Jurupoca #23

Uma imagem contendo comida, placar

Descrição gerada automaticamente Belo Horizonte, 15 a 28 de Maio, 2020 — Carta 23




Paul Cézanne: Natureza-morta com maçãs, garrafa e jarro de leite. Museu de Arte de Dallas, Texas (EUA). Foto: domínio público (wikiart.org)
FRUTAS — FERREIRA GULLAR

Sobre a mesa no domingo
(o mar atrás)
duas maçãs e oito bananas num prato de louça
São duas manchas vermelhas e uma faixa amarela
com pintas de verde selvagem:
uma fogueira sólida
acesa no centro do dia.
O fogo é escuro e não cabe hoje nas frutas:
chamas,
as chamas do que está pronto e alimenta
 
Dentro da noite Veloz, Ferreira Gullar (São Luís, MA, 1930 - Rio de Janeiro, 2016), Civilização Brasileira, 1979, pág. 90.

Interior da Capela Rothko, em Houston, Texas, nos EUA. Foto: Cortesia Rothko Chapel.org
 
MADRUGADA — FERREIRA GULLAR

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

(abril 1971)

Dentro da noite Veloz, Ferreira Gullar, Civilização Brasileira, 1979, pág. 67.  

Opa! Vamos apear?

É seis da matina. Faz um frio incomum no Belo. Tenho acordado cedo e dormido mal. Cada pesadelo do tamanho da ameaça que reina no coração dos espíritos livres…

Estamos vivendo fora (ou além) do tempo, na imagem de Ian McEwan neste artigo (em inglês). Vai ver a eternidade seja esta chatice.

Às nove, saiu saio com minha mulher. Vamos comprar uma cadeira pra labuta em casa e depois ao supermercado.

Na entrada do Carrefour, me abaixo pra que a mocinha possa alcançar minha testa e apontar o dispositivo que mede nossa temperatura corporal. Deu 35,2 ºC, ela diz; posso entrar. Até aqui tudo bem.

Em casa, entre descarregar compras e desinfectar a tralha vão-se duas horas.

Cai a tarde de maio. Minha janela descortina o aglomerado da Serra. O azul do céu na primavera vira-se ao carbono nessa hora.

Já dei o almoço por perdido. Mandei meio abacate e um copo de leite. Passei um café novo pra ajustar o espírito.

Banho tomado, barbeado, perfumado, me ponho finalmente a escrever esta carta, com a alma em pandarecos.

Helahoho! helahoho!

No Dia das Mães falamos com o filho por vídeo, na batida da legião planetária acuada pela pandemia. A telinha vai remediando a saudade, a curiosidade e o desejo.

A telinha captura, prende, acossa, aflige e media.

E pensar que nosso Bar Telemático, de que falei na última Ju, é a variação de um mote universal, pauta de pensadores e tema de reportagens. Estamos todos na tela dividida, e divididos pela tela.

Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos. Me ocorrem os primeiros versos de Nosso tempo, de Carlos Drummond de Andrade, poema do livro Rosa do povo (1945). O fundo do poema, seu eco, é a Segunda Guerra Mundial que terminava.

“Mas é um poema que há muito deixou de ser moderno e virou eterno”, argumenta o textinho que abre a recitação de Eucanaã Ferraz na Rádio Batuta. “Traduz qualquer tempo de homens partidos”. Concordo com o Ferraz. Senão, vejamos:

[...]
“Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
[...]
“E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.

[...] Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
 

Este é o tempo da videoconferência — videochat, videopapo, videoplá, videopádaquipádelá.

Pais e filhos, amigos, amantes, funcionários, músicos, temos as imagens captadas pela luz e convertidas em bits, pixels. Somos teletransportados, refeitos nas figuras humanas costumeiras e agrupadas.  

A tela dividida, split screen em inglês, reúne gente separada no espaço e no tempo.

O Zoom, o Zap e outros aplicativos são no momento nossa principal plataforma de sociabilidade.

A pantalla partida, como se fala em espanhol, é o tempo e o espaço da pandemia, diz o filósofo Peter Szendy, um teórico da multiplicação de imagens na vida contemporânea.

O recurso se converteu na nossa porta de acesso ao mundo, na estrutura principal da experiência, comenta o Szendy nesta matéria (em espanhol) do Babelia, escritas por Alex Vicente, com entrevistas, claro, feitas por videochamada.

A tela dividida é de uso antigo no cinema, desde o filme mudo. Depois foi incorporada ao próprio estilo narrativo de diretores como Brian de Palma, em filmes como Carrie – a Estranha (1976).


Antes, atendeu ao conservadorismo sexual de Hollywood.

Na comédia Confidências à Meia-noite (Pillow Talk, 1959), o recato de Doris Day é preservado por hígidas telas separadas nos encontros íntimos com Rock Hudson.

Doris Day e Rock Hudson guardam a tradição e os costumes virtuosos

“Hoje a tela dividida continua a ser utilizada como uma maneira profilática de nos separarmos, ainda que seu uso também reflita uma sede dionisíaca pelo contato com outras pessoas”, acrescenta Szendy.

Sede dionisíaca? Sem dúvida. Dia desses o Telemático esteve aberto até três da madruga. Evoé Baco!  

Então a tela dividida é a versão visual da justaposição de espaço e tempo e da diversidade de perspectiva.

O expediente está nas narrativas do romance em múltiplas vozes ou nos planos repartidos da arte, como vemos nos trípticos flamencos dos séculos XV e XVI, a exemplo deste Hieronymus Bosch no Museu do Prado.

Tríptico del Jardín de las delicias – cortesia Museo Nacional del Prado


A ideia inspirou o cubismo, vive na história em quadrinho e nos videojogos.
Multidão de pessoas

Descrição gerada automaticamente Captura de tela com integrantes da Orquestra Nacional da França durante execução recente do Bolero de Ravel. Reprodução de foto da agência France-Presse.


Com Alceu Valença (São Bento do Uma, PE, 1946 -) em Vou danado pra Catende, dele e Maria Luiza M. G. Ferreira. A música é faixa A1 do disco solo do artista, Molhado de suor (1974), mais exatamente da segunda edição do vinil.

“Pouco depois [do lançamento do LP], classifiquei [a música] no Festival Abertura, da TV Globo”, ele contava em seu site, que vive fora do ar. “Montamos uma banda de pífanos elétrica, com Lula Côrtes (tricórdio), Zé Ramalho (viola), Paulo Rafael e Ivinho (guitarras), Zé da Flauta, entre outros. Por não conseguir enquadrar o som que fazíamos, o júri criou uma categoria de última hora — o prêmio Pesquisa — para nos contemplar.

O disco alcançou uma segunda tiragem com a inclusão desta faixa”. Naquela época de psicodelismos, o Alceu e outros músicos perseguiam um som com ruído universal que partisse do Nordeste, bons alunos que foram da Tropicália.

A letra se refere a uma carta sonora, não escrita, pra certa Delminha, e o canto agalopado se repete no estribilho:

“Eu quero um trem/ Eu preciso de um trem/ Eu vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Com vontade de chegar.”


Sem título (depois de Élisabeth Vigée Le Brun, 2019). O gênero do trabalho da polonesa Ewa Juszkiewicz, nascida em 1984, é tido como surrealismo contemporâneo. A artista toma retratos clássicos femininos, principalmente da pintura flamenga, e altera os rostos com vários tipos de distorção, buquês de flores, insetos, máscaras tribais ou, neste caso, o estranho nó de um lenço branco. O quadro, que esteve na versão novaiorquina da mostra de arte contemporânea Frieze, aberta online por um período, tem por base o Retrato de Madame de la Châtre (1789), de Vigée Le Brun. A figura onírica da Juszkiewicz evoca “feminismo e violência implícita”, no comentário de um crítico de arte do The New York Times. Percebo as alusões a uma atmosfera rarefeita kafkiana, ao feminismo e à violência. Mas este tipo de obra, quanto mais em série, me parece mais artesanato político que arte, como num Banksy ou mesmo Ai Weiwei. A iniciativa desses artistas nasce antes de uma agenda ideológica, no último caso, ou marqueteira e publicitária, no primeiro.


Sou inimigo da vida vivida sem sentido....
Não sou um falso profeta. Só sei o que sei.
Vou apenas onde os solitários podem ir....
Escalei descalço montanhas de espadas....
 

Pesco imagens do caleidoscópio ou assemblage poética que é False Prophet, a nova música de Bob Dylan (78 anos dia 24).


A voz arranhada, defumada e curtida em bourbon fino parece anunciar um balanço, quem sabe um tchau! O registro é lento e elegíaco, quase um canto-falado.

Nosso Nobel de Literatura (2016) segue um cavaleiro solitário, avesso a modas, a paparicar fãs ou a imprensa. Sua arte nunca foi de concessões.

Então manda ver: 

“Não sou um falso profeta/ Não, não sou a noiva de ninguém/  Não recordo quando nasci/ E esqueço quando morri”.
 

A nova canção é um blues no capricho, um tributo à raiz desse gênero eletrificado. 

False Prophet saiu dia 8, com o anúncio, para 19/06, do primeiro álbum de inéditas do bardo judeu romântico de Minnesota desde 2012: Rough and Rowdy Ways.

O CD e vinil duplos terão dez faixas, incluindo as também as já adiantadas Murder Most Foul e I Contain Multitudes, cuja lírica, na opinião do crítico musical Fernando Navarro, é fortemente influenciadas pelo poeta norte-americano Walt Whitman e sua obra Folhas de relva:

“Se, como Harold Bloom escreveu em O cânone ocidental, a originalidade de Walt Whitman ‘tem menos a ver com seu verso supostamente livre do que com sua inventividade mitológica e domínio das figuras retóricas’, no caso de Dylan suas figuras retóricas nestas duas canções estão associadas ao século XX, e sua inventividade mitológica, como seu vocabulário, gira em torno da música popular e de seus heróis pessoais, muitos, mais de 70, citados em Murder Most Foul, mas também […] em I Contain Multitudes.


Com o novo disco de João Bosco, Abricó-de-Macaco! O lançamento, antes previsto para 17 de abril, fora adiado em respeito à doença, seguida pela morte de Aldir Blanc, seu parceiro de vida e obra.

O álbum surge nesta sexta (15) em tocadores como Spotify. O DVD, gravado ano passado, foi apresentado quarta-feira (13) no Canal Brasil. Ouça com atenção, com tempo, com uma bebida ao lado.

Aos 73 anos, João aparenta ter mais um tanque cheio pra viver. É um trabalho aguçado e requintado. Se Abricó-de-Macaco (nome de uma árvore da região amazônica) e Horda são as únicas inéditas (parcerias com o filho Francisco Bosco), João garimpa no próprio repertório músicas que podem ter passado despercebidas pelo grande público, como em Gagabirô e Senhora do Amazonas (dele com Belchior), do mesmo disco de 1994.

O artista traz essas canções  para o presente e se reinventa nas harmonias e na batida, e se aprimora o canto. Seu violão é cada vez mais sincopado e jazzístico, com um trabalho rítmico impressionante nos baixos (cordas graves dos bordões).

Cole os ouvidos por favor nas participações da clarinetista Anat Cohen (pra mim hoje uma das melhores instrumentista do mundo) e do sete cordas fabuloso que é Marcello Gonçalves.

Confira as citações, a riqueza dos medleys em faixas como Forró de Limoeiro (Edgar Ferreira, Recife, PE, 1922 – Recife, 1995).

Curta Pagodespell (João, Chico, Caetano, Oswald de Andrade) e a versão instrumental e afro-abrasileirada de My Favorite Things (Oscar Hammerstein / Richard Rodgers), sucesso do filme A noviça rebelde.

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? Arrp-lai- ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-rihrrrrrr… Ghi

Esta carta defende o impeachment sem lenga-lenga.

Como cidadão, me sinto uma barata prestes a ser esmagada por um coturno quando ouço Sua Excrescência mandar a imprensa calar a boca ou nos trata como imbecis.

Me sinto um prisioneiro político em plena democracia, em prisão domiciliar, sensação ampliada pela quarentena.

Sua expressão hidrófoba é puro xexéu de mangue.

Suas atitudes e omissões políticas matam!

E daí?, é o caso de quem queira se perguntar.

A oposição se cala, ministros do STF pisam em ovos, militares fora do governo respondem com meias-verdades.

Lobista dos empresariado mal disfarçam sua gana de mandar precauções e escrúpulos às favas. Querem a volta da velha normalidade com a Terra em polvorosa, como se isso fosse possível.

Um editorial da Folha inclui o amarelo-golpistas e o verde-ódio na paleta de cores cívicas do Bananão.

Então, leio esta passagem dos diários do colombiano Hector Abad Faciolince, Lo que fue presente, e a grifo. Vai no original:

Estos supuestos patriotas nos han hecho sentir náuseas por la patria. Estos patriotas de mierda nos siguen gobernando.”

Da Arte de Falar Mal Muito Bem:

—  Do escritor, jornalista e crítico de cinema Sérgio Augusto, no Estadão:

“De que trevas afinal vieram essas criaturas que se enrolam no pavilhão nacional e, destilando ódio e ostentando uma ferocidade homicida, agridem jornalistas e até enfermeiras, reverberando desejos trogloditas que ressentimentos incubaram, a ignorância exacerbou e o insano, narcisista e messiânico capitão-presidente não se cansa de insuflar?
 
“Meu palpite é que saíram de lugar nada recomendável, onde, no mínimo, reina a escuridão. Como os Morlocks.
 
“Taí um nome que lhes cai bem. Tem mais pedigree que os black blocs. Inventou-o o britânico H.G. Wells, no romance A máquina do tempo, a mais lida aventura sobre engenhocas que nos levam ao passado e ao futuro. Zumbis antropoides, que se homiziaram debaixo da Terra após uma guerra nuclear que quase destruiu o planeta, os morlocks viviam aterrorizando os Elois, os habitantes da superfície terrestre. As duas adaptações do livro ao cinema respeitaram sua configuração original: medonhas criaturas de aspecto simiesco (Darwin explica), inteiramente cegas (Platão explica) e canibalescas – os vilões da história.
 

Uma imagem contendo pessoa, ao ar livre, homem, placa

Descrição gerada automaticamente Captura de tela de página do jornal Washington Post, que diz: “Multiplicam-se os desafios no Brasil e fãs de Bolsonaro conclamam à tomada militar”, via Toda Mídia, Folha de S.Paulo  
Do jornalista, escritor Mário Sérgio Conti, na Folha:

“Os números sobre a peste são subestimados e suspeitos —exceto o dos mortos, que cresce de modo apavorante. É cada um por si e Messias contra todos. Está certo que ele não é mais lambido por Mouro e Maneta; por Joice Hellmann’s e Janaína del Fuego; por Frotão e Lobinho.
 
“Mas os afagos testiculares da turma são largamente compensados pelo largo —bota largo nisso — derrière de Maia, que [se]  sentou numa pilha de pedidos de impeachment. E a debandada dos palacianos é reequilibrada pela subserviência de Toffoli, estafeta do PT transmutado em rábula de Bozo.
[…]
“Não é verdade que a pandemia tenha feito Bolsonaro alucinar. O lado poltrão e pirado do Cavalão* já era bem conhecido. Mas a Covid-19 fez com que acelerasse o galope rumo ao golpe e escoiceasse adoidado. Sua louca cavalgada tem duas constantes.

“Haverá quem indague onde esteve a oposição a Jair Bolsonaro este tempo todo” — nota a Harazim em O Globo — “como ela evaporou, por que não conseguiu apresentar um mísero plano de contraponto a um governante tão desarticulado, se foi verdade que existiu um ministro da Saúde invisível de nome Nelson Teich”.

Pois, digo eu, Sua Excrescência vem sendo tratado como uma criança deficiente mental supostamente tutelável, e não, como deveria, como psicopata potencialmente homicida.

E tal fato aprofunda nossa característica cíclica de país sem caráter.

A verdade é que ninguém sem formação superior e trato íntimo com contabilidade pública entendeu bem as pedaladas que derrubaram Dilma.

Consegui entender, não sem me esforçar, e apoiei a derrubada. Gosto de crer que cultivo o pensamento “sem corrimão”, na expressão de Hannah Arendt [ver nota do P.S.]. Creio que era o certo naquele contexto.

Mas sua Excrescência não pedala, quê isso! Sua irresponsabilidade anda de moto e jet sky, atropela vivos e passa por cima de milhares de cadáveres. Sem problema isso daí.

Os analistas mais conservadores listam pelo menos uma dúzia de crimes de responsabilidades cometidos por S. Excr., marcados na Constituição como batom na cueca.

Esperar o quê? Uma quartelada?

Impeachment já! Como questão de honra!

 Helahoho! helahoho!


Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é novointervalomusicalign-e1603705691433.jpg

Com Gilberto Gil em Lamento sertanejo, penúltima música do lado B de Refazenda (LP de 1975, da Philips). A canção é dele e Dominguinhos, ou José Domingos de Morais (Garanhuns, PE, 1942 — São Paulo, SP,2013).

Cada dia gosto mais de Gil. Sua humanidade o põe num plano acima de seus iguais. E gosto tanto deste Lamento sertanejo que fiz uma lista com oito de seus muitos registros. Procurei uma variedade de estilos e instrumentação.


Dizer mais o quê?

Termino esta carta com protetores de ouvido, forma que encontramos em casa pra conviver com a interminável obra no laboratório vizinho.

Me resigno ao lembrar do Tom Jobim se queixar de uma obra no apartamento superior ao seu em Nova York. Ele, coitado, ao piano tentando compor e o martelo comendo solto em cima.

Talvez, como o velho José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Márquez em Cem anos de solidão, devesse me amarrar a um castanheiro. E quando alguém quiser saber porque fiz isso, responder, como o patriarca:

“— Hoc est simplicisimun  […] — Porque estou louco.”

Helahoho! helahoho!

Além disso, tuta e meia. Nonada.  


(*) Cavalão era o apelido de Sua Excrescência na escola militar. Está no livro do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, O cadete e o capitão (Todavia, 2019). Narra, com riqueza de detalhes e documentação, o passado inglório de um mau militar, indisciplinado e medíocre. O milico atlético, formado em educação física, amargou duas semanas de cana por ter escrito um artigo na Veja com críticas à política remuneratória das Forças Amadas. Saiu da cadeia como herói da categoria, premiado pela desobediência e noivando com sua daninha carreira política. Em seguida, acusado de planejar a explosão de bombas em quartéis, como forma de protesto contra o general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército do governo de José Sarney, foi investigado e processado. Considerado culpado por um conselho de justificação do Exército (3 x 0), acabou absolvido no Superior Tribunal Militar (9 x 4).   



SOY LOCO POR TI.  Dentro de seu quarto, em quarentena, Gilberto Gil, 77 anos, pega o violão e canta Soy Loco por Ti America, música dele e José Carlos Capinan (Esplanada, BA, 1941 – ). Dever ser, pensei, uma oportuna provocação contra o verde-ódio e o amarelo-golpismo. Caetano Veloso gravou a música pela primeira vez em 1968, no LP da Philips que incluía Alegria, Alegria, Tropicália e Superbacana. A frase correta seria Estoy loco por ti America, reconheceu Caê, que “pautou” e “palpitou na letra”. Homenagear Che Guevara seria hoje imperdoável. Mas vivia-se o Ano do AI-5, e os homi estavam à espreita pra prender e arrebentar. A canção, em portunhol, portanto, é muito maior (e memorável) que o homicida Che. É o que penso e me importa. É o que me faz seguir gostando (e muito) de Pequeña Serenata Diurna, do cubano Silvio Rodríguez, gravada por Chico Buarque (o sax soprano de Netinho embala meus sonhos desde 1978, quando saiu o disco da samambaia). A verdadeira obra de arte pode ser relida e incorporar novos tempos e sensações, novas compreensões. Creio que ocorre isso agora. A letra de Capinan é inteligente e evocativa. Mas o que disse Caetano? 

“Pautei a canção, pedindo que Gil e Capinam fizessem uma homenagem a Guevara e que tivesse essa frase, Soy loco por ti America, que, aliás, vim a saber que é errada em espanhol. Quando Célia Cruz [cantora cubana] foi gravar essa música, na verdade, inicialmente ela se recusou ao saber que era uma homenagem a Che Guevara. Mas, finalmente, quando veio ao Brasil, Célia resolveu gravá-la e mudou para Estoy loco por ti America. Então, acabamos fazendo uma canção em portunhol já na primeira frase, mas, na época, não sabíamos disso. Dei essa frase a Gil e Capinam, pedi que fosse uma homenagem a Guevara e também dei outros palpites na letra. Como na época não podíamos botar o nome dele, já que a Censura iria vetar, usamos a frase el nombre del hombre muerto’. Capinam fez uma coisa maravilhosa a partir de um desejo meu.”

NOIR NÓRDICO. As séries de crime e investigação escandinavas (num sentido amplo) estão entres as melhores do gênero. Pois a Netflix estreou segunda feira (11) a terceira temporada de Bordertown, drama policial finlandês criado por Miikko Oikkonen. A atuação de Ville Virtanen como o cerebral, escrupuloso, engraçado e, principalmente, sistemático detetive Kari Sorjonen vale cada episódio. O contraponto de Kari com a colega russa emigrada Lena Jaakkola, interpretada pela finlandesa Anu Sinisalo, que não é de fazer prisioneiros, funciona muito bem. A direção e atuação do elenco no noir nórdico está em sintonia com o elemento natural, a neve, o frio, a vegetação e atmosfera social. A arquitetura e o design de interiores são um bônus. O ritmo é mais lento e reconfortante, e as falas são pausadas, com silêncios que modulam a ação. Bordertown se passa em uma cidade na fronteira da Finlândia com São Petersburgo, na Rússia. Para um espectador nos trópicos, é uma viagem garantida.



REALIDADE VIRTUAL. A galeria suíça Hauser & Wirth antecipa na rede, em sua nova sede na ilha espanhola de Menorca (a ser inaugurada em 2021), a exposição Beside Itself, com obras de Louise Bourgeois, Jenny Holzer, Roni Horn e Bruce Nauman.

CELEBRAÇÃO. Os episódios, coisa finíssima!, da Komische Oper Berlin, estão programados para ficar no YouTube apenas por um breve período. Aproveite, não perca! Eis o espírito da música (e da cultura) berlinense na sua mais alta expressão. O diretor artístico Barrie Kosky recebe Katharine Mehrling no primeiro programa com três canções de Kurt Weill; no segundo, Alma Sadé canta uma seleção de cinco peças de operetas ídiches. Na Celebrations 3, Kosky traz a cantora e atriz Dagmar Manzel e uma amostra palpitante de canções berlinenses de Oscar Straus, Paul Abraham e Friedrich Hollaender.

UM CAFÉ LÁ EM CASA. Não sei se o programa de Nelson Faria ainda é exibido na TV, mas está no seu canal do YouTube. Faria, violão, guitarrista, arranjados,  um dos maiores instrumentistas brasileiros em atividade, recebe convidados cobras criadas em duos que, esteja você certo, são o que de melhor existe hoje na nossa música. Uma pitada é este encontro com o guitarrista Mateus Asato em Matinê, uma música dos dois. [Sugerido pelo sobrinho Diogo Siúves.]


BERLIM, 1945 E DEPOIS. A cidade alemã preparou uma exposição online interativa (textos em inglês e alemão) pra celebrar os 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial (08/05). Imagens em alta definição e animações situam Berlim, coração da Alemanha nazista, destruída e rendida pelas forças aliadas. Repor esse passado, reconsiderá-lo, é uma oportunidade incomum pra quem conhece e ama esta cidade. A Deutsche Welle Brasil preparou uma página especial sobre a data.

SEM CORRIMÃO. No pensamento de Hannah Arendt “pode-se encontrar repetidamente […] tanto componentes liberais como conservadores e de esquerda, de forma que ela é bem difícil de situar numa ala política”, diz Monika Boll, curadora da exposição sobre a filósofa teuto-americana em cartaz no Museu Histórico Alemão (HDM). A própria Arendt definia sua forma livre de pensar, fundada na verdade factual, como “pensamento sem corrimão”, aduz Boll.  Leia mais nesta reportagem da DW em português.



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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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