Jurupoca #26

BH. 12 a 18 de Junho, 2020 — Carta 26



Encantação pelo riso

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

1910 

Vielimir Khlébnikov (1885-1922), um dos poetas que descobri em minha, há décadas companheira, Nova antologia poesia russa moderna (Brasiliense, 5ª edição, 1987, pág. 81), com traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. Essa aí é do Haroldo. Encantação pelo riso me salva sempre que me desavenho com o riso sem propósito e a sem-gracice de “KKKs” automáticos disparados por aí.



Artemisia Gentileschi (Roma, Itália, 1593 – Nápoles, Itália, 1656) pintou este Suzana e os anciãos aos 17 anos (Coleção Schönborn, Pommersfelden, Alemanha), em 1610. É o primeiro trabalho da artista barroca. Seu o nome deve ser o mais citado quando se fala no anonimato ou esquecimento de grandes mulheres na história da arte. O caso Artemisia tem muito a contar sobre a violência masculina e as disputas em torno de seu legado como mulher e esteta. O pai desejava interná-la num convento, a mantinha longe do ensino artístico e só permitia que ela saísse de casa com um acompanhante. Violentada continuamente pelo homem com quem é obrigada a casar, mais tarde se revela a bigamia do velhaco. No julgamento que  decorrente disso, ela é humilhada e torturada. Sua obra permaneceria nas sombras até o início do século passado. Se o enorme sofrimento que experimentou parece claramente expresso em seus quadros, também é verdade que Artemisia merece ser, antes, admirada pela alta qualidade do trabalho artístico que contemplamos. Mas essa conversa vai longe, como Eliza Apperly discorre com brilho e riqueza de detalhes neste artigo (em inglês) do Aeon. Transformaram Artemisia em ícone barroco do movimento #MeToo, e sua biografia de heroína tardia da causa pode ser mais valorizada pelo feminismo que a própria pintura, o que de fato não deixa de ser mais uma usurpação. Uma obra como Suzana e os anciãos deveria tornar esse debate ocioso. Cada espectador ganhará muito em admirar o quadro com espírito livre e simpatia por uma mulher que segue a nos olhar nos olhos 410 anos depois de ter aplicado a última pincelada na tela. Foto: Wikimedia Commons.

Opa. Vamos apear?

Emanações de enxofre amarelo-palha e de cloro gasoso, amarelo ovo, escapam de cloacas invisíveis. À tarde cinza-esverdeada cobre com seu manto o formigueiro humano aparentemente desnorteado. E a lua?

A lua cheia mais assombra que encanta os olhares atentos. E não há hidroxicloroquina, crucifixo ou bala de prata que possam nos livrar da mandraca.

Certos personagens de O mestre e Margarida, romance do russo Mikhail Bulgákov (1891-1940) estarão a vagar entre nós? Temo que sim.

Na Moscou dos anos 1930, marcada pelas maiores atrocidades de Joseph Stálin, alguém falava no diabo e ele aparecia! Esse livro foi escrito durante 12 anos e só publicado em 1967, já longe da morte de Bulgákov.

Woland, figurão das trevas, se disfarça com requintes, poser que é. Seu staff é formado por Korôviev (01), um sujeito cumprido que enverga fraque e usa um pincenê rachado; um ruivo-ardente de baixa estatura, paletó xadrez e canino à mostra, o faz-tudo Azazello (02), e ainda o enorme gato preto Behemoth (03), bobo da corte satânica, capaz de andar erguido nas duas patas traseiras, falar com desenvoltura e apreciar conhaque.

Quando querem, Woland, 01, 02 e 03 mostram-se distintos e gentis. Mas pessoas começam a desaparecer, sofrem “acidentes” e vão parar em hospitais psiquiátricos.

Moscou vive dias de magia negra, pânico e fúria.

Durante uma amena conversa de praça, Woland prediz a morte por decapitação de um conhecido editor de revista de arte que renegava a existência de Jesus Cristo. Uma hora depois, num acaso providencial, o cidadão cai nos trilhos do bonde e perde a cabeça.

01 testemunhará mais tarde o sinistro. Entre lágrimas e soluços, o pincenê rachado descreverá:

— “Acredite. Um, a cabeça para um lado, dois, a perna direita cortada ao meio, três, a perna esquerda ao meio também! A que ponto os bondes chegaram!

Woland esteve presente aos acontecimentos de Jerusalém na época de Pôncio Pilatos, durante o julgamento de Yeshua.

E a história do procurador romano é a mesma que inspira o romance que arruína o mestre do título, pobre dele, que só podia contar com a devota amante Margarida.

Mesmo inédita, a obra do mestre sem nome começa a ser duramente atacada em jornais e revistas.

O mestre é acusado de “militar pelo velho credo”, e tem a reputação arrasada. Terminará seus dias no hospício, mas no fim, na verdade, depois do fim, contará com os favores de belzebu.

Pilatos, na história do mestre, é atormentado pelas palavras de Yeshua à beira da expiação, “a covardia é a pior das fraquezas humanas”.

Ê, diabo!

Theodor Adorno (1903-1969), a leitora há de se lembrar, é aquele filósofo alemão que, certamente num arranjo mefistofélico, teria se disfarçado de quinto Beatle, conforme revelou ao mundo o nigromante Olavo Carvalho.

Com Lennon e McCartney, Herr Professor, segundo especulações, compusera sucessos como She Loves You, e inclusive sacara o refrão do iê-iê-iê, Sie liebt dich (yeah, yeah, yeah).

Bem, em conferência pronunciada na capital austríaca em 1967, intitulada Aspectos do novo radicalismo de direita, Adorno afirmou que “convicções e ideologias [assumem] seu caráter demoníaco, seu aspecto autenticamente destruidor, no momento exato em que a situação o priva de uma parte de sua substância”, numa referência ao nacionalismo que duvida de si mesmo.

(Vou ao texto do filósofo alemão por meio de um comentário do estudante da USP Daniel Pavan, no blog A Terra É Redonda. A edição em português da conferência sairá em breve pela Unesp.)

Mas, por falar no diabo, creio ter ouvido, e visto!, o grã-rabão Woland entre nós, sem rabo por sinal.

Tinha a cara comprida, os olhos fundos e negros, a cabeleira lilás como a da Baby Consuelo e um sorriso largo e doce.

Intrometeu-se numa live da onipresente e bem-amada Anitta. Quando tomou a palavra, em português encharcado de um sotaque germânico, satanás declarou:

— Pois é, senhorrres… Não ver substância nenhuma porraqui. Como a diabo gostar. Em Brasília eles repetir muito palavras de Evangelista apocalíptico, velho camarrada nosso, “E conhecerreis verdade e verdade vos libertarrá”. Como a diabo gostar. Está parra nós! eu falar pra zerro um e zerro dois. Zerro três não larga da meu pé! Aliás, não parra de dar cabriolas. O verdade vos libertarrá, claro, pra nós, meus querridooos! Pois sim, nós aceitar hospitalidade de país tão marravilhoso, e ficar por muito tempo!

O maligno disse isso e desapareceu em banda larga 5G, depois de testar negativo para o novo coronavírus.

É hora e vez da trupe de Woland? Deus nos livre!

Adorno, na tal palestra, alude a uma franja lunática que sobrevive nas democracias, “um resíduo de incorrigíveis ou malucos, um lunatic fringe, como se diz na América”.

Uma democracia nunca se realiza plenamente, quanto mais, penso, democracias como as latino-americanas, pausadas pelas armas como na ciclotimia da doença maníaco-depressiva.  

Como nos quadros da Cipas que se pregam nas paredes de fábricas, neste ano poderíamos anunciar ao mundo, em nossas embaixadas: “Estamos há 35 anos sem golpe militar!”

Dou a palavra novamente a Adorno:

“Poderíamos, neste sentido, qualificar os movimentos fascistas de feridas, de cicatrizes de uma democracia, que não está ainda, neste momento, totalmente a altura da ideia que ela faz de si mesma”.

Sabe-se que Behemoth aprecia muito as carícias dos que não dormem assombrados pela conspiração comuna do Foro de São Paulo, e tem sonhos de urinar na cama com o complô do vírus chinês.

Já a predição de Korôviev é pelos que odeiam com fervor a imprensa e todos os políticos e juízes. Quanto a Azazello, o cramulhano esteve em passeatas pedindo o golpe. Achou o maior barato. E Woland?

Bem, esse aí foi descansar um pouco. Cedo se sentiu entediado e incumbiu sua turma de tomar providências.

Helahoho! helahoho!

Behemoth, Woland e Korôviev em cena da minissérie russa baseada no livro de Mikhail Bulgákov O mestre e Margarida, e dirigida por Vladimir Bortko. Foto: IMDb

Cana engajado
A violência policial no Brasil é justificada quando se considera que a vítima assassinada, em geral pobres e pretos, merecia morrer. E as famílias das vítimas se desesperam pra tentar provar que seus filhos eram inocentes. Esse atestado da vida nacional é passado por um cana engajado em uma maravilha de causa. Orlando Zaccone é delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro e um do dos fundadores do Movimento Policiais Antifascismo. Sim, existe tal coisa no Brasil! O manifesto nacional do grupo, assinado por 500 agentes de segurança pública, foi lançado dia 5. O fascismo verde-catarrento quer transformar as execuções de inocentes em política de estado. Quem fala outra vez é Zaccone, com outras palavras. Além de orbitar organizações milicianas, a extrema direita seduz as polícias Brasil afora — favorecida pelo estereótipo de esquerda que despreza todo e qualquer força policial (no chavão all cops are bastards dos grupos antifascistas norte-americano). Zaccone foi o delegado responsável pela investigação que resultou na condenação de servidores públicos pelo assassinato do servente de pedreiro Amarildo Dias de Souza, em 2013, na favela da Rocinha.

Longa tradição
A tradição de humilhar, espancar e matar pobres e pretos (“a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade…”), foi reforçada durante a longa ditadura militar, sempre adoçada pela cordialidade dos senhores de engenho e barões da indústria. Um pio separa o sargento boa praça que prende e espanca desfavorecidos em nome da gente fina, e ganha uma cervejinha do empresário bom de papo, do policial que sobe o morro armado de fuzil e manda bala em meninos como João Pedro.

Ecos do Eco
Provocado pelo Fernando Gabeira, fui reler O fascismo eterno, de Umberto Eco (1932-2016). Taí uma leitura (40 minutos) básica nestes dias empesteados e de muito blá-blá-blá. Pode iluminar uma alma sufocada. Antes de entrar no assunto, Eco nos diz que aprendeu cedo que liberdade de opinião (libertà di parola; a tradução emprega “liberdade de palavra”, expressão inusual em português) significa “libertar-se da retórica”. O professor também ensina que não é razoável esperar que governos fascistas, em circunstâncias históricas diversas, retornem com a mesma cara. O fascismo italiano de Mussolini é um totalitarismo fuzzy, caracteriza, ou seja, “esfumado”, “impreciso”, “confuso”, “desfocado”, nas traduções oferecidas pela tradutora (Record, 2018). E inimitável. O texto passa então a caracterizar os elementos do Ur-Fascismo ou fascismo eterno. A presença de apenas um desses elementos, nas palavras de Eco, é suficiente pra que se “forme uma nebulosa fascista”. Mas pra falar desses elementos preciso de outra nota.

Invidia penis
Na nebulosa fascista não deve existir “avanço do saber”; a verdade já está dada e ponto, só nos cabe interpretar suas mensagens obscuras. Esse tradicionalismo recusa a modernidade, é anti-iluminista e irracionalista, ainda que pé-de-chinelo. Deve-se agir duas vezes antes de pensar, como no Bom Conselho invertido de Chico Buarque — esse é outro elemento da nebulosa: o culto à ação. Por essas e outras, a cultura será sempre suspeita por alimentar o pensamento crítico, donde a célebre tirada de Goebbels: “Quando ouço falar em cultura, saco meu revólver”.  No Ur-Fascismo, desacordo é traição, não tem conversa. Classes médias frustradas, humilhadas pela política e a economia são presas dóceis do fascismo eterno. A riqueza ostensiva, a preocupação com o ganho dos outros e a força do inimigo perturbam essas facções. A obsessão pela conspiração, contra inimigos internos e externos, nasce do nacionalismo, a única identificação daqueles que se veem desprovidos de qualquer identidade social. No Ur-fascismo não há “luta pela vida”, mas “vida pela luta”. A vida é uma guerra permanente. Chega-se a cultuar a Indesejada das gentes (como no mote dos falangistas espanhóis: ¡Viva la muerte!”), frequentemente a morte dos outros, e desprezam-se os fracos. O fascismo eterno transfere suas fraquezas, sua incapacidade de jogar, pois não é fácil impor seu programa, pra questões sexuais. Na nebulosa fascista todos são muito machos. Desdenham-se as mulheres, e hábitos sexuais “não conformistas” como o homossexualismo são repudiados. As armas são seu “Ersatz [substituto] fálico: seus jogos de guerra se devem a uma invidia penis permanente.” Por fim, o Ur-Fascismo se alimenta de um “populismo qualitativo” quando se opõe aos “pútridos parlamentares”. Direitos individuais não são reconhecidos, mas o “povo é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”.

Fala, Felipe 
Eco viveu o suficiente pra ver que em nossa era o “populismo qualitativo” iria se espraiar via internet, em busca da necessária resposta emocional de que necessita. As eleições de 2018 no Brasil confirmaram em cheio a antevisão do autor de O nome da rosa. O pleito foi terrivelmente animado por emoções negativas, que muitas vezes são as que mais contam numa campanha eleitoral, como ensina a ciência política. Além da justa aversão ao PT, a franja lunática de que fala Adorno, tal marginália, aproveitou a janela de oportunidades escancarada pela novas tecnologias de comunicação. O guru youtubeiro e empresário Felipe Neto deu à Folha uma ótima entrevista a respeito. Felipe, que parece ter se recueprado de uma temporada no inferno nas milícias digitais de ¡.38!, mostra como o ódio é o combustível premium dos conteúdos virais. O redator da Folha tirou o título da entrevista de uma boa frase do guru, “o gabinete do ódio tem a inteligência de uma geladeira frost free”. Mas essa inteligência precária realiza prodígios. Eis o melhor trecho da conversa:

Como você analisa as estratégias digitais do bolsonarismo?
A estratégia é simples, mas extremamente eficaz. Foi ensinada a eles pelo Steve Bannon e seus assistentes, o que faz muita gente imaginar uma gigantesca teia de hackers e especialistas trabalhando 24 horas por dia em salas mal iluminadas no subterrâneo de um solo russo.

A realidade é que a estratégia é simplesmente esta: milhares de grupos de Whatsapp e Telegram comandados por funcionários que trabalham para comandar os grupos.

Esses grupos são compostos por centenas de apoiadores, cooptados “soldados digitais”, e cada um deve ter uma ou múltiplas contas de Twitter e Facebook. É a partir desses grupos que eles criam todas as notícias falsas, normalmente em sites que se denominam “imprensa de verdade”, e espalham os links compulsivamente. É também lá que eles criam as hashtags e ensinam os “soldados” a tuitar. É também lá que sincronizam os ataques para tentar destruir a reputação de opositores, espalhando vídeos falsos, montagens ou hashtags de silenciamento. Isso é o que chamamos de gabinete do ódio. Tudo que nasce ali se espalha rapidamente em todas as redes sociais.

Contudo, além disso, há também a estratégia de comunicação do presidente e seus ministros de fomentar o caos o tempo inteiro. Por meio da polarização constante e da ideia de estarmos numa guerra contra o comunismo, eles conseguem deixar seu séquito de admiradores sempre com medo e motivados para a batalha.

Por que essas táticas são tão efetivas?
Porque são trabalhadas em cima de conteúdo viral que motiva o ódio. Em vez de o gabinete do ódio tentar mostrar medidas positivas e efetivas do bolsonarismo, eles operam pra tentar destruir tudo o que se opõe a eles. […]

Fascismo tabajara
Bandeiras da Ucrânia tremulam em manifestações dominicais pró-¡.38!. O presidente-Taurus quer “privatizar o golpe” armando a população, nas palavras de Celso Rocha de Barros. A trupe macabra investe na guerra civil, já que as Forças Armadas dificilmente entrariam na canoa furada de outra “revolução”, na opinião do colunista da Folha. Uma dúzia de doidos marcha de tocha acesa e máscara de bandido contra o STF, a brincar de KKK (Ku Klux Klan). São a mais alta laia do fascismo tabajara, expressão atribuída ao cientista político Luiz Werneck Viana pelo Gabeira. Entram no mesmo pote, no país governado por um Trump Tropical, na alcunha do jornal Financial Times, as abstrusas pedaladas sanitárias, como Thomás de Barros, professor brasileiro de teoria política em Paris, definiu a manobra de ¡.38! pra tentar torturar os números de mortos da Covid-19 até que eles confessassem o que governo desejava. É que ¡.38! “vive em negação e parece acreditar ser possível, na era da informação, praticar censura canhestra ao estilo da ditadura militar que tanto incensa”, no desenho exato de editorial da Folha.

Matemos o luar!
O futurismo amava os automóveis, as usinas de aço e a guerra. Marinetti, lembra Eco, declarava que um carro era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria até matar o luar! Fernando Pessoa, por acaso, foi um admirador de Marinetti. Mas o fato é que o luar, coitado, voltou a ser acossado pela nova corrida espacial e pelos futuristas de hoje, esses escravos da uniformidade tecnológica, encantados com a beleza da engenharia genética que, cedo ou tarde, forjará uma humanidade mais sã, inteligente, bonita e, quem sabe, no gozo da vida eterna!


Com João Gilberto (Juazeiro, BA, 1931-Rio de Janeiro, RJ, 2019) em Louco (Ela é seu mundo) de Wilson Batista (Campos dos Goytacazes, RJ, 1913-Rio de Janeiro, RJ, 1968) e Henrique de Almeida (Rio de Janeiro, RJ, 1917-São  Paulo, SP, 1985).

Há várias gravações desse samba, como a Zezé Motta ou a de João Nogueira, mas nada se compara a sua reinvenção por João Gilberto.

Digo que João descobriu a verdadeira música que antes e depois deles outros intérpretes não viram. Ouça, por comparação, como Aracy de Almeida o registrava em 1946, ou Elza Soares, em 1967.

O violão de João, ao cadenciar e enfatizar a levada triste da melodia, dá uma dimensão nova e trágica a uma letra singela sobre um homem que perde a mulher amada e o chão. Isso não cabe num samba rasgado ou num samba tradicional.

A lírica entre voz e instrumento torna a composição uma obra prima, digna do mais belo lieder de Schumann.

Escolhi a faixa que aparece no CD Live in Tokyo, álbum da Universal lançado em 2004, que pede para ser ouvido na íntegra quantas vezes pudermos.

Louco

Louco, pelas ruas ele andava
O coitado chorava
Transformou-se até num vagabundo
Louco, para ele a vida não valia nada
Para ele a mulher amada
Era seu mundo

Conselhos eu lhe dei
Para ele se aquecer
Aquele falso amor
Ele se convenceu
Que ela nunca mereceu
Nem reparou
Sua grande dor
Que louco!

Indústria da fofoca
A Ilustrada, caderno ex-cultura da Folha, já velha caroneira da “indústria da fofoca” na era da internet, deu com destaque a história do barraco entre a cantora Anitta e o biógrafo dela, o blogueiro Leo Dias. “É um filão da imprensa que atinge grande audiência e que não pode ser desprezado na contabilidade”, a matéria confessa. “Quase todos os portais e redes de TV têm suas colunas e programas que tratam, bem ou mal, desse assunto”, informa. Deveras. Tanto Folha quanto sua nave-mãe, o portal UOL, mantêm vários desses espaços, não é? Filão da imprensa é uma expressão débil. A indústria da fofoca é o veio mais rico da mina de ouro da informação caça-clique, monitorada pelo Google e agências de publicidade.

Uma manchete de ex-cultura na Folha vale quantos cliques? Cartas para a redação da Jurupoca


Vocês querem bacalhau?
Claro, posso te ouvir me contestar, mas não é isso o que os leitores querem, fazer quê? Sim, è vero. Mas tempos houve em que os melhores jornais e editorias de cultura no Brasil não se pautavam tão despudorada e acriticamente pelo gosto uniforme, popular dominante, ontem das massas, hoje do ditame politicamente correto e do campeonato permanente de fúria e banalidade jogado nas redes sociais. É o equivalente atual ao pregão do Velho Guerreiro, “vocês querem bacalhau?”, ele berrava, antes de despachar o pescado na plateia. Muito mais gente que na época de Chacrinha segue a tomar bacalhoadas na cara. A melhor imprensa do mundo pelo menos ainda tenta se dar ao respeito, mirar o longo prazo e valorizar a inteligência do leitor, em vez de ceder a apelos por mais fofoca, culinária e pornografia. Formar e educar pra além do entretenimento ralo, ainda é ou deveria ser papel da imprensa e do jornalismo cultural. Mas, helahoho! helahoho!

Adorno e as estátuas derrubadas
De certa forma, nossa era realiza as críticas de Adorno, por falar nele, à indústria cultural. Ele previu que o entretenimento efêmero e vazio acabaria por anestesiar o pensamento crítico, e isso representaria uma ameaça à democracia. Os jovens, ligados em jogos, humor e na internet, se desinteressaram por política e eleições. O espectro do fanatismo, que vai de Trump ao radicalismo de esquerda contra a liberdade de expressão, surgiu daí. Agora começam a derrubar estátuas politicamente incorretas. Tenho cá pra mim que todo esse revisionismo histórico é um sintoma da incultura e da descrença geral na política.

Patafísica
Mas de que falo? Tonterias, como ele me diria. Aos 83 anos, o dramaturgo, cineasta, ensaísta e não sei mais o que Fernando Arrabal, criador da Patafísica, espécie de braço do surrealismo, segue muito mais lúcido que o rezingueiro que vos escreve. Arrabal vive há décadas em Paris, mas deu em Madri uma entrevista deliciosa ao site espanhol Jot Down. Reclama de falta de dinheiro, por isso não volta a viver na Espanha, como ainda sonha. Lembra que nenhum escritor, dramaturgo ou poeta entra na lista das pessoas mais influentes da revista Time. Oprah, que ele diz que não sabia quem era, tem seu lugar garantido entra ano sai ano. Sobre o mau estado da cultura, num mundo dominado por TV, internet e jogos eletrônicos, pontua que desde a época dos gregos ou, na Espanha, de Quevedo, se reclama da incultura geral e do desinteresse das pessoas pelas artes. Parafraseia Quevedo: “Miré los muros de la patria mía… y no vio nada más que mierda”. Isso na época de Góngora, Cervantes e Tirso de Molina, caçoa. E seguimos assim. “Ando na rua e pergunto às pessoas, você conhece algo de Shakespeares? Na Espanha, todo mundo a quem pergunto me responde: Sim, vi Romeu e Julieta, de Cantinflas.”

Sonho pós-humano
Escrevendo de Veneza pra revista mexicana Letras Libres, o poeta e ensaísta Massimo Rizzante é um desses cronistas enfezados que se fazem cada vez mais raros. Diz que burocratas, escritores e cientistas não foram capazes de tirar da peste nenhuma lição. A oportunidade história de frear o ritmo global e a destruição da natureza, com a mudança da economia, vai por água abaixo, lamenta. “Não creio que ninguém com um mínimo sensibilidade necessite de nenhuma pandemia para entender que a única religião que nos ficou é a do progresso técnico-científico”, descasca Rizzante. Um incomodado esse moço nem tão moço. Vai pelos 56 anos. O sentimento humanitário convertido em propaganda é puro kitsch, ele tasca, a rir das lágrimas que a solidariedade derrama na pandemia nos comerciais de bancos. Seu texto começa por situar que Hiroshima destruiu de vez o sonho humanitário e deu lugar ao sonho pós-humano. “De fato, depois de Hiroshima o homem pôde comprovar o poder de sua conspiração contra toda forma humana e contra toda forma de vida.”




Universitas?
O Estado da Arte (Estadão) traduziu uma conferência de George Steiner (1929-2020) proferida em 2013 no Nexus Instituut, com esse título aí. Já velhinho, o grande mestre explora o moderno status da universidade, a ascendência da ciência e o ocaso das chamadas humanidades. O vídeo com a apresentação de Steiner, em inglês, está ao pé da página. |
Mrs. Dalloway. Saiu nova tradução da obra prima de Virginia Woolf, por Thais Paiva e Stephanie Fernandes, pela Editora Autofágica. |
Arrasta-pé. Arraiá de Geraldo Azevedo é o novo e bom disco do artista, álbum com o registro do show apresentado no Circo Voador, no Rio, em julho de 2019. Leia aqui a crítica de Mauro Ferreira em seu blog no G1 |


Não esqueça do que você quer. A mensagem está em uma linda e terna canção, de puro amor materno que Fernanda Takai destila em Não esqueça, do compositor gaúcho Nico Nicolaiewsky (1957–2014). É a segunda amostra do quarto álbum solo da artista, previsto para julho pela gravadora Deck. |


Celebrations 5. Está no YouTube mais um miniconcerto da Komische Opera de Berlin. Barrie Kosky, pianista e diretor da instituição, recebe a soprano Nicole Chevalier. |


JURUPOCA, O AUTOR
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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


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