União da cólera e o algoritmo

Jurupoca #34 BH . 7 a 13/8 . 2020

MEFISTO
– Raul de Leoni
 
Espírito flexível e elegante,
Ágil, lascivo, plástico, difuso,
Entre as cousas humanas me conduzo
Como um destro ginasta diletante.
 
Comigo mesmo cínico e confuso,
Minha vida é um sofisma espiralante;
Teço lógicas trêfegas e abuso
Do equilíbrio, na Dúvida flutuante.
 
Bailarino dos círculos viciosos,
Faço jogos sutis de ideias no ar,
Entre saltos brilhantes e mortais,
 
Com a mesma petulância singular
Dos grandes acrobatas audaciosos
E dos malabaristas de punhais...
 

“A palavra soneto vem de som (son, desde o provençal). Daí, o diminutivo, sonetto, lançado na Itália, terra onde, pelo menos na fase inicial, mais brilhou […], explica José Lino Grünewald na introdução de Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). Raul de Leoni (Petrópolis, 1895-1926) incluiu Mefisto em Luz mediterrânea (1922). Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “em sua obra, situada em momento de mudanças no panorama estético brasileiro e mundial, há elementos que podem ser relacionados ao parnasianismo, como o gosto pela descrição nítida, em versos luminosos e plenos de paisagens gregas, florentinas, pagãs. Seus últimos poemas, entretanto, em que se destacam as abstrações filosóficas, apresentam modulação simbolista”.

Natureza-morta, 1946, Giorgio Morandi (Bolonha, Itália, 1890-1946). Tate Gallery, Londres.
Foto: Cortesia WikiArte Enciclopédia de artes visuais.

Penso no que o óleo mostra além dos cinco objetos de decoração, com a mesa e o fundo neutro. A paleta discreta de cores, do cinza claro ao creme, bege, amarelo claro e malva, me atrai como uma Nostalgia do infinito, pra citar o quadro de Giorgio de Chirico de 1911. Morandi foi um pintor realista influenciado por de Chirico e sua Pittura Metafisica.

Essa Natureza-morta evoca contenção, rigor e a busca de uma simplicidade essencial. Sua beleza me lembrou a diáfana música de Caetano Veloso em que celebra Michelangelo Antonioni, do CD Noites do Norte (2000); a canção tem o nome do cineasta:

Visione del silenzio
Angolo vuoto
Pagina senza parole
Una lettera scritta 
Sopra un viso
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestr

Opa! Vamos apear?

De onde veio essa do Helahoho! helahoho!?, me pergunta um amigo.

Ora, do Álvaro de Campos:

Helahoho! helahoho!
 
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
 
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
 
Helahoho! helahoho!

A Ode marcial ainda traz variações como Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô… e Hela hoho, helahoho!

A internet reconfigurou os costumes, as modas, a sociabilidade do animal humano, e revirou a política. Com nossa telinha luzidia, nossa “gaiola de bolso”, podemos tudo e tudo queremos. “Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror./ Helahoho! helahoho”.

Emoções negativas, medo e ódio à testa, são a mãe do conspiracionismo, das fake news, tal munição usada no tiroteio da disputa políticas. Isso não vem de agora, por certo, mas hoje em dia são cartuchos em armas mais letais.

A diversidade do escândalo e do entrechoque do rancor é o que pega, dá jogo, dá match entre alminhas excitadas. Viraliza.

Bambambãs da tecnologia digital desenvolveram um novo gênero de mineração. O acesso a quantidades astronômicas de dados (Big Data) são a corrida do ouro século XXI.

O Big Data é mais propriamente a trituração desse filão de conhecimento. Influência, fortuna, poder são seus subprodutos.

O Big Data é um grande mercadão planetário, balcão de negócios e plataforma política. Mas que diabos é essa montoeira de dados?

Com a internet e as redes sociais, hábitos, preferências, opiniões e até emoções dos usuários podem ser coletados e usados em diversas aplicações. Apenas especialistas cabeções conseguem lidar com a montoeira.

No advento do Big Data marqueteiros são menos importantes que cientistas. “Se você quer fazer progresso em política”, disse Dominic Cummings, engenheiro do Brexit, “meu conselho é contratar físicos, e não experts ou comunicadores.”

O físico, na física aplicada à comunicação, tem como “vantagem competitiva” sobre o político a habilidade de operar com uma quantidade infinita de dados.

E se as leis da física não valem para o indivíduo, se aplicam muito bem aos comportamentos humanos aglomerados, como explica um eminente físico de partículas conterrâneo do italiano Giuliano Da Empoli em Os engenheiros do caos (Vestígio).

Os tecnopopulistas têm à mão uma aparato capaz de direcionar mensagens segmentadas por meio do microtargeting, ou microdirecionamento. As mensagens, às vezes antagônicas, reforçam antipatias, destroem adversários, isto é, inimigos, e instigam reações e engajamento.

“Se você quer fazer progresso em política”, disse Dominic Cummings, engenheiro do Brexit, “meu conselho é contratar físicos, e não experts ou comunicadores.”

E o engajamento, o post curtido ou compartilhado, pode ser monitorado instantaneamente. As mensagens mais bem-sucedidas podem então ser reiteradas e renovadas.

“Uma máquina superpoderosa, concebida originalmente para mirar com precisão incrível em cada consumidor, seus gostos e suas aspirações, irrompeu na política”, desenha Da Empoli.

O Movimento Cinco Estrelas (M5S), fundou na Itália o “Vale do Silício do Populismo”, conforme o autor. Ainda nos anos 1990, a velha classe política é pulverizada com a operação Mãos Limpas. A desgraça da política tradicional será a oportunidade dos aventureiros, dos sem formação, dos sem noção, da ralé. Depois do mandarinato de Berlusconi, o M5S, fundado por um estrategista digital e um humorista em 2009, que há muito se preparava para isso, chega ao poder.  

Mas a “nova política” italiana é um caso de fracasso. E entre nós, Zé-prequetés, a tragédia da península se reconstrói como farsa. Deu no que deu substituir velhos barões corruptos por “técnicos”.

Nas ondas da inovação tecnológica e da globalização, o desemprego, principalmente entre jovens, e o saco cheio de tudo engrossaram o sopão ideológico. Um vulcão de fúria contra o establishment — as malditas elites vampiras e a ladroagem dos políticos — estava à beira da explosão.

Na falta dos  “bancos de cólera” (Da Empoli cita aqui o filósofo alemão Peter Sloterdijk, em um livro de 2007), ou seja, igreja e partidos de esquerda, instituições que costumavam absorver energia dos irados e a esperança dos abandonados, o verdadeiro Vale do Silício mostrou a que veio.

Seus meninos-prodígio engendraram Google, redes sociais, WhatsApp, uberização e o escambau, então a revolução desembarcou na política.

As redes de relacionamento encanaram quilotons de raiva e tédio. Zuckerberg e sua turminha trilionária empoderaram multidões e faturaram trilhões com a colaboração gratuita e feliz dos usuários das redes.

É o negócio do faça você mesmo, dispense o intermediário. Você não precisa da imprensa nem da velha mídia. O novo mundo não requer muita leitura nada. Está tudo na ponta do seu indicador, o negócio é googlar.

Pra quê partidos políticos, padres, especialistas, cientistas, médicos, macumbeiros? Basta um celular esperto com uifi — como se diz uaifai na Espanha, e se resolve qualquer parada.

Os políticos populistas pularam no bonde e mandaram o motorneiro pro chão. Sabiam o que queriam e podiam fazer com a “besta que se nutre do ódio, da paranoia e das frustração dos outros”.

O filósofo alemão Carl Schmitt ensinou que a “política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo”. Schmitt é o patrono dos atuais engenheiros do caos.

E seus grandes gurus são Steve Bannon, primeiro ideólogo de Topete Atômico, e empresas de Big Data como Cambridge Analytica, da qual ele foi sócio fundador, ou seu pupilo Milo Yiannopoulos, à frente do Breitbart News, site e hub da “direita alternativa” norte-americana.

O MS5, Topete Atômico (vulgo Agente Laranja), o indiano Narendra Modi (e seu bolsa família com direito a celular e aplicativo sugador de informações dos eleitores e veículo de propaganda governamental), os alquimistas do Brexit, os bandoleiros espanhóis de ultradireita do Vox, o arretado húngaro Viktor Orban e nosso, quero dizer, o seu ¡Caveirão.38! são alguns dos protagonistas desse trepidante faroeste macabro.

O best-seller que não escreveram podia se chamar Como influenciar as hordas e ganhar eleições. “Se para Lênin o comunismo eram os Sovietes e a eletricidade”, formula Da Empoli, “para os engenheiros do caos o populismo é filho do casamento entre a cólera e os algoritmos.”

Para entender a “nova política” é bom saber o que são bots, sock puppets, trolls, troll bots e impulsionamento. Mas é mais simples notar que a máquina populista não funciona sem o engajamento da militância e o combustível da revolta.

Incontáveis esquadrões de formiguinhas operárias se voluntariam pra semear e cultivar a polarização. Sem espuma na boca e bile no fígado não há populismo ou guerra cultural dignos do nome.

Obras de arte, livros, lições da história, busca de entendimento pelo diálogo e o respeito à verdade factual, qualquer agenda propositiva e moderada dão um sono danado. Nem pense nisso. Essas velharias não rendem likes e compartilhamentos aos milhares! A velha política é enfadonha e cacete.

Além do mais, pontifica o milagreiro e spin doctor Arthur Finkelstein, escudeiro de Orban, o político para vencer não pode se deixar abater pela realidade. “A coisa mais importante”, ele disse a Da Empoli, “é que ninguém sabe nada. Em política, o que você percebe como verdade é que é a verdade”.

E o que dá clique e faz subir hashtags, ou seja, popularidade digital, é cutucar a raiva das gentes (e seus medos e preconceitos) com a vara curta das mensagens na medida; é destruir inimigos e ex-aliados que fugiram da raia; é criar polêmica racista ou de gênero contra a “ditadura do politicamente correto”; é inventar uma conspiração por semana.

O cidadão que acredita piamente na “pandemia chinesa” e se contorce de indignação com a ditadura de olhinhos puxados, nem presta atenção no amontoado de mortos pelo Corona ali nas esquina. Os tecnopopulistas ganharam mais uma.  

Surfamos o admirável mundo novo da nova política. Salve-se quem puder. De mãos dadas com o tecnopopulismo se espraiaram na mesma chave da guerra do povo contra as elites os movimentos antivacinistas (os de Berlim marcharam de braços dados com neonazistas pelo fim do isolamento social, no último fim de semana) e o negacionismo paranoico.

“Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror./ Helahoho! helahoho”.  


“A coisa mais importante é que ninguém sabe nada. Em política, o que você percebe como verdade é que é a verdade”.

Arthur Finkelstein em entrevista a Giuliano Da empoli

Felipe Neto contra os Caminhantes Brancos

Os exércitos dos Caminhantes Brancos (White Walkers) a serviço do ¡Caveirão.38! se batem dentro e fora da web contra o bravo influenciador youtubeiro Felipe Neto. Depois de ajudar a eleger o ¡Caveirão.38!, qual Paulo na estrada de Damasco ele ouviu o chamado da luz filtrada entre as nuvens, como num filme de Cecil B. de Mille: Lipe, Lipe, por que me persegues? Sua inteligência é aguda e seu coração lotado de coragem e boa vontade. Seu ponto fraco é o vezo da cultura digital. Entrevistado na Globonews domingo à noite, pelas tantas, no embalo de altas perorações, entendeu de sentenciar jornalistas e canais de TV por darem espaço em entrevistas a figuras barras-pesadas do negacionismo, caso ex-ministro Osmar Terra. Felipe julga que tais autoridades devam ser canceladas pela imprensa. Evitou a expressão, afinal é uma criatura do bem, adotada incondicionalmente pelo establishment na batalha contra os Caminhantes Brancos. Disse, isto sim, que pessoas erradas devem ser “negadas”; entrevistá-las seria “validá-las”, conforme sua filosofia de vida. O Gabeira deu um chega pra lá bem sutil no glamouroso enfant terrible, mas seus colegas na emissora se calaram, como dizer, covardemente. Cabe ao jornalismo manter a lógica da polarização uma pinoia! Se os Caminhantes Brancos estiverem dispostos a falar com a “extrema imprensa”, como se diz, ótimo, que venham tentar se explicar! A futricada imprensa não pode jogar o mesmo jogo irracional da internet. Além disso, ai de nós, não dá pra cancelar 01, 02 ou 03 e nem o pai da prole e chefe dos Caminhantes, Sua Excrescência ¡Caveirão.38!

Comandados por ¡Caveirão.38!, os Caminhantes Brancos querem pegar Felipe Neto lá fora. Foto: Divulgação HBO

Estampa de oncinha

“Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha”. Deu no caderno de ex-cultura da Folha. De onde mais viria essa sofrência da criatividade redacional? O título chamava para um artigo da antropóloga e historiador Lilia Moritz Schwarcz, porta-estandarte do ultraprogressismo brasileiro, historiadora do movimento negro e defensora da derrubada de estátuas; aliás, não é contra nem a favor da onda de rancor contra figuras de bronze, muito antes pelo contrário. O debate quase heideggeriano sobre a estampa de Beyoncé virou barraco nas redes sociais. Acabaram com a raça da Lilia. O ator Ícaro Silva, por exemplo, veio com quatro pedras na mão. “Você é uma grande vergonha. Não somente para o Brasil e para o povo preto, mas para todos os povos aqui presentes”, apostrofou. “Não vejo por onde defender seu declarado racismo, sua arrogância branca elitista em se dar o direito não somente de reduzir uma obra-prima ao nicho ‘antirracista’, mas em acreditar que tem conhecimento antropológico sobre África”, enxovalhou. A Lilia, coitada, se sentiu obrigada a pedir  desculpas, a quase ajoelhar-se no milho por ter escrito um texto articulado, correto, meio confuso é verdade, mas, como ela própria diz num tuíte, “muito mais elogioso que crítico”. Duvido que a Lilia volte a meter a mão na cumbuca. O escritor com juízo deve falar bem ou se calar ao opinar, a não ser que não tenha privilégios ou tom de pele inadequados. Os críticos profissionais, coitados, já podem ser vistos por aí, entre os gatos de rua, secos e despelados. Há vários deles no parque municipal, no Belo.

De volta às cavernas?

“Suponho que, enquanto as pessoas continuarem a ler romances, outras continuarão a escrevê-los, ou vice-versa” — disse William Faulkner, em 1956 — “a menos, é claro, que as revistas ilustradas e as histórias em quadrinhos finalmente atrofiem a capacidade do homem de ler, e a literatura estará em seu caminho de volta à escrita pictórica das cavernas de Neandertal”. Ponham-se redes sociais e séries no lugar das revistas ilustradas e HQs, e a conjectura do autor de Luz de Agosto e Enquanto agonizo estará realizada.  


Não li e não gostei

Releio pois as entrevistas da Paris Review, coletadas em Os escritores (Companhia das Letras, 1988). Me rendi mais uma vez à verve de Mister Evelyn Waugh, segundo Edmund Wilson “o único gênio cômico de primeira classe que apareceu na Inglaterra desde Bernard Shaw”. Nariz em pé, sempre, Waugh não achava de “grande interesse” o que os críticos tinham a dizer. “Eu costumava seguir uma regra, quando resenhava livros na minha juventude, que era nunca dar um parecer desfavorável a um livro que não tivesse lido. Percebo que até mesmo essa simples regra é flagrantemente quebrada hoje em dia.”

A falta que a leitura faz

Mas a importância da crítica e do jornalismo cultural foi excelida Don Mario Vargas Llosa, domingo último. Nos contou o Nobel que releu pela terceira vez Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, que o inspirou a escrever o excelente ensaio O chamado da tribo (Objetiva, 2019). “A função da crítica não é apenas descobrir o talento individual de certos poetas, romancistas e dramaturgos”, anotou MVL, “é também detectar as relações entre essas fabulações literárias e a realidade social e política que expressam transformando-a, o que há nelas de revelação e descoberta e, é claro, de queixa e de protesto.” Don Mario distingue a crítica universitária, que tem seu valor, da crítica de jornais e revistas. Esta “põe ordem e lança luzes sobre esse bosque confuso e múltiplo que é a oferta editorial, na qual nós, leitores, andamos sempre um pouco perdidos”. Mas lembra, com palavras mais cautelosas, que ambas foram aposentadas. Sobram críticos mas faltam leitores numa época em que se assiste muita TV, “e por isso [quem não lê ou lê muito pouco] andam muito confusos nesta época em que o entretenimento está matando as ideias, e portanto os livros, e destacam-se os filmes, as séries e as redes sociais, onde prevalecem as imagens.” MVL, lembra, por fim, “que uma sociedade de bons leitores é […] mais difícil de manipular e enganar pelos poderes deste mundo”.



Estranho fruto

Strange fruit ressurgiu como hino dos protestos contra o racismo nos EUA. Billie Holiday (1915-1959) passou o diabo como mulher negra e artista e deu a essa canção a força de uma punhalada inevitável. Seu criador, em 1938, foi um branco, o professor judeu de ensino médio Abel Meeropol. A fruta estranha de que fala a letra são as vítimas negras dos linchamentos — espécie de entretenimento ou esporte praticado durante muito tempo por supremacistas brancos tementes a deus no Sul dos EUA. Em tradução livre e corrente, fala dessa fruta estranha rente aos troncos dos álamos do Sul, o sangue a escorrer nas folhas e raízes; cena pastoral do galante sul: olhos esbugalhados e boca torta. O cheiro suave e fresco das magnólias é encoberto pelo odor de carne queimada; eis a fruta para que os corvos colham, a chuva apanhe, o vento sugue; para que o sol apodreça, e caia das árvores esta estranha e amarga colheita. Carlos Rennó transpôs a letra para o português em canção interpretada por Seu Jorge.


De Emmett Till até João Pedro

Volto ao assassinato do adolescente negro Emmett Louis Till (ver a carta anterior), linchado aos 14 anos na pequena Money, Mississipi, em agosto de 1955, por dois homens brancos, alegadamente por ter assobiado para uma branca. Faulkner, na entrevista citada, dada no ano seguinte à morte de Emmett, é perguntado sobre o caso. “Talvez a finalidade desse triste e trágico erro cometido no meu Mississipi natal por dois brancos adultos contra uma sofrida criança negra seja provar se merecemos ou não sobreviver. Porque se nós, na América, chegamos ao ponto, na nossa desesperada cultura, de assassinar crianças, não impor qual razão ou cor, não merecemos sobreviver, e provavelmente não sobreviveremos”. E não deveríamos indagar o mesmo de nós, no Brasil, diante da morte do menino João Pedro, também aos 14 anos, e tantas outras crianças, quase sempre negras, nos aglomerados pobres do país? Vamos sobreviver? Como?



Gip-Gip, Nheco-Nheco

A memória do Pasquim é mantida pelo legado do incrível talento de seus redatores. Ando a lembrar o Ivan Lessa, autor dos aforismos inesquecíveis da seção Gip-Gip, Nheco-Nheco: “No Brasil, a cada 15 anos todos esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos”, usado por Silvio Tendler no documentário Os Anos JK. Nossa memória não melhorou nada. “Baiano não nasce, estreia”. “Os brasileiros, para não perder a forma, devem ser montados ao menos uma vez por semana”. Justo. Ainda mais vindo de quem também nos definiu assim: “O brasileiro é um povo com os pés no chão – e as mãos também.” E há o já citado nesta carta: “Não há motivo nenhum para nos sentirmos à vontade no mundo. Os alienígenas somos nós.”  


Ná Ozzetti (São Paulo, 1958) canta Camisa listada, de Assis Valente (Santo Amaro, BA, 1911 – Rio de Janeiro, 1958). A música, um samba-choro, foi composta em 1937 e lançada por Carmem Miranda no ano seguinte.

É uma das faixas do CD Balangandãs, de 2009, um trabalho de Ná em conjunto com os músicos Dante Ozzetti (violão), Mário Manga (guitarra, violoncelo e violão tenor), Sérgio Reze (bateria) e Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo acústico).

O repertório do álbum, um dos melhores das últimas duas décadas, reúne composições dos anos 1930 a 1950. Traz Assis Valente (também em Recenseamento e O mundo não se acabou), Synval Silva (Adeus batucada, Ao voltar do samba), Ary Barroso e Luiz Peixoto (Na batucada da vida), Dorival Caymmi (A preta do acarajé), Braguinha e Alberto Ribeiro (Touradas em Madri), Alcir Pires Vermelho e Walfrido Silva (Tic-Tac do meu coração) Luiz Peixoto e Vicente Paiva (Disseram que eu voltei americanizada), Amado Régis (O samba e o tango), Zequinha de Abreu (Tico-Tico no fubá), Aloysio de Oliveira (versão) de Harry Warren e Mack Gordon (Chattanooga Choo-Choo) e Aníbal Cruz e Vicente Paiva (Diz que tem).

Como se vê, uma antologia e uma aula e tanto sobre a música popular brasileira. Ná se diz influenciada por Carmem Miranda, e ninguém pode negar isso. Nos anos 1980 ela fez parte do grupo Rumo, que se desdobrava no Rumo aos Antigos, dedicado a pesquisar e apresentar grandes compositores de tempos pré-Bossa Nova, com destaque pra Noel Rosa.

Balangandãs tem três canções de Assis Valente, um dos inventores de nossa música, de ruinosa e trágica vida. É difícil pensar num grande nome da MPB que não o tenha celebrado. E o mundo não se acabou, por exemplo, foi gravado entre outros por Carmem Miranda, Nara Leão, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e (lindamente) por Paula Toller.

Fiz aqui pequena playlist com seus clássicos e maiores intérpretes. Balangandãs tem um excepcional trabalho de arranjos e instrumentação. Ná e seu time conseguiram refrescar, com novo colorido, e chamar ao gosto do tempo aquelas canções, e ao mesmo tempo respeitar a essência das melodias e sua concepção original.

Pinçar uma faixa é fogo num disco desse quilate. Mas tenho um gosto especial por Camisa listada, narrativa de uma voz feminina que antecipa Chico Buarque. Sua letra guarda muito do afetos carnavalescos de antanho. É inteligente, rica, evocativa, melancólica, um clássico que honra nossa música e cultura.

Ah, sim, Maria Cristina Ozzetti, a Ná, segue, absurdamente, sendo a menos popular e menos ouvida das maiores cantoras brasileiras de todos dos tempos! E ainda é ótima compositora.  

Camisa listada – Assis Valente

Vestiu uma camisa listada
E saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada
Ele bebeu Parati
Levava um canivete no cinto
E um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia
Sossega, Leão, sossega Leão

Tirou o seu anel de doutor
Para não dar o que falar
E saiu, dizendo, eu quero mamá
Mamãe, eu quero mamá, mamãe, eu quero mamá

Levava um canivete no cinto
E um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia
Sossega Leão, sossega Leão

Levou um saco de água quente
Pra fazer chupeta
E rompeu minha cortina de veludo
Pra fazer uma saia
Abriu o guarda-roupa
E arrancou a combinação
E até do cabo de vassoura
Ele fez um estandarte para o seu Cordão

Caetano, 78

Nesta sexta (7/8) Caetano Veloso faz 78 anos, e se apresenta em live na Globoplay, às 21h30. A Rádio Batuta lhe dedicou três especiais, como este Caetano, renovador da tradição. Joaquim Ferreira dos Santos organizou uma playlist com 30 gravações de décadas passadas e as versões do artista em vários momentos de sua carreira. Jurupoca faz questão de comemorar este natalício. Se tenho algum privilégio no mundo, é o de viver no país com uma tradição musical incrivelmente rica, ter adolescido nos anos 1970, era de grande florescência da MPB, e ser contemporâneo de um artista da grandeza de Caetano Veloso. Como jornalista, pude entrevistá-lo algumas vezes, e desfrutar de sua gentileza e simpatia. Salve, Caetano! Vida longa e lúcida!




Hiroshima, 75 anos. São dilacerantes alguns registros de fotógrafos que trabalharam sob o cogumelo radioativo. Algumas das imagens estiveram banidas até o fim da ocupação norte-americana, 1951. Em inglês, no New York Times.

Gay Talese. “Sou um absolutista da Primeira Emenda, contrário a qualquer limitação à liberdade de expressão”, reza o jornalista e escrito em entrevista no Globo. |

Liberalismo x fascismo. Elena Landau, Fernando Schüler, Leandro Piquet Carneiro e Samuel Pessôa assinam o artigo Associar liberalismo ao fascismo não é intelectualmente honesto (primeiro título da Folha, forçando a barra, como sempre, tanto que mais tarde foi alterado para Desafios de uma sociedade aberta) em resposta ao texto, produzido por intelectuais da USP, Por que assistimos a uma volta do fascismo à brasileira, publicado pelo menos jornal. |

Ainda é possível debater? O escritor Andrew Sullivan fez essa pergunta, ao criticar a defesa da “clareza moral” pelos que não admitem dissensão, nos EUA. Lembra que slogans como “White Silence = Violence”, muito em voga nos protestos interraciais, recorda de perto Estados totalitários, “onde você tem que competir por mostrar sua lealdade a uma causa”.  Versão em espanhol na Letras Libres. |   

My Vagina. Um poema da Galina Rymbu em resposta ao caso de Yulia Tsvetkova, ativista da remota cidade russa de Komsomolsk-na-Amure condenada a seis anos de prisão por supostamente “disseminar pornografia”. No n + 1, em inglês. |

Vou intervir! “O dia em que Bolsonaro decidiu mandar tropas para o Supremo”, por Monica Gugliano, na Piauí. |

Bolsonaro, o favorito? “Se não aumentar atual taxa de aprovação, presidente chegará a 2022 em situação desconfortável; até lá, arma a retranca e joga a torcida contra o juiz”, escreve o cientista político Cesar Zucco na Piauí. |


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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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