Jurupoca #28

Belo Horizonte, 26 de junho a 3 de julho de 2020 — Carta 28


[Sobre “a dupla existência da verdade”.]

207.

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora! Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
 
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar, mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. E todo o mundo me surge, em momentos em que a meditação se me torna um sentimento, e com isso a mente se me obnubila, como uma névoa feita de sombra, um crepúsculo dos ângulos e das arestas, uma ficção do interlúdio, uma demora da antemanhã. Tudo se me transforma em um absoluto morto de ele mesmo, numa estagnação de pormenores. E os mesmos sentidos, com que transfiro a meditação para esquecê-la, são uma espécie de sono, qualquer coisa de remoto e de sequaz, interstício, diferença, acaso das sombras e da confusão.
 
Nesses momentos, em que compreenderia os ascetas e os retirados, se houvesse em mim poder de compreender os que se empenham em qualquer esforço com fins absolutos, ou em qualquer crença capaz de produzir um esforço, eu criaria, se pudesse, toda uma estética da desconsolação, uma rítmica íntima de balada de berço, coada pelas ternuras da noite em grandes afastamentos de outros lares.
 
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exactamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.

Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.

Do Livro do Desassossego, Bernardo Soares (Fernando Pessoa), organização de Richard Zenith, pág. 215, Companhia das Letras, 2016. Ou nesta página do arquivo LdoD, que congrega o Livro comparativamente segundo suas várias edições.


É OBRA pra galeria ou museu? Será arte? O quadro alinha um quinhão da mais recente história humana e sua travessia. Invenção e memória expressas na ciência, na tecnologia e no desenho. Num lance vislumbramos um arco de séculos em aparatos que vão do livro ao tablet, sem esquecer a carta, o lápis, a régua e o compasso. Percebemos a extraordinária mutação dos meios de informação em menos de um século. Notamos a busca por bandas cada vez mais largas, no salto do analógico pro digital, quase do dia pra noite. A foto (emoldurada pela Ju), ilustra um boletim eletrônico do Internet Archive, a livraria gratuita que dispõe milhões de livros, filmes, música, programas etc. Sediada em São Francisco, nos EUA, tem backups na Holanda, no Canadá e no Egito. Seus usuários, confinados pela pandemia da Covid-19, consomem algo como 18 petabytes (1 PB = 1000000000000000B = 10¹5 bytes = 1000 terabytes) de informação por mês, segundo a newsletter da instituição. 
A marcha General da banda, de Sátiro de Melo, José Alcides e Tancredo Silva, marcou o carnaval de 1950 na voz de Blecaute, acompanhado por Severino Araújo e Seu Conjunto. Vamos, clica aí, quero ouvir todo mundo...

Chegou o general da banda, hê, hê
Chegou o general da banda, hê, há [quatro vezes]

Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, mourão
Oi catuca por baixo que ele vai
Oba! [repete-se]

Opa. Vamos apear?

Retreta, diria um poeta concretista, é uma inusitada palavra-valise. Do jeito que vão as coisas, pode significar, ao mesmo tempo, desfile militar e latrina, nesse caso também retrete.

Retreta ainda é retirada, formação de tropa em revista, apresentação de banda ou a música que a banda toca na parada.

Retreta vem do francês retraite, vejo no Houaiss. No momento, a palavra retrata a conspiração pela democracia, em nome do povo, de um povo que bate cabeça no distanciamento social. E retrata a catinga que exala da instituição presidencial e seus círculos.

Emana dos gabinetes o mesmo futum dos dejetórios de rodoviária. Privada e gabinete, aliás, são sinônimos.

Desgovernados, seguimos a retreta como baratas tontas no salão, como baratas de porre com o coquetel grátis de asneira e cloroquina. É dose pra lá de Rodox.

Com três meses de pandemia e diz-que-diz, seguimos a retreta, mesmo na quarentena, como milhões de palhaços num salão continental.

Mas, como tudo, isso tem limite. Os brasileiros estamos esgotados. Esgotados pelo corona e pela anarquia militar mancunaímica. Esvaziados até a última gota, e por aqui com o misterioso ministério sem ministro. A pasta, ou a banda, ninguém mais sabe, é regida pelo general e sua tropa, a mando do capitão meia-tigela. Pura retreta.

Esgotados também andamos de tanto ver gente morrer, às carradas. Mas, onde já se viu, ninguém morre pela pátria! Morre-se a morte impatriótica da pandemia chinesa e comunista!

Tudo converte o ouvido de um cidadão na docilidade proverbial e providencial de um penico. Penicos é o que somos na retreta funesta desta hora.

Recebemos o esgoto das falas oficiais, e o esgoto de seus atos e omissões. E tentamos tratar, na ausência de estação de tratamento mais civilizada, o vertedouro insalubre que desce de debates travados por torcidas, youtubeiros, fãs de feis, fãs de insta e fãs verde-amarelos.

E pra onde escoa nossa indignação, raiva, gratidão e lágrimas? Só tenho um palpite. Vai pra aquele lugar do brechtiano Cântico de Orge.

Tudo acabando naquele lugar plácido e mágico onde a gente se recosta, tendo em cima as estrelas e debaixo… Aí é que chegamos e estamos.

Com os pulmões escavado pelo Corona, doutor, não consigo respirar! É possível tentar o pneumotórax?

Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino, responde o infectologista do Manuel Bandeira.

Mas não. Ainda dá pra cantar e pular o carnaval.

Melhor cantar, todo mundo junto. Vamos lá, hein!, quero ouvir vocês:

 ♫ Chegou o general da banda, hê, hê…. chegou general da banda, hê, há.
 


A verdade irreal

A verdade, segundo Aristóteles — me explicou um sábio — separa o humano da alimária. Ser racional é manjar a verdade, supostamente a verdade de verdade, que deus me perdoe. O advogado Frederick Wassef, vulgo Fred, pôs na roda a expressão verdade real, isso, veja você, em plena primavera do novo Iluminismo, segundo o maior vendedor de otimismo, lá de Harvard. A verdade real sobre a rachadinha na Alerj e o acoitamento do Queiroz virá à luz, promete o Fred. Contra a verdade real lutará, decerto, a verdade irreal, mas não a inverdade, e, presume-se, muito menos mentira, ou a lorota ou a potoca. Tudo pode ser uma coisa e outro. Saberemos a verdade dual, que é da natureza dos fatos alternativos, da despalavra e das narrativas da hora, tais armas grossas empregadas nas guerras culturais. O Fred, coitado, assegurou em dezenas de entrevistas que ele também é uma vítima das fake news. Fake news, nesses tempos mágicos, dão mais que chuchu na cerca. Os presidentes Topete Atômico e ¡Caveirão.38!, tais seres humanos, curiosamente, segundo Aristóteles, que o digam.

Satisfação garantida: com o Aguinaga, os cigarros Chanceler
ou a verdade real. Foto: domínio público.

A verdade que satisfaz
O garoto-propaganda e muito pão Pedrinho Aguinaga fez fama e fortuna nos idos dos 1970 anunciando os cigarros Chanceller. “O único fino que satisfaz”, apregoava o slogan da marca. Ora, a verdade, por mais virtuosa e mais fina que ela seja, nem sempre satisfaz. A noção de “verdade factual” da Hannah Arendt, digamos, nem cabe aqui. Pois nem toda verdade satisfaz uma criatura virginal, cujos juízos nunca falham. Woody Allen compreendeu bem isso:

“Eu sabia que a verdade estava do meu lado, mas agora me dou conta de que isso não é garantia de nada”.

Inocentado da grave acusação que sofreu (ter abusado sexualmente da filha de sete anos), o cineasta foi preso assim mesmo, e recolhido nas redes da infâmia.

A verdade insuficiente
Allen tem a seu favor a própria palavra e a inocência estabelecida durante o escrutínio de um longo processo judicial. Um e outro valem tuta e meia, nonada, diante da sentença condenatória proferida pela elite liberal dos EUA, como a jornalista Hadley Freeman mostra cuidadosamente no The Guardian. A santimônia que rebaixa aquela imprensa ainda não curvou Europa dessa vez. Os poucos atores que defenderam o diretor foram triturados pelos #MeToos da vida, nos conta Freeman. Defender Allen é queimar dinheiro em Hollywood, ou ter o emprego ameaçado em jornais e universidades. Poucos têm culhões pra fazer isso, tendo-os ou não, anatomicamente falando.

A verdade viral
O jerico que questionar uma acusação de abuso sexual com o leite já derramado, ou seja, viralizado na internet, será tostado sem dó nem piedade na fogueira das hashtags do bem. Equivale ao maluco que, na Contrarreforma, e na contramão do manual Martelo das Bruxas, tentasse apagar as chamas a devorar a pobre duma feiticeira condenada em nome do bem geral, e de Deus pai, claro.

As verdades censuráveis
Você precisa ser um Nobel de Literatura bem velhinho, e estar por cima da carne seca, pra ir contra a verdade real, ou dual, ou alternativa das novas patrulhas morais. Mario Vargas Llosa ficou arretado com a condenação ao ostracismo de um clássico de 1939 que faturou dois Oscars. Gosta da fita — …E o vento e levou — fazer o quê? “A censura só serve para criar outra forma de brutalidade, menos crua do que o racismo, mas, talvez, de consequências mais nefastas a uma sociedade, a quem torna menos consciente e livre, e mais manipulável em questões raciais, morais e ideológicas”, mandou ver. A palavra ainda é do autor de A festa do  Bode:

Os verdadeiros efeitos da censura são aqueles que os que a estabelecem nunca se atrevem a divulgar: idiotizar as pessoas e torná-las mais vulneráveis à propaganda, seja religiosa, política e moral, e fazê-las engolir todas as mentiras do que costuma ser feita a ideologia oficial, e até a simples publicidade com a qual o poder tentar se justificar e ridicularizar o adversário. Por isso é tão perigoso aceitar a censura, incluindo nos casos em que a obra incriminada possa ser entrada para ofender a moral reinante contra a visão benevolente dos seres humanos.”

 

As verdades absolutas
O colunista conservador Ross Douthat deu um bom puxão de orelhas no próprio jornal onde escreve, o The New York Times. O Times demitiu seu editor de opinião diante da má repercussão de um artigo do senador republicano Tom Cotton. Esse aí, para puxar o saco de Trump, defendeu o emprego da força militar na preservação da ordem, com os saques e quebra-quebra dos primeiros dias de manifestações antirracistas nos EUA. Ocorre que James Bennet, o editor afastado, ao publicar o artigo de Cotton cumpria com integridade as normas de um jornal que se vende há mais de um século pelo pluralismo de sua Op-Ed, ao abrigar opiniões diversas ou opostas ao que pensa. Em um texto reluzente — indispensável para quem queira saber o que está em jogo no mundo das ideias, e não só nos EUA — Douthat associa esse episódio à revolução cultural em curso. A tão difícil “objetividade” perseguida com muita luta pelo jornalismo profissional, acusa o colunista, cede lugar a um jornalismo que se assume como “da verdade” quando a pauta são os interesses de ativista negros, feministas, gays, transgênero ou emigrantes. Douthat diz que os direitos desses públicos se sobrepuseram aos direitos constitucionais antes considerados essenciais pelos “liberais” do país. Liberdade de expressão e liberdade de religião, ele aponta, devem sair da reta quando estiverem em conflito com os ideais dos novos libertários absolutistas.  

…E a verdade levou
Além da seleta de estátuas e filmes, a literatura entra na dança, e dança. Obras como O sol é para todos, de Harper Lee, ou As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, caíram em desgraça nos EUA, sempre acusadas de conter expressões racistas. Se o Ulisses, de James Joyce, foi considerado pornográfico e censurado na publicação do livro nos EUA, e absolvido pela Justiça, a tesoura dos beatos ateus agora corta no presente e no pretérito pra forjar seu futuro imaculado. E essa nova ordem, pelo andar da carruagem, já transitou em julgado. Não há mais recurso.   

A verdade orwelliana
1984 está aí. A infalibilidade moral acaba por “restringir o campo do pensamento”. É a lógica orwelliana em estado puro, diz João Pereira Coutinho. JPC cita Syme, o personagem de George Orwell no livro que voltou a ser lido, ou ao menos muito vendido, no mundo todo. Syme é o filólogo colega de repartição de Winston Smith no Ministério da Verdade. É quem anuncia que o vocabulário perderá mais e mais palavras, e assim, o alcance da consciência humana será mais e mais limitado. “Não há paixão mais funesta do que a paixão que sentimos pela nossa própria virtude”, opina JPC. Nosso portuga vai contra os “novos zelotes do momento, que pretendem submeter a história, a arte, o pensamento e todas as opiniões heterodoxas ao julgamento inquisitorial do presente”. Helahoho! Helahoho!.   


INTERVALO

Com Raimundo Fagner (Orós, CE, 1949) em Flor da paisagem. Composição de Fausto Nilo (Quixeramobim, CE, 1944) e Robertinho do Recife (Recife, PE, 1963), faixa dois (lado A) de Orós, LP lançado pela CBS em 1977.

Naquela era de ouro da MPB, Fagner, como tantos da mesma geração, dava-se ao luxo de ousar, e ousou bastante neste álbum com produção e arranjos de Hermeto Paschoal (Olho d’Água das Flores, Lagoa da Canoa ou Arapiraca — a depender da fonte, mas certamente no Estado de Alagoas, em 1936).

Talvez tenha ido um tanto além de seu tempo. Foi experimental, como se dizia, como neste Epigrama Nº 9, sobre o poema de Cecília Meireles. Não fez sucesso nas rádios e quem gosta do artista costuma menosprezar o disco, e praticar tremenda injustiça.

Vieram dali Cebola cortada e a própria Orós, cuja instrumentação tem claramente os hermetismos pascoais de que nos fala o Caetano.

Flor da paisagem é uma linda, marcante e singela canção nordestina e brasileira, com arranjo bonito e moderno.

Os solos de guitarra portuguesa de Robertinho do Recife imprimem sua ambientação pungente, com as outras cordas, a flauta de Mauro Senise e o piano de Hermeto. Os vocalises de Fagner estão bem postos. Eis a letra:

“Teu zói é a flor da paisagem
Sereno fim da viagem
Teu zói é a cor da beleza
Sorriso da natureza
Azul de prata, meu litoral
Dois brincos de pedra rara
Riacho de água clara
Roupa com cheiro de mala

Zoim assim são mais belos
Que renda branca, que renda branca,
Que renda branca na sala

Quem vê não enxerga a praia
Nois no lençol, nois no lençol,
Nois no lençol de cambraia
Teus zói no fim da vereda
Amor de papel de seda
Teus zói clareia o roçado
Reluz teu cordão colado
Que renda branca na sala
Nois no lençol, nois no lençol
Nois no lençol, nois no lençol
Nois no lençol de cambraia

Arte da crônica
Além da Discografia Brasileira ou da Rádio Batuta, o Instituto Moreira Salles lançou, há quase dois anos, o Portal da Crônica Brasileira. Me chamou atenção lá atrás e o perdi de vista. Nossa atenção, afinal, é disputada por petabytes de informação a cada instante. Mas voltei agora, com o chamamento carinhoso de Humberto Werneck no Estadão, ele sendo um “recepcionista” do portal, como se descreve em Baú de encantos. E não saio mais. Lá, no portal, estão ao alcance, com tudo muito limpo e bem organizado, cerca de 3 mil crônicas das maiores referências desse gênero tão nacional. Passei uma tarde nesse manancial de brilhos e vidrilhos legados por Rubem Braga, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Ivan Lessa, para citar alguns dos autores presentes. Lessa, meu favorito, me deu um prazer que há muito não sentia ao ler um texto de nossa imprensa. E, por favor, bota tempo nisso. Veja-se, por exemplo, o cabedal desta Incomunicabilidades, que saiu no Diário Carioca em 1965, ou dessa outra, Hamlet em mímica, publicada pelo menos jornal em dezembro daquele ano.

O que é cultura, afinal?
Quarta-feira (24/06) de manhã, eram estes os destaques da página cultural de O Globo:


— “Winona Ryder revela supostos comentários homofóbicos e antissemitas de Mel Gibson.”


— “O K-pop é o novo punk?”

Mudo pra Ilustrada, caderno de ex-cultura da Folha, que manchetava:


— “Game ‘The Last of Us Part 2’ atiça conservadores com personagens lésbicas e trans.”


— “Elza Soares diz comemorar aniversário em dobro e Britney Spears posta foto na praia.”



E chego ao Estadão:


— “Jimmy Fallon começa nova fase do programa ‘The Tonight Show’” (traduzido do The New York Times.)



Então desisto. E ainda insistem que a epidemia do Corona vai acabar com a cultura brasileira. Na imprensa, acabou, e faz tempo




O Brasil dos catrumanos: realidade atual.
Taí o título do artigo de Kathrin Holzermayr Rosenfield, professora de filosofia e literatura da UFRGS, no Estadão da Arte. Kathrin diz que chegamos a um estágio inédito de degradação humana no país, com caos social, sanitário, econômico e mais corrupção. Ela começa por analisar anotações da mulher do Queiroz, examina declarações do ¡Caveirão.38! sobre a inevitabilidade da morte dos velhinhos fracotes e envereda por mitos e referências literárias, antes de descer, ou seja, subir ao imaginário de Guimarães Rosa no Grande sertão: veredas, e ao inferno dos catrumanos. A doutora com a palavra:

[…]
“Isso se reflete no idioma cada vez mais brutal agora em uso. Nos últimos dois anos passamos das mesóclises aos gaguejos e urros presidenciais. E esses últimos lembram uma cena curta mas marcante no romance […] — o encontro de Riobaldo Urutu-Branco com os catrumanos. Como já sinaliza o nome Urutu-Branco, Riobaldo se desumanizou para assumir, ao modo de um monstro-réptil insensível, o mando dos jagunços. Mas mesmo esse chefe de guerra selvagem, destemido e louco, sente um secreto arrepio e horror quando topa com os catrumanos, seres das cavernas que não sabem nada de regras e leis. E numa vertigem aterrorizada imagina o que poderá acontecer se esse fundo lodoso inominável da natureza humana começar a invadir sertões e veredas…. Regredimos para aquém da ordem dos jagunços, para […] o fora da ordem dos catrumanos.” […]

Apagando pistas. Levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP detectou o sumiço de centenas de vídeos de youtubeiros e blogueiros que animam a militância radical do presidente ¡Caveirão.38!. Todos são alvos das investigações conduzidas pelo ministro Alexandre Moraes, do STF. Na BBC Brasil.

Roberto na bossa. Antes de se tornar rei da indústria fonográfica, Roberto Carlos começou a cantar como imitador da bossa nova, em 78 rotações, e levou pau da crítica. Isso em 1959, com 17 anos. Pedro Paulo Malta detalha essa história no portal Discografia Brasileira. Lá você pode ouvir a sua voz, ou melhor, dele, Roberto, ainda adolescente. O artista chegou aos 79 anos em 19 de abril deste ano. |

Imagens de outro mundo. Jardins de esponjas de vidro, polvos bioluminescentes e um sifonóforo de 150 pés, tudo filmado em 4k. Com criaturas assim, que vivem a 4.500 metros de profundidade no mar ocidental da Austrália, fica mais fácil sonhar com a vida extraterrestre. O vídeo produzido por pesquisadores com uso de um veículo robótico é apresentado no Aeon. |

Machado em inglês. Parul Sehgal, no The New York Times, dá alvíssaras  às duas novas traduções de Machado de Assis em inglês, num ótimo artigo que o Estadão traduziu, mas podou muito, inclusive um parágrafo interessante como este:

“Para Stepan Zweig, Machado foi a resposta do Brasil a Dickens. Para Allen Ginsberg, ele foi outro Kafka. Harold Bloom o chamou de descendente de Laurence Sterne, e Philip Roth o comparou a Beckett. Outros citam Gogol, Poe, Borges e Joyce. No prefácio de The Collected Stories of Machado de Assis, publicado este mês, o crítico Michael Wood invoca Henry James, Henry Fielding, Chekhov, Sterne, Nabokov and Calvino — tudo em dois parágrafos.” |


Salmaso e João etc. Temos mais e deliciosos duos de Mônica Salmaso com seus convidados, cada qual na própria casa. Ela e João Bosco lembram a linda Drume negrita, do cubano Ernesto Grenet Wood (1908- 1981). Que linda canção de ninar! As versões de Bola de Nieve e Omara Portuondo são magníficas. Na terça (23/06), Salmaso chegava ao vídeo de número 80, com a transcendente Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque), acompanhada por Paulo Aragão (violão oito cordas).  


Perry Mason. O excelente ator Matthew Rhys, protagonista de The Americans, faz o advogado que dá nome à nova série da HBO. O primeiro capítulo é coisa fina. As histórias são baseadas nos livros Erle Stanley Gardner e transcorrem na Los Angeles no início dos anos 1930. O diretor, Tim Van Patten, também fez Boardwalk Empire eGame of Thrones. Rhys e Gardner foram entrevistados pelo Estadão. Veja o trailer. |  


JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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