Tudo que é sórdido fica no ar

Jurupoca #36 — desde o Belo. 21 a 27/8. 2020 — Nº 36, Ano 2



Último credo – Augusto dos Anjos
 
Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro — este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
 
É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
 
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui ...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

 
Budismo moderno – Augusto dos Anjos

Tome, Dr., essa tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo meu coração, depois da morte?!
 
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca destra forte!
 
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Este é o sexto de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). Domingo passado, o crítico de arte e cinema Donny Correia comentou no Estadão o livro Augusto dos Anjos: Um moderno entre os “ismos” (Desconcertos). Este ensaio de Del Candeias distingue o poeta paraibano  em sua época e detecta a força subterrânea de seu legado no modernismo  nascente.   

 

Luis Egidio Meléndez, Natureza-morta com salmão, limão e três vasilhas, 1772, óleo sobre tela, 41 X 62.2 cm (Museu do Prado). Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons. Este juropoco é freguês do gênero de natureza-morta com comida e tralha de mesa e fogão a que os espanhóis chamam bodegón. A soberba composição em v de Meléndez é obtida pela colher de cabo comprido, ao fundo. O texto de referência do Prado lembra que esse utensílio sublinha o limite do fundo da tela, e ajuda ocultar o plano que sustenta o conjunto. 

Opa! Vamos apear?

Você há de concordar que esta Jurupoca® é uma publicação singularíssima, como a pessoa do poeta Augusto, se a leitora e o leitor (os dois que tenho) se deram ao desfrute de ler o soneto acima. Então, leitor, leitora, tomem esta tesoura e corte…

Ora, um jornalista precisa se mover, dizer a que veio, ou vá criar galinhas! A isso não pude me entregar, à criação de galinhas, desgraçadamente. Uns bichos tão simpáticos!, preferidos de minha mãe. E adoro um ovinho frito com arroz.

O verão quando cai em agosto me deixa assim, filosofante, a cismar se o mundo ainda existirá quando eu reabrir os olhos…

Cuido nessas horas, como o dos Anjos, do nous (razão, intelecto, espírito dos gregos), do pneuma (o sopro da vida), do sum qui sum (sou quem sou). O último sendo quase um K-Suco.

Bom, que cantilena é essa?, meus dois leitores estarão a se indagar, estupefatos, e, com toda certeza, a citar o Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdestes o senso!”

E eu vos direi, no entanto, que, sim, peralá, buscava, apenas, meio sem jeito, com cuidado e vênia, uma forma de te pedir que pense em contribuir com a publicação desta carta singularíssima.

É um trabalho diário que consome dias e noites, e único!

Assine a Ju! Vamos lá, anime-se! Você define um valor mensal e a data da contribuição.

Sugestões? R$ 18, R$ 25, R$ 30, R$ 40, R$ 55, R$ 78, R$ 100! O que puder, quando puder.

A Jurupoca® está na estrada, sob sol e poeira, como cantam todas as canções mineiras, há pouco mais de um ano. E atravessa outra crise de identidade, acredite! É assim, sempre que sobe o preço do queijo e da goiabada, ou vence o GPS, o guia da previdência social.

Aos diabos as crises!, bem sei. Ou vai ou racha. Entregar a rapadura, nunca!

Então vamos todos cantar, tralalá, tralalá, trololó, trelelé… Eta ferro! Pra que tanto aço?

Reelaboradas as linhas acima e com algum esforço, quem sabe, eu teria escrito meu segundo poema nonsense na vida. Tenho apenas um, incrível!

Unzinho em décadas, uma baladinha de longa data, bonitinha, reconheço. Diz assim: 

un deux trois (revisitado) 

Para Moreira e Roberto

Eram Guso, Poderval, Sussanho*
Cada cão do seu tamanho
Entre outra e uma colherada
Duma divina marmelada.

Produziam um manifesto
Cujo teor era o protesto
Contra os homens sem pescoço

Nascidos todos do fosso
Ladinos feito cavalos
Mas excelentes dançarinos! 

(*) Os pastores alemães do Estorvo, romance de Chico Buarque 

  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?  


“[Mandei] a esse estado maravilhoso aqui, mesmo sem comprovação científica, mais de 400 mil unidades de cloroquina para o tratamento precoce da população. Eu sou a prova viva de que deu certo. Muitos médicos defendem esse tratamento. E sabemos que mais de 100 mil pessoas morreram no Brasil. Caso tivesse sido tratado, lá atrás, com esse medicamento, poderiam essas vidas terem sido evitadas. E mais ainda: aqueles que criticaram a hidroxicloroquina não apresentaram alternativas”.

¡Caveirão.38! discursando em Belém (13/8), a revelar, na clareza e destreza de seu português Cro-magnon, a esmerada educação que recebeu do Exército

Além da cloroquina, ¡Caveirão.38! é a prova viva de que…

  1. … o crime recompensa.
  2. … tudo que é sórdido fica no ar.
  3. … a boçalidade se transmite sexualmente.
  4. … a verdade foi à merda, de onde vieram as guerras de narrativas.
  5. … Stálin estava certo: “Uma única morte é uma tragédia. Uma milhão de mortes é uma estatística.”
  6. … Deus, Pátria e Família seguem a encobrir as piores depravações.
  7. … Ivan Lessa estava certo: “De uma forma geral, só temos uma coisa a temer: a coisa de forma geral.”
  8. … a ciência ainda não explica certas subespécies de nossa pobre espécie.
  9. … a Bossa Nova ainda não é foda (sinto muito, Caetano). Foda é a civilização do alho com vinagre e do mata-piolho contra o Corona.
  10. … estamos fodidos!

 
Caetano e ¡Caveirão.38!

Esta Ju quase perde uma boa querela intelectual, sô. Ângela Alonso, socióloga da USP e pesquisadora do Cebrap, fez uma graça sociológica no Dia dos Pais. O título da Folha até que saiu certinho: Famílias de Bolsonaro e de Caetano Veloso se enraízam em paralelas históricas. O artista baiano de Santo Amaro e o ex-militar de Glicério — conforme a doutora — legam aos filhos “seu bom lugar no mundo: o patrimônio imaterial, redes de relação que catapultam e protegem, e o monetário, tangível, que será literalmente herança”. Noves fora o resto, teriam, as duas famílias, tal sina comum nos entreatos de nossa desigualdade. Já pra negros e pobres, sem eira nem beira, como o entregador Matheus Barbosa, Ângela martela: neca de catapulta paterna. É nascer e morrer no mesmo sem lugar, e manter uma existência de distanciamento social, ela arremata. Eta nós! Viva a falsa equivalência! Tem tese boa que voa e esboroa como pombo de asa partida. Sim, herdam capital cultural as duas famílias, mas quanta diferença no capital cultural, madame. Viver melhor, sim, claro, quem herda não furta, ou não deveria precisar disso, hehehe. Mas filho de artista e futebolista raramente emplaca sem talento, e muitas vezes a sombra paterna atrapalha, sim, senhora. ¡Caveirão.38! e sua progênie prosperaram nas brechas sujas do sistema, e na prodigalidade do erário com o funcionalismo estatal. São conservadores da nossa vergonha. Seu legado é isso daí, um país constrangido e apequenado; feio e infernizado. Enquanto isso Caetano ajudou os filhos a subir na vida, pois sim, acontece pacas. Mas não terá feito o mesmo pra um país inteiro e sua cultura, sua educação musical, tais “patrimônios imateriais”? Ascendemos com a obra de Caetano, daí sermos seus herdeiros, ora bolas. Uma razão pra nos orgulharmos num mudinho tão medíocre, mesquinho e miserável como é o Bananão (obrigado, Ivan Lessa, de novo). Pessoalmente, posso dizer que subi na vida ou melhor, vivo melhor graças a cada um de seus discos e canções. Mas deixo a palavra final para o leitor que comentou ao pé do artigo: “Sim, toda família transmite capitais para seus membros. A de Caetano não tem nada de especial. Isso acontece na de cientistas políticos uspianos”, casquinou Igor Machado. “Não é um fenômeno só da periferia do capitalismo; está lá nos países centrais. Com esse grau de generalidade qualquer família está em paralelas históricas com a de Bolsonaro. Mas o familismo dele se dá com desvio de dinheiro público. Patrimonialismo, portanto. Essa diferença não é um detalhe para fazer a analogia desejada. E, cá entre nós, nesse momento?”. Tomou, papuda?

Ascendemos com a obra de Caetano, daí sermos seus herdeiros, ora bolas. Uma razão pra nos orgulharmos num mudinho tão medíocre, mesquinho e miserável como é o Bananão (obrigado, Ivan Lessa, de novo)


A grande arte que canta

“Poeta do encontro” foi como Otto Lara Resende definiu Caetano, em uma crônica de 1992, em que situa cantor e compositor santo-amarense como inclassificável. “Ficou para trás o tempo em que se podia espetar os artistas como insetos”, anotava. “Caducas as classificações”, a arte de Caetano “aniquila toda e qualquer discriminação”, celebrava Otto. “Exaltada aqui dentro, repercute lá fora. A música lhe dá dimensão internacional. […] A poesia de fato nunca esteve divorciada da expressão popular. Manuel Bandeira tirava o chapéu, respeitoso, para Sinhô, Pixinguinha, Noel”, lembrava o cronista mineiro. A propósito, Otto nos conta que fora testemunha “ocular e auditiva” da vez em que Bandeira ouviu, em casa, João Gilberto tocar a famosa batida de violão, e ficou extasiado. Caetano representava o fio puxado, o abre-alas, a metabolização “da grande arte que canta”, tradição que Otto remetia ao fim do século 19 e ao Corta jaca, música de Chiquinha Gonzaga que a primeira-dama de Hermes da Fonseca, dona Nair de Tefé, impunha nos saraus do Palácio do Catete, a despeito dos maus bofes do maridão.


O rico mercado da lacração

O professor Wilson Gomes, da UFBA, escreveu para a Ilustríssima uma aguda análise acerca do linchamento digital da antropóloga Lilia Schwarcz. Sim, ainda o tal episódio da crítica de Lilia (Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha) publicada na mesma Folha. Wilson observa a guerra que se trava pelo poder cultural nas redes sociais, ou pelo “mercado epistêmico”, como nomeia a coisa. “Quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital”, deduz. “É luta por acúmulo de autoridade em termos de raça e de etnia”, conclui o autor de Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa (Paulus). “Um capital que depois vai render no mercado de palestras, livros, produtos culturais, posições acadêmicas, convites internacionais, empregos na mídia, cargos públicos e autoridade tribal”, especifica. Wilson chama de “filofascismo” o negócio de mandar “calar a boca” quem nos contradiz, ou de não admitir que um crítico, por ser branco ou amarelo, não possa avaliar a obra de um negro lançada na indústria cultural.  O professor, um afrodescendente, por sinal, ou estaríamos vivendo o fim dos tempos,  ainda lamenta que os antifascistas da esquerda, por cumplicidade, não se oponham à selvageria digital.

“Quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital. (…) É luta por acúmulo de autoridade em termos de raça e de etnia.”

Wilson Gomes, na folha de s.Paulo



Em prol do cancelamento

Se você consegue entender os argumentos de um defensor da “cultura do cancelamento”, parabéns. Está pronto pra debulhar a metafísica hegeliana e a mecânica quântica, juntas, tomando psicanálise lacaniana no desjejum. O jornalista Paulo Roberto Pires é editor da Serrote, revista que ele tanto fez, tanto fez que conseguiu rebaixar a um manual da correção política e a uma bula do progressismo. Depois de recrutar acadêmicos europeus (ver o ensaio Ofendidinhos, de Lucra Lijtmae, na Serrote #33), agora ele próprio se escala, como colunista de outra publicação, a Quatro Cinco Um, no papel de guarda da cancelação. “Vale tudo para demonizar, indistintamente, quem participa do debate público sem beija-mão ou rapapés — e vitimizar a priori quem é admoestado no conforto da aprovação”. Revelando-se insuspeitável alquimista, Pires converte o pântano moral da “cancelação” na áurea de pureza dos espíritos justos. De quebra, ao dourar a pílula, prova que a introdução de frases-vaselina pode fazer de vigilantes morais fofos ursinhos de pelúcia. Ou, ainda, reafirma que pimenta nos olhos dos outros…

Paulo Roberto Pires converte o pântano moral da “cancelação” na áurea de pureza dos espíritos justos. De quebra, ao dourar a pílula, prova que a introdução de frases-vaselina pode fazer de vigilantes morais fofos ursinhos de pelúcia. Ou, ainda, reafirma que pimenta nos olhos dos outros…

JURUPOCA #36

Nara LEÃO (Nara Lofego Leão, Vitória, ES, 1942 – Rio de Janeiro, RJ, 1989) CANTA Fez bobagem, de Assis Valente (José de Assis Valente, Santo Amaro, Bahia, 1911 – Rio de Janeiro, RJ, 1958).

O IMMuB registra 31 fonogramas dessa música. Elza Soares, Ana Martins, Isaurinha Garcia, Verônica Ferriani e Marcia gravaram ou interpretaram o samba, pra citar algumas dessas gravações.

Seu lançamento coube a Aracy de Almeida, em março de 1942, num disco de 78 rpm, acompanhada por Luiz Americano e Seu Regional.

Valente a compôs depois de tentar se matar, mais uma vez. Pulara do morro do Pão de Açúcar e sobrevivera. Uma galhada de árvore detivera a queda.Já na quinta tentativa ele conseguiu, ao recorrer a uma tisana de guaraná e raticida. Seu corpo foi encontrado no banco de um playground da praia do Russel, no Rio, onde crianças se divertiam.

O artista viveu dos ofícios de desenhista e protético, além de compor e, por vezes, vender sambas. Casou, teve uma filha, mas gramava com dívidas e, supostamente, com a homossexualidade reprimida. A biografia Quem samba tem alegria (Civilização Brasileira), do jornalista Gonçalo Junior refuta a homossexualidade. O autor sustenta que a cocaína e a depressão arruinaram sua saúde, e por fim o mataram. 

Favorito de Carmem Miranda, por quem fora carnalmente apaixonado, conforme Gonçalo Junior, compositor e letrista excepcional, Assis Valente (ai vai de novo minha playlist) é um gigante trágico, como outros que fulguram na história da canção brasileira. 

Fez bobagem surgiu no cantar de Nara Leão no LP da Philips Coisas do mundo (1969), faixa B2. O vídeo enlaçado no começo da nota, de acompanhamento um pouco menos cadenciado que o primeiro registro, é do álbum Nara rara (Universal, 2013), CD de compilações. 

A versão de Nara, me parece, é a que melhor e mais belamente alcança e transmite a ingente delicadeza desse samba feminino, na tradição romântica trovadoresca que Chico Buarque herdaria na MPB.

“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver…” é dos versos mais singelos e cortantes de nosso cancioneiro. E muito bem arrematados na estrofe: “Não dá jeito de cantar/ Dá vontade de chorar/ E de morrer”. E que tal “Deixou que ela desfilasse na favela como meu peignoir”? 

Fez bobagem me pegou no nous quando a ouvi na voz de Caetano Veloso. Aparecia mais pro final de uma preciosa sequência da série documental Caetano, 50 anos, dirigida por João Moreira Salles e exibida na TV Manchete em 1992 (pule no vídeo para 20′).

Ali pelo vígesim0 minuto, Caetano dá uma aulinha inesquecível sobre a grande tradição da MPB

Caetano enfileirava sucessos de Monsueto Menezes, Herivelto Martins, Custódio Mesquita, Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, Pixinguinha e Assis Valente, em comovedora celebração dos mestres predecessores.

Como João Gilberto, Caetano é um renovador da tradição e um notável divulgador do cânone que ele próprio integra.

Fez bobagem – Assis Valente
 
Meu moreno fez bobagem
Maltratou meu pobre coração
Aproveitou da minha ausência
E botou mulher sambando no meu barracão

Quando eu penso que outra mulher
Requebrou pra meu moreno ver
Nem dá jeito de cantar
Dá vontade de chorar
E de morrer

Deixou que ela passeasse na favela com meu peignoir
Minha sandália de veludo deu a ela para sapatear
E eu bem longe me acabando
Trabalhando pra viver
Por causa dele dancei rumba e foxtrote
Para inglês ver 

Discaço!

É da cantora italiana Barbara Casini (que canta em português com grande naturalidade, de timbre assemelhado ao de Joyce), a iniciativa e o dinheirinho que resultaram no ótimo Viva eu – As canções brasileiras de Novelli, álbum em parceria com Toninho Horta, que entra com seu violão originalíssimo e vocais. O instrumentista e compositor pernambucano Djair de Barros e Silva, o Novelli, apelidado assim em uma alusão à Nouvelle Vague, é lembrado mais por seu profícuo contrabaixo (embora também seja pianista), presente em centenas de gravações, virtualmente de toda a elite da MPB. Amigos e parceiros comparecem como convidados: Chico Buarque, Danilo Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Ilessi, Joyce Moreno, Luiz Cláudio Ramos e Nelson Angelo. Novelli,  hoje com 75 anos, também é autor de uma obra pequena e distinta, quase sempre com parceiro letristas, que é pouco conhecida. Sua discografia autoral se resume a três e sólidos álbuns: Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta (Odeon, 1973), Nana, Nelson Angelo, Novelli (Saravah, 1975) e Canções Brasileiras (Maracatu,1984). Pode-se dizer que a presença de Toninho deu uma maneirada, ou amineirada, na ambientação sonora, no clima do disco, sem falar que Novelli é sócio fundador do Clube da Esquina. As gravações, que contaram com o guitarrista italiano Giuseppe Fornaroli, ocorreram Rio, em março de 2019, sempre com o homenageado no estúdio. Destaco (se é pra destacar) Linha de montagem (Novelli e Chico), composta por encomenda do diretor Renato Tapajós para a abertura do documentário homônimo de 1981, sobre as greves dos metalúrgicos do ABC Paulista; Reis e rainhas do maracatu (Novelli, Milton Nascimento, Nelson Angelo e Fran), lançada por Simone no álbum Face a face (1977), aqui com participação de Edu Lobo; ou Toshiro (Milton e Novelli) originalmente faixa do LP Clube da Esquina 2 (1978). Minhas preferidas, nel mio core, são Minas Gerais (Novelli e Ronaldo Bastos), do vinil Geraes (1976), de Milton, e a penetrante Sem fim (Novelli e Cacaso), que abre o disco homônimo e terrivelmente triste de Nana Caymmi (EMI, 1979), dividida agora com Danilo Caymmi.


Quem é Barbara Casini

A florentina Casini é vidrada na música brasileira e uma especialista nesse repertório em palcos italianos. Percorreu o Brasil em primeira viagem pra escrever o livro Se tutto è musica – Pensieri e parole dei compositori brasiliani (Angelica Editore), ou Se tudo é Música – Pensamentos e palavras de compositores brasileiros, lançado em janeiro de 2012. Entre os 18 personagens do livro estão Gilberto Gil, Guinga, Dori Caymmi, Nana Caymmi, Edu Lobo, Novelli, Egberto Gismonti, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Miúcha, Chico Buarque e Hermeto Pascoal. Ano passado, na época das gravações de Viva eu, Barbara foi entrevistada e se apresentou em sessão produzida pela Rádio Batuta, no IMS. Seu novo disco, de 15 faixas, foi lançado na Itália em junho pela editora Encore, e possivelmente terá versão nacional.


Sai Novelli entra Jup do Bairro

Viva eu – As canções brasileiras de Novelli está no YouTube há pouco mais de dois meses. Mas o álbum começou a ser divulgado pra valer esta semana. Até a tarde de ontem, os leitores da Folha e do Globo interessados não tinham lido uma linha a respeito. Esses e outros veículos majoritários se tornaram redutos, e com notória e hipócrita condescendência, daquilo que for relevante às causas identitárias e raciais, que dão mais cliques nos aplicativos. A MPB foi rebaixada, e assim, uma tradição de cento e tantos anos cultivada em todo o planeta. Nesse período, pela Folha, soube, entre outros artigos na mesma linha, do lançamento da música Pelo amor de Deize, ao ler na capa da Ilustrada a reportagem Jup do Bairro se descola de Linn da Quebrada em disco com pegada roqueira, com o subtítulo “Álbum-manifesto de cantora que se firmou como referência LGBT traz composições sobre sexualidade e depressão”. Saiu também no britânico Guardian, por sinal. Ouvi Pelo amor de Deize no Spotify. Achei bacana a batida, a voz de Jup e sua mensagem sobre o flagelo da depressão. Mas não é minha praia. Estaria tudo bem, claro, não vivêssemos numa época em que uma capa do jornal dedicada ao disco de Novelli não fosse tachada “elitista”. É quase impensável hoje em dia. Mas a Ilustrada é, você bem sabe, um ex-caderno de ex-cultura, e o mundo é o mundo. Sem falar, claro, que ainda há no pedaço esta Ju a quixotear contra moinhos de vento do Vale do Silício, e sem Sancho pra chamá-la à realidade!


 Sá & Mehmari

Saíram bonitas as versões, apresentadas ao vivo, nessa terça e quarta-feira, de Parados (Chico Buarque, 1993), e O que tinha de ser (Tom Jobim e Vinicius de Morais, 1959) e Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque, 1968), com Roberta Sá e André Mehmari. O duo havia mostrado o mesmo repertório, pré-gravado, no início do mês, na edição do Festival de Inverno da produtora Dell’Arte. Incluía ainda um quarto número, Por baixo (Tom Zé, 2015). Deve nascer disso, tomara, EP ou álbum. Mehmari, que tem um disco dedicado a Ernesto Nazaré, entre tantos registros, talvez seja o pianista mais atuante e criativo em atividade no país. Ele também compõe e se mostra inclassificável como músico. Destrincha e recria melodias com grande destreza e autonomia, cita frases de alguns dos compositores celebrados em Paratodos, e encontra variações em Sabiá distintas de sua execução na faixa com essa canção do esplêndido André Mehmari,Ná Ozzetti – Piano e voz (2014). E já que estamos no embalo, e no Youtube, veja e ouça Roberta Sá e Chico mandarem deliciosamente Mambembe, acompanhados pelo altivo sete cortas Marcello Gonçalves, num vídeo de 2011.

No sete cortas, o maestro Marcello Gonçalves.



«Marxista negro tem palestra cancelada ao colocar classe acima de raça e enfurecer socialistas americanos. Do NYT em O Globo.»

«Como não temer a morte. No Aeon, em inglês.»

«As pessoas estão usando as ferramentas de busca do Facebook e Instagram. Durante a pandemia isso é perigoso. NiemanLab, em inglês.»

«Aventura em busca do melhor café do mundo. El País, em espanhol.

«Mario Vargas Llosa: Rumo à Estação Finlândia. Fundação Astrogildo Pereira.»

«Canal no YouTube reúne cerca de 400 filmes brasileiros para ver totalmente de graça. Huffpost Brasil.»

«TikTok: O baile por dominação digital global — Revistas Anfibia, em espanhol.»

«No forrobodó do balacobaco — As muitas vidas de Sara Winter, a extremista de ideias zigodátilas. Piauí.»

«O clarinete vai bem, obrigado — programa A volta ao jazz em 80 mundos, por Reinaldo Figueiredo. Rádio Batuta.

«Fotos recriam última refeição de condenados à morte nos EUA. BBC Brasil.»

«Hidroxicloroquina: um conto moral: Uma surpreendente investigação sobre como uma droga conhecida e barata se tornou um futebol político em meio a uma pandemia. Na Tablet, em inglês.

«Dharma americano: a outra cara de Steve Bannon. Na Letras Libres, em espanhol.»  

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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