Jurupoca #30

Belo Horizonte, 10 a 16 de julho de 2020 — Carta 30



LITANIES DES PREMIER QUARTIERS DE LA LUNE


Lune bénie
Des insomnies,

Blanc médaillon
Des Endymions,

Astre fossile
Que tout exile,

Jaloux tombeau
De Salammbô,

Embarcadère
Des grands Mystères,

Madone et miss
Diane-Artémis,

Sainte Vigie
De nos orgies

Jettatura
Des baccarats,

Dame très-lasse
De nos terrasses,

Philtre attisant
Les vers luisants,

Rosace et dôme
Des derniers psaumes,

Bel œil-de-chat
De nos rachats,

Sois l'Ambulance
De nos croyances !

Sois l'édredon
Du Grand-Pardon !
LITANIAS DOS QUARTOS CRESCENTES DA LUA

Lua bendita,
De selenitas,

Medalhão branco
De Endimião

Astro argila
Que tudo exila,

Tumba mantô
De Salambô,

Cais aéreo
Todo Mistério,

Madona, Miss
Diana-Artemis

Santa Vigia
Dessas orgias

Jetaturá
Do bacará

Dama bem lassa
De nossas praças,

Filtro perfume
De vagalumes,

Rosácea-palma
Últimos salmos,

Olho de gata
Que nos resgata,

Seja ambulância
De nossas ânsias,

Seja edredão
Do grão perdão!

Em nosso último Bar Telemático, aberto do ocaso ao luar, li mais uma vez este poema de Jules Laforgue (Montevidéu, 1860 — Paris, 1887), em tradução do poeta Régis Bonvicino (à pag. 79 de Litanias da lua, Iluminuras, 1989). Gosto pacas desse livro fininho, um bom acesso a Laforgue, morto ainda rapaz, mas de longeva influência artística. Em O castelo de Axel, Edmund Wilson mostra suas marcas na obra de T.S. Eliot. Bonvicino também situa Laforgue como mestre de Ezra Pound e Marcel Duchamp. No Brasil, “fertilizou a poesia de gente como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade”, ele diz.


O fechamento do parque municipal com a pandemia parece ter feito bem ao passarinho aí, cujo ninho toma um ângulo da grade diante do calçadão da Afonso Pena, já perto do Palácio das Artes. Acima, o parque clicado de fora, por um passeante saudoso de seus recantos e, especialmente, de seus fícus.


 Opa! Vamos apear

Pensei oficiar ao senhor prefeito do Belo como cidadão lesado na sua prática de caminhadas matinais.

O fechamento do parque municipal (Américo René Gianetti), com o advento do Corona, faz mal à saúde. Alguém acostumado a passear ali quase diariamente, na abstinência pode até criar desairosa barriguinha.

Em vez do ofício, optei, saudoso, por voltear o parque fechado ao público. Revi minhas árvores, alguns gatos, certas flores e até uma garnisé com pintinhos a ciscar perto da entrada leste.

Notei o desamparo dos desassistidos, prostrados à cerca sob cobertores imundos, alguns alucinados, a tagarelar com seus outros eus. V

i a desolação dos teatros, Chico Nunes e Palácio das Artes, e retive o deserto sob o viaduto Santa Tereza, naquele pobre trecho de Bahia.

A cidade gasta se envelheceu na pandemia. E nós?

Os cartazes do Palácio das Artes ainda chamam pros últimos shows, cancelados. O espaço de anúncio do Francisco Nunes foi limpo, e aguarda melhores dias.  Já para as magníficas jaqueiras não há tempo ruim.  
O parque municipal segue sua vida. Visitantes, só os funcionários da Prefeitura, além dos bichos que por certo gozarão a relativa paz da pandemia. Abaixo, trecho desolado da rua da Bahia na manhã de segunda-feira (06/07), sob o viaduto Santa Tereza.

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


A morte e a morte na conjunção ¡Covid.19!|¡Caveirão.38!

“Bolsonaro não se comove com a natureza, a arte lhe é estranha, a religião não passa de um adereço político, a ciência o ofende. Até o luxo parece deixá-lo indiferente. A violência, não. É quando fala nela que parece mais vivo e potente.”

“A morte e a morte”, artigo de João Moreira Salles, é um balanço terminativo, ainda que obviamente provisório, da degradação do país. Descreve o pesadelo que vivemos com a conjunção cabalística das pragas mútuas ¡Covid.19!|¡Caveirão.38!. Trata, essencialmente, do apego fálico de Sua Excrescência às armas e à morte violenta, e de seu desapego conivente com a morte de dezenas de milhares de brasileiros. O dele é o “puro tédio da morte” — na descrição de Nelson Rodrigues sobre certas reações ao massacre da gripe espanhola. Mas, ao se deter na seara propriamente política, o editor fundador da Piauí se atém à própria inclinação ideológica, bem conhecida dos leitores dessa revista ou da quadrimestral Serrote, do mesmo grupo. Não fosse isso, sua prosa ganharia outro peso e vulto. Indo às causas da eleição de 2018, JMS repõe fato batidos por cientistas e cronistas políticos. Sua abordagem é demasiadamente genérica: “O liberalismo econômico foi o cavalo que passou selado num momento em que as elites econômicas desembarcavam da sociedade com o petismo”, aponta. “O lavajatismo serviu para fisgar o velho udenismo das classes médias locais. Os pobres estavam com os evangélicos, e Bolsonaro logo se fez batizar no Rio Jordão”, descreve, e não há muito que contestar aí, além do foco estreito e algo míope. Mais à frente ele se anima: “Em 1964, o poder foi tomado à força. Em 2018, 57,7 milhões de brasileiros sufragaram a versão piorada de um regime odioso. Outros 11 milhões anularam ou votaram em branco”, registra. Aqui, o bom documentarista e jornalista diletante salta além das sandálias. O filho do grande banqueiro atribui a tal eleitorado o desígnio universal de eleger o sucedâneo piorado da ditadura. Nada menos. O conjunto dos que votaram, em sua interseção com os que preferiram anular ou votar em branco — recebe as seguintes cores no mapa social: “violento, racista, misógino, homofóbico, inculto, indiferente. Perverso.” E tudo então fica claríssimo. O confusionismo político e sociológico de JMS não faz qualquer referência ao papel da oposição ou das oposições em 2018. Não indaga, por exemplo, se foi apenas circunstancial a irredutibilidade do PT na defesa de Lula, à margem dos próprios “malfeitos”, como diria La Rousseff, escancarados pela Lava Jato. O “udenismo da classe média” caiu do céu? Para JMS, é certo, a Lava Jato reduz-se à suspeita corrente ideológica denominada “lavajatismo”. Quanto à postura apequenada de Haddad diante do seu padrinho, nem tchum. Faltou ao artigo o alcance de um olhar mais generoso pro quadro geral, menos dogmático e mais comprometido com a verdade factual. E boa vontade isenta de vitimismo. Isso nos ajudaria, quem sabe, começar superar a desgraceira em curso.



¡Covid.19!|¡Caveirão.38!

“O negacionismo da Covid.19 é o mais recente capítulo das mentiras fascistas”, diz o historiador argentino Federico Finchelstein em ensaio da edição especial gratuita, em pdf, da Serrote. Finchelstein, em Nova York, onde é professor, foi entrevistado no lançamento da revista, nessa quarta-feira.  O líder fascista como encarnação da verdade é o título do artigo. Segue um trecho (leia mais sobre este número da Serrote no P.S.):

“[…] O passado e o presente apresentam odiosas convergências na forma como o poder nega a realidade e como essas negações acabam transformando-a, provocando e até mesmo ampliando desastres. Os fascistas fantasiaram novas realidades e depois transformaram a verdadeira. Seus sucessores, como Donald Trump e Jair Messias Bolsonaro, querem fazer a mesma  coisa.

Na negação da pandemia, em particular, vemos uma lógica parecida: nega-se a realidade letal do coronavírus, o que causa catástrofes e mortes […].”

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Contra a cancel culture,
ou cultura do cancelamento

A atitude coercitiva, censora e intolerante do ativismo norte-americano teve uma primeira reação de relevo. Essa corrente policialesca, hoje dominante, acha-se “progressista” e se põe em guerra por causas identitárias e raciais. Polariza à esquerda com a extrema direita alçada ao poder com Topete Atômico, ou Agente Laranja, vulgo Donald Trump. Uma carta-manifesto em defesa do debate aberto, em nome da justiça e contra a intransigente “conformidade ideológica”, foi assinada por 153 acadêmicos, escritores e intelectuais, incluindo várias celebridades em seus campos. Saiu na revista Harper’s na terça-feira (07/07). “Esta atmosfera sufocante em última instância acabará prejudicando as causas mais vitais do nosso tempo”, alerta o texto. “A restrição ao debate, seja por um governo repressivo ou por uma sociedade intolerante, prejudica invariavelmente aqueles que não têm poder e torna todos menos capazes de participação democrática”, denuncia. A atmosfera a que a carta se refere é a cultura do cancelamento (cult cancel), comum aos polos que travam as guerras culturais. Também denominada Woke culture (algo como sempre alerta), esse regime ideológico, ao se contrapor à direita iliberal republicana, tem levado a uma caça às bruxas com punições desproporcionais aos supostos danos causados aos temperamentos “progressistas”. Diz a carta:

“Editores são demitidos por publicar artigos controversas; livros são retirados por alegada falta de autenticidade; jornalistas são impedidos de escrever sobre certos temas; professores são investigados por citar obras de literatura em sala de aula; um pesquisador é demitido por circular um estudo acadêmico revisado por pares; e diretores de organizações são demitidos pelo que às vezes é apenas um erro tosco.”.

Entre os subscritores há negros, professores de centro-esquerda e vários jornalistas, e estrelas como Noam Chomsky, Salman Rushdie, J.K. Rowling, Gloria Steinem, Margaret Atwood o Martin Amis, John Banville, Francis Fukuyama, Steven Pinker Yascha Mounk, Atul Gawande, Andrew Solomon e Mark Lilla.

A demissão de James Bennet, editor de Opinião do New York Times, depois da feroz reação de colegas de redação e nas redes sociais a um artigo do senador republicano Tom Cotton, inspira claramente o manifesto.



A carta no Times

Ao noticiar o fato, o Times destacou no título que a reação ao manifesto “foi rápida”. Houve quem contestasse e até “ridicularizasse” sua importância, diz o jornalão. Mas percebe-se que sem importância, por vazias, são as contestações apontadas. Dois covardes tiraram o corpo fora, diante das críticas, ou por se achar melhor ou mais puro que outros nomes que aparecem no abaixo-assinado. Alegam que não sabiam quem eram, o que é negado pela Harper’s. Seu efeito foi sedimentar a relevância histórica da carta. A Folha, que fez um editorial intitulado O erro do New York Times, sobre o episódio citado, estranhamente apenas copiou sem crédito o jornal norte-americano ao noticiar a repercussão da carta.

Estão perdendo

A perspectiva de termos uma vacina contra o Corona produzida quase à jato na história da ciência é como uma viagem no tempo, mas à frente, pro futuro. O negacionista da ciência e o tapado ideológico perdem a oportunidade de prestar atenção e aprender com os fatos. Não têm olhos pro que não sejam cloroquinas e conspirações. É de dar dó.



Lance de dados

Um único aminoácido de uma proteína pode explicar a mutação sofrida pelo Corona desde a China. Essa alteração de apenas uma das 30 mil letras de seu genoma teria ampliado incrivelmente a capacidade de o vírus nos infectar. E vidas de centena de milhares de pessoas são jogadas nessa roleta.



Escritores castrados

A espada da “masculinidade tóxica”, afiada pela crítica literária feminista e pelo #MeToo está suspensa sobre o pescoço dos novos romancistas. O pavor de perder a cabeça conduz a outros talhos. Na ânsia de passar no crivo do feminismo e das editoras, autores têm dado incríveis cambalhotas morais e verbais pra descrever o afeto e o sexo entre homens e mulheres. Reinventam a própria sexualidade, sentem culpa por serem héteros hoje em dia, idealizam o desejo dentro do molde dos novos tempos — sem saber o lugar certo onde o colocar, como na canção Pecado original, de Caetano Veloso. Vale a pena ouvi-la enquanto você segue o texto.

Eis o tema, grosso modo, de Luke Brown no ensaio Emasculado – O problema do homem escrevendo sobre sexo, no mais recente número do Times Literary Supplement (TLS). O fantasma do rei assassino dessa história não podia ser outro: Philip Roth (1933-2018). O autor de O teatro de Sabbath, diz Brown, foi duramente perseguido por acusações de misoginia. E ainda é, post-mortem, eu diria. Há o caso exemplar de Carmen Callil. A fundadora da casa editorial londrina Virago renunciou à comissão julgadora do Internacional Man Booker Prize de 2011, com honraria concedida a Roth. “Ele continua e continua no mesmo assunto. É como se ele estivesse sentado em seu rosto e você não conseguisse respirar”, declarou à época. Helahoho! helahoho! Aonde chegamos! “Roth escreveu sobre traição de esposa e filhas, de amigos e irmãos, política externa da Guerra Fria, antissemitismo, medicina e sobre a própria coluna, próstata, pênis e coração”, alinha Brown, pra dizer o mínimo. “Mas Roth é mais conhecido pelo foco no pênis, por retratar a masculinidade sob luz pouco lisonjeira”. A espada do feminismo extremado faz mais que capar ficcionistas. Corta o próprio status da arte literária e sua força pra abordar a sexualidade. Será difícil a um manual de correção libidinal conseguir enquadrar o desejo sem cair no ridículo. Mas a hipocrisia, tributo da virtude ao vício, e malabarismos textuais são outra história. Culpar a “cultura do estupro” extensivamente, como se faz no Brasil a torto e a direito, ou a grande literatura de Philip Roth pela existência de Weinsteins, como sugere criticamente Brown, não resolvem o dilema. “[…] Quando examinamos a nós mesmos, devemos estar preparados para discordar dos julgamentos generalizados de como são os homens: a ira justa não garante a análise mais precisa”, conclui o autor. “Não pode haver progresso em direção a um ideal fora da medida da realidade”, escreve (livre tradução).



Vida além da futrica

As aventuras de Anitta no país da fofoca é a fita da hora. Não sai do ar dos canais gerais e das páginas de nossas folhas de ex-cultura. Mas, no recente entrevero entre a rainha do Funk e sua rival Ludmilla, que ainda mobiliza o país, fico com João Gilberto, pode ser? É que se aguarda pro fim do ano uma nova biografia do artista, escrita por Zuza Homem de Mello, com saúde e na ativa aos 86 anos, salve, salve. Um teaser do livro em O Globo dá a medida do que podemos esperar. Aliás, Zuza garante que seu livro vai se prender à pessoa e à música do biografado, e passar longe da fofocada sobre os embates de seus herdeiros. Também leio na reportagem de Luccas Oliveira que a música de João tem quase 70% mais reproduções na França que no Brasil, segundo a plataforma de streaming Deezer, com 16 milhões de assinantes. Esse dado deve revelar alguma coisa. Ou nada.



Elizeth

O Corona parece ter comprometido ainda mais a desmemória cultural do país. Mas, longe do ruído, da bulha da frivolidade e do babado, a arte ainda pulsa. Lembra-me disso o jornalista carioca Álvaro Costa e Silva, que forma com Ruy Castro uma dupla de craques ao pé da página dois da Folha, espaço cativo do Rio. Nessa terça (07/07), o Marechal, como é tratado pelos amigos, recordou o show histórico de Elizeth Cardoso em 19 de fevereiro de 1968, num teatro João Caetano lotado e extasiado. Elizeth, conta ACS, “conduziu no palco a ligação entre dois mundos musicais: tradição — o virtuose Jacob do Bandolim e o regional Época de Ouro — e modernidade (o conjunto Zimbo Trio, com Amilton Godoy no piano, Luiz Chaves no baixo e Rubinho Barsotti na bateria)”. O registro do show está na internet e tem joias como esta Barracão (Luiz Antonio e Oldemar Magalhães). Elizeth dominava divinamente a arte do canto, donde à chamarem A Divina, e Jacob, meu deus. Só ouvindo.

Rede besta

Se Wasp Network – rede de espiões, na Netflix, dirigido pelo francês Olivier Assayas, não presta como ficção, como documentário é uma bosta. O longa-metragem com Penélope Cruz, Gael García Bernal e Wagner Moura escorrega entre uma coisa e outra pra cair no vácuo. Pena! A história, verdadeira, da Rede Vespa é extraordinária. A infiltração de espiões cubanos nas redes de exilados anticastristas em Miami, nos anos 1990, daria um filmaço em mãos firmes. A fita agradou, ainda que com ressalva, a Mario Sérgio Conti, colaborador da New Left Review e devoto de são Marx. Conti entrevista o amigo Fernando Morais, devoto de são Fidel e autor de Os últimos soldados da Guerra Fria, no qual o roteiro de Assayas se baseou.



Séries policiais

Meu vício em séries, no escaninho do policial e do suspense, tem passado provações com as drogas disponíveis na praça. O gênero, há muito, parece ter se estragado. A velha normalidade do noir e do thriller já eram. Carregar traumas, beber demais, comer porcarias ou enfrentar perrengues com a família já não bastam na caracterização dos heróis. Os novos agentes devem se superar em esquisitice. Portam síndromes raras, sofrem doenças incuráveis e todo o rol dos distúrbios mentais. A temporada 3 de Marcella (Netflix), uma aloprada ao cubo, ainda é mais confusa que as precedentes. O bom Bill Pullman, quase não salva a 3T de The Sinner (Netflix). O masoquista de carteirinha que é o detetive Harry Ambrose deixou de gozar com a dor infligida por sua dominatrix, mas eis que quase se perde nos embalos à noite com um professor abilolado. A inspiração nietzschiana e um culto ao poema Os homens ocos, de T.S. Eliot ainda dão alguma graça à história. Perry Mason (HBO), que prometeu tanto, parece não escapar do lugar comum. E a delirante Carrie Mathison (Claire Danes) me abandonou, com a oitava e última parte de Homeland (Fox). Sentirei menos falta dela que de Saul Berenson (Mandy Patinkin).  


 INTERVALO

Com Vitor Ramil (Pelotas, RS, 1962) em Não é céu, composição sua, aqui na versão com participação de Milton Nascimento, do álbum duplo Foi no mês que vem (2013, Satolep Music). A percussão é de Santiago Vazquez; o baixo de André Gomes; os violões de Ramil e Carlos Badia. O disco é muito bem produzido e requintado. Aproveite pra curtir o excelso terçar dos violões de VR e Carlos Moscardini em Estela, Estrela.

Essa canção já havia sido gravada por Kleiton & Kledir, como faixa A3 do LP da dupla (Ariola, 1981). Já Não é céu entra como faixa original do ótimo CD Tambong (2000), lembrado e louvado na Ju#03, com um arranjo muito bem concebido e instrumentação reunindo Pedro Aznar (baixo fretless e vocal); Santiago Vazquez (percussão); Henrique Norris (trompete) e Ramil (violão). VR é grande cantor, de timbre delicado e preciso. A letra revela sua escrita enxuta e a palavra bem colocada da poética do artista gaúcho, além do bom gosto pra se referir à paixão.  

NÃO É CÉU

Não é céu sobre nós
Dele essa noite não veio
E muito menos vai o dia chegar

Se chegar, não é sol
Quem sabe a luz de um cigarro
Que desaba do vigésimo andar

É fogo, mora
Deixa essa brasa descer lá fora
Deixa o mundo todo queimar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Se fosse o céu que se conta
Não seria a ponta acesa a brilhar

Se brilhou, não é sol
Se fosse o sol desabando
Nem meu quarto ia poder te salvar

É fogo, mora
Gente na brasa a gritar lá fora
Só nos falta Nero cantar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Não é céu sobre nós
Não vimos noite passando
E essa luz não fez o galo cantar

Se cantou, não é sol
Dia nascendo normal
A gente acorda e não costuma gritar

É fogo, mora
Deixa essa brasa sumir lá fora
Deixa o galo nos acordar

É cedo, cedo
Fica comigo, me abraça
Que calor melhor a rua não dá

Uma vela acesa

Para Ennio Morricone (1928-2020). De suas partituras saiu trilhas sonoras que encantam gerações de cinéfilos. Sonhos em estado puro. É difícil pensar em filmes como Uma vez na América (1984), Os intocáveis (1987) ou Três homens em conflito (1966) sem a moldura de suas músicas. “Foi um compositor de uma fertilidade extraordinária e intimidadora”, escreveu o premiado compositor espanhol Alberto Iglesias sobre o legado do colega italiano. “Ele sempre soube conjugar a formação clássica com o gosto pela melodia e um afã decididamente experimental”. Iglesias comenta “aspectos essenciais” da música de Morricone em cinco filmes. Pra nomear apenas uma peça das que mais gosto, fico com Oboé de Gabriel, de A missão (1986).  


De modo frígio

Qual será a “absoluta, profunda e rotunda verdade” da beleza a que se acede pelo amor? E da dor que a desfaz, qual será? E o limite dessa intermitência será marcada pelo “tique-taque, tique-taque/ tique-taque do relógio/ homenzinho pulsando/ ao compasso de seu deus”? Para la espera, novo disco do cubano Silvio Rodriguez, não para de rodar na radiola que cada um de nós traz na telha. Modo frígio (Tema soñado) é o nome da canção, que remete a um dos modos gregos da harmonia musical. Rodriguez teve sua linda Pequena serenata diurna (1975) gravada por Chico. Nesse álbum, alusivo à quarentena e dedicado a nomes da arte cubana levados pela Covid.19, ele mostra mais uma vez a classe de trovador que é. Seu canto não se faz propriamente acompanhar pelo violão. Me parece mais que o instrumento atua como uma espécie de comentarista do canto e da melodia.



Vergonha. O grande historiador italiano Carlos Ginzburg, autor de O queijo e os vermes, escreveu um ensaio de grande repercussão (O vínculo da vergonha, no número especial de Julho da Serrote), sobre o sentimento de um italiano governado por Silvio Berlusconi, comparável neste momento à de um brasileiro. Em entrevista à Folha, ele se refere à conjunção trágica ¡Covid-19!|¡Caveirão.38! como “a tragédia dentro da tragédia. |
Vinícius em 32 programas. Vinicius – Poesia, música e paixão é considerado o mais completo documentário sobre Vinicius de Moraes já produzido. Data de 1993, com realização da Rádio Cultura AM, de São Paulo, aos 80 anos de nascimento do poeta. A série de 32 programas, cada um com quase uma hora de duração, é apresentada pelo roteirista João Máximo, jornalista e biógrafo de Noel Rosa. Há depoimentos de Tom Jobim, Chico Buarque, Baden Powell, Carlos Lyra, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho e muitos outros artistas. A Rádio Batuta, do IMS, é parceira da reapresentação integral dos áudios.  
Monk. No último dia do mês passado saiu uma prévia (a faixa Epistrophy) de Live At Palo Alto High Scholl, álbum que recupera a apresentação do genial pianista Thelonius Monk e seu quarteto numa escola secundária desta cidade californiana, em 1968, em meio aos distúrbios raciais nos EUA. No El Cultural, Javier López Rejas explica por que essa iniciativa da Impulse é tão valiosa. |

Brava!, Salmaso! Vou, sim, elogiar de novo aqui a série de vídeos Ô de Casas, de Mônica Salmaso e seus convidados. Nos últimos dias ela postou João e Maria com Chico Buarque, de Chico e Sivuca, acompanhados por Luiz Claudio Ramos (violão) e Teco Cardoso (flauta), com um derramado textinho de gratidão, e Mistérios, com Joyce Moreno (Joyce e Maurício Maestro). |

Rir pra não chorar. Na verdade, rimos por muito mais que isso. Rir é vital na adaptação humana à vida e na preservação dos laços sociais, por exemplo. Henry Bergson foi um dos raros filósofos a mostrar que riso não é brincadeira. No Aeon, em inglês. |
Charla con Mario. Simpático, risonho e sempre animado pra falar de livros e literatura, em seu espanhol muito próximo do português, Mario Vargas Llosa conversa por videoconferência com Christopher Domínguez Michael, editor da revista mexicana Letras Libres. Mas o assunto é a pandemia, palavra que em espanhol e paroxítona.|


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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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