Jurupoca #31

Belo Horizonte, 17 a 23 de Julho de 2020 — Carta 31



POÉTICA – Vinicius de Moraes


De manhã escureço,
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço
— Meu tempo é quando.

Nova York, 1950

Reencontrei na estante este Grandes sonetos da nossa língua, a seleção e organização de José Lino Grünewald, Nova Fronteira, 1987. Festejei. Há tempos não tinha esse livro nas mãos. Entre Camões, Drummond, Raimundo Correia, o desbocado Bocage, Sá de Miranda… quanta gente e quanta leitura boa! Escolhi de saída, pra JU, este bem conhecido do Vinicius, à página 192 do volume. O soneto tem um fio preciso, de aço puro. Corta-se a língua e o ser do poeta, dividido, se ilumina.

O sono da razão produz monstros. 1797 – 1799. Gravura a água-forte, água-tinta em papel vegetal, 306 x 201 mm. Museu do Prado, Madri, Espanha.

[UM RETRATO DO TEMPO. QUE HORAS SÃO?]   Mude o que tiver de mudar neste texto sobre essa obra de Francesco de Goya y Lucientes (1746-1828), dos curadores do Prado, e me diga se não nos vemos estampados, se não vemos o que vivemos e enfrentamos no país e no mundo, agorinha

“Nesta gravura, Capricho 43, começa uma série de composições destinadas principalmente a denunciar a ignorância do povo, os vícios dos monges e a estupidez dos grandes. Superstições ainda difundidas entre o povo durante aqueles anos, alimentadas pelos monges, ofereceram ao pintor uma grande parte de seus temas. A peça oferece um mundo de pesadelo; Goya não converte a razão em verdade, não julga os monstros, apenas os expõe; apresenta assim um mundo da noite, que caracteriza a totalidade dos caprichos: uma inversão do dia. […] Continue a ler.”  



Ao fim e ao cabo, encontrar um culpado enseja um alívio ilusório na desgraça, porque significa que nem eu nem os meus temos nenhuma responsabilidade naquilo. Façam o que façam e digam o que digam, os meus não são culpáveis de nada nem têm responsabilidade alguma em erro nenhum; façam o que façam e digam o que digam, os outros, ao contrário, são responsáveis por todas as catástrofes e todos os desatinos. Essa forma de pensar, sempre respaldando os seus e sempre denegrindo os outros — ainda que, como é natural, os seus cometam desacertos e os outros, acertos — possui inumeráveis vantagens: para começar, poupa o trabalho de você  se informar, essa funesta mania de pensar e o risco de descobrir verdades incômodas; ademais — ou sobretudo — faz você nunca se sentir só, jamais se converter num desmancha-prazeres, num chato que diz Não quanto todo mundo à sua volta diz Sim, nunca correr o risco de enfrentar as intempéries e se transformar em inimigo do povo… Enfim. Que incorram nesta forma voluntária de estrabismo os que vivem engaiolados na política partidária, algo em si tão bovino, é uma calamidade que inspira compaixão; que incorramos nisso o resto dos cidadãos é uma calamidade sem paliativos.

El culpable de la catástrofe, Javier Cercas no El País

Opa! Vamos apear?

 [Que horas são? Talvez haja tempo de dizer que…]  

São principalmente as políticas de gênero e identidade que ocupam hoje as praças públicas, quase inteiramente virtuais. As disputas ideológicas de nossa época pouco cuidam das diferenças entre capital e trabalho. E a cultura é o campo onde se travam as batalhas.

A extrema direita demoniza a emigração, os direitos humanos, a luta contra a desigualdade e pela salvação do planeta. Desqualifica a ciência e a medicina, a imprensa livre e as revoltas contra o racismo e a brutalidade. Em geral, se aferram a seu Deus e superstições imemoriais.

Minorias étnicas guerreiam por suas narrativas contra as narrativas de maiorias ou as de outras minorias étnicas. A escritora norte-americana Siri Hustvedt, citada por Javier Cercas no texto acima, acusa o machismo universal por “uma fantasia coletiva de virilidade narcisista”, seja lá o quer for isso.

Cada letra do acrônimo LGBTQ+Ypsilone se opõe ao que foge a si própria; alimenta uma visão de mundo, totalizadora, por assim dizer; e uma letra se indispõe com outra letra sobre quem tem “direito da fala” ao defender isso e demandar aquilo.

Quem não milita por cores e tons e diverge da visão de mundo dos militantes que não diga ah. Melhor silenciar. Ou terá que aceitar o risco de ser tachado de transfóbico, racista o ou que seja, e ser banido do pedaço. Também enfrentará o risco de ser cancelado, perder o emprego, o cargo, a audiência, o ganha-pão.

A polarização se tornou uma forma de o ser humano se colocar no baticum do mundo. Um baticum que nada une, não comunica, mas separa e distancia as pessoas.

Essas rixas entre vítimas e culpados começaram a minar a democracia e, como sabemos, o sono da razão produz monstros, na lição de Goya.

A humanidade é uma só, ou nisso deveríamos acreditar, como Amin Maalouf (ver entrevista sugerida no P.S.). Mas a liberdade de pensar e se expressar deixou de ser um apelo universal. Foi relativizada pra se restringir à liberdade segundo os coletivos chancelados por sexo, religião, etnia, ideologia.

Não digo o óbvio, que seja assim em ditaduras ou regimes populistas, numa das tais democracias iliberais, como Hungria ou Polônia. O veneno está servido no país que é um dos berços da moderna democracia e em uma das mais ilustres universidade do mundo, que ostenta 68 laureados com o Nobel (o Brasil tem néris, neca). Falo de Princeton, onde se preserva a última casa de Albert Einstein.

No dia da Independência, 4 de Julho, surgiu nessa universidade uma carta longa e detalhada que, no seu ponto alto, pretende fulminar a liberdade de expressão. Centenas de signatários se dirigiram ao presidente da instituição com um interminável rol de demandas. Incluindo a criação de um comitê pra filtrar e enquadrar o “pensamento racista” em todas a publicações acadêmicas. Ao comitê caberá definir o que é “pensamento racista”. Conhecemos isso, pelo gênio de George Orwell, como “polícia do pensamento”.

A oportuna carta dos 153 intelectuais em defesa da tolerância e do livre debate nos EUA ainda enfrenta furiosa reação. O cientista político e escritor Mark Lilla, um dos promotores da iniciativa, vive por conta de se explicar e responder aos críticos. J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, caiu em desgraça por assinar a carta, e desgraçou outros signatários, apenar por alegada má companhia do nome na lista.

“Creio que exista hoje uma psicologia de intimidação e medo, uma covardia pra qual fomos arrastados”, disse Lilla. Andamos pra trás. “Nos EUA o que está se passando não é tão novo. Ao final do século XX o país não avançou para o século XXI, mas regressou realmente ao século XIX”, conclui o professor da Universidade Columbia. “E aquele século cuidou de fervor religioso, denúncias, censura, indiferença com as artes, filisteus. Estamos em um novo século XIX”.

“Neste momento”, disse o professor Yascha Mounk, outro signatário, o mais importante “é que um conjunto de patrulhadores culturais está tentando impor uma ética de contágio”, escreve. “Sua ambição é não apenas cancelar aqueles que são culpados de pensar a coisa errada; também querem cancelar aqueles que os defendem — ou que simplesmente se recusam a repudiá-los com fervor suficiente.” Mounk mata a cobra e mostra o pau (ups!):

“Os exemplos são tão numerosos quanto bizantinos, e os leitores franceses devem agradecer à sua sorte por não terem que descobrir por que um eletricista em San Diego perdeu o emprego por colocar a mão para fora de sua picape da empresa; por que um analista de dados de uma organização progressista foi demitido por resumir um novo artigo no mais prestigioso periódico de ciência política do país em um tuíte, ou mesmo por que um editor sênior do jornal The New York Times foi demitido por deixar um senador publicar um artigo de opinião no jornal.”

Helahoho! helahoho! E no Brasil?

Bem, se ainda não nos livramos do século XIX, por não saldar a dívida do escravismo, menos ainda chegamos ao século XXI.

E nem é preciso lembrar a vergonha educacional ou, ainda pior, a vergonha do saneamento básico. E é certo que apenas na Idade Média encontraremos paralelos ao atual terraplanismo no poder.

Mas a “psicologia de intimidação e medo, e a covardia…”,  no campo que se autodefine como “progressista” vigora também aqui. Tudo é mais diluído, nebuloso e sua expressão, mais pobre, mas há muito tempo está aí. A cultura do cancelamento se impõe não apenas no ambiente das redes sociais, mas em salas de aula e departamentos acadêmicos. Ah, cancelam-se também amigos, com quem se discorda e, passada a tempestade, não adianta tentar uma reaproximação.

Inculpar os outros, jamais os meus, por todas as catástrofes — essa forma voluntária de estrabismo, nas palavras de Javier Cercas — se espalhou pelo mundo, como o Corona.

A farra do YouTube

Domingo passado, soubemos tim-tim por tim-tim como youtubeiros do gabinete do ódio levantam até 150 mil reais por mês com publicidade veiculada em seus canais. Vários desses influenciadores infratores estão na mira da lei. E sabe-se que a publicidade estatal ajuda a engodar suas contas. Em outro flanco, deputados gastam verbas de gabinete pra custear produções youtubeiras, e faturam com isso. Em um caso e outro, o erário segue mal frequentado, a própria casa da mãe Joana, expressão, aliás, mais velha que o Brasil.


A vida e a vida no Instagram

Uma máquina algorítmica é muito mais que um negócio trilionário. É um demiurgo artificial criado no Vale do Silício, este Olimpo do século XXI, à sua imagem e semelhança. Entre essas maquinarias, o Instagram é tão poderoso quanto uma religião secular pode ser. A rede surgiu há 12 anos e depois foi comprada por Mark Zuckerberg, dono do Facebook, comprada e desvirtuada — segundo os pais da criatura, em Stanford, incluindo um brasileiro. Sua influência na vida de mais de um bilhão de usuários ativos é imensa. Vai dos valores mais aceitos à ideia da beleza, da agregação de afetos à comida que se come; chega à própria autoconsciência. Os “likes” recebido na telinha descarregam dopamina, com o efeito de bem-estar desse neurotransmissor. Deslizar pela página e espiar fotos alheias tem um sabor de voyeurismo. Mas, como lemos nesta ótima crítica a No Filter: The Inside Story of Instagram, livro da jornalista da Bloomberg Sarah Frier, o Insta se tornou uma fonte de infelicidade massiva. Estudo da Real Sociedade de Saúde Pública, no Reino Unido, concluiu que era o pior aplicativo pra saúde mental, causa de ansiedade e infelicidade em pessoas jovens. O Insta hoje é uma medida de “capital cultural”, e mesmo o dono de uma conta com poucos seguidores é pressionado a competir e construir uma vida online que pareça tão feliz quanto a dos outros. Sophie McBain, colaboradora da revista britânica New Statesman, onde saiu seu artigo, diz que a leitura de Frier a fez se sentir “ainda mais deprimida por constatar como o Facebook remodelou nossas vida pessoais”.


Magnoli 7 X 1 Schwartsman

O desaplauso ao artigo Por que torço para que Bolsonaro morra, de Hélio de Schwartsman, é unânime, até onde sei, e ainda bem. A conversa sobre ética consequencialista, na qual ele tentou se apoiar, rende doutos debates vazios. Mas o doutor Spock da folha, como gosto de chamá-lo, dado seu gosto pela Lógica, defendeu que a morte do ¡Caveirão.38! salvaria muitas vidas e, por isso, podia-se defendê-la. Ocorre que, ao torcer uma vez pelo Corona, o colunista se viu no mesmo plano equívoco do sacripanta que agourentou, com a tal ética. Ainda que de uma maneira bronca, Sua Excrescência também pode ser considerado um consequencialista. Não pretexta S.Excr. que os mortos pela ¡Covid.19! (morra quem morrer) não valem o preço do baque econômico? Demétrio Magnoli deu uma resposta direta a Schwartsman. “Quando um articulista de peso do maior jornal do país utiliza-se de linguagem paralela, está legitimando o discurso da barbárie. A coluna faz o debate público retroceder mais um degrau, rumo ao poço fétido habitado pelo olavo-bolsonarismo”, disse em sua coluna do último sábado.


Magnoli 1 X 7 Gilmar Mendes

Magnoli não é de ficar em cima do muro. Na TV, frisou seu apoio à nota dos militares contra o ministro Gilmar Mendes. O ministro do STF acusou a inação criminosa do governo na pandemia. Magnoli se fixou no uso abusivo do termo “genocídio”, associado por Mendes à cumplicidade do Exército com o governo. A expressão é mesmo imprópria. Mas seu uso não faz o ministro “perder a razão”, como afirma Magnoli. O sentido da fala, do recado, do que foi dito, é verdadeiro e, pelo amor de deus, urgente! Etimologia e semântica têm hora! “Genocídio”, no contexto da fala do jurista, pode muito bem, com mínima boa vontade, ser lido como hipérbole. A conjunção ¡Caveirão.38!|¡Covid.19! se mostra letal, neste instante, uma tragédia já larga e duradoura. O MAIS DECISIVAMENTE HUMANO NESTE MOMENTO É DIZER ISSO O QUANTO FOR PRECISO. GM deu um grito e ESSE grito foi ouvido; pôs o dedo na ferida e chamou atenção para o que o país parece menosprezar. A assombração do “cientificismo” persegue o governo como outras tantas, globalismo, comunismo etc., e os brasileiros pagam o pato. Não é só cloroquina, superstição, desinformação e paralisia. É o horror, o horror! Técnicos do que restou do Ministério da Saúde se declararam constrangidos até por usar máscaras pra se proteger do vírus na Esplanada, com medo de que a ação seja vista como “ideológica”. O repórter Bernardo Mello Franco pôs a questão no foco: “O supremo ministro pode ter carregado no tom, mas disse uma obviedade”, opinou. Lembrou que os comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica, que assinaram a nota de contestação a Mendes, “controlam 390 mil homens armados e não deveriam se meter em disputa política”. Aparentemente, ainda somos uma democracia. Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Com Joyce em Ontem ao lugar, parceria de Catulo da Paixão Cearense (São Luís, MA, 1863-Rio de Janeiro, RJ, 1946) com o flautista Pedro de Alcântara (Rio de Janeiro, RJ, 1866 – Sete Lagoas, MG, 1929).

A gravação é do álbum A paixão segundo Catulo, lançado em 2018 pelo Selo Sesc, com produção e arranjos do flautista e saxofonista Mário Sève.

Além de Joyce, cantam Leila Pinheiro, Claudio Nucci, Carol Saboya, Lui Coimbra, Rodrigo Maranhão, Alfredo Del-Penho e Mariana Balta, em faixas como Luar do sertão, Cabocla de Caxangá, Flor amorosa e Por um beijo. Uma beleza

“Catulo da Paixão Cearense foi o mais popular letrista brasileiro no início do século XX, embora ‘incapaz de escrever uma célula melódica que fosse’, segundo Heitor Villa-Lobos”, escreve Zuza Homem de Mello no encarte do disco. “Um certo preconceito do maestro”, complementa, “já que Catulo aprendeu violino e se acompanhava ao violão.

Paixão era o sobrenome de seu pai, um ourives cearense que, vivendo em São Luís, acrescentou o adjetivo de sua origem formando o novo nome da família que, ao se transferir para o Rio, propiciou a Catulo tornar-se conhecido no meio musical carioca”, conta Zuza.

Suas letras cheias de uma poesia Belle Époque encaixaram-se em melodias de pioneiros da nossa música popular, da seresta e do choro, como João Pernambuco, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth e Joaquim da Silva Callado.

Zuza também lembra que a vida de Catulo não foi fácil. Teve “ovações consagradoras no Palácio do Catete diante de plateia culta que incluía o presidente da República e, no outro extremo, o trabalho braçal como estivador no cais do porto”.

A melodia de Ontem ao luar fora composta por Alcântara em 1907, com o título Choro e poesia, e em 1913 teria recebido a letra que se segue (não economize seu dicionário!). O dom de Catulo pra interpretar uma melodia complexa e pontuá-la com seus alexandrinos é muita exuberância.

O arranjo de Sève reverencia a beleza da canção na linha da flauta, como concebido por Alcântara, e a voz de Joyce expõe todo o encanto do conjunto. Mas, se você faz muita questão de um versão pós-modernosa da canção, com o apelo de guitarras distorcidas e outros ruídos, tudo bem, ouça, abaixo, Marisa Monte em gravação ao vivo do disco Memórias, de 2001.

ONTEM AO LUAR

Ontem ao luar
Nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste
O que era dor de uma paixão

Nada respondi
Calmo assim fiquei
Mas fitando o azul do azul do céu
A lua azul eu te mostrei

Mostrando-a ti dos olhos meus correr senti
Tua nívea lágrima e assim te respondi
Fiquei a sorrir por ter o prazer
De ver a lágrima nos olhos a sofrer

A dor da paixão não tem explicação
Como definir o que só sei sentir?
É mister sofrer para se saber
O que no peito o coração não quer me dizer

Pergunta ao luar travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta ao luar do mar a canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão

Se tu desejas saber o que é o amor
Sentir o seu calor
O amaríssimo travor do seu dulçor
Sobe o monte à beira-mar ao luar
Ouve a onda sobre a areia lacrimar

Ouve o silêncio a falar na solidão
De um calado coração
A penar, a derramar os prantos seus

Ouve o choro perenal
A dor silente, universal
E a dor maior, que é a dor de Deus

Se tu queres mais, saber a fonte dos meus ais
Põe o ouvido aqui na rósea flor do coração
Ouve a inquietação da merencória pulsação
Busca saber qual a razão

Porque ele via assim tão triste a suspirar
A palpitar em desesperação
Na teima de amar um insensível coração
Que a ninguém dirá no peito ingrato em que ele está
Mas que ao sepulcro fatalmente o levará  

Cultura pulsante

No curso dos eventos humanos, nos vemos num planeta ameaçado e acuado pelo Corona, com o ódio a vicejar e cevar distopias. Incertezas sem fim. Alguém podia esperar que a gravidade da hora impusesse pautas mais reflexivas, apropriadas ao momento, relevantes e até, quem sabe, edificantes. Talvez, se esse alguém baixasse de um túnel do tempo, de décadas atrás, pelo menos. Aqui e agora na Terra, alô, alô, marciano!, os jornais não se sustentam mais com assinaturas e anúncios em papel. Cliques dão audiência e dinheiro; e o caça-clique é um sai de baixo, um vale-tudo. A Ilustrada, caderno de ex-cultura da Folha, sabe disso. “Gil fala sobre sonhos, e Susana Vieira veste moletom com orelhas de coelho”, nos rendeu um esforço de reportagem a excelente Mônica Bergamo. O leitor inspirado por tais revelações que zapeasse pro Estadão iria se sentir ainda mais pleno: “Johnny Depp cortou o dedo durante briga de três dias com ex-mulher”. Em O Globo é que não se extrai leite de pedra. Depois de ouvir meia dúzia de celebridades da Casa, por certo exultante com as lives maravilhosas do Nizan, uma reportagem do diário tentou provar a seguinte tese sociológica, ou antropológica, sei lá: “Como o isolamento social vem resgatando a arte da boa e velha conversa.” Então salve o distanciamento social!


A série do ano, dizem

A violação sofrida pela personagem principal, a escritora Arabella Essiedu (a bela Michaela Coel) conduz a história de I May Destroy You (HBO), apresentada como “série cômica” por um jornal brasileiro. Em uma das subtramas, um jovem negro é abusado pelo parceiro no final de um encontro via Grindr, aplicativo gay de encontros. Todas as drogas da moda correm soltas na cena black londrina bem de grana. Nota-se como o viés feminista idealiza o homem do futuro. A transa italiana de Arabella, um vapor do tráfico, não bebe nem fuma, preocupa-se com a mãe e os irmãos, é rapaz sereno, compassivo, paciente, capaz de examinar coágulos menstruais com naturalidade de um rodado hematologista e ainda levar a moça com a cabeça feita por fumo, coca, ecstasy, álcool e o escambau pra uma cena romântica, à luz das estrelas numa praia de Óstia! Ah, também assistimos a dezenas de xixis de Arabella de porta aberta. Eis o tipo de produção que agrada críticos dos “dois lados do Atlântico”. Eis a pauta, a palavra de ordem do imaginário atual. Elegeram-na, desde logo, como série do ano. Chega pra “mudar o jogo na TV Britânica. É por essas e outras que a Ilustrada, o caderno de ex-cultura…, você já sabe, nos chama atenção para este novo fenômeno: “Strip-tease com pegada feminista vira aposta de Hollywood em filmes e séries”. Poucos dias antes, o caderno voltava a impor os jogos eletrônicos como a oitava, ou quem sabe já a undécima arte: “Game ‘The Last of Us Part 2’ atiça conservadores com personagens lésbicas e trans”. . .
Michaela Coel em I May Destroy You. Foto: HBO/Divulgação


O MUNDO PASSADO A LIMPO. O naufrágio das civilizações, do jornalista e escritor Amin Maalouf, sai no Brasil pelo Grupo Autêntica, em 7 de agosto. Nesta entrevista à revista mexicana Letras Libres, ele comenta os temas do livro, que incluem o islamismo radical, os conflitos identitários e o ultraliberalismo. Maalouf, nascido em Beirute, traz na origem familiar a riqueza da história cultural dos povos do Levante. Sua fala transmite serenidade e simpatia.|

MAFESOLI. O “[…] reconhecimento do passado não é um movimento conservador ou reacionário, mas sublinha que toda vida individual ou toda vida coletiva não existem ex nihilo. Elas são, ao contrário, dependente do que, no longo prazo, se sedimentou”, pontifica o sociólogo francês em interessante entrevista concedida a Rodrigo Coppe, na revista Estadão da Arte.|

COSMOPOLITISMO.“O cosmopolitismo nasceu como uma vacina contra o nacionalismo e com uma vocação errante: a pátria de sandálias”, anota o filósofo espanhol Juan Arnau Navarro em ensaio que cativa pelo brilho e inteligência, no Babelia do El País. Entendemos por que o ideal cosmopolita foi cultivado por Leibniz, Hume Spinoza, e pervertido por Kant, Nietzsche e Heidegger. |

SVEVO LIVRE. Dario Maestripieri, um professor de literatura da Universidade de Chicago, começa por dizer que, convidado a participar de um encontro anual de italianistas em Pisa, se sentiu aliviado por saber que “a literatura na Itália não foi tomada pelo ativismo social, como ocorreu nos EUA”. Por outro lado, marxismo e psicanálise ainda dão as cartas naquele ambiente acadêmico. Dito isso, ele propõe uma interpretação da obra de “Italo Svevo” (Ettore Schmitz, 1861–1928) livre das duas ortodoxias. Sua leitura de A consciência de Zeno é bem estimulante. Até me animou a reler o romance, ainda este ano, espero, mesmo que me matem saudades de Trieste.

CENTENÁRIO DE ELIZETH. “A partir de hoje (16/07), Elizeth nasce no meio digital para um público que pode ser o mesmo do LP ou não. Seu potencial de renovação será testado agora”, anuncia Julio Maria no Estadão. No aniversário de cem anos de Elizeth Cardoso (Rio de Janeiro, RJ, 1920-Rio de Janeiro, RJ, 1990), uma parte muito substancial de suas gravações chegou ao streaming, por iniciativa da gravador Universal. Um dia antes a Biscoito Fino postou no YouTube essa faixa do CD Todo o Sentimento (Columbia/Biscoito Fino, 2003), registro  do show gravado ao vivo no Teatro João Caetano, RJ, em 22/09/89. Elizeth é acompanhada pelo grande violonista Rafael Rabello (Petrópolis, RJ, 1962-Rio de Janeiro, RJ, 1995) na canção homônima de Chico Buarque e Cristóvão Bastos. E a Rádio Batuta descolou duas gravações inéditas do acervo do Instituto Moreira Salles. Uma de 1971, em que Elizeth canta o samba-canção Quem há de dizer? (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves), outra de 1986, e Insensato destino (Acyr Marques, Chiquinho e Maurício Lin), samba que fora sucesso com Almir Guineto no ano anterior, sucesso de pagode!|

NANA, TOM, VINICIUS. Saiu dia 10, exclusivamente na plataforma Sesc Digital, esse disco fabuloso. Nana, aos 79 anos, vivendo em Pequeri, nas Minas dos Matos Gerais, volta às canções de Tom Jobim com Vinícius, e de um e outro separados. Ninguém canta esse repertório como Nana. Os arranjos são do mano Dori, o que vale quase como coautoria. O álbum remete à amizade que une as famílias Jobim e Caymmi e é digno dessa história. A produção refinada contou com um fundo de cordas, gravado pela Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, e músicos brasileiros do primeiro escalão, incluindo o próprio Dori Caymmi (violão), Jorge Helder (baixo) e Itamar Assiere (piano).|

AULINHAS DE JAZZ. Com Zuza Homem de Mello na TV Estadão. São dois vídeos, com menos de vinte minutos somados. O primeiro episódio traz ótimas dicas sobre como apreciar gravações e o jazz ao vivo; fala da instrumentação e dos elementos da música, melodia, harmonia, ritmo. O segundo tem uma aula prática. Zuza toca LPs históricos e mostra como se toca o tema e o improviso, como era antes e passou a ser depois do bebop, ou antes e depois de Lester Young, saxofonista considerado por ele o primeiro músico moderno do jazz.

CLÁSSICOS, MEU CARO. Pra não me esquecer dos concertos do Wigmore Hall de Londres, registro esta gravação do Quarteto de cordas de Beethoven G Op. 18 No 2, com o Chiaroscuro Quartet. A publicação é de ontem (17/07); a gravação, com plateia, graças a deus, de 28/01/2020.


MORRICONE & CHICO. A Ju podia ter recordado no número passado do Per un Pugno di Samba, LP lançado por Chico Buarque na Itália, em 1970, em parceria com o maestro Ennio Morricone. Saiu em CD no Brasil em 2003, pela BMG. Lembrou-me disso o Mauro Ferreira e o professor N.T, quase ao mesmo tempo.|

“O GOVERNO BOLSONARO ACABOU, PORRA!”. “Não há tempo para terraplanismo em tempos de coronavírus!”, diz Thomas Milz, colunista da DW Brasil. Ele entende que o presidente será um “lame duck (pato manco) já na primeira metade do primeiro mandato”, e projeta: “Enquanto Bolsonaro é bicado por uma ema nos jardins presidenciais, seu vice, Hamilton Mourão, tenta tranquilizar investidores e empresários. Teremos, provavelmente, um vice cada vez mais presente e um presidente cada vez mais recuado.” |  

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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