Jurupoca #27

BH. 19 a 25 de Junho, 2020 — Carta 27


Départ

Assez vu. La vision s’est rencontrée à tous les airs.
Assez eu. Rumeurs des villes, le soir, et au soleil, et toujours.

Assez connu. Les arrêts de la vie. – O Rumeurs et Visions!
Départ dans l’affection et le bruit neufs!


Partida

Farto de ver. A visão que se reencontra em toda parte.
Farto de ter. O ruído das cidades, à noite, e ao sol, e sempre.
Farto de saber. As paradas da vida. — Ó Ruídos e Visões!
Partir para afetos e rumores novos!

Arthur Rimbaud (1854-1891) – Prosa poética, Iluminações (1886), tradução Ivo Barroso (Ervália, MG, 1929), Topbooks, 1998, pág. 225. Diz a nota explicativa de Barroso no livro, em comentário que traduz o rigor de seu trabalho: “O poder de síntese de R. levado ao seu máximo de concentração. O poeta, em sua anáfora, utiliza uma sequência de verbos no particípio passado (assez vu, assez eu, assez connu), os primeiros monossilábicos, o terceiro dissílabo, apoiados sob o mesmo som (rima). Para obter efeito semelhante, usamos os verbos no infinitivo antecedido de preposição (farto de ver, farto de ter, farto de saber). A tradução de assez por demais ou demasiado seria forçada, já que a tais expressões corresponde a francesa trop. Uma tradução mais literal, que não se preocupasse em manter todos os efeitos, seria “já vi bastante, já tive [o] bastante, já soube [ou conheci o] bastante”. Como curiosidade, eis uma versão do poema inglês, em tradução do poeta norte-americano John Ashbery (1927-2017):

Departure

Enough seen. The vision has been encountered in all skies.
Enough had. Sounds of cities, in the evening, and in sunlight, and always.
Enough known. The stations of life. — O Sounds and Visions!
Departure amid new noise and affection!

Alô!

O número zero desta Jurupoca, em que se explicava a que vinha, foi expedido em 19 de junho de 2019. Faz um ano de vida nesta sexta-feira, portanto. Helahoho! helahoho!

Espero que o leitor mais constante da carta tenha razões pra saudar seu primeiro aniversário.

A Ju segue a acreditar que, cedo ou tarde, poderá se manter com o suporte dos leitores em condições de contribuir com sua permanência.

As cartas demandam semanalmente leituras, anotações, audições de música e sessões de filmes e vídeos.

Demandam pesquisa e concentração. E custam assinaturas de vários jornais, plataformas de streaming e aquisição de livros, além de horas e horas de trabalho diário, fins de semana na jogada.

Agradeço de coração quem reconhece isso e incentiva a produção do boletim com a doação regular de uma quantia, de quanto e quando se possa dispor, ou envia seu comentário.

Cada doação e cada palavra que chegam atiçam a disposição deste testarudo de tentar, a cada novo número, fazer uma Jurupoca mais interessante.

Assim, estamos combinados. S’imbora pro segundo ano da publicação!

A você, minha leitora, meu leitor, um abraço muito agradecido,

Antônio Siúves


Este El Greco (Domenikos Theotokopoulos – 1540/41–1614), Retrato de um cardeal, provavelmente Don Fernando Niño de Guevara (1541–1609), foi pintado por volta de 1600. O religioso espanhol “tornou-se cardeal em 1596, alcançando o posto de Inquisidor Geral. Guevara esteve em Toledo entre fevereiro e março de 1600, e depois retornou em 1601 e 1604; El Greco, que vivia em Toledo, deve ter feito o retrato em uma dessas ocasiões”, informa o site do Museu Metropolitano de Nova York. Quase 400 anos depois das pincelas de El Greco, em outubro de 1997, deparei-me com seu retrato no MET e o achei, o Inquisidor, mais vivo do que nunca. Fiquei atordoado com seu olhar frio e poderoso a me encarar. Me impressionou tanto que me tornei um aficionado do pintor, da dinâmica trágica de seus quadros, de sua inquietante visão dos céus e da santidade, e sobretudo de suas cores faiscantes e formas acidentadas, tão singulares na história da arte.    

Opa. Vamos apear?

Nem os ipês-rosa, que desde maio tornam o Belo muito mais vivível, pude apreciar.

Saímos à rua cheios de cuidados e medos. Notei um sabiá-laranjeira dia desses, é verdade, a saltitar à minha frente. E mais nada.

Mas então disse-me o pássaro-preto pousado em meus umbrais, em 2020 nunca mais! Estarei atento à volta dos ipês-amarelos, que todo ano me pregam uma peça.



Na terça (16), não esqueci o Dia de Bloom, Bloomsday. Enfileirei copos com quatro doses generosas do irlandês Jameson. Uma pro Joyce, uma pra Nora Barnacle, uma pro Poldy — senhor Leopoldo Bloom na intimidade — e outra, claro, pra mim, pertinaz oficiante solitário em meu quadrado.

Falo do Ulisses, livro que corre como rio e se incorpora às cidades, na paisagem das nossas almas. O Bloomsday é celebrado em Dublin e no mundo todo (o Rio de Janeiro aparece já nas primeiras cenas neste vídeo) a 16 de junho.



A data em que transcorrem os eventos do romance, 16/06/1904, foi o dia em que JJ e Nora começaram a namorar.

Singelamente, reli, por sugestão dos organizadores do Bloomsday 2020 em São Paulo (o clipe inicial aí do vídeo com cenas de filmes baseado na obra de Joyce é delicioso) uma passagem do sexto episódio, Hades.



Bloom, no cemitério pro enterro dum amigo, como o herói homérico desce ao reino dos mortos. Neste fragmento ele questiona a noção de juízo final.

“O senhor Kernan disse com solenidade: — Eu sou a ressurreição e a vida. Isto toca o mais fundo do coração de um homem. — Toca mesmo, o senhor Bloom disse. O teu coração quem sabe mas de que é que vale pro camarada a sete palmos comendo grama pela raiz? Não tem como tocar aquele ali. Sede dos afetos. Coração partido. Uma bomba afinal, bombeando milhares de galões de sangue todo dia. Um belo dia trava e lá se vai você. Um monte deles jogados por aqui: pulmões, corações, fígados. Bombas velhas enferrujadas: que se dane o resto. A ressurreição e a vida. Morreu está morto. Aquela coisa do juízo final. Arrancando eles todos da cova. Adianta-te, Lázaro! E ele atrasou e perdeu o emprego. Acordem! Juízo final! E aí cada um fuçando atrás do fígado e das vistas e do resto dos pertences. E o danado tem que se achar inteirinho naquela manhã. Um pêni de pó cada crânio. Doze grãos em um pêni. Medida antiga, sistema Troy.

Joyce, James. Ulysses. Tradução Caetano W. Galindo Penguin-Companhia.”


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

“As instituições estão funcionando e a democracia está consolidada no país –  George Orwell”
— Meme citado por Fernando de Barros e Silva na revista Piauí deste mês

“O Brasil já é uma democracia sob supervisão militar”, definiu essa semana Yascha Mounk, autor do ótimo O povo contra a democracia e colunista da Folha, creditando a frase a um colega acadêmico.  

Yascha nos olha de fora — é professor na Universidade John Hopkins, nos EUA —, e nos compara às rãs da história, que não percebem quando a água começa a ferver. “Mais ou menos da mesma maneira, a população brasileira não tomou consciência da extensão em que a possibilidade de ruptura democrática hoje molda a política brasileira”, observa.

No Estadão, Rosângela Bittar, colunista favorita política favorita desta Ju, diz que devemos levar a sério a tal entrevista do general Ramos à Veja.

“[…] a cisão pode estar por trás do intenso trânsito na política dos generais e coronéis da reserva, das três Forças”, anota a jornalista.

“Ramos deu a senha que faltava. Disse que ex-alunos seus estão atualmente no comando de unidades do Exército. ‘Eles têm tropas nas mãos’, avisou”, alerta a colunista.

“Ou seja, que fique clara sua ascendência (de Ramos e, portanto, de B…) sobre eles (alunos) e elas (tropas). Pode-se inferir que quis, com isso, evidenciar o poder de vencer a resistência dos comandantes a atuar na política”, continua a Bittar.

Que “centenas de milhares de brasileiros provavelmente vão morrer desnecessariamente devido à reação caótica e incompetente do governo à Covid-19”, constata Mounk, parece agora apenas reforçar as intenções golpistas.

A quartelada é a única saída para a sobrevivência do governo de ¡.38!”

Pois na quarta (17), que nem era de Cinzas, ¡.38! declarou no cercadinho do Planalto: “Está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar.”

E ontem prenderam o faz-tudo Queiroz, encafuado no sítio do advogado chegadão. E agora?

Infelizmente, está carta não tem prontas cenas dos próximos capítulos para exibir, amável leitor, mas espera que justiça seja feita, e que o pior não aconteça.


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Entrevista com Borges
É bom evitar algumas palavras, sugere Jorge Luis Borges (1899-1986) ao se referir a um dos ditadores que deslustraram a história argentina. Saiu no El Pais sua entrevista a Mario Vargas Llosa (1936-) feita 1981, que era mantinha inédita e integra o livro Medio siglo con Borges (Meio século com Borges), lançado agora pela Alfaguara. Bom conselho esse de evitar certas palavras. Spike Lee chama o presidente Trump de Agente Laranja, que é quase tão bom quanto Topete Atômico, modéstia à parte. A conversa entre os dois autores é divertida. Llosa nota que não havia nenhum livro de Borges ou sobre Borges nas estantes do apartamento de seu anfitrião, em Buenos Aires. “Tenho muito cuidado com minha biblioteca. Quem sou eu para me ombrear com Schopenhauer…”, devolveu-lhe o autor do Aleph. Um trechinho do papo:

“MVLL. …uma coisa que lhe perguntei [em outro encontro, realizado em Paris quase 25 anos antes] foi o que opina da política, e o senhor sabe o que me respondeu? “É uma das formas do tédio”.
JLB. Ah, bom, está bem.

MVLL. É uma bonita resposta e não sei se a repetiria agora: continua pensando que é uma das formas do tédio?

JLB. Bom, eu diria que a palavra tédio é um pouco dócil. Em todo caso, chateação, digamos. Tédio é muito… É um understatement (eufemismo)…

MVLL. Há algum político contemporâneo que o senhor admira, que respeita?
JLB. Eu não sei se é possível admirar políticos, pessoas que se dedicam a concordar, a subornar, a sorrir, a se fazer retratar e, os senhores me desculpem, a ser populares…

Desconcerto
Borges, ferrenho antiperonista que era, deu declarações “desconcertantes”, pra usar a expressão de Llosa, sobre a Junta Militar que governava seu país naquela quadra. Depois se torna opositor ao regime. Os dois escritores concordam sobre as desgraças do nacionalismo e da guerra.

Ser outra pessoa
Sempre me chocou que alguém possa querer ser outra pessoa, ainda que infeliz como um vira-lata ferido a vagar pelas ruas. Me soa como oximoro existencial. Pensei nisso nesta outra passagem da conversa de Llosa com Borges:

MVLL. O senhor está contente com o destino de Borges.
JLB. Não, não estou contente, mas sei que com outro destino seria outra pessoa. E como diz Spinoza, “cada coisa requer a solidão de seu ser”. Eu insisto em ser Borges, não sei por quê.

MVLL. Lembro de uma frase sua: “Muitas coisas li e poucas vivi”, que por um lado é muito bonita e por outro parece nostálgica…
JLB. Muito triste.

MVLL. Parece que o senhor a deplora.
JLB. Eu escrevi isso quando tinha trinta anos e não me dava conta de que ler também é uma forma de viver.

Llosa observa que seu anfitrião vivia numa apartamento modesto, espartano, quase como um monge. Borges responde que o luxo lhe parecia uma vulgaridade, e que o dinheiro lhe atendia na vida no que contava, livros, viagens e a possibilidade de escrever.

Jaula de ferro
Também no El País, uma beleza de artigo do cientista político e professor Fernando Vallespín sobre Max Weber, publicado no domingo, 14, centenário de morte do escritor alemão, autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo. Vallespín se detém nas consequência de um mundo há muito ordenado pela ciência, e que impõe o aparato social burocrático e hierárquico organizado por especialistas. “Um mundo construído a partir de uma racionalidade instrumental abstrata e distante poderá nos garantir a eficiência, e não o sentido da vida”, anota. “O resultado é a alienação do mundo, e esta nos conduz ao conformismo. Dentro desta ‘jaula de ferro’ a liberdade perde sua dimensão de autonomia e se transforma em rotina.”

Liberdade, liberdade
E ainda no jornal espanhol, Juan Luis Cebrián, seu cofundador e editor-chefe, resenha como se deve a reedição na Espanha de El mal – O el drama de la libertad, obra inédita no Brasil do filósofo alemão Rüdiger Safranski, autor de biografias de Nietzsche, Heidegger e Schopenhauer, estas sim traduzidas em português. Lançado originalmente 20 anos atrás, o ensaio analisa ideias de Hannah Arendt, Isaiah Berlin e Charles Taylor sobre o tema. Cebrián diz ter ouvido certa vez de Safranski que a especulação filosófica é mais divertida que os programas de entretenimento. “Depois de ler este livro não cabe a menor dúvida a respeito”, recomenda. Eis um trechinho:

“Safranski conclui sua meditação propondo uma questão maior sobre isso [a repressão em nome da vontade geral com as redes sociais e os avanços tecnológicos]: a civilização técnica nos põe em contato com ‘forças que estão além do nosso poder de disposição’. ‘Se as estruturas e a lógica do sistema nos determinam, se converterão em uma espécie de sagrado, em um âmbito a um tempo racional e misterioso. Atuam através de nós, mas já não somos seus donos’. Me pergunto então se depois de decretar a morte de Deus decretaremos também a do nosso livre arbítrio, o entregando aos algoritmos.”
 


Com Marcello Gonçalves (Rio de Janeiro, RJ, 1972-) e Anat Cohen (Telavive, Israel, 1979) no showroom do Buffet Crampon em Paris. O violonista brasileiro sete cordas e a clarinetista israelense, moça que domina como poucos estrangeiros nossa música (há tempos ela frequenta chorões e sambistas nos bares da Lapa carioca), deram um pocket show na sede do fabricante francês de instrumentos de sopro e, por excelência, de clarinetas. Era outubro de 2017. O repertório traz quase na íntegra o álbum Outra Coisa, que os dois haviam lançado em 2016 pela norte-americana Anzic Records. Seu carro-chefe é a série Coisas, do maestro, compositor e toca tudo Moacir Santos (Serra Talhada, PE, 1926 – Pasadena, CA, EUA, 2006), com transcrições e arranjos de Marcello. Pude ver a dupla no Teatro Bradesco, em BH. E que noite. Falei disso na Ju#04. Logo, me alegrou pacas encontrar agora o espetáculo disponível no YouTube — este inesgotável repositório de música e memória e o que mais você procurar, até youtubeiros extremistas. Se não puder ver o recital agora, na íntegra, salte por favor aos 29 minutos e tantos, e veja e ouça Até pensei, de Chico Buarque. Já na primeira nota Anat pega o curso mais fundo da melodia, quase uma canção de ninar, demarcada pelo violão polifônico de Marcello. Os dois tocaram no belo disco do português António Zambujo dedicado a Chico.


Machado no mundo
A nova edição em inglês de Memórias póstumas de Brás Cubas é um fenômeno. Traduzida pela escritora brasilianista Flora Thomson-DeVeaux e lançada pelo selo Clássicos da Penguin, a maior editora do mundo, a publicação em brochura de The Posthumous Memoirs of Brás Cubas esgotou nos primeiros dias de vendas. O prefácio do escritor Dave Eggers havia saído na The New Yorker, a revistas das revistas de cultura, o que certamente ajudou. Eggers saúda a “redescoberta de um dos livros mais inteligentes já escritos” e diz mais:

“É um presente glorioso para o mundo, porque brilha, porque canta, porque é muito engraçado e consegue capturar o tom inimitável de Machado, ao mesmo tempo mordaz e melancólico, autodilacerante e romântico.” 

[Trecho traduzido no artigo A gestação do menino diabo, de Flora Thomson-DeVeaux, na Piauí deste mês]

Machado no Brasil
Era ainda madruga quando toquei o podcast Expresso Ilustrada, produzido pela Folha. O programa tratava da nova edição em inglês do Memórias póstumas. Trazia uma palinha de Thomson-DeVeaux, pra então começar a bulir com a questão racial, que não deixa o Bruxo do Cosme Velho descansar em paz. Machado, realmente branqueado por seus contemporâneos, ele próprio se via ou não como homem negro? Condenava ou não a escravidão? O autor do Memorial de Aires teria deveras, como alguns apontam, sido uma alienado, um “isentão”?, no falar do apresentador do podcast. Tremi nas bases, mas logo me acalmei ao notar que o objetivo do episódio era contradizer sem dubiedades tal conversa fiada.

“Isentão”
Pra isso o Expresso Ilustrada convidou Eduardo Assis Duarte, professor de literatura da UFMG e autor de Machado de Assis afrodescendente, que acaba de ganhar nova edição da editora Malê. O livro reúne ensaios do autor e uma antologia de textos machadianos, entre crônicas, poemas e passagens da ficção. O conjunto torna mesquinha a história — com seu anacronismo medonho ainda por cima — que Machado viveu e escreveu longe das misérias de seu povo, pra encobrir seu tom de pele, e subjugado pela oligarquia branca. Eduardo começa elegantemente por liquidar com a “deselegância” do termo “isentão”, e acaba por desmontar a tese ou o desvario, por todos os méritos, racista, dos patrulheiros da história sem noção. Ele traz exemplos, indica textos e, melhor de tudo, lembra ao distinto público que a sofisticação de Joaquim Maria de Machado de Assis ainda não é lá bem compreendia, ou, quem sabe, digo eu, sequer aceita.

Ironista
Machado soube lidar com seu tempo e suas circunstâncias, e nos deixou um legado maravilhoso sobre a vida brasileira no final do século 19, por meio de uma “poética da dissimulação”, conforme Eduardo. Por óbvio, não foi um abolicionista panfletário. Mas um artista genial, capaz de, com magistral uso da ironia, sutileza e finesse, transpor em palavras o panorama social estéril, paralisante e cruel de “um sistema produtivo que as elites brasileiras tanto fizeram pra amenizar”, como escreve Eduardo de Assis Duarte.

Heróis em preto e branco
Eduardo lembra que durante uma palestra pra líderes do movimento negro foi questionado por um assistente: “Mas, professor, onde estão os heróis negros de Machado?”. Ele respondeu com outra pergunta: “Mas onde estão os heróis brancos de Machado?”. Helahoho! helahoho! Pro leitor dedicado e amoroso de Machado, uma resposta dessas vale por um ensaio de 400 páginas. [Declaração de interesse: Eduardo de Assis Duarte é primo do remetente.]

Tratos no passado
Neste mundo infantilizado, o cinema transcendental (e essencial) e da hora é o de Quentin Tarantino. Não tem pra ninguém. Não é legal ver Hitler ser queimado vivo em Bastardos inglórios? Ou o psicopata Charles Mason levar porrada de Matt Damon em Era uma vez… em Hollywood? E Jamie Fox, céus!, intrépido Django contra o odiento vilão escravista Leonardo de Caprio? Não tem preço.

Era uma vez… o passado
O passado que envergonha a espécie pode ser cancelado, em nome das vítimas? E, claro, em nosso próprio nome. Parece que a resposta é sim. Talvez sejamos os primeiros humanos de boa-fé a existir na face da terra. O pensamento crítico além dos consensos merece ser banido! Não tem conversa.

Desabafo tarantinesco
Derrubar estátuas é o desabafo tarantinesco mais urgente. Ou condenar daqui pra frente a exibição do tedioso E o Vento Levou. Nunca mais estereótipos infames de negros serviçais. Estejamos de bem com a aurora da nova consciência. Agora, sim, podemos despertar do pesadelo da história e seguir em paz.

Leviana história!
Medito com meu velho teclado de várias letras apagadas, o que hão de pensar de nós os que vão nascer? Que dirão futuros pensadores incriados do nosso bom-mocismo de tuítes e hashtags? Como vão lidar com nossa herança bendita de linchadores virtuais? E os monumentos simbólicos que estamos erguendo em nome da justiça? O que será deles? Ah, como a história é frívola! O que farão com nossas narrativas, como haverão de nos ressignificar!

Malditos bronzes!
“Porque o que a gente não percebe é que esses monumentos, essas esculturas, reforçam uma imaginação somente ocidental”, tenta explicar a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz nesta entrevista ao Estadão. Alguém lendo suas respostas pode até pensar que somos um povo capaz de identificar cada vulto em cada bronze a decorar nossas cidades. E reconhecer cada vulto, como sugere a autora, na condição de vítimas ideológicas! Nesse caso, louvamos incauta e indistintamente todos os heróis em praças e avenidas. Borba Gato (assassino e corrupto), o enforcado Tiradentes (senhor de seis escravos), o paizinho Vargas (ditador responsável por um gabinete de repressão e tortura). Quem mais?

Eficácia simbólica!
Pois se quer impor o debate sobre a “eficácia simbólica dos espaços pro poder político”, na proposição de Lilia, em ambiente inculto e semiletrado. Ainda não universalizamos a educação de qualidade ou saneamento básico, infelizmente, pra perceber a gravidade que a hora exige.

Pobres pombos
Nunca mais os columbídeos urbanos terão um lugar seguro pra deixar seus dejetos. Os vivos ainda acabaremos convertidos em alvos providenciais em ruas áridas.

Razia
Lilia Schwarcz dá razão à razia que levou uma galera a derrubar a estátua de um traficante de escravos em Bristol, na Inglaterra. O monumento ela diz, glorificava o escravismo. Mas também o contrário, penso. A estátua estando lá, firme, podia recordar o  protagonismo da Inglaterra no hediondo comércio de vidas humanas. E é claro que a estátua incomodava muita gente.

A herança do patriarca
Bristol honrava seu patriarca, figurado na estátua derrubada, o homicida Edward Colston (1636-1721). O ilustre cavalheiro mercou milhares de vidas entre países africanos e o Caribe, “energia humana” empregada na indústria do açúcar. Ordenava que os prisioneiros adoentados fossem jogados no mar. Pode-se imaginar que a riqueza que auferiu tenha sido bem recebida por seus contemporâneos, e que seu capital tenha contribui com as glórias da cidade, o que ainda deve ser visível por lá. 

Barbárie
No Estadão, Sérgio Augusto cita Walter Benjamin: “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. Pirâmides, estatutária e sítios greco-romanos, catedrais e, se formos olhar mais de perto, até as doações de banqueiros e capitalistas pioneiros que fazem as glórias dos museus no mundo todo e nos divertem, seria difícil livrar tudo isso de condenações pretéritas.

Pra entender
Sou por manter tudo, Colombo, Vargas, Borba Gato, Tiradentes, pirâmides, coliseus! Mas com oferta da informação sobre o custo humano de cada monumento e a ficha corrida dos figurões. Ao pé do patrimônio, uma plaqueta com código QR pode remeter a textos de historiadores e bibliografias. Por tal via, o cidadão ou turista bronco, quem sabe, conseguirá se educar de verdade. E até aprender a pensar por conta própria. Quem passasse diante de Colston, em Bristol, saberia que a Inglaterra — no top five do países mais racistas do mundo — foi matriz industrial, financeira e seguradora do comércio de escravos.

Meu boi não morreu
As cenas de Bristol me lembraram do meu Boi da Manta. Em Pedro Leopoldo, na sexta-feira antes do Carnaval, fazíamos o Enterro do Boi. A carcaça do chifrudo era atirada no ribeirão, sob a comoção geral pelo fim da festa, mas logo puxado de volta, que no ano que vem tinha mais!

Um novo Dylan
Sai nesta sexta (19) o novo álbum de Bob Dylan, Rough and Rowdy Ways. Já é alguma coisa neste mundo culturalmente estilhaçado. Um evento. Uma situação. A inteligência de BD paira acima de seu universo de criação, a música pop. E não se pode mais discutir a envergadura poética e literária do Prêmio Nobel.

Rara entrevista
Uma música como False Prophet provoca sensações, afinal é música e poesia, mas também é uma provocação vital. O que digo com isso? Creio que uma obra de arte verdadeira deve nos fazer esta pergunta: Como negociamos com nossa existência transitória? “Todo ser humano, não importa se é forte ou poderoso, é frágil quando se defronta com a morte”, diz BD nesta rara entrevista ao escritor e professor da Universidade Rice Douglas Brinkley, de quem é próximo. Saiu no The New York Times, O Globo traduziu e a Folha também. “Penso nisso em termos gerais, não de maneira pessoal”, continua o bardo, ao responder Brinkley sobre o verso “Eu durmo com vida e morte na mesma cama”, de I Contain multitudes.

Fofocas e roupa suja
Penso que na entrevista BD se refere à cultura quando diz que as “boas notícias são como um fugitivo, no mundo de hoje, tratadas como bandidas e obrigadas a fugir. Castigadas. Tudo o que temos são notícias boas de detestar. E precisamos agradecer ao setor de mídia por isso. Fofocas e gente lavando roupa suja. Notícias sombrias que deprimem e horrorizam.” [Tradução de Paulo Migliacci].

Como pinturas
Quando é perguntado sobre citações de nomes específicos na novas canções, como Ane Frank, Rolling Stones ou Indiana Jones, que aparecem em I Contain Multitudes, BD responde que “entrar em detalhes demais é irrelevante. A canção é como um quadro; você não consegue ver tudo de uma vez se ficar perto demais. As peças individuais são parte de um todo…” [Idem].

Negros no Vietnã

Destacamento Blood, de Spike Lee, na Netflix, começa, como na epígrafe de um livro, com Muhammad Ali justificando sua recusava a lutar no Vietnã. E nos diz tudo sobre a sorte dos que não puderam repetir seu gesto campeão. A população afro-americana, cerca de 11% do EUA, formou um terço das tropas enviadas contra comunistas vietcongues — uma gente pobre alçada aos auspícios da URSS durante a Guerra Fria. Da 5 Bloods, título original, estreou em meio às passeatas contra o assassinato a sangue de George Floyd por um policial branco em Mineápolis — e vai bem como caixa de eco pra corações, mentes e vozes que protestaram nas ruas. “O filme de Lee é uma lição de história embrulhada numa aventura, com a ressalva de que a história nunca chega ao fim, e lutamos pra tirar seu peso das costas”, escreveu Anthony Lane na The New Yorker. O roteiro não é lá muito original, fraqueja aqui e ali, mas as citações a Apocalypse Now, filme de Francis Ford Coppola louvado por Lee, estão muito bem intercaladas na trama. Há humor e boas atuações, sublime no caso de Delroy Lindo, como o perturbado republicano Paul. E a trilha sonora, com canções engajadas de Marvin Gay, é do balacobaco.

Capa da The New Yorker assinada pelo artista e ilustrador Kadir Nelson. Ao navegar nesta página da revista, com o título “Say Their Names” (diga o nome deles), podemos saber quem é cada uma das vítimas retratadas no trabalho.  


Passeio pelo Café na Praça do Fórum.  Esta obra de Van Gogh como você nunca viu, exibida em videoinstalação do Museu Kröller-Müller, no Parque Nacional Hoge Veluwe, em Otterlo, na Holanda. Via Google Cultura e Arte. |

Música, maestro. O violoncelista e arranjador Jacques Morelenbaum e o violonista Lula Galvão, com Rafael Barata na batera, se apresentaram no excelente Instrumental Sesc Brasil, e o registro vai aí.|

Vigilância biológica. Desde 2017, e com ajuda de uma empresa de biotecnologia norte-americana, a China está fichando em base de dado genética virtualmente toda a população masculina do país. Um de seus alvos são minorias étnicas perseguidas pelo regime. O aparato de vigilância biológica se junta às novíssimas gerações de câmeras de reconhecimento de faces e sistemas de inteligência artificial. Em inglês no The New York Times. |
Piauí. Chegou tarde minha edição do mês da revista, anteontem (17). É um consolo ver que a revista, há muito declinante e um tanto apática, reage. Vem mais encorpada, com seções renovadas e bons artigos. Além do texto de Flora Thomson-DeVeaux, citado acima, traz bons artigos, desde a nova Chegada, com Dois mil e vinte – George Orwell e o fascismo brasileiro, assinado pelo diretor de redação Fernando de Barros e Silva. |


JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

JURUPOCA, O AUTORE COMO CONTRIBIRJurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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