Jurupoca #18

Março, 6, 2020 — Carta 18

Grávida — Arnaldo Antunes / Marina Lima

eu tô grávida
grávida de um beija-flor
grávida de terra
de um liquidificador
e vou parir
um terremoto, uma bomba, uma cor
uma locomotiva a vapor
um corredor

eu tô grávida
esperando um avião
cada vez mais grávida
estou grávida de chão
 
e vou parir
sobre a cidade
quando a noite contrair
e quando o sol dilatar
dar à luz

eu tô grávida
de uma nota musical
de um automóvel
de uma árvore de natal

e vou parir
uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional
um cartão-postal

eu tô grávida
esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão

e vou parir
sobre a cidade
quando a noite contrair
e quando o sol dilatar
vou dar à luz

Adoro essa canção, de inventiva melodia e letra de altíssimo nível, verdadeira ode ao feminino e à criação artística. E gosto desta gravação da Biscoito Fino, com Zélia Duncan e Simone. Engraçado, sô. Minha cuca creditava a parceria de Marina na música, de 1991, ao irmão dela, o poeta Antonio Cícero. Teria tudo a ver. Mas não.

Opa! Vamos apear?

Começo, quase calmo e sereno, com um pouco de sono, por te contar o que tenho visto de bom.

O compadre sugeriu e vi numa sentada, numa deitada, a série documental francesa em quatro episódios Rotas da escravidão, no Curta.

Pensei, ao chegar ao final dessa magnífica produção apoiada pela Unesco, no quanto nos iludimos sobre nosso breve e relativo período de paz e respeito humanitário.

O final do século 19 é outro dia mesmo. É quando mal saímos de séculos e séculos de exploração da “energia humana”, no dizer de um acadêmico, como fonte de riqueza.

E houve a escravidão dos judeus e outros povos, pela Alemanha nazista, e há focos de trabalho escravo em várias partes do mundo… Há o supremacismo branco norte-americano e além, há de tudo por aí. Que espécie a nossa.

Virando a chave, Joias brutas me mostrou Adam Sandler como ator dramático. O comediante não me dizia lhufas.

Poucas vezes um filme foi tão feliz ao mostrar a loucura da cobiça de um apostador. O ritmo é doido, cocainômano, eu diria, não fosse o herói nova-iorquino um careta quanto a isso.  

Entramos na rotina do joalheiro judeu Howard Ratner. Já na abertura o conhecemos por dentro, ao ver suas entranhas percorridas por um colonoscópio de alta definição.


Também na Netflix só agora vejo, guiado pela primeira-dama, Louder Than Bombs, de 2015, chamado por aqui ¡Mais Alto que Bombas!

Ensurdecedor, em Portugal, é bem mais razoável.

E pensar que tascávamos nossas traduções ruins com “lusitanas”, do tipo Os Brutos Também Amam (Shane).

Louder… tem a grande Huppert como uma fotógrafa de guerra deprimida. Sua dor sobra pra a família e, claro, pra nós. O filme é adulto e brilhantemente roteirizado e montado.


E mandei com prazer três primeiros episódios da 5ª e derradeira temporada de Better Call Saul,  “prequência” ou “prequela”, em português infame, de Breaking Bad.

Me exultam em toda a série as  atuações de James Morgan McGill — conhecido como Saul Goodman, Slippin’ Jimmy (Jimmy Liso), também Gene Takavic — e a namorada Kim Wexler (Rhea Seehorn).

Os dois, como personagens e atores, se dão tão perfeitamente quanto o piano e Nelson Freire.

E o embate moral entre Jimmy e Chuck (Michael McKean) tem o gabarito de elevada tragédia. A relação entre os dois irmãos nos obriga a reavaliar ideias e juízos a toda hora, como fazem os advogados com eles. Uma injeção de inteligência.

E música? “Tan-tan-tan-TAAAAAAAN”.

Ainda agorinha ouvia o podcast de Renata Lo Prete sobre a temporada de festas no 250º aniversário de Beethoven. A Renata entrevista o Nestrovski, de quem falo bastante nesta Ju.

Rapaz, o diretor da Osesp, além de escritor, compositor e violonista de mão cheia, é Professor. E um Professor ou Professora, assim maiúsculos, são o sal da terra e a luz do mundo.

Nestrovski recomendou muito a Missa Solemnis em Ré Maior, Op. 123, no repertório atual da Osesp, o que encantado e obedientemente tenho feito.  



Emergi do Carnaval calmo até, em paz até. O espírito quase pronto pra Beethoven.

Na pequena Ipoema, antiga Aliança, onde passeei, viveram muitos de minha gente. Os tios Rubens e Checo, por exemplo, ou o primo Marzinho. A cidade é mais ou menos a mesma há 150 anos.

O Museu do Tropeiro, afamado (meus tios foram tropeiros) estava fechado.

Visitamos então o minimuseu da Farmácia, no segundo piso da rodoviária, e que estação estupenda (fotos acima) a de Ipoema. A mais charmosa do mundo.

Cabem dois ônibus! E pra que mais?

Encravada no centro, não chama atenção para si. Compõe-se com o lugar, com as gentes, com as montanhas e com o verde em volta. Tem uma dignidade marcante e inesquecível.  

Claro, voltei, sempre volto a ele quando no interior das Minas dos Matos Gerais, ao Drummond primeiro, de Alguma poesia, que nasceu ali perto. Ipoema ainda é distrito da Itabirona.

Volto sempre ao Cidadezinha qualquer, você sabe,

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

CDA deixou Itabira para ser um modernista, logo um dos “primitivos de uma nova época”, no dizer do Prefácio interessantíssimo do Mário em Pauliceia desvairada.

Eram primitivos de um mundo alucinado e vertiginoso.

Eletricidade, elevador, motor, buzina, avião, cidades em transe, o mundo de ponta cabeça, diz o antropólogo colombiano Carlos Granés no delicioso ensaio Salvajes de una nueva época – Cultura, capitalismo e política.

As vanguardas artísticas eram selvagens no início do século 20. Cubismo, dadaísmo, letrismo e tal. A vida se reinventava, renascia. As artes retratavam o parto, projetavam a excitação, a dúvida e as primeiras sombras da catástrofe.  

Duchamp com o movimento Dadá queria ver a arte longe dos museus.

Incorporar a imaginação à experiência do dia a dia, e o devaneio com as coisas reais, no cantar do Belchior muito depois.

A arte buscava apavorar o burguês, rir do financista, rir dos ritos, azucrinar o bispo, bagunçar o establishment. Sigo o roteiro do Granés.

As vanguardas mais combativas vão se meter com a política e “perder a pureza”.
O futurismo foi com fascismo, por amor à guerra.

O surrealismo de Breton e o construtivismo foram com a revolução russa — e os artistas soviéticos sentiriam depois o tacão de Stalin nos pescoços.

Vêm os anos, vêm mais ismos, contracultura, maio de 1968, pós-modernismo, arte contemporânea.

Então o capital almoça a contracultura, e o mercado regula a arte contemporânea.

O curador se faz de papa da instituição artística e o artista é seu coroinha, na escrita afiada de Granés.

O curador é quem dá todas as cartas, quem faz a obra de arte falar. Quem seleciona, interpreta e significa!

“Aproveitando-se da confusão e da superabundância de arte e artistas”, diz o colombiano, o curador “se mostra como a pessoa capaz de pôr ordem em um galinheiro ruidoso e saturado”.


Helahoho! helahoho!

Mas eis que a ciência vai em frente e traz a revolução tecnológica. E a tecnologia passa ao controle da economia, da cultura e de nossas vidas.

Voltamos a ser primitivos de numa nova época:

“Já não é o elevador nem as máquinas a pistom o que nos fascina, senão o smartphone e o vínculo direto com o mundo virtual de redes sociais que não sabemos bem se dominamos ou se nos domina. Por aí andamos, com o mesmo pasmo, com a mesma euforia, tratando de nos colocar em uma realidade instaurada com imagens virais, memes, fake news, insultos , linchamentos e novos relatos que buscam a hegemonia; tratando de entender uma nova lógica de comunicação na qual todos participamos a quente, instantaneamente, em função da simpatia ou do ódio que inspire o interlocutor.”


Por falar nisso, uma pequena digressão, entre parênteses, e já, já volto ao Granés e ao ponto.

A Jurupoca não é tocada a inteligência artificial, por enquanto. Aqui estamos a salvo até do Google, por enquanto. Mas não é bem esse o busílis.

Leio no Estadão uma entrevista sobre o lançamento em português de Berta Isla, romance mais recente do espanhol Javier Marías.

Comecei Berta Isla em espanhol. O livro eletrônico é mais barato na versão original que na tradução da Companhia das Letras!

Não há algo de errado na conversão cambial? Comento o romance no próximo número.





Javier Marias datilografou as respostas da entrevista, que foi escaneada por seu agente e reenviada ao Estadão.

O Marías também não morre de amores pelas redes sociais nem se alumbra com as maravilhas do presente. Diz pelas tantas:

“As redes sociais, que nunca vejo (não tenho computador nem celular), são uma das invenções mais estúpidas e malignas do nosso tempo. […] Nunca vi uma sociedade tão hipócrita como a de hoje. Quer se apresentar como solidária, “empática”, tolerante e comumente é egocêntrica, desumana, censora, proibitiva e intransigente. Não venho gostando – até o momento – desse século 21. Oxalá mude, amadureça e se torne um pouco adulto. O infantilismo em si não oferece muita coisa.”

Helahoho! helahoho! Você já leu aqui sobre DAIM, o Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo. Não leu? Oh, leitor ingrato!

Mas e o Granés? Certo.

O passo seguinte do ensaio, do Salvajes de una nueva época, é mostrar como a arte assumiu as causas corretas e se converteu à defesa do “bem”. Sem isso, sem chance.

Instalações aludem ao sofrimento de imigrantes, mulheres, índios, tuaregues, das florestas, das cobaias, do planeta…

Mas tudo isso foi bem absorvido pelo mercado, pelo marketing, pela publicidade do consumo de luxo.

Até a tabaqueira Philip Morris se sai bem no mundo certinho e infantilizado das artes.

Numa palavra, não há como escapar da comercialização da arte, desde a criação, pois mais que o artista esperneie.

“O antigo ódio entre a burguesia e a contracultura chegou ao fim”, resume o Granés.

“Agora tudo pode entrar no museu como ready-made, absolutamente tudo. A antiarte não acabou com a arte; ocupou seu lugar”, ele diz antes.

E o Granés retoma, a propósito, o capítulo final da sétima e última temporada de Mad Men, em 2015.

No episódio, o publicitário Dom Draper parecia ter se livrado da depressão, da nostalgia, do alcoolismo, do dom-juanismo…

Lá está ele a meditar no alto de uma montanha californiana, bata branca, posição de lótus… Até que vemos que aquilo tudo era mais um efeito… publicitário.

Como num sortilégio, o Draper (Jon Hamm) engarrafa a contracultura deliciosamente para o bebedor de Coca-Cola.

It’s the Real Thing ou Isto é que é (slogan de 1969).

O amor e a harmonia da inspiração hippie na lanchonete da esquina.

Então, segue o Granés, como a vanguarda artística se meteu na política e o capitalismo grudou com seu visgo a cultura mais rebelde, agora é a política, ou a antipolítica mais propriamente, que recorre a estratégias vanguardeiras.

“Agora a arte se alia com a correção política enquanto o exercício profissional da política se faz cada vez mais incorreto”, aponta o colombiano.

O objetivo, claro, é chocar, transgredir o status quo para fixar a atenção do público na mídia e nas redes sociais, competindo pela atenção de bilhões de outros produtores de conteúdo.

Para escandalizar, o antipolítico populista apela ao racismo, à misoginia; desacredita o jornalismo profissional e as instituições democráticas.

Pensou? em Trump, em Salvini?

Pensou? nos nacionalistas de direita da Catalunha?, nos pró-chavistas de esquerda do Podemos espanhol?, nos italianos do Movimento Cinco Estrelas?

Pensou? em… você sabe em ¡¡¡¡quem¡¡¡¡.

São primitivos de uma nova era selvagem, como nós, de um jeito ou de outro.

Se Duchamp fez um urinol ser aceito num museu para dessacralizar a instituição artística, o populista desconstrói a democracia e a legalidade com a antipolítica.

Na revolução pós-moderna vale tudo. Ficção, verdade “alternativa”, performances, disparates…

Vale tudo para “ressignificar” a história e impor narrativas. Alô, alô, Roberto Mendonça!

Nada é mais rentável que virar trend topic, diz Granés.

“Se Duchamp enviou um urinol a uma exibição de arte, Esquerra Republicana de Catalunya envia Rufián ao Congreso dos Deputados com um propósito parecido. […] O parlamentar catalão se converteu nisso, no equivalente de urinol.”

Exagero?

Hum-hum. Vê só este vídeo que registra uma típica intervenção do deputado independentista catalão Gabriel Rufián.


O Granés, por sinal, também é autor do premiado e ainda melhor El punõ invisible – Arte, revolución y um siglode câmbios culturares, de 2011.

A melhor interpretação que conheço sobre transição da arte moderna para a contemporânea.

Mas temos nosso próprio equivalente ao urinol de Duchamp na política real, com o propósito de desfazer da política como o artista pretendeu, e conseguiu, se desfazer do museu. Não vou dizer o nome desta vez.

Descanso você nesta carta.

Aliás, encontrei um leitor ilustre no supermercado, o professor N.T.

Ele acusa esta Ju de excessiva seriedade. Logo quando estava a brincar com sua linda Aurora, a bordo do carrinho de compras! Helahoho! helahoho!

Por isso, por tal acusação, não vou dizer o nome do nosso equivalente ao urinol.

Mas digo sim que é um coió, um coió perigoso que põe a imprensa contra seus crédulos.

Como coió também é aquele outro, o “sapo barbudo” (apud Brizola) que fez e faz o mesmo. Não aprendeu nada.

Aqui, em entrevista recente, ele defende o ditador da Venezuela com a desfaçatez habitual com que seu partido incensa ditaduras de esquerda.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

 Evoé.

Alguém muito próximo e querido me perguntou sobre essa saudação, outro compadre, o comandante da Marinha reformado A.

Estávamos na nova e aconchegante varanda da fazenda no Carnaval (foto abaixo) ouvindo os roncos do rio na enchente.

Tomei uma pinga e dizia o poema Carnaval, do Bandeira, que abriu a última carta, saudado pelo Hatoum, por sinal, num bilhetinho, quando veio a do evoé. Apois.

Era a evocação das bacantes a Dioniso deus, Baco para os romanos.

[Vem da interjeição grega euhoe, de euoî, ensina o Houaiss.]

Além disso, tuta e meia. Nonada.  


Evoé leitora! Evoé leitor!

Se você rolou até aqui, desça ao P.S. e mais abaixo, ao textinho Qual é a de Jurupoca.

Esta carta pede sua colaboração para subsistir. Você sabe, tem o cum quibus.

O cum quibus do macarrão, da farmácia, do angu, da taioba…


AOS TRANCOS E BARRANCOS —  A cientista política Argelina Cheibub Figueiredo, professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) deu à Folha de S.Paulo uma entrevista clara, direta e tão lúcida quanto uma análise de conjuntura pode ser. “Teremos uma instabilidade constante, e seguiremos aos trancos e barrancos”, ela diz. Devemos, aconselha, ficar de olho nas manifestações de 15/3 e torcer para um fiasco.

COMO SALVAR A PÁTRIA — Um investimento de R$ 395 bilhões — incluindo a despesa das famílias com as contas de água e esgoto —, na média anual de um gasto de R$ 20 milhões entre 2016 e 2036, estenderia a civilização do saneamento básico a todos os brasileiros . O ganho em saúde, educação, produtividade do trabalho, emprego, turismo etc. chegaria a R$ 1,12 trilhão em duas décadas. Os cálculos do Instituto Trata Brasil estão em ótima reportagem de O Globo. Atualmente — a Ju não cansará de repetir — falta água tratada a 35 milhões e coleta de esgoto à metade da população.

J’ACCUSE — Aguardo com enorme, enorme interesse a estreia nos cinemas, na próxima semana,  de O Oficial e o Espião (J’accuse). É o novo filme de Roman Polanski, em português “eu acuso”, inspirado no caso Dreyfus e que remete no título original ao artigo do escritor Émile Zola publicado no jornal  L’Aurore de 13 de janeiro de 1898 — uma carta aberta ao presidente francês denunciando a trama antissemita que levou à condenação fraudulenta do capitão Alfred Dreyfus, mais tarde anulada. O caso Dreyfus envolveu artistas, como o Proust, e a intelectualidade de então. Até hoje é um marco humanitário contra o racismo, a conclamar a defesa da justiça e da verdade. O filme é elogiado onde passa e ganhou vários prêmios Cesar, o Oscar francês. Mas segue sob intensa onda de protestos. Polanski, diz João Pereira Coutinho, também fez seu próprio J’accuse contra o movimento que o condena e o quer banido da história — o homem e sua arte, dá no mesmo para o bando revoltoso. O diretor, condenado por estupro no EUA, sofreu nova acusação recente — negada por ele e não investigada — de uma fotógrafa francesa, que alega ter sido violada há 45 anos. O trailer legendado em português vai aí.


O LIVRO DE ALLEN — Aproveito o ensejo para informar, penhorado, que vai sair, sim, o livro autobiográfico de Woody Allen. A obra havia sido recusada por várias editoras dos EUA, pressionadas pelo movimento contra o assédio sexual #MeToo. O lançamento mundial será em  abril.


CONTRA A IMAGINAÇÃO — O romance American Dirt, de Jeanine Cummins, foi exalçado pela crítica no The New York Times e outros jornais do EUA, por Stephen King, por Don Winslow e por Oprah Winfrey, que incluiu a obra em seu Círculo do Livro. Como costuma ocorrer, também recebeu críticas negativas. Mas a patrulha fanática acordou e foi a campo para arruinar a reputação do livro e da autora. Ela é condenada e lapidada pelo crime da “apropriação cultural”. A história é sobre uma mãe mexicana e seu filho obrigados a fugir para os EUA por sofrer ameaças de narcotraficantes. Cummins é branca e não deveria ter se metido a escrever sobre imigrantes latinos, sacou? O meu bom Marías comentou o caso no EPS, domingo passado. La cruzada contra la imaginación é o título do texto. Ridiculariza a imoralidade e a ignorância dos novos cruzados. Mas não se pode subestimar a gravidade da polícia do pensamento quando se perceber a “interiorização” do credo extremista pelo criador. Ela melhor faria se defendesse até o fim a liberdade da criação contra qualquer censura. Correria o risco, claro, de arruinar sua carreira para sempre. O Marías cita a Cummins: “Durante cinco anos eu resisti a escrever esta história, porque não sou imigrante, não sou mexicana e não sabia se tinha o direito de escrevê-la” (o grifo é do colunista do El País). A que ponto chegamos. Eta, ferro! Xumbrega, brega!

NOVOS SAMBAS — Desde Bebadosamba (1996) Paulinho da Viola não lança um disco de inéditas. Talvez saia em 2020, ele diz nesta entrevista ao Valor, em que conta uma história deliciosa:

“Pouca gente sabe, mas o Jacob tinha pendurado na sala um quadro com o manuscrito de Chega de saudade, composto por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, um grande sucesso da bossa nova. Ele tinha o maior orgulho daquilo. Jacob defendia uma linha mais tradicionalista, sobretudo no choro, mas os saraus na sua casa eram abertos para todos os tipos de violonistas e vertentes. Nunca foi, por exemplo, estimulada nenhum tipo de rivalidade entre os chorões do Rio e de São Paulo. Eram todos muito bem-vindos.”

TOM (6) NAS 10 + – Ruy Castro nos mostra, com números do Ecad, que há seis cações do Tom entre as dez músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, no Brasil e no exterior. E que as duas em primeiro e segundo lugar — Aquarela do Brasil (1939), de Ary Barroso, e Carinhoso  (1928-37), de Pixinguinha e João de Barro — são bem mais antigas que as de Tom.

LIGAR O FODA-SE — A“civilização do foda-se” chega ao seu auge, diz Joaquim Ferreira do Santos em coluna de O Globo. É nela que o Brasil se civiliza, desgraçadamente. A tal “arte”, diga-se, é bullshit total.


JURUPOCA?

Com afinco e aprumo, Jurupoca dedica-se ao jornalismo cultural, à literatura e às ideias; a comentar e selecionar conteúdos relevantes, ao que se chama hoje de “curadoria”. É uma publicação exclusiva dos assinantes da carta. A Cada novo número se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia visceralmente o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental. Considere contribuir com o trabalho de pesquisa e produção do boletim. Para fazer uma doação — quanto e quando puder — clique aqui para ser direcionado a uma conta UOL/PagSeguro, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6  —  



Sobre o autor e a carta

Antônio Siúves (1961-), coitado, vive no Belo e gosta de andar a pé. É jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.