Jurupoca #21

 


Belo Horizonte, 17 de Abril, 2020 — Carta 21

Uma das imagens de Saturno em cores naturais tomadas pela sonda Cassini, da Nasa, no início da década.  Vemos a noite e o dia do planeta. A face iluminada recebe a luz do sol e o reflexo de suas altas nuvens. Outra imagens de Saturno podem ser vistas aqui


 [Ao leitor em quarentena, cuidado com os chacais à espreita…]

Ao leitor — Charles Baudelaire

[...]
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
 
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
 
É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Trecho do poema que abre As flores do mal, na tradução de Ivo Barroso. O poema completo se acha nesta biblioteca digital.
 
PAGODESPELL - 
João Bosco, Caetano Veloso,
Chico Buarque, Oswald de Andrade
 
No Pão de Açúcar
De cada dia
Dai-nos Senhor
A poesia
De cada dia

Quem rezou, rezou
Quem não rezou, não reza mais
Há tantos mil corcovados no cais
Cada um carrega um Cristo
E muitos carnavais
Luxo, miséria, grandeza, conflito e paz
Diante da pedra são todos iguais

No Pão de Açúcar...

Joaquim José me chamou prum canjerê
Sambalelê nas escadas da Sé
Se o bispo deixar e Jesus não se ofender
O pessoal vai fazer um pagodespell
E aí vai ser sopa no mel

No Pão de Açúcar...

No baile da Corte
Foi o Conde D’Eu quem disse
Para Dona Benvinda:
Que farinha se suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí

Dá licença, dá licença meu Senhor.

Este samba é um cápsula de alegria concentrada.

Creio que pela riqueza da fala popular miscigenada que a letra louva, da inventividade melódica, do arco autoral inusitado, da maneira honrosa com que a canção se enquadra na MPB com suas interligações e referências deliciosas.

A transição harmônica do violão no final é coisa fina. João Bosco, Caetano Veloso e Chico Buarque de Hollanda travaram parceria póstuma com o poeta modernista Oswald de Andrade (1890-1954).

O refrão é do Escapulário, musicado por Caetano e que aparece na última faixa do disco Joia (1975), e a estrofe final, do Relicário, ambos poemas de Pau Brasil (1925), livro de Oswald.

Esta gravação, como a composição em si, ocorreram graças ao Chico & Caetano, o programa levado pela Rede Globo em 1986, e por iniciativa de Bosco. Mineiramente, como se expressou certa vez, o artista de Ponte Nova propôs a Caetano prolongar aquela pegada, quase uma vinheta, presente em Joia.

Chico entrou com o mote e a glosa e João, cozendo tudo no violão privilegiado que é só dele, ainda acrescentou o Relicário (no baile da Corte/ foi o conde D’eu…).

Já o verso final, um chamamento, dá licença, dá licença, meu senhor, que amarra a ideia do pagodespell (um samba espiritual), diz respeito a Deus e, digamos, a outro criador, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira.

João, como sabemos, entre tantos sambas, quintessenciou Bahia com H, de Denis Brean, pseudônimo do compositor Augusto Duarte Filho (1917-1969), que é aberto com o dá licença, dá licença (ouça aqui a gravação de Francisco Alves, de 1947, reveladora sobre a alquimia do inventor da Bossa Nova).

E o Bosco vai registrar o samba dele, Caetano, Chico e Oswald, primeiro, como a única faixa autoral do antológico CD Dá Licença Meu Senhor, de 1995, com Martinho da Vila como convidado.

Agora,o Pagodespell reaparece, meu senhor, minha senhora, em Abricó-de-macaco, seu novo álbum pela gravadora MP,B Discos / Som Livre. 

João Bosco adiou o lançamento, —  que chegaria nesta sexta-feira (17) às plataformas de streaming, — para maio, em respeito ao agravamento do estado de saúde de Aldir Blanc, seu amigo e parceiro.

Com um quadro de infecção urinária e pneumonia, além  de possível Covid-19, Blanc foi internado esta semana na UTI de um hospital do Rio de Janeiro. 



Maria na praia de Biarritz ou Contraluz, de Joaquim Sorolla (1906)
Museu Sorolla, Madri, Espanha. Foto: Wikimedia Commons

Visitei e revisitei muitas obras do pintor espanhol Joaquim Sorolla y Bastida (1863-1923) esta semana. Seus quadros pós-impressionistas sempre me detiveram, em vários museus. Este retrato de Maria, filha do artista, na praia de Biarritz, sul da França, mostra seu gosto pelas modulações da luz refletida. A pintura me remete a um poema que comecei a escrever ao viajar à Galícia, norte da Espanha, logo depois de perder uma irmã, Edna Marta, e aos versos: […] Sonho onde mergulho/ No véu das ondas de sol/ Que a nata do mar tece […], poema que só terminaria no torna viagem . 

John Turturro como o rabino Lionel Bengelsdorf
na minissérie da HBO The Plot Against America. Foto: Michele K. Short/HBO

Era uma vez um herói norte-americano, no caso o aviador Charles Lindbergh, simpatizante de Hitler, que decide disputar a eleição presidencial pelo partido Republicano contra Franco Delano Roosevelt, em 1940.

Sua principal plataforma? “América em primeiro lugar”. O país se manteria longe da guerra a qualquer custo, inclusive o de um pacto com o nazismo. Assim o idolatrado Lind se elege, e com isso o judeu americano descobre que perdeu o americano dessa condição.

Philip Roth (1933-2018), maior romancista de sua geração, tinha um faro fino, e em sua obra destilou a história de seu país e suas projeções, inclusive o macarthismo e o antissemitismo que sempre existiu na “América”.

A propósito, a mostra O judeu eterno (1938), do acervo da Getty Images, guarda a raiz do imaginário que inspira um autor judeu a escrever Complô contra a América, ou The Plot Against America, título da minissérie da HBO em seis episódios baseada no romance de Roth (2004).

Resenhei o livro à época de seu lançamento no Brasil, em 2005, depois de ter vivido certa aventura pessoal em Florença com Roth e John Updike (1932-2009; outro grande autor norte-americano), ou vice-versa, como conto no capítulo 22 (O inferno em Florença) de Turismo cultural e literário na Europa.

Mas a história, criada por David Simons, que roteirizou a magnífica The Wire (A Escuta- 2002/2008), e Ed Burns, tem um sentido especial diante do fanatismo que grassa hoje no mundo.

Perceber a ação dessa onda é algo doloroso, nauseante, um veneno que seca toda esperança. O nacionalismo, a cegueira da polarização, o acovardamento, a paranoia contra os adversários, está tudo lá. E, em parte, está tudo aqui.

Este é o melhor trabalho de Simons desde The Wire. Com um elenco fabuloso e ótima direção, os episódios são filmados com brilho, mão firme e ênfase no movimento interior dos personagens, nas sensações que apenas adivinhamos.

Simons associa a narrativa dessa história imaginária e seu pesadelo à expressão de medo no olhar do menino Philip Levin (Azhy Robertson, total revelação), de dez anos.

Robertson lembra fisicamente o próprio menino Philip Roth, quem, no futuro, por certo, poderá nos contar os acontecimentos a que estamos assistindo. Magistral. 


Opa! Vamos apear?

Começo a te escrever esta carta na madrugada de quarta-feira (15).

Insone, repasso o maldito e exorbitante noticiário sobre a peste. Caos na economia, a política infectada e rebaixada, frivolidade e fofoca à mancheia (ainda somos os mesmos, claro.)

Leio que temos o pior presidente do mundo, na avaliação abalizada do Washington Post.

Pior que Alexander Lukashenko, da Bielorrússia, que recomendou saunas e vodca contra a Covid-19; pior que Gurbanguly Berdymukhamedov, do Turcomenistão, que proibiu o uso do termo “coronavírus” no país; pior que Daniel Ortega, da Nicarágua…

Com tudo isso, topo com a capa online do sesquicentenário Estadão. Qual a razão de tanta gente sorrindo?, eu me pergunto. Algum Mesquita podia me explicar do que se riem?



Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Marteletes pneumáticos e esmerilhadeiras infernizam nossa quarentena há três semanas.

O bônus do silêncio que desfrutaríamos com o isolamento social vai pra cucuia. Um rico laboratório de análises clínicas, desde sempre um vizinho assediador do condomínio, daria luxuosa guarida ao conde Drácula.

O vampirão ia se empanturrar e, estou certo, se sentir confortável no horror do puxadão vertical pré-moldado, mal-ajambrado e inacabado há duas décadas a que eufemisticamente designam por edifício.

E pensar que existiu no mesmo terreno uma boa cervejaria, em cujos brinquedos meu filho se divertiu com os primos, e onde a turma do Clube da Esquina costumava me brindar com serenatas nas madrugadas… Dever ser o progresso, como se diz. Haja sangue!

Quando escrevo, sou obrigado a cobrir as orelhas com fones, a ouvir no máximo as gravações de Schumann por Nelson Freire .


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Não bastasse todo o tormento, descubro que sou mais próximo dos macacos que meus semelhantes (não que não desconfiasse).

A prova? Como a minha gente, trago o espaço de uma forquilha entre os dedos do pé.

Tal macaquice fora detectada por Cesare Lombroso, o italiano ainda lembrado como pai da criminologia moderna. Veja você.

Mas há outras revelações mais excitantes nas quase 500 páginas de Corpo — Guia para usuários, de Bill Bryson, autor de Breve história de quase tudo, lançado no Brasil em janeiro, que acabo de ler.

Bryson, um norte-americano que reside em Londres, é um mestre do jornalismo científico. Escreve com verve, realismo e grande apego ao último fato científico estabelecido. E seu texto é elegantemente salpicado de humor.

Depois de anotar que o cérebro humano demora muito para se formar por completo, e que durante a adolescência apenas 80% do cabeado cerebral está pronto, o autor comenta, entre parênteses:

“Talvez isso não seja uma grande surpresa para os pais de adolescentes”.

Cada um dos 23 capítulos de Corpo trata de nossos órgãos e sistemas e processos da célula ao cérebro. Mostra como nascemos e como morremos. Detalha como nos mantemos e excretamos. Aponta maravilhas e fragilidades codificadas no desenho evolutivo.

Sabia lá você que nós produzimos entre 150 e 300 gramas de lágrimas diariamente?

E que na produção desse líquido lubrificante, aliás humor, intervêm uma infinidade de pequenas glândulas distribuídas na periferia do olho?

Glândulas de Krause, de Wolfring, de Moll e de Zeiss, além das de Meibomio, situadas na pálpebras. Santa oftalmologia!

De fato, a leitura do livro equivale a uma viagem fantástica pelo interior do corpo, sem descurar do exterior. Aliás, o capítulo dedicado à pele e aos pelos cita Dorothy Parker na epígrafe: “A beleza é apenas superficial. A feiura chega aos ossos”.


Viagem fantástica porque um leitor mais rodado há de lembrar-se do filme original, de 1966, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Rachel Welch, como lembrou-se o repórter Jacinto Antón lembrou-se nesta entrevista com Bryson no El País.

(Na fita, durante a Guerra Fria, um submarino e sua tripulação miniaturizados são introduzidos na corrente sanguínea de um cientista que sofrera um atentado e caíra em coma.)

O leitor vai se sentir atualizado sobre o alcance e os limites da fisiologia e da medicina atuais. Bryson ancora-se em bibliotecas médicas inteiras, estatísticas epidemiológicas e entrevistas com pesquisadores proeminentes em seus campos.




Além de informações úteis, sobram curiosidades no livro. Percebe-se facilmente que a história da medicina é trágica, e às vezes, a depender de quem lê, tragicamente cômica.

A extração do cálculo vesical, ou da pedra na bexiga, não era brincadeira no século 17. Em 1658, o diarista britânico Samuel Pepys passou os diabos para se livrar de uma pedra do tamanho de uma bola de tênis.

Amaciado com opiáceos e mandrágora, o escritor se viu amarrado de barriga pra cima, com as pernas atrás da cabeça, joelhos atados ao peito e os braços, à mesa cirúrgica. O médico então fazia um corte de 8 cm em seu períneo (área entre o escroto e o ânus).

Pelas bordas dessa incisão o doutor acessava a bexiga e a cortava para introduzir um fórceps em formato de bico de pato e realizar a ufanosa retirada do cálculo.

Thomas Hollyer, o cirurgião que operou Pepys pela paga de 24 xelins, era um craque. Seus procedimentos duravam apenas 50 segundos, e a maioria de seus pacientes sobreviviam!

O norte-americano William Halsted é outro cobra. Em 1882, submeteu a própria mãe a um das primeiras extrações de vesícula biliar. A operação foi realizada na mesa de cozinha da casa familiar, ao norte do estado de Nova York. Bryson comenta:

“Não se sabe se a senhora Halsted tinha ciência [do experimento do jovem doutor] quando seu filho lhe tapou o rosto com um pano embebido em clorofórmio. Seja como for, o caso é que ela se recuperou por completo (em uma desafortunada ironia, o pioneiro Halsted morreria depois de ele mesmo ser submetido a uma operação de vesícula biliar quarenta anos depois, numa época em que essa intervenção já era corrente).”

Também pululam maluquices nessa história.

Nas primeiras pesquisas sobre o sistema circulatório, realizadas no final dos anos 1600, em toda a Europa transfundiu-se em humanos leite de vários bichos, vinho, cerveja e até mercúrio. A maioria das pobres pereceu.

Por décadas, o doutor Walter Jackson Freeman praticou lobotomia à vontade em todo os EUA, em centenas de vítimas (certa vez em 225 em 12 dias), incluindo uma das irmãs do presidente JFK, algumas muito jovens, de quatro anos de idade.

Freeman operava pessoas com fobias, bêbados recolhidos nas ruas, condenados por homossexualismo, ou o que à época se considerasse uma aberração mental ou social.

Sua “técnica” consistia em introduzir pelo olho do desgraçado um picador de gelo, quebrar o osso do crâneo com o auxílio de um martelo e produzir movimentos vigorosos para destruir as conexões neuronais. Freeman nem ao menos fazia assepsia ou usava avental.

Muito antes disso, no século 16, entregaram ao anatomista italiano Gabriel Falopio, o das trompas uterinas, um criminoso ainda vivo para que ele se dispusesse. Meu deus!

E as explosões colônicas? Os gases de flatulência podem formar combinações terríveis. Bryson narra o episódio de uma procedimento realizado em Nancy, na França, em 1978.

Tire as crianças letradas da sala.

Quando os cirurgiões introduziram um cabo eletricamente aquecido no reto de um senhor de 69 anos para cauterizar um pólipo, provocaram uma explosão que “literalmente destroçou o homem”.

Graças aos céus já se faz essa resseção à frio.

Mas, com a Sars-CoV-2 por aí, destaquei em minha leitura, entre uma boa centena de notas e grifos, os trechos de Corpo atinentes às infecções viróticas.

“Um vírus, nas palavras imortais do Prêmio Nobel britânico Peter Medawar, é uma má notícia envolta em uma proteína”, lembra o autor. Mas não é bem assim, acrescenta. Uma infinidade de vírus não nos faz mal.

Mas esse organismo dos diabos não constitui ao menos uma célula. Nem está bem vivo nem está morto. É inerte fora da célula. Não come e não respira, e é menor que qualquer bactéria.

Se inflássemos um vírus ao tamanho de uma bola de tênis, um ser humano na mesma escala teria 800 km de estatura, compara Bryson, e uma bactéria, o tamanho de uma bola de praia.

Um vírus não se locomove, o trem, se você me permite, pega carona conosco. “Nós temos que os ir buscar em maçanetas de portas ou apertos de mãos, ou arrastá-los para dentro do corpo com o ar que respiramos”, descreve o autor.

“Há maior parte do tempo estão tão inertes como um grão de poeira.  
Mas, os ponha dentro de uma célula viva e você os verá florescer em uma vida exuberante e se reproduzir tão furiosamente como qualquer ser vivente”, completa.

Corpo saiu originalmente na Grã-Bretanha em 2019, e o ponto final do texto fora colocado no ano anterior. A Covid-19 não estava no radar.

Mas ler o livro agora nos ajuda a entender a “gripezinha”, tal qual a doença foi definida pelo pior presidente da Terra, quiçá da Via-Láctea.

Quando se detém nas infecções que testam e azucrinam nossas resistências, Bryson diz que uma características de vírus como o Ebola, a hipervirulência, torna menos provável que a coisa se propague, mas isso nada garante:

“Na realidade, é extraordinário que as desgraças não sejam mais frequentes. Segundo um cálculo publicado por Ed Yong na revista Atlantic, o número de vírus de aves e mamíferos que tem potencial de saltar a barreira da espécie e nos infectar pode chegar a 800.000. Isso supõe um grande perigo potencial”.

 Helahoho! helahoho!

O corpo, ah o corpo. “Eu, filho do carbono e do amoníaco,/ Monstro de escuridão e rutilância,/ Sofro, desde a epigênesis da infância, / A influência má dos signos do zodíaco”.

Gosto de citar o Augusto dos Anjos de Psicologia de um vencido.

Fascinados com a descrição dos exames que fiz certa época, fui brincar com certos termos ao escrever o texto Frívolo endométrio, postado no blog.

Que diabos o ligamento de Mackenrodt ou a hidátide de Morgagni têm a ver com o que sinto e sou? Muito, seu sei. Mas é como se não soubesse. E aí está o busílis.

Minhas alma suposta é uma realidade tão palpável quanto minhas enzimas ou as 100.000 bactérias que tenho por centímetro quadrado de pele.

Cada um de nós carrega tanta vida que mal percebe ou nem imagina, e ainda há quem creia em livre arbítrio.

Durante 95% da existência do Homo sapiens, vivemos como caçadores-coletores, uma existência pura e simples, gregária, igualitária e solidária, conforme afirmam grandes antropólogos. Volto ao assunto em outra ocasião.

A agricultura, desde o neolítico, e a noção de progresso, desde o iluminismo, nos deu também a medicina, no que vale contar, ou seja, os últimos 150 anos. Antes disso essa ciência se limitava a sangrias e outras medidas desesperadas.

Então nos tornamos obcecados com o corpo e a saúde, com a ideia de viver mais e melhor, a ponto de o assunto tomar quase 100% de nossas conversas e rotinas, senão de nossas vidas.

E eis que surge o novo coronavírus…

Em boa medida, somos seres mais frágeis, tolos e infelizes com nossos ganhos civilizacionais, mas, como disse, pretendo voltar aqui ao tema.

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?




VELA ACESA. Para Moraes Moreira (1947-2020). Sempre estará entre os  grandes, como um inventor que contribuiu para afeiçoar a MPB na sua era de ouro. 

VELA ACESA. Para Rubem Fonseca (1925-2020). Seus contos e romances, marcados por um “realismo feroz”, segundo Antônio Cândido, estão entre o pouco da criação literária brasileira realmente relevante (ou indispensável) publicada nos últimos 60 anos. 

FALA CORONÊS?. A The Economist listou as melhores gírias em inglês e outras línguas em torno do novo coronavírus. Minha preferida é covidiot (covidiota), que se aplica ao estúpido que ignora a pandemia. Há também “Miss Rona”… 

SINFONIAS ONLINE. O The Guardian selecionou vídeos de ótimas orquestras em quarentena, com um trabalho técnico inacreditável de edição de som e imagem. Se você se dispuser a ver apenas um dos vídeos, recomendo o despertar de Edvard Grieg, da suíte de Peer Gynt, com a Orquestra Nacional de Lyon. Veja até o final, por favor.


CARAVANAS AO VIVO. O show do disco mais recente de Chico está no YouTube desde o último dia 9, oficialmente, pela Biscoito Fino. O endereço do espetáculo nas outras plataformas está aqui.

NYC VIRTUAL — Que tal passear por Nova York tendo como guia Michael Kimmelman, o veterano crítico de arquitetura do The New York Times? Por aqui você vai aos links da série.

CEM COISAS MUITO BONITAS. Rubén Díaz Caviedes, no site Jot Down, escolheu filmes, imagens, pinturas… com que podemos nos deleitar bem um dia inteiro. Tirei da lista dele meu Será arte? desta quinzena.

HARARI E A PANDEMIA. O ótimo artigo do historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari está disponível originalmente em inglês, na revista Time, em espanhol, no El País, ou traduzido em O Globo.

VIDA DE HARBERMAS. Sai em espanhol a grande biografia do filósofo alemão, de 90 anos, escrita por seu discípulo Stefan Müller-Doohm. O e-book está em promoção.

O VÍRUS NA ESQUINA. “Tínhamos a impressão de que com o progresso e a modernidade havíamos dominado a natureza. Pois não! Uma grande idiotice.”, conclui Mário Vargas Llosa em entrevista a Juan Cruz, no El País Brasil.

LIVRO DE CABECEIRA. Llosa, que chega aos 84 anos, aliás, nesta belíssima crônica de quarentena, no mesmo jornal, revela quais são seus romances e autores essenciais.

BOM PAPO. Edgar Morin segue nobremente disposto a intervir na ordem do dia. Vai pelos 98 anos e se preserva da pandemia no sul da França. Conversou a respeito com o professor, filósofo e crítico literário italiano Nuccio Ordine para o jornal Corriere della Sera. À versão do texto em espanhol chega-se por aqui.

Traduzo uma passagem pra você:

“Ordine — O vírus conseguiu também explodir os limites da rapidez. O confinamento em nossas casas nos ajuda a redescobrir a importância da lentidão para refletir, para entender, para cultivar os afetos.

“Morin — Parece-me indiscutível. A epidemia, com as restrições que há imposto, nos tem obrigado a realizar uma saudável desaceleração. Eu mesmo notei uma forte mudança em meu ritmo cotidiano: já não é cronometrado e escalonado como antes. Quando deixei Paris para viver em Montpellier já notei uma notável transformação no ritmo das minhas jornadas. Agora, com maior consciência, estou (estamos) me reapropriando do tempo. Bergson [Henri, filósofo francês, 1859-1941] havia entendido a diferença entre o tempo vivido (interior) e o tempo cronometrado (exterior). Reconquistar o tempo interior é um desafio político, mas também ético e existencial.
 
Ordine — Precisamente agora nos damos conta de que ler livros, escutar música, admirar obras de arte é a melhor maneira de cultivar nossa humanidade.

Morin — Sem dúvida. O confinamento está fazendo com que nos demos conta da importância da cultura. Uma oportunidade — por meio destes saberes que nossa sociedade tem chamado de “inúteis”, porque não produzem ganhos — para compreender os limites do consumismo e da corrida sem pausa em busca de dinheiro e poder. Teremos aprendido algo nestes tempos de pandemia se soubermos redescobrir e cultivar os autênticos valores da vida: o amor, a amizade, a fraternidade, a solidariedade. Valores essenciais que conhecemos deste sempre e que desde sempre, infelizmente, terminamos por esquecer.”

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

 


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