estranhas mortes ocorrem na redondeza. O mistério envolve e comove o povoador.

Astróloga, vegetariana, defensora radical do direito dos animais, inimiga feroz do caçador, engenheira de pontes aposentada, professora de inglês, tudo isso é a Dusheiko e muito mais.

Caçadores e polícia a tratam de “velha louca”.

A princípio, conta com um único amigo, Disio, um rapaz, ela diz com carinho, meio “abobado”. Os dois se veem uma vez por semana para traduzir poemas de Blake.

“Ao longo do dia, nuvens escuras e baixas atravessavam o céu, e agora, tarde da noite, roçavam suas barrigas molhadas nas colinas”. Os fios da solidão de Janina prendem o leitor numa teia de calor humano.

As passagens passagens poéticas sobre a natureza, como as reflexões filosóficas, são parte da armadilha que mencionei.

Com graça, ela batiza as pessoas com nomes que lhe parecem mais apropriados ao ser de cada um.

Tem o caçador Pé Grande, o hábil vizinho Esquisito, a vendedora Boas Novas, a escritora Acinzentada, o padre Farfalhar, o entomologista Boros.

A Dusheiko tem um humor peculiar, autenticamente feminino. E tem cadeiras para cobrir seus abismos.

Em sua narrativa, recria a vida e enquadra o acaso nos mapas do céu. Acima de tudo, ama os bichos, sua verdadeira razão de viver.

Em seu abandono, mal fala com Esquisito, o vizinho mais próximo. A relação entre os dois é preenchida por um silêncio amoroso. O silêncio, quando compreendido mutuamente é comunicação pura.

“Enquanto olhava para o planalto e sua paisagem em branco e preto, entendi que a tristeza é uma palavra importante na definição do mundo”, filosofa. “Constitui a base de tudo, é o quinto elemento, a quintessência”.

O humor e a autoironia tornam alguém, como a Dusheiko, capaz de olhar para a solidão e a dor e descrever seu estado com naturalidade.

“Só uma máquina seria capaz de carregar toda a dor do mundo. Apenas uma maquinaria, simples, eficaz e justa”, pondera, sentindo-se próxima da morte e do oblívio.

Tais meditações sustentam a armadilha. Janina, vamos saber, é o simulacro de uma grande personagem que se apequena.

A Tokarczuk foi muito feliz ao encontrar a voz da Dusheiko. Não há uma palavra deslocada, um sentimento que se derrame na prosa. A crispação da idade é mais que verossímil.

Acontece — veja só, cara leitora, caro leitor — que a Tokarczuk rouba a voz da própria personagem, e rouba a cena.

A autora defrauda, vou me expressar assim, um leitor bem-intencionado. E o que pode ser um leitor bem-intencionado?

Quem se esforça para penetrar a concepção de um artista e estudar cada ângulo de uma criação multifacetada, ao relacioná-la com a literatura e a vida.

A menção às “duas meninas” ausentes da narradora é recorrente e algo nebulosa na história.

Toda a dor da personagem diz respeito à perda dessas criaturas, que ela supõe terem sido assassinadas.

Então, quando se aproxima do final, o livro muda de ritmo e o enredo policial redefine a história.

Quem assassinou os caçadores? Os próprios animais se vingaram, como insistiu a narradora em reiteradas missivas à polícia?

Tudo que a Dusheiko nos oferecia de possível sabedoria, de um temperamento quixotesco, no melhor sentido desse expressão, se escorre pelas últimas páginas.

O edifício humanista que se erguia, em andamento e atmosfera, é posto abaixo numa tacada só.

A Tokarczuk toma de golpe o destino da sua heroína e puxa as rédeas violentamente, como quem dobra o pescoço de sua montaria.

Isso talvez justifique o romance ter sido definido numa crítica como “comédia negra”. De comédia o livro não tem nada, ou perdi meu senso de humor, senão o juízo.

De “catástrofe cósmica”, sim. O livro roça algumas vezes na obra prima. Mas essa aproximação revela-se farsesca.  

A militante Tokarczuk se intromete no curso da narrativa, até então introspectiva, cadenciada, e se põe a gritar. Silêncio.

Um grande ficcionista não quebra a regra da neutralidade, quanto menos grita com seu leitor.

Ao falar de Benito Pérez Galdós, um romancista espanhol do século 19, o escritor e acadêmico Javier Cercas calca duas referências essenciais a respeito dessa neutralidade:

1. Gustave Flaubert: “O autor deve estar em sua obra como Deus no universo: presente em todo lugar, mas sem que ninguém o veja”.

2. James Joyce (talvez ao pensar nas palavras de Flaubert, de quem o irlandês é um do melhores discípulos — diz Cercas — o outro é Franz Kafka): “O artista, como o Deus da criação, permanece dentro, atrás, acima ou além de sua obra, invisível, superior à existência, indiferente, lixando as unhas”.

Pois a Dusheiko, uma personagem complexa, cogitativa, produtiva, radical, como qualquer ser humano pode ser, se metamorfoseia em anjo exterminador da autora.

A heroína evolui, como nos desenhos japoneses, em super-heroína. Sua missão é vingar os animais “assassinados”.

Os fantasmas da mãe e da avó, com os quais ela sonha amiúde, e os ossos de corsas, raposas, lebres e faisões estão no terreno que ela vai arar.

É o seu cemitério, seu santuário privê. Mas falta os ossos das cadelas desaparecidas, as tais meninas da narradora.

A Tokarczuk não apaga as pistas que, suponho, enxertou na história depois de corajosamente planejar o final.

É como se ela houvesse perdido a paciência e mandado às favas o humanismo e o ritmo na narração.

Isso não deixa de ser uma espécie estelionato literário. A autora promete um romance que não aconteceu.

De mulher sábia e da poeta insinuadas, Janina assume o semblante indiferente de um psicopata esquizofrênico, se existe tal condição.

Pois ela justifica seus atos com uma moralidade própria, fundada na exuberância descompromissada da pós-modernidade. E em nome da vida! Da vida animal!

 A grande obra anunciada redunda num quase panfleto extremista sobre a maldade, a corrupção e a perversidade do caçador em gênero.

Chegamos ao terreno de uma fábula infantil ou infantilizada para adultos que sonham em redefinir toda a história e cultura humanas, de preferência refundar o evolucionismo darwiniano. 

Olga Tokarczuk tem 58 anos, é feminista e vegetariana de longa data. Ela “perde o sono com o sofrimento dos animais”, lemos em um perfil da revista The New Yorker.

Creio que afirmar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos também se aplicar a cães, corsas ou coleópteros não é trair o pensamento da autora.

Este livro surpreendente deve ser lido inclusive para aprendermos um pouco sobre a mentalidade dos responsáveis pela concessão do Prêmio Nobel. Uma mentalidade tribal e hipócrita, como se sabe.

Além disso, Sobre os ossos dos mortos — o título, como os versos que abrem cada capítulo, vêm de William Blake: “Conduz teu carro e teu arado sobre os ossos do mortos”, dos Provérbios do Inferno — nos dá algo da literatura polonesa contemporânea, na escrita de sua autora mais importante.

Hoje, como há dez anos — o livro originalmente é de 2009 — e muito antes, a Polônia é uma nação desconfortável em si mesma.

Como a Irlanda para o Stephen Dedalus de Joyce em O retrato do artista quando jovem, a Polônia tenta despertar do pesadelo da história.

Os últimos governos de extrema direita desconjuntam a democracia do país e camuflaram a corrupção alimentada pelos subsídios da União Europeia.

O romance alude muitas vezes a esses subsídios.

A Tokarczuk colaborou com Agnieszka Holland na versão cinematográfica, lançada em 2017 com o título em inglês Spoor, Rastros no Brasil.

O filme foi exibido no Festival do Rio de 2019. E  representou seu país no Oscar de filme estrangeiro em 2018, não sendo selecionado.

Um jornalista citado pelo britânico The Guardian definiu o filme como “profundamente anticristão” e o acusou de “promover o ecoterrorismo”.

Helahoho! helahoho!

Melhor volta à vaca fria.

Uma catástrofe cósmica também se abateu sobre nós. Que conjunção astral a nossa, rapaz. Que janeiro! Que fevereiro!

A cartilha da PBH não é nada perto da emergência climática, da cerveja aditivada letal, da Geosmina, das inundações, do coronavírus. E não é só.

Há ¡¡¡Bolsonargh!!!. Como escapar? Sobre a vileza da agressão machista e imunda contra a jornalista Patrícia Campos Mello, duas coisas.

1º. Convoco a meu serviço Gastão, o Vomitador, o personagem criado por Jaguar:  


2º. Subscrevo este trecho do artigo de Ascânio Selene, em O Globo de ontem:

“O ataque a Patrícia Campos Mello torna Jair Bolsonaro um outro elemento tão nocivo quanto difamador, populista, prepotente, truculento, intolerante, autoritário e antidemocrático. Chamá-lo de biltre, ou classificá-lo como um indivíduo infame, desprezível e vulgar poderia parecer exagero. Mas não parece incorreto se for usado apenas o melhor sinônimo para estas palavras. Cafajeste. Somente um cafajeste teria coragem de fazer o que ele fez diante das câmeras de TV.”

Helahoho! helahoho!

Há ¡¡Witzel!! e ¡¡Dória!!.

E nas Minas dos Matos Gerais temos ¡¡Zema!!.  

Os mortos, você sabe, são uns impertinentes, uns imprevidentes.

Soterrados na barranqueira, sob os destroços de suas casas pênseis, de seus móveis e trates, tinham que atrapalhar a vida, a santa rotina do ¡¡Zema!! na arquitetonicamente monstruosa Cidade Administrativa.

Como homem público, o ¡¡Zema!! tem a empatia de um vendedor de flanelas. Mas o homem é abnegado.

Em janeiro, ao visitar Governador Valadares, sua Excelência levou dois pares de sapatos!, como revelou aos contribuintes em uma entrevista.

 ¡¡Zema!! é o novo na política e tem o novíssimo viés bolsonarghista.

Não consegue pagar o funcionalismo público em dia, alardeia diariamente a falência do Estado e dá aumento aos militares.

Murídeos da política velha entregaram Minas às baratas.

O ¡¡Zema!! é que o temos de melhor para reconstruir este estado altaneiro.

Vamos, vamos cantar nossas montanhas azuis, nossas vastas minas ferríferas à flor do chão, nossas barragens auditadas e seladas, nossa queijaria rolando por ladeiras de ouro e esmeralda!

O ¡¡Zema!!, presta atenção você que não é das Minas, chegou ao ponto de jugar os mortos!, antecipando-se ao Juízo Final.

Foi deles, mortos — repetidamente sugeriu sua Excelência — a responsabilidade pela própria desgraça. Foram imprevidentes, o que queriam? Não obedeceram os alertas das autoridades.

Foi o melhor que pôde dizer para consolar as famílias destroçadas.

O ¡¡Zema!! tem alto teor de ferro. 90% por cento de ferro na alma. Os 10% restantes são do comércio que o fez bilionário.

Se deixam, Eczema, digo, ¡¡Zema!! oferece aos desabrigados móveis, eletrodoméstico e outras mercadorias novinhas de sua rede de varejo. Tudo em 50 prestações!

A persona do governador é impassível. Tem a soberba de um comerciante que acabou de arrematar um lote de tanquinhos por uma bagatela. Grandes margens no bolso!

Com essa catadura ele se apresenta em Brumadinho para acalmar os sobreviventes.

No auge das enchentes, com desaparecidos em toda parte, ele garantiu que estava tudo sob controle.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.


Ou evoé Baco! Evoé Vênus! Evoé Momo!

Como não sei sair de mim mesmo nem pular sozinho, vou deixar de lado o Carnaval do Belo, que os munícipes deram de proclamar o melhor do país.

Estarei matutando a próxima carta, a ouvir o murmulho do riacho familiar, as vozes da fazenda, onde não há canceladores, censores, cartilhas, ecoterroristas, eczemas nem, espero, coronavírus.

Mais do que isso, tuta e meia. Nonada.

QUE DISCOTECA! — Quase 50 mil fonogramas estão lá, a um clique. Outros tantos virão. Bolachinhas de 78 rotações, gravadas em cera e agora digitalizadas. Uma valiosíssima história das primeiras cinco décadas da nossa música. O site Discografia Brasileira, inaugurado há pouco pelo Instituto Moreira Salles (IMS), é uma beleza. Tenho passado horas na companhia de Dorival Caymmi, Mario Reis, do samba-canção, dos primeiros passos do rock no Brasil. Os 78 rpm surgiram em 1901. Foram superados pelo LP no início dos anos 1950 e logo desapareceram. Percorre-se toda essa trajetória no site. Donga, Francisco Alves… Que luxo e riqueza o aguardam, meu senhor. Pode-se criar uma playlist e comparti-la com quem se quer bem. Tudo catalogado nos conformes, ano da gravação, registro fonográfico. Nada do buraco negro do streaming, onde você sofre para encontrar créditos autorais e tantas vezes não encontra nada. A discografia do IMS tem raridades que jamais caberão no streaming, vai por mim. Me delicio a ouvir Celly Campelo em Lacinhos cor de rosa (Pink Shoe Laces); João Gilberto, 1959, em Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria; Orlando Silva em A primeira vez, de Marçal e Bide,1940, ou em Alegria, de Assis Valente e Durval Maia, ou, ainda, em Aos pés da cruz, de Marino Pinto e José Gonçalves — um clássico na voz do João; Noel em Com que roupa, gravação de 30/09/1930; Mario Reis em Agora é cinza, também de Bide e Marçal, gravação de 25/10/1933. Com quem no sax? Pixinguinha, ninguém menos. Você encontra na Discoteca um Brasil quase intacto em seus estilos de cantar, tocar e arranjar. Pode visitar outros preciosos registros do humor popular, presente nos sambas, marchinhas dos velhos carnavais ou nos sucessos que puxavam o saco ou tascavam Getúlio. Um refrigério para essa época em que o mau gosto, a burrice, o fel e a ignorância se difundem como gafanhotos bíblicos. Que aula, que passeio. Helahoho! helahoho!

UM SAMBA PUXA OUTRO — Chico Buarque “achou” a melodia de Vai passar quando compunha outro sambas-enredo figurado, Dr. Getúlio (gravado por Simone no álbum Desejos, de 1984), para o musical Vargas. Humberto Werneck conta essa história em Chico Buarque – Letra e música (1989). Conta também que Chico, quando compunha, gravava tudo em fitinhas cassete, e que ele só terminaria Vai passar depois de Francis Hime dar um jeito na melodia. A letra ficaria pronta já no estúdio, durante as gravações do LP de 1984. Pois a tal fitinha, com o registro do momento em que ele cantarola o refrão de Dr. Getúlio, e que mais tarde vai levá-lo ao de Vai passar está no YouTube desde 2013.


CRÔNICAS PARA FOLGAR Joaquim Ferreira dos Santos, com o texto magnífico de sempre, saúda os carnavais de ontem e apresenta uma seleção musical na Rádio Batuta — outra grande iniciativa do IMS. Veja em Rainhas e Reis do Carnaval.

UMA VISITA A KIEFER — O escritor norueguês Karl Ove Knausgaard faz um perfil dedicado e confessional (em se tratando do autor de Minha luta não podia ser diferente) de Anselm Kiefer, o maior artista vivo segundo o título do The New York Times.

MASTER CLASS — Com sorte, você conseguirá ver no confuso canal Film & Arts o programa Sir András Schiff/Bach: Variações Goldberg. É notável a capacidade didática do professor e pianista nesta conferência-concerto. Até este analfabeto musical que te escreve entendeu algo sobre a estrutura das Variações.

A TEMEROSA FAUNA ACADÊMICA — Tem o Fodão, o Desmancha-prazeres Amargo, o Burocrata Sádico, o Pegajoso Temerário, em minha reles tradução. “Se você deparar um desses idiotas na natureza, em um hotel de conferências, do outro lado da mesa de um seminário ou em uma reunião de comitê no campus, reaja como se houvesse avistado um urso. São criaturas perigosas e imprevisíveis, melhor evitar, se possível. Não trate de se aproximar, cismando que pode se tornar amigo de um deles sem se arrepender. Não tente seduzi-los com guloseimas. Vá para o mais longe possível. Idiotas são mais bem avistados à distância”, recomenda Eric Schwitzgebel [com subscrição].


QUAL É A DE JURUPOCA?
(HÁ 8 MESES OFERECENDO O MELHOR EM SECOS E MOLHADOS.)
Com afinco e aprumo, Jurupoca dedica-se ao jornalismo cultural, à literatura e às ideias; a comentar e selecionar conteúdos relevantes, o que se chama hoje de “curadoria”. Cada novo número se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia visceralmente o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental. Considere contribuir com o trabalho de pesquisa e produção do boletim. Para fazer uma doação — quanto e quando puder — clique aqui para ser direcionado a uma conta UOL/PagSeguro, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6  —

Sobre o autor da carta

Antônio Siúves (1961-), coitado, vive no Belo e gosta de andar a pé. É jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.