Jurupoca Extra — Carta da Quarentena

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A cabeça de Jeremy Bentham
Belo Horizonte, Minas dos Matos Gerais, 27/03/2020  

Opa.  

Esta semana ia mal pacas, claro, meio mundo confinado, economia em parafuso, muita gente na fossa… Mas dava pra levar. Aí bateu…

Tivemos Sua Excrescência em cadeia de rádio e TV. Um verdadeiro Churchill a preparar a nação pro combate!

“Foram cinco minutos de delírio, insensatez, irresponsabilidade e desinformação”, resenhou a Miriam Leitão.

Mas não seja por isso.

Hás de compreender-me, presidente. Logo que tornar a Brasília, dar-te-ei em termos explicados, simples, adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira noção do que representa governar!

Parodio o Quincas Borba escrevendo ao Rubião, incapaz, coitado, de compreender Humanitas, a filosofia do amigo alienado, de quem herdará 300 contos! Alienado?

O Humanitismo (“Ao vencido, ódio e compaixão; ao vencedor, as batatas!”) de Quincas Borba justifica inclusive a morte da vovó dele. 

O dono da carruagem almoçara cedo e pouco e tinha muita fome. Desde o adro da igreja Nossa Senhora do Carmo, acena ao criado.

O criado fustiga as mulas. A avó do Quincas é qualquer coisa no meio do caminho entre a sege e um estômago a roncar. Alimária e sege acabam com a velha.

A fome do fidalgo tinha de ser saciada, era um movimento de conservação, explica o Quincas.

Mudava picas “se no caminho das mulas estivesse um rato ou os poetas Byron ou Gonçalves Dias”.

“O fundo subsistia”: “O universo ainda não parou por lhe faltarem alguns poemas mortos em flor na cabeça de um varão ilustre ou obscuro; mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo) Humanitas precisa comer.”

A conservação explica o caráter benéfico das guerras, esclarece o Quincas. “A higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho”, ele aduz, didático.

(E pensar que hoje menoscabam o gênio que nos deu Quincas Borba. Arre.)

¡¡¡¡¡¡Bolsonargh!!!!!! deve achar que Machado de Assis é mais um comunista da elite cultural. Mas Sua Excrescência é um intuitivo.

Sem ao menos sonhar com isso, incorpora Humanitas. Ter sido eleito, ele crê, é como conquistar um campo de batatas. Daí tanta batatada, vai ver.

Desde o gabinete do ódio, se acha um agraciado pelo povo, ah o povo. E um atleta!

Também nem sonha Sua Excrescência que a condenação da quarentena tem fumos de utilitarismo, a doutrina fundada pelo Benjamim Bentham (o da cabeça preservada acima) e aprofundada pelo J.S. Mill no século 19.

O Michael Sandel, professor de Harvard, resume a doutrina numa frase, em seu curso Justiça: “O bem maior para a maioria das pessoas”.

O utilitarismo precifica a vida, como faz, queira ou não, quem defende o fim da quarentena e assume os efeitos de sua defesa.

Evitar, supostamente, a brutal recessão que se anuncia, liberando geral, vale mais que alguns milhares de idosos mortos.

Os utilitaristas sugerem que a conta de mortos é ninharia perto da outra conta, muito maior, do prejuízo econômico.  

A moral consequencialista afirma que evitar a quarentena é maximizar a utilidade — o bem maior para a maioria.

As aulas do professor Sandel estão neste enlace, legendadas em inglês. São uma beleza. Já andaram pelo canal Philos.

Como diria o Sr. Spock, a discussão é fascinante. Muito boa para sairmos do raso enlouquecedor onde o bolsonarghismo tenta nos afogar.

O físico Henrique Gomes defendeu com salamaleques a ética utilitarista aqui e agora, em artigo na Folha graciosamente titulado Não podemos fetichizar as mortes provocadas pelo coronavírus. O Gomes inclusive dá o preço da vida em dólar.

Em O coronavírus e a escolha de Bolsonaro, a professora Catarina Rochamonte, uma filósofa liberal, se contrapõe ao Gomes, e contesta o utilitarismo aplicado. 

Sou e estou com a Rochamonte.

Enfrentar a necessidade do isolamento social agora é ferir o direito individual e das minorias. Quem são as minorias aqui?

Os mais velhos e os mais susceptíveis à covid-19, como os hipertensos. O valor que dão à vida e a eventual dor de suas famílias não tem preço.  


Mas é preciso conter o radicalismo e a ilegalidade.

Aqui e ali se surgem no país situações próximas ao estado de sítio.

O Magnoli, lúcido e autêntico liberal, se preocupa com a dureza da quarentena para quem vive em favelas e aglomerados.

Uma estrela da esquerda como o italiano Giorgio Agamben fala em verdadeira militarização e estado de exceção na Itália.

Em artigo para Il Manifesto, se refere à “suposta epidemia de coronavírus” e classifica a reação das autoridades como “frenética, irracional e absolutamente injustificada”.

(O Agamben toma um tapa teórico da Anastasia Berg (em inglês), pesquisadora de filosofia em Cambridge.)

E, por certo, o esloveno Slavoj Žižek também vê na limitação à liberdade uma estratégia dos poderosos em pânico.

Apois.



Livre pensar é só pensar, dizia o Millôr. Diga isso a um bolsonarista que você ama.

JURUPOCA, O AUTOR
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