Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa

Belo Horizonte, 24 a 30 de Julho de 2020 — Carta 32

INVULNERÁVEL – Cruz e Souza
 
Quando dos carnavais da raça humana
Forem caindo as máscaras grotescas
E as atitudes mais funambulescas
Se desfizerem no feroz Nirvana;
 
Quando tudo ruir na febre insana,
Nas vertigens bizarras, pitorescas
De um mundo de emoções carnavalescas
Que ri da Fé profunda e soberana,
 
Vendo passar a lúgubre, funérea
Galeria sinistra da Miséria,
Com as máscaras do rosto descoladas,
 
Tu que és o deus, o deus invulnerável,
Resiste a tudo e fica formidável,
No silêncio das noites estreladas!

Reencontrei, depois de muito, este Grandes sonetos da nossa língua, Seleção e organização de José Lino Grünewald, Nova Fronteira, 1987. O poema de João da Cruz e Souza (Florianópolis, SC, 1861-Antônio Carlos, MG, 1898) vai à pág. 112.

Noire et blanche (preto e branco), obra de Man Rey(Emmanuel Radnitzky, Philadelphia, USA, 1890-Paris, France, 1976 ), 1926. Conforme o Google Arts & Culture, a fotografia saiu pela primeira na Vogue, com o título Rosto de nácar e máscara de ébano. O nome Noire et blanche apareceu na revista Variétés, em 1928. A modelo Kiki de Montparnasse representa a máscara branca em contraste com o artefato africano. A cultura africana andava na ordem do dia na Paris daqueles anos. Ao fixar as manchas de luz e sombra, Ray sugere uma perspectiva sobre a distinção social de uma e outra cor da pele humana, a indagar o observador sobre as aparências. Foto: Museo Nacional Reina Sofia, Madri, Espanha

Opa, vamos apear?

(Toquinho conta que Vinicius pretendia homenagear seu grande amigo chileno, ao escrever a letra dessa música. Quando a ouviu, num festivo encontro em Paris, Pablo Neruda teria falado algo como “Peraí, Vinicius, me honra sua homenagem, mas isso está me parecendo letra de tango, não é meu. E Vinicius, diz Toquinho, se pôs em tremenda “cara de tacho”.)

Pero hay días…


O Corona, claro, não ajuda. Nem a abjeta — ainda tão comum no país — carteirada do desembargador de São Paulo, um da casta dos intocáveis da magistratura.

Mas é mais que isso. A cena incita ao suicídio um macaco autoconsciente da raça humana, ou ao exílio, se ele pudesse viajar.

Vem a propósito o ensaio de Carlo Ginzburg, disponível em pdf na Serrote, já sugerido aqui. O historiador italiano trata do “vínculo da vergonha”. O texto começa assim:

“Há muitos anos, percebi de repente que o país a que pertencemos não é, como quer a retórica mais corrente, o país que amamos, e sim aquele do qual nos envergonhamos.”

CARLO GINZBURG

Hay días que no sé lo que me pasa.

Mas já roda randômico o dial que trago na telha. Parou numa estação que toca A lua e eu, balada de Cassiano e Paulo Zdanowski…Quando olho no espelho,/ estou ficando velho e acabado. Tema de abertura da novela O grito, exibida pela TV Globo em 1976!, veja a leitora, veja o leitor, 1976! O grito?

Tudo a ver. Inclusive aquele do Munch.

O Brasil é tóxico e estou intoxicado, além de envergonhado, que é como ter as vergonhas, pudendas, de fora.

Mas, diferentemente do que pensam nossas crianças de 40 anos, “não há motivo nenhum para você ficar muito à vontade no mundo”, como disse Ivan Lessa ao repórter Geneton Moraes Netto, numa entrevista de 1999.

Lessa, um exilado voluntário em Londres, falava da saúde mental que a experiência de viver no estrangeiro pode proporcionar.

Geneton, em 2016, e Lessa, em 2012, já evoluíram para o óbito. Involuímos sem eles.



O que pode piorar, piorará
“Não quero entrar com meu plangente violão do saudosismo, mas o nosso jornalismo piorou. Muito mesmo’’, dizia o Lessa. Era 1999, e o massacre da imprensa pelas empresas de tecnologia “ponto com” mal se avizinhava.

No meio do tiroteio
O jornalismo não tem dado conta — e nem podia dar — de se desincumbir bem da frágil, provisória, mas essencial ordenação do mundo. Perdeu autoridade. Anda pra baixo, desacreditado e empobrecido. O jornalismo está ferido em meio ao tiroteio das guerras culturais e ideológicas.

Ademg informa
João Pereira Coutinho comentou na Folha os desatinos da imprensa progressista, pressionada por parte da sociedade que tenta impor limites à liberdade de pensar e opinar. A Ademg informa: sai a clássica objetividade jornalística — ou a busca da maior aproximação possível da verdade, já que não existe verdade absoluta; entra a “clareza moral” dos que se julgam infalíveis e defendem como absolutamente verdadeiras (não é menos que isso) as noções de “equidade” e “empatia” com as quais tentam suplantar aquela.

O futuro chegou
“O jornalismo do futuro vai aprofundar e refinar a busca pela objetividade? Ou irá regredir a tempos pré-modernos, quando o tribalismo imperava?”, pergunta JPC, ao se referir à pré-história panfletária e demagógica da imprensa. “Não estou otimista. Mas reconheço a ironia: não são as redes sociais que matam os jornais; são eles próprios que se suicidam quando seguem o exemplo das redes”, ele diz. Os jornais estão se matando quando se deixam editar pelo Twitter, penso cá comigo. Notar isso é ser apenas realista.

Condescendência
É muito bom que se cubram as contribuições culturais de artistas excluídos, por qualquer motivo. Mas é pena que isso esteja sendo feito de forma condescendente e acrítica. Tanto pátria quanto gênero podem se tornar meras ferramentas de marketing nas mãos de veículos que, desesperadamente, procuram sobreviver na era do caça-clique, e a salvo das patrulhas do pensamento.

O crítico sumiu
A crítica virtualmente desapareceu dos jornais. Até resenhas chinfrins, no pobre padrão nacional, parecem ter ido pro espaço. Só se festeja e enaltece, e o que é politicamente palatável. É a versão pós-pós-moderna do velho oba-oba. De tanto se acovardar perante as redes sociais, a imprensa cultural acaba por se resignar, e tenta pegar o ritmo da dança tribal.

Pra baixo
Uma imprensa acrítica se assume como incapaz de avaliar os produtos culturais e sua fruição, e com isso abandona um papel histórico que lhe era essencial. Deixa de informar, ordenar, orientar e educar seus leitores, e de dar conta de uma grande variedade de manifestações que antes pautava. Mas, de que falo? Que horas são? O ano acho que sei. É 2020?

O case Folha
O caso mais notório no Brasil é o da Folha de S.Paulo, e o da Folha Ilustrada, seu caderno de ex-cultura, em particular. A Ilustrada se converteu numa tribuna da exclusão. Mas o que podia ser uma inovação virtuosa, desanda no oportunismo. Por outro franco, condena ao ostracismo tudo que não se equilibra na balança contra pesos viciados pelo viés ideológico. Os jovens excluídos que venham a ler o jornal, ou elites que se querem descoladas de nossa realidade brutal que as beneficia, são as primeiras vítimas dessa discriminação reversa.

O babado no crivo
A Folha Ilustrada presta um mau serviço às subculturas que quer valorizar, quando a um tempo tenta se promover e alcançar imunidade às patrulhas. Aliás, diga-se de passagem, nos tornamos, culturalmente, uma sociedade dividida menos em classes que em subculturas e sub-subculturas. Por isso está mais difícil conversar. A capa do caderno, em um sestro obsessivo, passou a enquadrar todos as dores do mundo, todos os babados, em um dos lados das trincheiras. Podem ser notas de sua coluna social, games, o pop de alguns guetos exclusivos, seriados de TV, não importa; dia sim, outro também, essa é a pauta dominante do caderno.

Elitizaram o Notícias Populares
Sempre com uma pretensão vanguardeira, de estar na proa da imprensa nacional, o jornal abusa do velho sensacionalismo. Mas é um sensacionalismo novo, com banho de loja e bênçãos da USP. Assim, chique, viajado e bem formado, vai pro samba do caça-clique. É como se elitizasse e modernizasse como jornalismo cultural o velho e sanguinolento Notícias Populares, finado em 2001 e do mesmo grupo Folha da Manhã. Nos tempos do NP, crime escabroso, futebol e mulher pelada vendiam jornal como pão na chapa das padocas. Hoje, supostamente, o que vende é uma reportagem do gênero Com curiosos e peladões, festas virtuais têm sequestro falso e xixi em taça de cristal, capa do caderno de quarta-feira (22).

A Folha Ilustrada renovou o espírito do velho Notícias Populares. 
É a reinvenção do jornalismo cultural pela Barão de Limeira
Na lata de lixo
O que não encaixa nos nichos de uma linha editorial progressista e espetaculosa está fora. MPB, jazz, música clássica, cinema, desenho, HQs, arquitetura, perfis, entrevistas de fôlego, tudo que soar inortodoxo vai pro lixo. É o império da velha juvenília, hoje afeita à tribalização do público. É a reinvenção do jornalismo cultura pelos professores pardais da Barão de Limeira.

Evoluindo firme
Posso estar absoluta, profunda e rotundamente enganado. Mas leio jornais diariamente há mais de 40 anos e com método. Sinto que, sim, o jornalismo cultural no Brasil só pode estar evoluindo pro óbito, como se diz hoje em português televisivo brasileiro que alguém capotou, abotoou, bateu a caçoleta, partiu dessa pra melhor, entregou a rapadura, pifou, morreu.

Tecnicamente morto
Os elitistas perdemos os privilégios, ai de nós. Helahoho! helahoho! Para usar uma expressão de Paulo Francis, me sinto “tecnicamente morto”. Francis se sentia assim diante da gritaria, do filistinismo geral, da nascente e crescente “estética do ressentimento” notada por Harold Bloom ainda nos anos 1980. Se sentia morto por viver no esplendor da indústria cultural (que saudade!) e da sociedade de massas (ah que saudade! também). É hora e vez das tribos. Cada uma com seus tambores e códigos próprios. Cada qual com suas preferências, superstições e imposições. Um traço comum é o desprezo pelo passado e pela história e o esquecimento da vasta e preciosa contribuição cultural que herdamos.

Tecnicamente vivo
A letra de Nine out of ten (faixa A2 da obra-prima fundamental de Caetano que é o álbum Transa, de 1972), mistura a certeza da morte (Know that one day I must die) com a certeza visceral de se estar vivo (I’m alive and vivo, muito vivo, vivo, vivo). O cantor está vivo quando sente na barriga a batida do reggae, ao caminhar por Portobello Road, famosa rua londrina, ou ao chorar com as cenas de estrelas de cinema que vê em sessões da TV britânica. Longe de casa, forçosamente exilado, triste e amargurado. Mas vivo, tecnicamente vivo.


CAETANO VELOSO (Santo Amaro da Purificação, BA, 1942) canta Tigresa, faixa B3 de Bicho, álbum de 1977.

Canção de melodia plana em tom menor (Dm7 / Gm7 / Bb etc.), marcou época e fez história no imaginário cultural da MPB. É um conto-canção melancolicamente evocativo sobre uma mulher, uma deusa de unhas negras e íris cor de mel.

O piano tem Tomás Improta; Caetano e Vinícius Cantuária (também no contracanto) tocam violão e Arnaldo Brandão, baixo; a bateria é de Enéas Costa.  

Quem é essa mulher? Sim, mas antes, que tempos eram aqueles?

Em Aos trancos e barrancos – Como o Brasil deu no que deu, Darcy Ribeiro chama de 1977 de O Ano do Pacote, referindo-se à reação do presidente Ernesto Geisel à eminente derrota eleitoral da ditadura.

O Pacote decretava o recesso do Congresso e o advento dos senadores e governadores biônicos. Também foi o ano do AI-9, que institui o divórcio no Brasil, ano do Fradinho do Henfil, e o ano trágico de Claudia Lessin, “mocinha carioca, [que] é drogada, seviciada e morta, numa farra, por um milionário suíço, traficante de droga, que fica impune.”

Darcy nada diz de Bicho e Tigresa. Mas os baianos deitavam e rolavam em prestígio como artistas e formuladores culturais.

A música fora lançada por Maria Bethânia ainda em janeiro, com uma das inéditas do irmão a entrar no repertório do show Pássaro da Manhã, dirigido por Fauzi Arap no Teatro da Praia, Rio, e como faixa A2 do seu LP. Pouco meses depois, Tigresa apareceria no álbum Caras e Bocas (B1), de Gal Costa.

Bicho é o LP de Odara, Gente, Um índio, O Leãozinho e Tigresa. Todas essas canções seriam ouvidas por bandos de adolescentes e jovens adultos até o limite de resistência dos discos de acetato, ou das fitinhas K7. Todas estão na memória afetiva de milhões. Todos devemos isso a Caetano. Mas, afinal, quem é nossa Tigresa?

Na cronologia do site do artista recorda-se, sobre maio de 1977:

“Lançamento de seu novo disco, Bicho, reunindo algumas músicas que se tornarão clássicos, como Tigresa (que já virara hit na voz de Gal Costa), Um Índio, Gente; uma espécie de protesto social dançante, na linha chamada de heavy causes in light music; Leãozinho e Odara. Nova polêmica se instaura. O termo odara acabará se tornando sinônimo de hippie, ou, para a ala dos esquerdistas, ‘alienado’; os ‘odaras’, por sua vez, responderão aos que lhe cobram posicionamentos políticos explícitos, chamando-os de ‘patrulheiros ideológicos’. Uma atualização da divisão entre os tropicalistas e os engajados da MPB, dez anos depois do movimento.”  

Guardava que Tigresa era inspirada em Sônia Braga. Para um adolescente nos anos 1970, a atriz será eternamente a linda, silvestre e rebelde moça Gabriela (da novela exibida pela TV Globo em 1975), a escalar pra sempre o telhado e pegar o papagaio de um moleque desconsolado. Daí, pra quem aprendeu um pouco de espanhol, as tantalizantes bragas (naquinho de nada) de La Braga.

Mas nossa atriz é apenas personagem secundário dessa história meio folclórica na MPB, veio-se a saber. Em nota publicada em janeiro de 2015 no Globo, Ancelmo Gois se remete a coluna de Nelson Motta sobre as musas de algumas canções famosas. Nelsinho havia apontado Sônia como musa inspiradora de Trem das Cores (outro acontecimento artístico e marco cultural), numa “viagem romântica de trem do Rio a São Paulo”. A musa de Tigresa, na verdade, fora Zezé Motta.

Daí que a coluna de Ancelmo foi ouvir o próprio Caetano, que dá mais linha à conversa:  

“A música ‘Tigresa’ foi escrita na época da Dancing Days (discoteca) [Frenetic Dancing Days Discotheque, fundada  em 1976 por Nelson Motta, e de vida curta, no Shopping da Gávea, Rio. A novela Dancing Days, da Globo, escrita por Gilberto Braga e exibida entre 1978/79, herdaria o nome.]. Zezé tinha as unhas pintadas de preto. A figura física da ‘Tigresa’ veio muito mesmo de Zezé. E ela sabe disso. Mas a canção não é sobre ela só. Tem muito Sônia e pensamentos sobre as mulheres daquele tempo. Faz anos, me fizeram essa pergunta numa revista e eu disse que tinha Zezé e Sônia, mas também muitas outras mulheres. Finalmente, eu preferia fazer como Flaubert (que disse ‘Madame Bovary c’est moi’): a ‘Tigresa’ sou eu”, diz Caetano.”

A turma da coluna do Gois pelo visto não pesquisou o assunto. Esta JU, sim, foi à hemeroteca da Biblioteca Nacional. Na edição de 27 de maio de 1977, dia que seu LP chegava às lojas, o Jornal do Brasil publicou a coluna “Bicho segundo seu autor: Caetano Veloso”, assinada, claro, por Caê ele mesmo:  

“Mil pessoas me perguntam quem é a Tigresa ou para quem a música foi feita. Pois bem. Depois da mamãe Tigresa da televisão, a primeira imagem de mulher que que veio à minha cabeça foi a de Zezé Mota (sic), e isto está bem evidente nas unhas e na pele. Mas acabei descobrindo que os olhos cor de mel são da Sônia Braga, embora não deixam de ter um parentesco com a Menina Maribel [personagem de Pluft, o fantasminha?]. Maria Bethânia e Gal já estavam lá. E Norma Bengel, Clarice, Claudinha, Helena Inês, Maria Ester, Silvinha Hippy, Marina, muitas outras meninas que eram bebês em 1966, Suzana e Dedê. Por fim, a Tigresa sou eu mesmo. É minha primeira canção parecida um pouco com Bob Dylan.”  

Créditos: Zezé Motta em foto de Antonio Guerreiro/reprodução; reprodução YouTube

Como se vê, Caetano nunca foi de deixar por menos.  

TIGRESA
 
Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
 
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin' Days
 
Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
 
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz
Vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
 
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse, não
E eu corri pro violão, num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento

Villa e Segóvia
Se ainda não viu, não perca Villa-Lobos: de Bach ao Brasil, documentário de Carlos de Andrade exibido há quase um ano no canal Film&Arts. A biografia do compositor é contraposta à invenção da música e seu significado. Vemos sua carreira internacional decolar com a ajuda do amigo e pianista genial Arthur Rubinstein. O violonista brasileiro Turíbio Santos explica como Villa transpôs a influência de Bach pra nossa paisagem e cultura musical, com detalhes técnicos. Há depoimentos ilustres, como o do maestro venezuelano Gustavo Dudamel, e do violonista espanhol Andrés Segóvia, que foi próximo de Villa. Que figura deliciosa é Segóvia. De maneira pausada e voz firme, descreve a persona do amigo: uma selva de cabelos negros no topo cabeça, a expressão de um javali no olhar e uma grande ternura resultante. Conta que quando se conheceram, Villa lhe disse que escreveria pelas de violão pra ele, e que ele mesmo, Villa, era um violonista. Segóvia respondeu que se sentia honrado em saber, e passa seu instrumento ao brasileiro. “No primeiro acorde, senti que as cordas explodiriam, então peguei o violão de volta. Villa-Lobos, em vez de ficar ofendido, soltou uma grande gargalhada. Dessa gargalhada nasceu nossa amizade.”

Agente etiológico
O negacionismo, ou a “política da negação”, é um misto de ideologia e doença mental que acomete a extrema direita, mas também a esquerda mais ferrenha, quando, por exemplo, se culpa a Rede Globo pela ruína do PT, a despeito do que vai debaixo da ponte do Mensalão ao Petrolão. Intelectuais negaram e deve haver quem ainda negue a existência dos campos de concentração e da Shoah. Fernando Gabeira aludiu a uma carta de Sigmund Freud a Arnold Zweig em que o vienense recorda a história da suprema negação do rei mouro Boabdil. Ao receber por escrito a notícia que o reino de Granada e sua adorada Alhambra estavam perdidos, acossados pelos reis católicos, só lhe restava a rendição. Mas Boabdil decide queimar a carta e matar o mensageiro. ¡Caveirão.38! fez algo parecido ao negar a pandemia. Sabia que o Corona iria arrasar a economia e seu governo, diz Gabeira. Sem estatura pra enfrentar a realidade, e conduzir o combate da peste, o que podia fortalecê-lo, se saiu com “gripezinha” e cloroquinas, negando a ciência e à medicina. “A negação do coronavírus por Bolsonaro é um dos processos mais corrosivos na história contemporânea. Ele desmontou o Ministério da Saúde, em plena pandemia, e o ocupou com militares”, comenta Gabeira. Essa substituição da realidade por desejos neste momento, principal sintoma da doença ou ideologia, dá igual, que é a “política da negação”, contaminou milhões de brasileiros, acrescento. Também se torturam números e tomam-se vermífugos contra a Covid-19. ¡Caveirão.38! é o agente etiológico dessa epidemia de delírio e desinformação.

Que horas são?
♫ Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? ♫ É o que posso acrescentar, meus senhores.



Vela acesa. Para Sérgio Ricardo (Marília, SP, 1932-Rio de Janeiro, RJ, 2020), morto nesta quinta-feira (23), aos 88 anos. O artista — compositor, cantor e cineasta — é uma figura proeminente em nossa cultura, com trilhas sonoras premiadas, como a de Deus e o diabo na terra do sol (1963), de Glauber Rocha, participação na Bossa Nova, e músicas se sucesso incluindo Zelão, Beto bom de bola e Ponto de partida. A gravadora Biscoito Fino, com a notícia da morte, postou no YouTube a faixa Não há mais o que encontrar no que de velho ficamos / Vou renovar, do show Cinema na música, gravado no Teatro da UFF, no Rio, em 2018. |

Festival Espinoza. Uma série de lançamentos em língua espanhola reforçam a importância do filósofo holandês e de sua Ética pra ajudar a pensar a cacofonia de ideias que se batem no mundo atual. No El País Brasil. |

Aristóteles cancelado. “Se o cancelamento é a remoção de uma posição proeminente com base num crime ideológico, pode parecer que há justificativas para se cancelar Aristóteles”, anota a filósofa e professora da Universidade da Califórnia Agnes Callard, no New York Times. O artigo começa por lembrar que o filósofo grego defendeu a escravidão e a exclusão de mulheres e trabalhadores braçais dos benefícios da escolarização e cidadania. Essa provocação levará a uma luminosa defesa da importância de continuarmos a ler Aristóteles, em vez de cancelá-lo. |

ProPublica. A revista espanhola Jot Down entrevistou o mestre do jornalismo Paul Steiger, hoje com 77 anos. Depois de uma respeitada carreira nos diários Los Angeles Times e Wall Street Journal, ele se aposentou em 2008 para fundar a ProPublica, plataforma digital de jornalismo financiada por mecenas milionários e doações de leitores. Seus quadros são muito bem pagos e podem levar anos na produção de uma única reportagem. Exemplo disso é a base de dados, publicada no ano passado e aberta aos usuários, com a pontuação de qualificação de 17 mil cirurgiões, com suas fichas e registros ponderados de complicações médicas. |

Negócios divinos. A Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, processa ex-aliado por uso de símbolos e até pela ‘marca’ Jesus Cristo, conta a BBC Brasil. |

Em defesa do diálogo e da razão. Alberto Manguel, autor de Uma história da leitura, escreve no argentino Clarín contra a “cruzada moral que confunde as obrigações civis de Shakespeare, Cervantes, Gauguin, Borges ou Virginia Woolf com as obras que criaram como artistas. |

Gabo, o repórter. A Record lança este mês O escândalo do século, nova antologia de textos jornalísticos de Gabriel García Márquez. A seleção traz de 50 artigos publicados entre 1950 e 1984. |

Caravanas por refugiados. A Orquestra Mundana Refugi, formada quase inteiramente por músicos emigrantes, já recomendada pela Ju, republicou no YouTube sua bela versão, agora com a tela repartida da quarentena, dessa música de Chico Buarque, que dá um recado na abertura. Entra como recheio no arranjo um oportuno excerto de Deus lhe pague, do LP Construção (1971). |

Lives top. John Pareles, veterano crítico de música popular do New York Times elegeu os dez melhores shows ao vivo na quarentena. Tem a incrível orquestra de jazz afro-latino de Arturo O’Farrill, com cada os integrantes em sua casa e reunidos por uma espetacular edição de imagem e som, Nora Jones e a Live da Rainha brasileira Daniela Mercury. |


JURUPOCA, O AUTOR
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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


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