Balada para Aned

Cá estamos, você e eu.

Palpita seu coração, que acabam de capturar e prendem nas mãos, como a um pássaro silvestre.

O pescoço aprumado, os olhos bem abertos, o assombro.

Um gole de vinho te apazigua, por um instante.

É que você tem fome de mundo e gente (pecado, sabemos, as armadilhas, os visgos, as gaiolas).

Isso de querer tudo, encontros, festas, sonhos de quem ama?

Dribles na solidão, sabemos, ou saberíamos, mas não.

Quem sabe driblar, como craque? Quem nasceu com o dom?

Rosa dos ventos, você vê o que ninguém cuida.

Enlaça tudo na teia (tão própria), e se guarda na tocaia.

Retém o memorial dos enlaces e das teias.

Ninguém faz isso igual ou tão bem. Ninguém mais faz, por falar nisso.

Que falta que a falta faz.

Quem se deixou prender há de notar sua letra tão própria.

As vogais ganham porte; o efe, o ele, o gê marcam seu tempo no espaço.

Carta, bilhete, receita de bolo, tudo autorretrato.

Mas te entristece que escapem da teia e se encasulem. 

É capaz de se desavir com uma cidade ou uma galáxia, familiar, se houvesse tempo naquela época.

Tempo agora há, por enquanto.

Nunca faltou tempo a ninguém, antes de não haver tempo pra ninguém.

O mundo não presta, em certas e tantas horas costumeiras.

Você está certíssima, Aned.

Sim, você traz cada um de volta, à teia, recaptura de cor, de coração, um coração culpado.

Este estroina, sim, estroina, bandalha, de quem você reúne tudo que ele escreveu, ou seja, tudo que ele é ou pretendeu ser, se perdeu de tanto não sonhar.

Importa que agora esteja a te ver de longe, menina gorducha no retrato de papel áspero.

Vê a camada interior de seu coração, o pentimento de uma alegria de viver, quando estoura esse luzir na superfície, pra logo se recolher, como um fóton.

E já espia fotos outras de um álbum no ar.

A colegial irrequieta em tudo, a começar do corpo. Um desconforto que não se resolve mais.

Trabalhar cedo, estuda depois, cheia de amores e dores.

Aned, sua vida é um livro do desassossego ela própria, inextrincável, incomparável, e a um tempo didática.

Lembra-se?, claro que se lembra da santinha meio retorcida pelas chamas do fogo em uma de nossas casas, herança materna que você manteve tal qual?

Está mesmo ali, o ícone, com camadas a revestir seu pequeno manto — parada, estação, ponto de embarque e encontro.

Há cinco anos te devia este bilhetinho, Edna Marta.

Aí  está. Cá estamos, provisoriamente. Descanse em paz.

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