Jurupoca Extra — Carta de Quarentena #05

Edição de Quarentena N° 5 — Belo Horizonte,
Minas dos Matos Gerais, 07/05/2020


Interior com duas meninas (1904), do dinamarquês Peter Vilhelm Ilsted (1861-1933). A ilustração de um artigo do Aeon — sobre a beleza e a necessidade de uma vida simples — me apresentou a esta pintura esplêndida. A luz ao fundo ilumina o sorriso da mocinha, a jogar com sua irmã ou amiga num ambiente despojado e frugal. A vida é pura e plena sob todos os efeitos. Que cena deliciosa! Basta olhá-la um instante e abrirmos o coração, livres do fel que amarga o mundo. Foto: Wikimedia Commons.

Opa! Vamos apear?

Não muito longe de cumprir 60 setembros, concedo de boa que nesta idade nos sobra, se muito, um quarto de tanque por viver — na imagem do colombiano Hector Abad Faciolince, em cujos diários recém-publicados dou uma bispada.

Um quarto de tanque, se houver. Apois. O que vivemos não está exatamente jogado fora, penso eu. E o que temos por viver é mais um esforço de concentração, cumplicidade e sinceridade.

Mas o Faciolince também diz, sobre o atrativo dos diários, gênero que curto pra caramba, que a vida tem muito de telenovela. E é ridícula e óbvia.

Pode ser, mas nem tanto e nem sempre.

Agora, concordo com o filósofo alemão Peter Sloterdijk em que vida atual não nos convida a pensar.

Quem consegue escapar da roda-viva, ao tocar o barco na correnteza tendo o Vale do Silício como timoneiro?

Quem pode dar um passo atrás pra olhar o mundo como observador, em silêncio e solidão, mediado por boas leituras e obras de arte?

Escuto o Sloterdijk: O mundo concebido como esfera planetária do consumismo se baseia numa atmosfera frívola. “Sem frivolidade, não há público ou população que mostre uma inclinação para o consumo”, formula.

A pandemia não vai mudar isso. Aliás, não aprendemos nada de novo na pandemia (e um brasileiro, desgraçadamente, ainda menos). Retomaremos nossos hábitos ordinários, por certo.

Mas a retomada da frivolidade talvez seja mais difícil agora.

Temos a questão da coimunidade, um conceito caro às ideias do homem, do Sloterdijk (diz respeito à proteção mútua, à “solidariedade biológica”, nos termos dele), ao qual se refere nesta entrevista à Ana Carbajosa, do El País.

“O que é novo agora é que vemos que, devido à globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra agora é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será o grande tema filosófico e político após a pandemia.”

Quem viver, verá. Além da frivolidade infernal, a realidade brasileira escancara uma chanchada macabra e nauseante.

A malta se tinge de verde-amarelo e nos assombra, como num pesadelo; ruge pelo atraso, agride jornalistas, escarnece dos mortos na peste.



(Digo, por enquanto entre parênteses, que começo a ler fascinado Massa e poder, ensaio do Nobel de Literatura Elias Canetti publicado em 1960. Canetti descreve cada mínimo movimento, cada mínima atitude da malta, o pânico, a paranoia e a violência que são um denominador comum de certas massas humanas.)

Os domingueiros e violentos piqueniques golpistas da Praça dos Três Poderes são o cartão-postal que oferecemos ao mundo, quando o mundo civilizado se mobilizada contra a Covid-19.

O triunfo da morte, obra do artista holandês do século XVI Peter Bruegel, o Velho, no Museu do Prado. A pintura é uma figuração moral: a morte se impõe sobre as coisas terrenas. Pois a Morte a cavalgar o pangaré castanho no centro da tela me lembra a triste figura de Sua Excrescência durante a pandemia do Brasil; aliás, o próprio pangaré também a lembra, uma dupla associação, portanto, meu Velho Bruegel, com a devida vênia. Foto: Wikemedia Commons.  

Vela acesa pro Aldir
Escolho uma letra.  Uma única música dentro de uma obra extensa e magnífica, e não incluída entre as “essenciais” e “inesquecíveis” do autor listadas aqui ou ali, todas de fato dignas desses adjetivos. É a obra de um artista que refunda e expande o que nossa cultura e idioma têm de mais nobre e belo. Suas letras partem de um bloco informe de temas — costumes e personagens suburbanos, história, poesia pura — para esculpir imagens que dizem quem somos como gente e sociedade. Escolho Falso brilhante, dele e João Bosco (última faixa, lado B de Tiro de Misericórdia, LP de 1977; aqui linda e de longe na melhor versão, por Nana Caymmi, volume 3 do Songbook João Bosco, de 2003). Uma canção abolerada que, inacreditavelmente, tem pouquíssimos intérpretes. Negrito alguns de seus versos magistrais.

Falso Brilhante - João Bosco e Aldir Blanc

O amor
É o falso brilhante
No dedo da debutante
O amor
É um disparate
Na mala do mascate
Macacos tocam tambor
O amor
É um mascarado:
A patada da fera
Na cara do domador
 
O amor
Sempre foi causador
Da queda da trapezista
Pelo motociclista
Do globo da morte
O amor é de morte
 
Faz a odalisca atear fogo às vestes
E o dominó beber aguarrás
O amor é demais
Me fez pintar os cabelos
Me fez dobrar os joelhos
Me faz tirar coelhos
Da cartola surrada da esperança
O amor é uma criança
 
E o mesmo diante da hora fatal
O amor
Me dará forças
Pro grito de carnaval
Pro canto do cisne
Pra gargalhada final

Do que li do obituário de Aldir Blanc (Rio de Janeiro, RJ, 1946 – Rio, 2020) destaco textos de Ruy Castro (Folha), Mauro Ferreira (Blog Pop & Art, no G1 ; e neste outro post) Sergio Luz (O Globo), Julio Maria (Estadão), Luiz Antonio Simas (Folha), Diogo Magri (El País Brasil). E esta entrevista de 1976, desencavada pelo Blog do Acervo de O Globo, em que o Aldir conta como e por que abandonou a psiquiatria pra viver da música. Mas não resisto a sugerir outra gema de sua lavra, agora em parceria com Guinga, a exuberante Catavento e girassol (1996), gravada canonicamente por Leila Pinheiro. Ainda tem esta crônica do Veríssimo, Aldir e a sombrinha. Ah, o cartunista Jaguar, amigo de peito e de copo de Aldir, lembra aqui rapidamente como o Pasquim patrocinou o Disco de Bolso com Águas de março, “musiquinha” de Tom Jobim, dum lado, e Agnus sei, da dupla estreante Aldir e João Bosco, do outro.


Vela acesa pro Xerife
O Xerife de Flavio Migliaccio (São Paulo, SP, 1934 – Rio Bonito, RJ, 2020), da novela O primeiro amor (1972) e do seriado Shazan, Xerife e Cia (1972-1974), em que atuava com Paulo José, ajudou a preencher minha pré-adolescência. Me deu algo de imaginar e sonhar. Sou grato por sua figura chapliniana, pelos tipos que o pude ver interpretar em novelas e seriados, infelizmente nunca no teatro. Suas variações de humor e drama revelavam sua filiação à mais frutífera escola de teatro nacional, o chamado teatro popular engajado. O enorme ator que é Lima Duarte, aos 90 anos, saúda o colega neste vídeo aí, forte e comovente. Um Lima indignado com o rebrote autoritário no país termina sua fala com um recado “pros que ficam”. Cita Pedro Raqueiras, personagem da peça Os Fuzis da Senhora Carrar, do Bertolt Brecht: “Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue!” Muito apropriada para esta hora cinzenta.


Gil listado
A lista nº 51 (Música para estes dias) do diretor de cinema e produtor musical espanhol Fernando Trueba dedicada a Gilberto Gil é surpreende. A obra de Gil é tão vasta e prodigiosa que sempre podemos redescobri-la.

Vista pro Rio
Quatro podcasts produzidos pela Companhia das Letras, narrados pelo autor, são uma entrada de chef  ao prato principal: o livro Metrópole à Beira-Mar: O Rio moderno dos anos 20, Ruy Castro lançado há pouco. [Dica do doutor P.J.]

Bom de Ibope
Tony Goes
, um veterano colunista de TV da Folha, escreveu,

William Bonner é o primeiro apresentador do Jornal Nacional a também ser o editor-chefe do noticiário. Está no cargo desde 1996, e vem crescendo desde então. Seu traquejo na bancada, sua experiência no trato com políticos de todas as estirpes, sua vivência através de crises de todos os tamanhos, só lhe aumentaram o cacife e a credibilidade. ​

Aos poucos, Bonner vem adotando a postura do âncora clássico, tradicional no telejornalismo americano. Nomes como Walter Cronkite, Peter Jennings, Tom Brokaw e Dan Rather, que jamais se furtaram a emitir opiniões enquanto davam notícias da Guerra do Vietnã ou do caso Watergate.”

Aos poucos, e na emergência sanitária, quando todo profissional é posto à prova, a crítica que conta rende-se à importância de um jornalista de rara estatura no Brasil contemporâneo que, não por acaso, é odiado por ambos os polo ideológicos.

Willian Bonner apresenta o JN de 29/04/2020. Reprodução da Folha de S.Paulo


E daí?
Fernando Gabeira
tem a prosa simples, sincera e, às vezes, sábia. Em uma de suas colunas desta semana ele fala da pulsão da morte que os maus modos de Sua Excrescência não encobrem. O melhor do texto é a paráfrase a uma canção de Milton Nascimento e Ruy Guerra, E daí? (A Queda)  — última do lado 2 do disco 1 de Clube da Esquina (1978): “Entre mortos e doentes/ No meio dessas bananas/ Os meus ódios e os meus medos? E daí?”, diz a paráfrase da  bela canção. “Os meus músculos são poucos/ Pra essa rede de intrigas”, diz a letra de Ruy Guerra na primeira estrofe. Acho que os meus também.


O anticrítico reencarnado
A Companhia das Letras repõe, 34 anos depois da primeira edição, uma das mais importantes coletâneas de traduções e crítica literária surgidas no Brasil. O Anticrítico, de Augusto de Campos, reúne uma série de poetas, da tradição clássica milenar às vanguardas do século 20. Campos traduz e atualiza, ou recoloca no panorama poético-literário do modernismo, Dante Alighieri, John Donne, Shakespeare, Mario de Sá Carneiro, Gregório de Matos, Lewis Carroll, Gertrude Stein e outros. Gosto especialmente da transcriação, como prefere o tradutor, de fragmentos do Rubaiyat de Omar Khayyam (abaixo transcritos), um clássico persa, a partir da versão livre em inglês de Edward Fitzgerald, poeta inglês do século XIX. Tenho meu exemplar da 1ª edição do Anticrítico autografado por Augusto, cá no Belo, numa manhã de sábado de 1993! no Centro Cultural da UFMG, na Praça da Estação. Quatro anos depois, achei em Nova York uma pequena e linda edição das traduções de Fitzgerald.

Do Rubaiyat de Omar Khayyam

IX

Em Naishapur ou Babilônia, alguma
Taça, ou amarga ou doce, sempre espuma,
Verte o Vinho da Vida, gota a gota,
Vão-se as Folhas da Vida, uma a uma.

XXV

Ah, vem, vivamos mais que a Vida, vem,
Antes que em Pó nos deponham também,
Pó sobre Pó, e sob o Pó, pousados,
Sem Cor, sem Sol, sem Som, sem Sonho – sem.
 
LXV

Inferno ou Céu, do beco sem saída
Uma só coisa é certa: voa a Vida,
E, sem a Vida, tudo o mais é Nada.
A Flor que for logo se vai, flor ida.

Edward Fitzgerald / Augusto de Campos

A morte do romance
Quem vai aquém de cinco décadas vividas não crê. Mas a grande arte do romance já foi um assunto prazeroso em mesa de bar, obrigatório até. A espera por um volume de contos de José Rubem Fonseca, digamos, ou a leitura comum de um romancista russo, proporcionavam uma ansiedade calorosa e vital. Isso valia para os grandes filmes de Bergman, Visconti e tal. Mesmo a expectativa pelo próximo LP de Gil ou Chico ou Caetano ou Egberto Gismonti era um mote social capaz de produzir certo frenesi. Tudo ajustava o mundo a certa ordem e transmitia um temperamento, uma estética e um espírito. Tudo isso, claro, acabou. Não é de hoje. Mas o romance, que de certa forma substituiu a religião, teve sua primazia, e merece um obituário digno (digo isso como um leitor marginal e solitário, que ainda mantém a fé na ficção, mas não é cego). “A cultura  [com o romance] fez algumas de suas mais sérias tentativas de autocompreensão”, no dizer de Joseph Epstein nesta crítica a The Decline of the Novel (O declínio do romance), de Joseph Bottum, publicado por Commentary (em inglês). A era gloriosa do romance vai dos 1800 ao pós-modernismo, diz Bottum. A ficção perdeu seu posto. Perdeu a centralidade na autoconsciência cultural do ocidente. O diabo é que não há nada em seu lugar, na frívola esfera planetária do consumismo…

Museus no mouse
O Estadão resumiu aqui os caminhos pra quem gosta de visitar grandes museus pela internet.



Lygia Clark, 100
O site do Guggenheim de Bilbao, um museu de minha predileção, tem algo sobre a exposição Lygia Clark – A pintura como campo experimental, aberta no começo de março e logo fechada pela emergência sanitária. A obra da artista brasileira nascida no Belo há quase cem anos (em outubro próximo) tem uma permanência e jovialidade que sempre me excitam as ideias.

Lições de Lord Russell
Cativante, contundente, claro, bem-humorado. O filósofo e matemático Bertrand Russell (1872-1970) é um dos maiores cérebros intérpretes do mundo que você pode achar no Youtube, como recomenda The Economist  (texto em português no Estadão). As gravações mencionadas podem ser vistas com legendas em português.

Perguntas do após-peste
O filósofo e professor de Harvard Michael J. Sandel olha pro mundo que surgirá da pandemia e, de forma clara e aguda, faz uma série de perguntas. A economia conseguirá retomar o ritmo insano e vicioso das últimas décadas? A desigualdade mundial se aprofundará? O serviço essencial de trabalhadores mal remunerados, do transporte e da saúde, por exemplo, voltará a ser invisível? A injusta ordem meritocrática encontrará seus limites? Os afortunados da tecnologia manterão sua soberba, indiferentes à destruição que a uberização deixa no caminho do progresso? Aqui, o original em inglês do The New York Times; e ali, a tradução em espanhol do El País.

Vida e morte nos EUA
A escritora inglesa Zadie Smith comenta o sentido da morte e a “culpa dos mortos” pela peste nos EUA. “Talvez não haja outro lugar no mundo onde o dito empenho [em viver mais], e seu êxito relativo, estejam tão claramente vinculado ao dinheiro como nos Estados Unidos”, escreve na revista The New Yorker (em inglês) a autora de Dentes Brancos. Chega-se por este enlace à tradução em espanhol do El País.

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