Jurupoca #19

20, Março, 2020 — Carta 19 — EDIÇÃO ESPECIAL DE QUARENTENA

Soneto nº 5 – Vaca comendo

Ela prende o peito sobre a manje-
doura e come. Morde um tufo de capim
Que enfiado em seus lábios, sem que desarranje
Com rigor, vai sendo mastigado enfim!

Ela é gorda; o seu olhar, antigo e triste
Habituado ao mal, hesita ao ruminar
Há anos com as sobrancelhas em riste —
Se vocês passarem, não vai se espantar!

E enquanto, do feno, se serve um bocado,
Retiram-lhe leite. Com mudez, tolera
A mão que lhe prende a teta e quase a esmaga:

Já conhece a mão. Sequer olha pro lado.
Não sabe nem quer saber o que lhe espera
Aproveita o ar do entardecer  e caga.

Bertolt Brecht – Poesia, introdução e tradução de André Vallias.
Perspectiva, 2019.
Ai, ai meu Deus!
Tenha pena de mim
Todos vivem muito bem
Só eu que vivo assim
Trabalho, não tenho nada
Não saio do miserê
Ai, ai, meu Deus
Isso é pra lá de sofrer
[...]

Tenha pena de mim [Ai, ai meu Deus] (Babaú da Mangueira e Cyro de Souza). 
Samba gravado lindamente pela primeira vez por Aracy de Almeida, em 1937. Regravado ainda hoje. Linda Batista, Angela Maria, Beth Carvalho, Zizi Possi, Olivia Byington e Elza Soares são algumas das intérpretes desta listinha que fiz no Spotify. Inclui a gravação do Babaú. 
 Jobiniana/15Mar2010
Jobiniana/Mar2020
Y mientras que tomo un trago/ No venga hablar de penas...”

Verso da bela moda Um certo capitão Rodrigo (Tom Jobim/Ronaldo Bastos), gravada por Kleiton e Kledir no LP da Som Livre O Tempo e o Vento (1985). 

 

Opa! Vamos apear?

Espero te encontrar bem de saúde, a salvo da pandemia.

O cum quibus é o de menos agora, exceto para assegurar uma provisão de víveres essenciais, nomeadamente uísque, vinho branco, vermute, rum, absinto, gim… 

Assim fez o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald em quarentena no sul da França durante a gripe espanhola, ao menos assegura esta paródia do site de humor McSweeney’s [gracias ao doutor P.J. pelo link]. 

Além disso,

“Só há treis coisa nesse mundo vão/ Amor, furria, viola, nunca dinheiro
Viola, furria, amor, dinheiro não.”

Volto ao Elomar, uma vez ou outra.

O Violeiro é de 1968 [inspirou o Caetano em Beleza Pura, do álbum Cinema Transcendental, que é de 1979].

Furria vem de alforria, liberdade. Helahoho! helahoho! 


Os camisas verdes integralistas, seguidores de Plínio Salgado, que se encontrou com Mussolini e pirou o cabeção, gritavam: “Por Deus, pela pátria e pela família, anauê!”

A que a sabedoria do povo soube aleijar, ao ajeitar: “Anauê! Pão, pinga e liberdade!”

Liberdade. Apois. 

Volto ao Brecht de quando em vez. O soneto que abre a carta é uma versão erudita do nosso “fazendo e andando”. E só na aparência essa expressão é mais vulgar que o bobo “ligar o foda-se”.

Vejo no Brecht poeta, mormente o da primeira fase, essa balda de contrastar as abstrações do espírito com a dejeção, como a querer sempre voltar à matéria, à imanência, no falar filosófico. 

Na Ju #15 transcrevi seu canto à latrina. E assim ele abre Sobre a canseira:

“A gente fuma. Suja-se. Bebe até se entortar.
A gente dorme. Tira sarro de uma cara nua.
Meu caro, o tempo morde e arranca nacos devagar!
A gente fuma. Caga. E um poema efetua.”

Mas dá inveja, às vezes, a vaca, não dá? Aquela placidez a ruminar sobre a relva, a onerar a brisa e o efeito estufa, a não olhar pra nada, a não pensar em nada. 

Mas que vaca? Estamos de quarentena! E na quaresma! Impossível fazer e andar. Impossível fazer qualquer coisa sem lavar muito bens as mãos depois, por cinco minutos! 

Não somos vacas, símios é que somos. Símios veem o mundo com avidez. Mire um bebê chimpanzé. Aliás, os gatos também.

Mas que faaaaseee, Milton Leite.



“Under control”, capa de Brian Stauffer

Boa a capa da The New Yorker, não? Chegou essa semana. A máscara assentaria ainda melhor no daqui. srfasfdasf

Mas com Trump e sua laia estamos mesmo é no sal, senão na foice.

Vejo-lhe a carantonha de galã de filme B (senão de terror), e o topete, que não sei que diabos me remete a um cogumelo nuclear, e a bicanca ativa a emitir sandices…

E sonho com um bilhetes só de ida para Europa, a lua de Júpiter, claro. 

Enterprise, beam me up!


O aspirante a Mussolini do lado de cá do córrego também tem olhos azuis, meio foscos, meio vidrados.

E uma cara meio quadrada, irritadiça, o semblante a refletir uma mente opaca e perturbada. Certo grau de alienação é certo. 

Folheou ainda menos livros de colorir que seu “amorzão” de Washington, onde gosta de estar e viver alegrias de pequinês.

A pandemia parece ter atacado seus miolos. O jurista Miguel Reale Júnior chegou a propor um exame de sanidade mental, uma junta médica! Seu infantilismo é deveras mórbido. O editorial do Estadão, sempre o fino do idioma, chama de cabotinismo

Mas, antes disso, a sapiência de ¡¡¡¡¡Bolsonargh!!!!! dera à nação mais uma perfeita dejeção. Emoldurei pra lembrar sempre:

“Obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga pelo mundo todo.”

Como diz o Azevedo, “é difícil adequar a pontuação da fala às regras da gramática”.

A ciência e o jornalismo profissional vivem de combater quimeras, de quebrar preconceitos, de expurgar conspirações, de buscar a verdade factual. 

Mas de nada servem pra quem fala em nome de deus e do povo ou põe certas melecas cósmicas pelo nariz.

A “grande mídia” é o diabo para os populistas autoritários, os ditadores de qualquer banda, os aspirantes a Mussolini. Justamente porque avacalha com seus planos.

Il Duce promoveu a Marcha sobre Roma, a 28 outubro de 1922.

Fanáticos do bolsonarghismo pretenderam uma espécie de Marcha sobre Brasília domingo passado. O piquenique foi prejudicado pela Covid-19, mas assustou, ao menos as autoridades sanitárias. 

E nosso aspirante a Mussolini deu as caras, contra tudo isto que está aí, como um artista performático em um bundalelê com o coronavírus.

Desta vez até a  Janaína Paschoal subiu nas tamancas. E as panelas roncaram seu baticum. 

O fanático demoniza literalmente a “grande mídia”, como descrê da ciência. 

O fanático é capaz de memorizar três ou quatro frases feitas, bordões que utiliza à guisa de argumentos. 

Argumentos que tacam sem piedade, como uma trolha, na testa de quem tenta lhe mostrar, vá la, que Hitler não era comunista.  

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …

Pense nos comentários de leitores nos jornais. O Francis dizia, aliás, que apenas lunáticos escrevem cartas pra jornal.

Com a imprensa online, santo deus, arrombaram as portas de todos os nosocômios de todas as Casas Verdes do mundo.

É o que deu a Luta Antimanicomial? 

Um desses comentaristas (busquei ao acaso) mandou ver tudo que sabe.

Eis a reação do sujeito, a vestir a carapuça, depois de fingir que lera e ainda mais que entendera um artigo do Torres Freire, bom colunista de economia da Folha de S.Paulo [vai copiado e colado, viu?]:

“A você só resta chorar né, extrema-imprensa?! Os fanáticos do jorganismo fake news, os saudosos da roubalheira petista e a favor da venezualização do país, vão ter de aguentar muito ainda. Não adianta o esforço para derrubar o governo eleito. Vocês perderam!”

Que faaaaseee!

Temos na Presidência o equivalente ao urinol de Duchamp no museu, metaforizei na carta passada]. 

Alguém incapaz de demonstrar compostura no exercício de suas altas funções. O jeito é a gente se benzer.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti

Ou, na bela abreviação espanhola, santiamén, da locução “en un santiamén”, em um instante. 

A “grande mídia” é o bicho-papão de muita gente em 2020, mas o doutor Pinker prova que vivemos um novo iluminismo. Vai ver, vivemos. 

Melhor ir ao cinema. Eu fui duas vezes, antes que fechassem. 

A matilha humana queima uma pilha de exemplares do jornal L’Aurore com a edição do artigo de Émile Zola na primeira página. Aconteceu há 122 anos. 

“J’Accuse…!” era o título. Zola descasca um por um — militares, juízes, maus jornalistas, grafólogos… Eu acuso os juristas… Eu acuso os generais… e segue a sentar a pua. 

Pincelo uma das grandes cenas de O OFICIAL E O ESPIÃO, o filme de Roman Polanski que estreou semana passada. 

Éramos sete seres espalhados na sala de cinema, cada qual com seu álcool gel no embornal. 


A reconstituição de uma Paris sombria, gelada, mofada e empestada, com o pó escuro das emanações dos esgotos a invadir as repartições, é de arrepiar. 

Meio que congelei, ao deixar me levar pela arte de Polanski. 

A sanha antissemita da matilha humana a queimar o L’Aurore no meio da rua e depredar a redação do jornal lembra um ensaio da Noite dos Cristais, o pogrom organizado pelos nazistas em Berlim três décadas depois.

[O judeu é o bode expiatório mais antigo da história; está para os “comunas” que os fiéis dos Protocolos dos Sábios de Olavão — outro achado do Azevedo — confundem hoje até com novas cepas de vírus.]

Zola chacoalhou a consciência francesa com seu J’accuse. Bob Woodward e Carl Bernstein, no Caso Watergate, fariam algo parecido no Washington Post, nos anos 1970.

O L’Aurore era “grande mídia” na Paris da época.

O escritor foi processado e condenado. Mas seu artigo deu o pontapé inicial para que, mais tarde, o processo fraudulento contra Dreyfus fosse revisto, e o capitão, reintegrado ao Exército. 

A narrativa do filme destaca a atuação do tenente-coronel Georges Picquart (Jean Dujardin) no episódio.

Esse militar atuou no processo original contra Dreyfus. Quando é promovido a chefe da Inteligência, tem acesso às provas, mantidas em segredo de estado. Logo percebe a fraude grosseira e a maquinação mafiosa. E não se cala!

Recusa a acatar às ordem de oficiais superiores e do ministro para se sentar sobre os tais documentos. É ele que se reúne com o editor do L’Aurore e com Émile Zola para denunciar a conspiração. 

A Ilustrada, caderno de ex-cultura da Folha de S.Paulo, não deu muita bola para o filme. Preferiu render a polêmica em torno do seu diretor.

O caso é um case, se você me permite a graça, sobre como um jornal pode sonegar informação a seu leitor. Alguém devia acionar o Procon. 

Sintonizada com milícias morais em voga, o editor da Ilustrada achou cult convidar uma feminista, a professora Lúcia Monteiro, para criticar J’Accuse, título original do filme. Uma proeza, meu. 

Polêmica na certa. Cliques na certa. Se um feitiço nem sempre dá certo, o jornalismo cultural da Folha não falha em tentar. 

Monteiro diz de saída, “sou mulher antes de ser professora e crítica de cinema”. 

“Confessa” então que pensou em se recusar a escrever o texto. Mas escreveu, homessa! Algum cum quibus levou, e seu texto saiu na primeira página do caderno, capa da prestigiosa Ilustrada.

A única frase do artigo que se poderia, com boa vontade, chamar de crítica diz lá, “O Oficial e o Espião narra de maneira bem convencional os eventos ligados ao chamado caso Dreyfus, que abalaram a França no final do século 19”.

Pois sim. Polanski nunca frequentou mesmo a praia dum Godard ou dum David Lynch. Nem precisava. Tem a dele, privê, ensolarada, e faz tempo. 

Daí ela esquece o filme e passa a criticar o cidadão. Obviamente odeia o cineasta. Revela que não consegue escrever seu nome! O trata de “Popol”. Santa isenção. 

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …

A Monteiro insiste que o filme é o disfarce de um paralelo entre Polanski e o próprio Dreyfus. 

RP teria se vestido de Dreyfus, ela diz, para sub-repticiamente responder às novas acusações de abuso sexual que sofreu.

Deixo para o diretor a própria defesa:

“É realmente aberrante e estúpido dizer que me creio Dreyfus. É outra mentira, outra forma de me insultar”.  


(Tá dereito, diria meu querido primo Romar Francisco.) 

O autor de uma obra iniciada em 1955 e que inclui Tess, Chinatown, O Escritor Fantasma e O Pianista merece algum crédito como artista. Entre meus preferidos, a propósito, estão Dança dos Vampiros e Busca frenética

 — Desde já, o homem que pague pelos crimes que a Justiça estabelecer que ele cometeu.

No El País, com ótimas credenciais de simpatia à esquerda, li comentários de gabarito exploratório de profissionais capazes de avaliar o filme à luz de uma filmografia e por seus próprios méritos ou deméritos! Ainda existe isso.

É o que faz o crítico de cinema do jornal, Carlos Boyero

É o que faz o escritor e colunista Antonio Muñoz Molina.

O Molina termina por enfatizar o que o filme deixa no ar e realmente importa. O resto é pós-modernice vitimista e monotemática de quem se fez cego pro cinema: 

“Não há paralelismos fáceis, senão continuidades históricas: o nacionalismo integrista e xenófobo francês que se cevou contra Dreyfus se prolonga intacto no regime de Vichy, que não se constrangeu em mandar muitos milhares de judeus franceses aos campos de extermínio alemães; e a indústria da mentira, da falsificação, a intoxicação se fez tão poderosa que talvez nem a coragem combinada de Proust [o escritor se dizia “o primeiro dreyffusard”, defensor de Dreyfus], de Zola, do coronel Picquart, podia atuar eficazmente contra ela.”

A crítica, também com aspas mentais, da Ilustrada, é mais um caso da submissão do jornalismo sério ao apartheid do “multiculturalismo identitário”.  

Sumarizo a questão, é importante, ou não insistiria com você neste ponto.

(1) Ainda somos humanos, a despeito dos avanços do transumanismo. Somos seres imperfeitos, de carne e osso, sujeito a infecções como a covid-19. Somos mortais, ainda. 

(2) A grande arte, ainda, é o que melhor nos forma e que melhor conforma nossa humanidade (e nos toca) quando pode representar tanto o amor e a beleza como os desvãos do viver rumo à morte, ou a fragilidade ante o absurdo, a injustiça etc. 

Ou quando é capaz de explorar com originalidade a memória enredada pela história e o que isso pode ou não dizer sobre ser gente, ser humano.

(3) Houve uma época, larga, em que a arte com tal poder era a que valia e perdurava, uma época de grandes artistas, alguns geniais. Um editor, um crítico, um galerista a perseguiam com paixão e cobiça para ofertá-la na praça.

(4) Esse tempo ruiu, aos poucos, até o colapso total que vivemos hoje. Aquele ar morreu (ainda chegarei à morte do ar nesta carta).

O que agora tem valor é a obra obediente às obsessões do tempo. 

E as obsessões do tempo, em grandíssima medida, são determinadas pelo que o antropólogo baiano Antonio Risério denomina “fascismo identitário” da “esquerda pós-moderna”.

Fascismo pelo seguinte: o diálogo, a conversa com quem pensa diferente de nós é abolida, a argumentação é abolida. Entramos no terreno da pureza moral dos dogmáticos, dos portadores da “nova consciência”. 

O livro do Risério tem na epígrafe uma frase de Simone Weil que a Jurupoca podia adotar: 

“Quase em todo lugar… a operação de tomar partido, de se posicionar a favor ou contra, substituiu a obrigação de pensar”.

A obediência é regulada pelas milícias contra a liberdade de pensamento e expressão. Criticar um trabalho ou obra de arte é perda de tempo. Devem-se julgar e condenar as “intenções” do criador que se atreve contra as bulas morais do tempo.  

As patrulhas têm o poder de linchar, cancelar, banir dissidentes. Arruínam reputações e censuram como seitas de iluminados. Ou Illuminati. Ressentimento e vitimismo sublimam a libido dessa gente. 

Elas acabam indiferentes à verdade e à Justiça ao impor seu “lugar da fala”.

Machado de Assis hoje é subvalorizado como romancista porque a crítica se fixou, anacronicamente, na suposta culpa de um escritor negro que não condenou a escravidão… nos termos que um militante de agora julga apropriado! 

Machado deveria ter escrito menos romances durante sua vida e mais teses sobre a “construção social do racismo”.

O criador do Brás Cubas melhor teria feito se houvesse saído a perguntar a seus contemporâneos do Rio “o que achavam do seu privilégio?” de homens brancos.  

É o que fez Claudia Rankine, nos EUA, como essa professora de Yale nos conta na SERROTE #33. Ela saiu por aí, gravador em punho, e produziu sua enquete, e escreveu seu ensaio. 

Em todo o mundo, as esquerdas, desde os 1980, se aburguesaram ao abraçar o individualismo das pautas identitárias. Esqueceram os trabalhadores desempregados e empobrecidos pela revolução tecnológica na economia global. Esqueceram a ampliação gritante da desigualdade.

O liberalismo democrático se perdeu ao se afastar do trabalho, dos sindicatos, das causas comunitárias e das condições reais de vida, ao empinar seu nariz para a política. 

Abriu-se um franco que o populismo de direita soube explorar. Trump nadou de braçadas nesse vácuo da oposição de centro-esquerda. 

O professor Mark Lilla, um intelectual de centro-esquerda, desvelou essa realidade. E se tornou uma celebridade! Seu artigo inaugural foi o mais lido da seção de opinião do The New York times em 2016. 

O livro que escreveu em seguida foi sucesso instantâneo. E não só nos EUA. 

O historiador das ideias, cientista político e professor da Universidade Columbia se surpreendeu ao perceber que a moral da história que ele contava sobre os EUA ecoava nos quatro cantos do globo. 

O PROGRESSISTA DE ONTEM E O DO AMANHÃ chegou ao Brasil em 2018.

A entrevista do Lilla é o melhor entre os quatro novos episódios da série FRONTEIRAS DO PENSAMENTO (2019), no canal Curta. Tudo que te conto aqui ouve-se lá. 

A “esquerda burguesa” individualista, diz o Lilla, gasta suas energia na defesa da própria pureza moral. Julga como só os justos sabem julgar quem está fora da ordem. 

Ah, mas o melhor nem é isso. 

De olho na hegemonia das “pautas progressistas” e da “nova consciência”, o mercado cultural mostra os acertos das teses do Lilla.

Filmes, a começar dos de Hollywood, livros e o próprio jornalismo da Ilustrada, aprenderam a faturar com o progressismo contemporâneo. 

Vivemos a era do red money”, como é chamado, dinheiro vermelho. É o mercado a xumbergar com o “comunismo” ou vice-versa. 

(Cá entre nós, ¡¡¡¡¡Bolsonargh!!!!! e sua gente xucra nem imaginam o que se passa no mundo.)

O consumo politizado dos millenials e da geração z é o que dá dinheiro hoje.

E tome novas heroínas, super-heróis negros, “poesia motivacional”, feminismo em todos os formatos e plataformas… minisséries a mancheia, algumas muito boas, diga-se, como a 1ª temporada de Big Little Lies (HBO).

Até o Uber é progressista, flagra? Enquanto a “uberização” da economia corrói empregos no mundo inteiro, o aplicativo revela sua consciência carnavalesca no Brasil.  

“Você é do bloco dos assediadores, racistas ou LGBTfóbicos? A Uber não é para você”, dizia um de seus anúncios [a meu ver, muito corretos, desde já]. 

Essa crítica ao Uber nem é do Lilla, mas de um esquerdofrênico de crachá, o sociólogo Francisco Bosco.

O filho do nosso grande cantautor foi ouvido na reportagem “Em meio à guerra cultural, indústria investe em pautas de esquerda”, também na capa da Ilustrada.

Helahoho! helahoho! O caderno de ex-cultura põe-se frente ao espelho e não se vê! Nada. Se enxergar, sim, muito bem. 

A publicidade conseguiu que o capitalismo cooptasse a arte contemporânea, toda ela também voltada para o red money, como vimos na última carta graças ao ensaio do Granés

Como a Coca-Cola refrescou o calor contra-cultural, o Pantera Negra hoje, digamos, sossega tensões raciais nos EUA, e a franquia Mulher-Maravilha dá um cala-boca no feminismo patrulheiro contra Hollywood. 

O mercado faz o que nasceu pra fazer. Money makes the world go round etc. Aproveita oportunidades. “Pautas de esquerda”? Mandem. Não faltam investidores interessados.  

Estamos um tanto perdidos, isto sim. É o que acho. 

Já velhusco, e em quarentena!, me vejo encolhido entre a “esquerda burguesa”, uma gente que lê apenas o que o mestre doutrinador mandar, de um lado.

E do outro o terraplanismo cultural ora no poder, assistido por uma direita que se diz liberal e conservadora. Mas nunca foi isto nem aquilo.

Numa palavra, liberalismo sem defesa dos direitos individuais, da igualdade de oportunidades e da liberdade de expressão não é liberalismo coisíssima nenhuma. 

E, numa palavra, o verdadeiro conservadorismo é o que defende a conservação das experiências virtuosas e bem-sucedidas. Como gosto de falar, vamos conservar o quê? Esgoto a céu aberto?

Ah, se pelo menos ainda tivéssemos o Merquior! 

João Cezar de Castro Rocha, professor de literatura comprada da Uerj, diz que a esquerda deveria ler José Guilherme Merquior, mas a direita brasileira deveria “desesperadamente” ler Merquior

Rocha coordena as reedições da grande obra do autor, morto em 1991, aos 49 anos, pela É Realizações. 

Neste podcast ILUSTRÍSSIMA CONVERSA ele fala da importância mundial do diplomata e ensaísta brasileiro, um polemista que faz uma falta danada ao Brasil. 

História das ideias, crítica literária, sociologia, antropologia, filosofia, o homem era um terenciano, no dizer do Rocha. Tudo que é humano lhe dizia respeito. Um polímata poliglota de mão cheia, e mais respeitado lá fora.

Uma canja?

Em O ARGUMENTO LIBERAL, de 1983, Merquior faz a defesa do Estado contra o  estatismo patrimonialista, que mistura o público com o privado e está na raiz do “homem cordial” cavada por Sérgio Buarque de Holanda — o Rocha trata disso no podcast). 

O liberalismo na América Latina comete um erro tremendo quando prega o “estado mínimo”, dizia o pensador, o liberal mais autêntico que o país já teve.

Se o Estado não assumir educação, saúde (a começar do saneamento básico), transporte — a infraestrutura humana de qualquer economia sustentável — jamais deixaremos a rabeira da civilização. 


Falei da “morte do ar” acima. Pois vamos a isso, enfim, algo de literatura!

Em BERTA ISLA, referido romance de Javier Marías, dei com uns versos do Eliot, lidos ao acaso pelo personagem Tomás Nevinson, o marido espião de Berta.

A voz de Berta na primeira pessoa domina essa boa narrativa. Uma mulher inteligente, vivaz, sensual, fiel à época em que a história transcorre — o período de 1975 a 1995 mais ou menos.   

Berta não sabe direito quem é Tomás e nem se tem mesmo um marido. Não faz ideia de suas atividades como topo, toupeira, como os espanhóis chamam o agente infiltrado.

É uma das mulheres mais verdadeira que já vi criadas por um ficcionista, a Molly Bloom de Joyce à parte.

Marías mostra o romancista que é ao escrutinar os podres do ofício de um agente secreto. E usa o contraponto de uma mulher, esposa e mãe. 

Tomás, mais inglês que espanhol, é construído com sutileza e maestria como um homem atirado nas moendas das corporações estatais de inteligência. 

Quando é pressionado pela mulher a contar algo sobre seu trabalho, ele se explica assim: “O que quer que aconteça não terá sido por mim, porque os que participamos disso estamos mas não existimos, ou existimos mas não estamos. Fazemos mas não fazemos, ou fazemos o que fazemos, ou o que fazemos ninguém faz. Simplesmente sucede, como um fenômeno atmosférico”.  Acho difícil que depois de Berta Isla um leitor do gênero não passe a ver com outros olhos a velha espionagem romântica. 



Mas e a morte do ar, caramba? Pois é, ia a me perder. 

Quando está para ser recrutado pelos serviços secretos de sua majestade, MI5, MI6, nunca se sabe, Tomás espera seu contato numa biblioteca de Oxford.

Toma ao acaso um livro do Eliot e começar a ler uns versos que vão atravessar todo o romance, como um motivo recorrente.

Os versos são de LITTLE GIDDING, último poema dos Quatro quartetos. Vão aqui na tradução de Ivan Junqueira:

“E o que não puderam transmitir os mortos, quando vivos,
Podem eles dizer-te enquanto mortos: a comunicação
Dos mortos se propaga — língua de fogo — para além da linguagem dos vivos.”

E o poeta chega a essa comunicação das ruínas,

“A cinza sobre um velho é toda a cinza
Que nos deixaram as rosas já sem viço,
 A poeira no ar suspensa determina
O sítio onde uma história teve fim.
A poeira aspirada era uma casa,
— A parede, o lambril e o rato.
A morte do esperar e do desesperar,
Esta é a morte do ar.”

Uma história chega ao fim, e um mundo chega ao fim, quando nos vemos fora de lugar, emigrantes do passado.

Os destroços do tempo cujo ar aspiramos deixam sinais nos lumes empoeirados.

Sigo o Little Gidding, além do que o Berta Isla me levou.

“[…] Comido foi o fruto
Da última estação, e a besta empanzinada
Há de atirar seus coices contra o cocho.
Pois as palavras do ano findo só pertencem
À linguagem do ano findo e as palavras
Do ano próximo outra voz aguarda.”

De quem é a nova voz? Embatuco. 

Está dentro de nós? O poema fala de alguém que retorna a um lugar onde estivera há muito, a este Little Gidding do título, e tenta reconhecer os próprios passos. 

Me pergunto se somos capazes de reencontrar quem éramos ao “aspirar a poeira de uma casa”?

O Eliot, católico, dirá que sim. Seu poema é sobre a redenção. Mas a transcendência não me alcança, para dizer de um jeito bonito. 

Agora, de uma maneira ou outra, todos nós nos fazemos a grande pergunta: Por que estamos no mundo?

Em UMA VIDA OCULTA, de Terrence Malick, ouvimos grandes perguntas. (Passaram o filme só para mim num cinema do Belo — era a única alma na sala, a desfrutar, penada, de um saco de pipoca. Pobre Siutônio.)

O filme é inspirado em fatos históricos. 

Franz Jägerstätter (August Diehl) é um camponês de uma aldeia (Santa Redegunda) perdida nas montanhas da Áustria, país então já anexado por Hitler. Ama a mulher, as filhas, o trabalho na terra e a lida árdua nos campos em meio a paisagens soberbas.

Nossa relação com a natureza é sempre uma chave nos filmes de Malick.

“Onde está nossa natureza?”, pergunta Franz. O sol ilumina o bem e o mal indistintamente, observa. 

A brisa que sopra é indiferente à barbárie da guerra que travam na floresta, como vemos em Além da Linha Vermelha (1988), outra grande fita de Malick. 


Franz vai à igreja mas nada conhece de teologia ou filosofia. É um homem rude, mal consegue se expressar. E traz dentro de si um inabalável apego à justiça, ainda que não possa elaborar o que sente.

Recusa-se a jurar fidelidade ao ditador que aboliu toda a graça da vida. Não pode contribuir com a des-graça ou se verá destruído como ser. 

Nem a família, amigos, o prefeito, o padre e o bispo amedrontados, os advogados de defesa, nem o juiz compadecido (Bruno Ganz) conseguem dissuadi-lo. “Não posso fazer o que julgo ser errado”, teima Franz.

Prefere, assim, receber a sentença de morte.

Mas Franz não é um mártir iluminado (o verdadeiro Franz foi beatificado em 2017 por Bento 16). Ele sofre com a própria consciência, não vê luzes, nem ouve vozes. 

Nenhum milagre obvia a existência de deus a seus olhos de homem simples. Sua consciência é seu lume.

Sofre sozinho, padece como padecem as vidas ocultas (o título do filme foi emprestado um trecho de George Eliot, escritora britânica do século 19, do romance Middlemarch). 

O juiz interpretado por Ganz lhe pergunta se ele se considera melhor do que os outros, se o julga. 

Quase balbuciando, Franz responde que não, não julga. Nem sequer consegue ver o ditador como alguém mais ou menos perverso do que ele próprio. 

Helahoho! helahoho! 

Malick, um cineasta recluso, ex-aluno de filosofia em Harvard, é um orquestrador de imagens inigualável. Põe o cinéfilo a pensar sobre a subsistência, a ambição, a maré da vida que nos tornam o que somos.  

Por mais que nos encante e fortaleça a paz e a beleza da natureza, um dom atávico que nos humaniza, quão poucos nos sentimos realizados com a vida?

Quão poucos conseguimos nos sentir confortáveis com a consciência de ter nascido para morrer? Para não falar de uma certeza forte o bastante para levar uma pessoa a escolher manter-se fiel a si mesma a escapar da guilhotina.   

A outra pergunta-chave do filme é feita a Franz por um aldeão que, como ele, não esconde o medo da besta: “Não reconhecem o mal quando o veem?”.

A resposta, claro, é não. A imensa maioria ao menos não reconhece. 

Hitler foi escolhido pelo parlamento, cevado pelo baronato da indústria, idealizado pelas massas, como vemos no livro A ordem do dia, do francês Éric Vuillard. 

Na revista Piauí, o diretor, montador e professor de cinema Eduardo Escorel banaliza a questão. Tem certa birra injustificada de Malick. E dá um salto maior que as pernas ao descurar do filme e remeter à nossa politiquinha: 

“Guardadas as devidas diferenças, a resposta correta nos dois casos é a mesma – o mal do nazismo não foi reconhecido a tempo em larga escala e, entre nós, persiste a recusa em admitir a realidade com relação ao bolsonarismo (mistura letal de ignorância, estupidez e convicção autoritária) em setor significativo da população brasileira desde a campanha e a eleição presidencial de 2018.”

Seu paralelo é anacrônico e desproporcional. A graduação é antes de tudo uma questão de justiça. Há crimes e crimes, pecados e pecados. 

O que vivemos no país é fruto de uma conjunção de crises e da transformação da política numa farsa trágica pela revolução tecnológica. Mas estamos a resistir, cada um como pode. E as panelas soaram!

Não é um novo advento do mal, sequer uma vizinhança. Não há nenhuma Solução Final no horizonte, ô Escorel, calma lá. Não subestime a História, inclusive a de seu país nos últimos dez anos!

E aqui chegamos, aqui estamos, como eu te dizia. Ensanduichados entre a “nova consciência”, a nova moral, e a plena inconsciência dos boçais, catrumanos de espírito (penso nos catrumanos do Grande Sertão: Veredas). 

Piora muito a vida que parte da imprensa siga a descumprir seu papel, e me refiro aqui à tal da guerra cultural, ao ceder às milícias do pensamento. 

Falta coragem a uma era narcísica. Para onde olharmos. 

Onde estão as mentes autônomas, as grande inteligências, os grandes polemistas da imprensa capazes de mandar à merda as milícias morais e os brucutus?  

Onde estão os grandes artistas de nossa época? Federico Fellini sobreviveria às milícias morais? E o aristocrata Lucino Visconti? E um Pablo Picasso? E um Thomas Man? Não creio. 

“Não venho gostando – até o momento – desse século 21. Oxalá mude, amadureça e se torne um pouco adulto. O infantilismo em si não oferece muita coisa”, diz o Marías

“O leitor sabe que considero o mundo contemporâneo ridículo e cansativo na sua boçalidade narcísica”, diz o Pondé.  

Estou com um e outro. 


Tiradentes, Rua Direita. Mar2020
 

Me perdoe essa carta que já vai longa demais.

Mas, para não dizer que não falei delas, das flores, conto que vimos muitas e belas numa ida a Tiradentes, de onde despachei a última Ju.

Perto da nossa pousada havia uma, a mais bela, dessas que nascem nas encostas e beiram estradas. Era amarela ao luar e alaranjava-se com o sol manhã. Inesquecível. 

Trabalhei um pouco na cidade, graças à gentileza dos donos da Pousada da Trilha, mormente do Nilson. Me envolvi com o silêncio que a mata ancorava, ao pé da montanha cor de zinco.

Ao visitar o centro cultural do Sesi, tirei meu chapéu diante desta árvore.



Tiradentes, Rua Direita. Mar2020

Não é um exemplar magnífico?   

Além disso, tuta e meia. Nonada.

 

MILES — Alguém ouve ao longe uma nota soprada por ele e diz de quem é. Pureza. Elegância. Beleza. So What? Quem ouve jazz e gosta especialmente do cool, sabe que o jazz renasceu com um disco como Kind of Blue (1959), gravado pelo sexteto mágico — Bill Evans (piano), Jimmy Cobb (bateria), Paul Chambers (baixo), John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley (saxofones). Falta o dono do trompete. Miles Davis, Inventor do Cool, no Netflix, é um guia do balacobaco sobre o músico, portanto sobre um dos mais incríveis capítulos do jazz. O documentário da BBC se concentra na música, na criação e no mais essencial na vida de Miles. Vemos a concepção de Kind of Blue, desde os esboços e ideias apresentados aos músicos já em estúdio; vemos Miles improvisar sobre o copião ao criar a trilha sonora de Ascensor para o Cadafalso (1958), o filme de Louis Malle com Jeanne Moreau; vemos seu romance com Juliette Grecco; vemos sua glória ao ser reconhecido como artista inventor pela gente branca, culta e intelectual de Paris, Sartre incluído, e vemos sua depressão ao regressar à merda racista da roça norte-americana à época . 


QUEM MATOU MARIELLE? JOSÉ PADILHA? — O diretor José Padilha fez uma porcaria de seriado para o Netflix, eu mesmo disse isso aqui. O Mecanismo é uma joça. Mas porcaria realmente inaceitável é que ele seja atacado por ter recebido um convite para trabalhar, no caso dirigir um seriado da Globoplay sobre Marielle Franco. Fascista é o mínimo de que xingaram o homem. Não gostam do trabalho dele, dos filmes Tropa de Elite, e não o perdoam. Juro que até sugeriram que Tropa de Elite é da mesma ordem do filme racista O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith. Ele é bom diretor. Mas não. — Crucifiquem-no, berram as patrulhas com olhos rútilos. Ele se defendeu na Folha. Disse que era alguém próximo da vereadora assassinada e que ela jamais o detratou. Pra quê! A colunista do mesmo jornal, convidada pra representar o feminismo negro foi à luta. [Sinal dos tempos; outro dia mesmo um escritor ou um pensador eram convidados a colaborar em um grande jornal pelo valor intrínseco do sua obra, pela independência de seu pensamento e pela qualidade de seu texto.] Djamila Ribeiro escreveu: “Não discute [Padilha] a construção social do racismo e como homens como ele se beneficiam historicamente disso e, ainda […]”. Creio que a Ribeiro, mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais, faz uma confusão danada. Para repisar seus dogmas, desanca Padilha com grande má vontade, sem pensar de verdade no que Padilha escreveu. Mas é o corrente. 

O LIVRO DE ALLEN, A NOVELA  — Esta Ju foi vítima de uma conspiração internacional globalista. Ou o que mais posso dizer? Na tarde do envio da última carta, desde Tiradentes, saiu a notícia. A editora que resolvera publicar a autobiografia de Woody Allen, A Propos of Nothing (a propósito de nada), refugara. E cancelaram minha nota! Eu celebrava o anúncio do lançamento  do livro, antes renegado por quatro editoras norte-americanas. Então houve a passeata dos funcionários da francesa Hachette em Nova York. Ronan Farrow, um mancebo de 31 anos, estrela da casa com uma reportagem sobre o caso Weinstein [este, sim, considerado culpado pela Justiça, com 23 anos de cadeia nas costas], Operação Abafa – Predadores Sexuais e a Indústria do Silêncio, deu um tremendo faniquito. Allen foi absolvido de dois processos criminais. Os cruzados contra-atacaram: e daí? O livro em questão não é um panfleto antissemita ou nazista ou racista ou apologista da pedofilia. A propósito do nada é um autorretrato, memórias indissociáveis da história do cinema há quase 60 anos. Mas o diretor não tem o direito essencial de se defender da teia de acusações que levantaram contra ele. Só agora a Amazon, que rompeu contratos com ele, pressionada pelo movimento #MeToo, resolveu parar de vender Minha luta, de Adolf Hitler. Alguém concluirá que o status de Allen equivale ao do líder nazista por aí. Nesses tempos distópicos, é reconfortante ler as palavras de uma mulher, uma escritora espanhola reverenciada (com vários livros editados no Brasil), como Elvira Lindo, no artigo Matar a Woody Allen: “Não basta que atores e atrizes o tenham renegado em público, quanto ainda ontem rendiam-se babosos a seus pés; não é castigo suficiente que filmes não estreiem mais em seu país, ou que o tenham convertido em um apestado social na cidade que em parte ele inventou. Há que matá-lo. Trata-se da damnatio memoriae [condenação da memória] que se praticava na Roma Antiga com quem os considerados inimigos do Estado, ainda que ali, ao mesmo, se esperava que o condenado falecesse para apagar todos os sinais que o recordavam.” “O Carlyle [o hotel de Nova York onde ele ainda toca sua clarineta às segundas-feiras] deve ser dos poucos lugares em que Woody Allen está a salvo de Ronan Farrow, seu filho com Mia Farrow e que não descansará enquanto não acabar de destruí-lo”, anotou Ruy Castro. Ruy também anotou que a “decisão de vergar-se a pressões e negar voz a quem deveria ter tanto direito de se expressar quanto seu inimigo mancha os 194 anos de existência da Hachette”. Mas ainda há esperanças. Talvez o livro possa ser lido em espanhol, pela Alianza Editorial, a partir de 21 de maio. A fúria de Ronan, creio, ainda não é capaz de render Europa inteira. Mas sou cético. 

TERRA PLANA — Aprovado o podcast quinzenal de ciência da Piauí, comandado pelo jornalista especializado e tarimbado Bernardo Esteves. O primeiro episódio tratou, por boas razões, do problema dos terraplanistas, quando esses alienados se aproximam do poder no Brasil, tal como os negacionistas da emergência climática. O programa tem humor e didatismo sem exageros. 

CENAS DA COVID-19 — Tenho minha imagem icônica da pandemia. Dista 8.000 Km da província de Hubei: a galeria Vitorio Emanuelle deserta — expressão de uma Itália fechada pelo medo e pela sombra da morte. Revê-la assim, sem vivalma, corta um coração. Digo no Turismo cultural e literário na Europa que quando me quedo sob sua cúpula me baixa o espírito da civilização europeia, misifia. Vivesse em Milão, bateria meu ponto ali todo santo dia. E em cada vez eu sorveria seu ar ideal purificado. O Duomo, ao lado, não lhe é páreo em majestade. Sair do Scala depois de uma boa récita e percorrê-la, em busca de comida, vinho e boa conversa, é como andar sobre as águas. Há uma suspensão do tempo quando andamos sobre as águas, você sabe. Caminhar sobre as águas é como flutuar sobre a mesquinharia. É o auge da vida que um instante nos dá. 

CAMPOS INVISÍVEIS — É esse o título de um trabalho de conclusão de curso da UFMG. Pode ser lido como uma reportagem online multimídia muito bem feita. Quem vive no Belo e aprecia o culto à memória da cidade, dilapidada desde sempre, vai gostar especialmente. E ainda mais quem se interesse pela história dos velhos campos de futebol da capital e dos times e atletas pioneiros do “esporte bretão”.

JURUPOCA, O AUTOR
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