Jurupoca Extra — Carta de Quarentena #03

Edição de Quarentena N° 3 — BH, Minas dos Matos Gerais, 09/04/2020

Performance artística no Times Square, Nova York,
realizada em 20/03/2020 — reprodução de foto AP Photo/John Minchillo

Opa.

A oferta dos jornais online na cobertura da covi19 é fabulosa. Falo de ciência, política, cultura e tal.

Tenho passeado por galerias e museus ou pelo canal de filmes em streaming Petra Belas Artes, com a programação aberta em abril.

Acabo de rever À sombra do Vulcão (1984), filmaço de John Huston baseado no livro de Malcolm Lowry, com Albert Finney e Jacqueline Bisset.

Então, apois, vou por aí a procurar, rir para não chorar, a ouvir o lindo samba de Cartola, tão evocativo nesta quarentena; quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar; eu quero nascer, quero viver…

Por sinal, a Dança da solidão, do Paulinho da Viola, é como uma estação no tempo. Já a primeira gravação de Caetano de Você não gosta de mim (registrada antes por Gal Costa) com o clarinetista Ivan Sacerdote, é triste de doer, mas o que me arrepia nessa música é a beleza da melodia e sua letra bem talhada.

Bom, sou um ouvinte bem irrequieto. Como o Pessoa, diariamente peço música!, qualquer música, logo que me tire da alma esta incerteza que quer, qualquer impossível calma…

Hoje à noite, enquanto cozinho, toco minha lista de jazz —  tenho ouvido com muito gosto o novo CD de Luciana Souza, Storytellers; e amanhã de manhã terei como fundo existencial, além das paredes do apartamento e do céu que minha janela descortinar, as Variações Goldberg. Não vivo sem música. Quem não vive sem música não vive sem Bach.  

Então, fiz pra você este apanhado. Ecco.


Vacina e “imunidade do rebanho”
Se você aguenta ainda mais informação, os podcasts extras do Foro de Teresina, Luz no Fim da Quarentena, estão na medida, com ótima informação concentrada em menos de dez minutos. Nos dois que ouvi, o editor do site da Piauí José Roberto de Toledo entrevista o biólogo Fernando Reinach, professor titular de bioquímica da USP. Em um dos episódio há um mastigado sobre o complexo processo de desenvolvimento de uma vacina antiviral; no outro, Reinach explica como funciona a “imunidade do rebanho” e revela o planejamento das primeiras pesquisas no Brasil para detectar que parte da população estará imunizada contra o novo coronavírus.


A cloroquina está aí
Também ao apostar sua sobrevivência na cloroquina como panaceia, certo mandatário latino-americano brinca de Boca de Forno com seu mestre do norte. Trump deu o sinal ao peitar especialistas e defender o fármaco como solução milagrosa contra a covid19. Valia-se, o Trump, de um estudo… chinês, realizado com cem pacientes e publicado em 14 fevereiro em Cell Report. Bom, tenho horror a guerras culturais e, mais ainda, à politização da medicina. Aprendi muito sobre o assunto neste podcast Ao Ponto, de O Globo, com entrevistas com o intensivista e pneumologista Marcelo Kalichsztein e o imunologista e presidente da Sociedade Brasileira de Inflamação, Mauro Teixeira.  

O vírus e o psicopata
A ficcionista norte-americana Siri Hustvedt, com vários livros lançados no Brasil, em ótimo artigo para o El País, dá seu depoimento sobre Nova York acossada pela doença. Com simplicidade e erudição, ela nos ajudar a pensar com mais clareza sobre a desgraça da pandemia e a ordem local e mundial em crise. A começar do que deveria ser tão óbvio. O vírus não está nem aí pra fanfarronadas e posturas racistas ou machistas, nem pra grandiloquência anti-intelectual, ela nos lembra.

De ascendência norueguesa, mulher do também romancista Paul Auster, Hustvedt dá aulas periódicas para residentes de psiquiatria no Weill Cornell Medical College, em Manhattan. Deve conhecer bem o tema. Aqui ela se apoia no psicanalista vienense Otto Kernberg para falar do narcisismo e de sua forma extrema como transtorno de personalidade social, a psicopatia.

O diagnóstico proposto pela autora mira Donald Trump, mas encaixa-se à perfeição em certo mandatário latino-americano.

Não sei por quê, não parei de pensar em tal luminar ao ler a história de Jamebão, que o Milton Hatoum contou em sua última crônica no Estado.

O Hatoum o inscreve, o Jamebão, entre os “seres irrecuperáveis” dotados de “uma tirania difusa, um desregramento desbragado, que [nega] qualquer ato razoável”. Creio que você concordará quanto as similitudes.  

“Kernberg aponta que pessoas assim, além das mentiras, da grandiosidade, da falta de sentimento de culpa e empatia habituais”, — diz a Hustvedt, para remeter-se ao austríaco nestas aspas, — “carecem do sentido de transcurso do tempo, de planejamento do futuro… Sua incapacidade de aprender com a experiência passada é uma expressão da mesma incapacidade para conceber sua vida além do momento imediato”. Ela continua:

“Durante mais de três anos, o mundo tem visto um presidente norte-americano preso em seu próprio presente espontâneo e volátil, com um narcisismo patológico e alimentado diariamente por incontáveis meios de comunicação, enquanto milhões de seguidores, tanto dos Estados Unidos como no resto do mundo, aprovam sua mensagens virais, xenófobas, racistas e misóginas, mas enfáticas. Um das últimas: o vírus é chinês”.

Mexer ou não a  bunda, eis uma questão filosófica
Dê uma trégua na SARS-CoV-2, eu te proponho. Uma questão da mais alta importância cultural e antropológica se impõe. O site do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona nos lembrou recentemente que a última década foi marcada intensamente pelo debate à volta do twerking — “mover el culo” em espanhol, mexer a bunda, diríamos cá. Os observadores ainda se dividem entre tachar este tipo de rebolado, ou bailado de mulheres com seus glúteos, de machista ou, então, feminista e, neste caso, um ritual de empoderamento. O debate vai longe! “Mas, qual é a verdade sobre o bailado? Deveríamos começar todos a mover a bunda ou não?”. Dedique um tempo de sua quarentena a enfrentar por si próprio o dilema. Assista ai ao vídeo ensaio no Soy Cámara Online, canal de vídeo do CCCB. Dura 19 minutos, com falas em espanhol, inglês e francês. Mas não se preocupe com a Babel, você entenderá perfeitamente. Ou não. Me lembrou a graça verdadeira de La colita, a festa, unissex por sinal, encenada na abertura de A grande beleza (2014), o grande filme de Paolo Sorrentino.

Atento e forte
Gilberto Gil deu uma ótima entrevista ao repórter Júlio Maria, do Estadão, desde sua casa em Araras, na serra do Rio, onde se acha confinado. Acho bonito que Gil encontre no próprio repertório, em sua obra precocemente clássica, como a vejo, referências para o momento. “Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”, ele diz, a citar a esplêndida Tempo rei (gosto especialmente dos versos: “Mães zelosas, pais corujas/ Vejam como as águas de repente/ Ficam sujas…). “[…] na meditação sobre a vida há sempre um lugar para o tudo ou nada. Penso que, ainda que não seja fácil, é necessário esperar pelo que quer que seja”, continua, antes de lembrar o refrão de Divino maravilho, canção dele e Caetano Veloso: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. Reproduzido um trecho da entrevista, pergunta e resposta que tratam de uma questão que, creio, passa pela cabeça dos não-fanáticos nesta hora:

Estadão – Antes que o vírus revirasse tudo, estávamos divididos em um mundo de extremos. Negros ou racistas, LGBTs ou homofóbicos, ricos ou pobres, lulistas ou bolsonaristas, […] esquerdistas ou direitistas. Teria a tragédia força para refundar a essência das pessoas? […]
Gilberto Gil — Seria otimismo demais. Continuamos e continuaremos divididos. A ordem vai se estabelecendo como flutuação do caos, como sempre acontece, e, assim, estabelecendo novos equilíbrios entre as polaridades. Os homens de boa vontade continuarão sua caminhada ao lado da má vontade dos outros. Se o futuro humano nos reserva uma nova singularidade que nos reconcilie definitivamente com o restante da natureza e nos garanta paz universal duradoura, veremos. Por enquanto, vamos garantindo que o nosso computador corrija, cada vez mais automaticamente, os nossos erros de digitação para um texto cada vez mais limpo.

O que é isso, velhos companheiros?
Uma amiga do Gabeira comentou com ele que se sentia um tanto inútil neste mundo de maravilhas tecnológicas. A experiência de um velho perdera o valor na era do Google, queixou-se a mulher; a pessoa idosa não teria nada mais a ensinar aos moços. O jornalista reflete sobre isso em uma bonita crônica, aberta em seu site: “Ser velho significou ter tido uma chance de testemunhar tudo e uma oportunidade de morrer que nunca sabemos antecipadamente se vamos aproveitar. Certamente o Google não responde a esta questão de Montaigne: aquele que ensinar as pessoas a morrer vai ensiná-las a viver.” E depois:

“[…] há algum tempo, a principal guerra é dos homens contra a natureza. A estratégia [de defesa das nações] não acompanhou os fatos. Alguém come um bicho na China e instala-se o caos. Alguns velhinhos de hoje já avisavam sobre os efeitos dessa guerra, antes de o Google nascer. É irônico ver agora como se discute com tanta sem-cerimônia sobre quantos por cento deles [velhinhos] devem desaparecer. Para quê? Para seguir na marcha suicida que alguns chamam de progresso?”.

Olavice da esquerda
O sempiterno colunista da Folha Marcelo Coelho, um antagonista do liberalismo desde sempre, me fez o favor de baixar, ler e comentar o livro gratuito em espanhol Sopa de Wuhan, com ensaios reunidos da fina flor marxista ou neomarxista ou pós-neomarxista sobre a pandemia. A olavice de esquerda, como Coelho define, corre solta em artigos de Giorgio Agamben, já mencionado na Jurupoca, Alain Badiou e outros iluminados que viram e veem no vírus uma conspiração, onde, aliás, integram o mesmo coro de seus antípodas de direita. Vivemos os últimos dias do capitalismo, apostam com mais ou menos convicção Slavoj Žižek, David Harvey e Franco “Biffo” Berardi. Na maionese, sim, viaja-se sem peias hoje e sempre.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s