Esse coqueiro que dá coco

Jurupoca #38 – Desde o Belo – 4 a 10/9/2020 – Ano 2

Criança, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Opa! Vamos apear?

Os sabiás voltaram a cantar e meu ipê amarelo refloriu contra a secura azul de agosto, refazendo um ciclo no qual reconhecemos ou imaginamos vindicar a beleza, e com tal alento recobramos brevemente o fôlego.

Criança ainda, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Hoje é hoje, e a sucessão de ontens acumula cacos, como xícaras partidas. Cacos às vezes rebrilham, semelhante à luz da estrela que já era mas chega a nós ao anoitecer.

Viver, como se queira, é se ir enchendo um depósito de cacos, trastaria. Então vem o “tempo de madureza,/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme”, na lição de CDA. Mas não há como não levar em conta o rebrilho, hoje e amanhã, agorinha, ainda.

A Jurupoca é necessariamente, no que tenho a dizer (por isso e por enquanto) uma carta extemporânea. “Em que tempo nos tocou viver! diria Flaubert, como disse no s. 19. A novidade de ontem acaba de envelhecer (hoje). Revolucionário não é o black-block, e sim o jovem e corajoso leitor do Grande sertão: veredas”, me diz o Milton Hatoum num bilhete (autorizado de estar aqui).

Lemos, escrevemos e buscamos pensar livremente por acreditar nessa revolução que o João Guimarães Rosa é capaz de promover. Disso resulta a Ju, um artefato analógico (ainda que digital), anacrônico (por mais que recém-chegado), marginal (hehehe, quem diria!), e quixotesco (ora bolas!).

Disso, quero crer, resultou o Escrevidas, poemeto do Moral das horas:

Escrevidas

Escrever por escrever
Por certo. Mas
Ser ou não ser?
 
Viver por viver
Decerto. Então
Escrevidas?

Codinha

Alma na lama:
L’amour?
 

Muito obrigado por assinar e ler a Ju. Sinceramente,

Antônio Siúves


  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vida e morte nas mesmas mãos

O genial criador do processo químico que permite a extração de nitrogênio da atmosfera, usado na fabricação de fertilizantes, é o mesmo pai do devastador gás cloro, introduzido na Grande Guerra como arma química, e ainda progenitor do poderoso pesticida Zyklon, depois modificado e empregado nas câmaras de extermínio nazistas. Pelo primeiro invento, o alemão Fritz Haber, de raízes judaicas, ganhou o Nobel de Química — dizia-se que ele conseguira extrair “pão do ar”. Como se sabe, os fertilizantes nitrogenados detonaram a explosão demográfica mundial, de 1,6 para 7 bilhões de almas, em cem anos. Pelas químicas outras, Haber será ad aeternum associado à morte industrial de milhões de seres humanos, e ao suicídio da própria mulher, também química, atormentada pela funérea prodigalidade do marido. Essa história é narrada com tintas de ficção por Benjamín Labatut, escritor de origem holandesa radicado no Chile, em Un verdor terrible (Anagrama), ou Um verdor terrível, do qual pode-se ler um vertiginoso trecho no Babelia. O verdor do título refere-se à coloração mostarda da nuvem do gás lançado pelos alemães contra tropas francesas perto da cidade Ypres, no Flandres, a 22 de abril de 1915, levando no vento a “morte total”.

Ah, esse coqueiro que dá coco

No Brasil, a juventude festeja em baladas feéricas o fim da pandemia; onde dá praia, multidões à milanesa fritam-se ao sol e se banham em mares contaminados, nem aí para as marés.

Notícias imperativas de ex-cultura

A Ilustrada, ex-caderno de ex-cultura etc., volta a algoritmar, e a Ju a observar com interesse seus ensinamentos imperativos na série de capas sobretituladas “Entenda…”. A reportagem acima atira uma âncora transatlântica dentro de um livro não traduzido no Brasil, Feminist City, ou cidade feminista, da geógrafa canadense Leslie Kern, para concluir que por aqui ainda não bateu a onda do “urbanismo feminista”, ou, com a boa vontade do texto, pode ser até que engatinhe… A ideia de “cidade fálica” é associada à falta de banheiros públicos afeitos às mulheres nas grandes cidades. Claro, sobra também, no livro da Kern, para os “fálicos obeliscos, colunas e torres de vigia” que “ejaculam luz no céu noturno com seus refletores”. Daí pode-se até viajar na ideia de uma contraposta “cidade vulvar”. Mas antes me ocorre exclamar, parafraseando o maluco da Escolinha do Raimundo, Seu Brasilino Roxo: SÓ SE FOR NO CANADÁ! Porque nossas metrópoles são universalmente dotadas de banheiros públicos para todos os gêneros e classes. Quem frequenta, e.g., o Parque Municipal Renné Giannetti, no Belo, encanta-se com o aspecto imaculado e o permanente cheiro de desinfetante dos banhos municipais. São muito frequentados nos fins de semana, aliás, pela rica classe média de Lourdes, nosso Leblon, como se sabe. Quanto à ejaculação da luz, que bonito! Me lembrou uma canção do José Miguel Wisnik chamada A olhos nus, que diz assim (cantarolemos!): “Uma vez amanheceu/ meu pai mostrou o céu/ onde nasceu redondo o sol/ abrindo um rombo no azul/ abrindo um sonho/ abrindo um tambor de luz/ que enchesse a fábrica/ com seu óleo cru/ e penetrasse os sonhos da família/ a olhos nus // raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ aquele dia/ raios de luz/ meu pai mostrando o sol/ um rombo azul/ a olhos nus/ raios de luz.” Trata-se quase da mesma coisa, não è vero? Mas essa é uma publicação livre!

Maconha na drogaria 

“Sonhei que o fogo gelou/ Sonhei que a neve fervia/ … Maconha só se comprava/ Na tabacaria/ Drogas na drogaria…”, canta o Buarque em Outros sonhos (do CD Carioca, 2006). Logo ali, no país do lendário José Mujica, o sonho buarqueano se realizou ad hoc.

A erva está disponível em 17 drogarias licenciadas pelo governo. O monopólio estatal, implantado na Lei da Maconha, de 2013, anda bem longe de cobrir a demanda; a turma da chincha reclama que a erva oficial é palha, e de ser obrigada a se registrar para adquirir sua ração periódica da Cannabis sativa ou da Cannabis indica, tipos oferecidos nas farmácias a cidadãos uruguaios. Para a turistama, neca, por enquanto. Um em três usuários fuma o produto estatal, os demais se valem dos bons serviços do paralelo, antes conhecido como “negrol”. Nada disso impede que o país seja decantado mundialmente como caso de sucesso, por sangrar um terço do faturamento do narcotráfico. “Eu uso a indica quando quero relaxar, e a sativa quando quero ser mais criativo, escrever ou desenhar”, explica, como quem prescreve, o jovem Nahun Martínez, de 19 aninhos, à reportagem especial da Folha. O rapaz é funcionário de uma padaria, e ainda há de se revelar ao mundo das artes. Tomara. A Disney da Erva milongueira não é uma Christiania, o parque temático hippie de Copenhague, mas tem museu, circuitos, completas lojas de acessórios e cursos para chefs da alta cozinha canábica. Um estudante brasileiro de nível avançado preparou para os repórteres da Folha um banquete de pratos como o Chicken Sauce Smoke. “Trata-se de um frango com batatas que leva azeite de maconha”, descrevem, para o leitor já na larica. A propósito do nosso vizinho, neste 14 de setembro celebra-se por lá o centenário de nascimento de Mario Benedetti.


GONZAGUINHA (Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, Rio de Janeiro, 1945 — Renascença, Paraná, 1991) canta COM A PERNA NO MUNDO, composição dele, faixa A2 do LP Gonzaguinha da vida (EMI-Odeon, 1979), com a participação de Djavan no backing vocal.

O delicioso e bem marcado samba autobiográfico, carregado de páthos e alento, melancolia e joie de vivre, tem o dom de me revolver sinapses e aumentar num instante a taxa de serotonina (já que vamos devagar com o romantismo).

Gonzaguinha é daquelas almas que não caberiam neste mundo assombrado pela inteligência artificial, em que a “ética da autenticidade” vira mercadoria barata no Instagram.

Era um homem magérrimo, politizado e lírico a um tempo, de fala pausada, malandra, compassada nas cordas do coração.

COM A PERNA NO MUNDO - Gonzaguinha 
 
Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
 
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade
 
Oh Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar
 
Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu
 
E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
 
Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá, mas, e daí?
 
Ô ô ô ê ê á
O moleque acabou de chegar
Ô ô ô ê ê á
Nessa cama é que eu quero sonhar
Ô ô ô ê ê á
Amanhã bato a perna no mundo
Ô ô ô ê ê á
É que o mundo é que é meu lugar


O banho da Lo Prete

Renata Lo Prete, quem sabe a jornalista brasileira mais completa em plena na labuta, comemora um ano do podcast O Assunto banhada na merecidíssima glória. Seu programa conquistou ampla audiência, inclusive a jovem, e é recomendado por professores a estudantes que se preparam para o Enem. Bateu na estratosfera dos 33 milhões de download. Aos 56 anos, a Lo Prete divide inacreditavelmente seu labor com a edição e apresentação do Jornal da Globo e do semanal Painel, da GloboNews. Enquanto isso, a Folha agrega um terceiro apresentador, jornalista mais tarimbado, pra ver se engrossa o caldo do seu falso Young friendly Café da Manhã.



PEREGRINAÇÃO – Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei, nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.


Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.


Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... e tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...

Este é o oitavo de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).    


Mark Rothko Nº. 11 (Sem título, 1957).
Óleo sobre tela (201.9 x 177.2 cm). Coleção particular. Via WikiArt.  
Pelo final de 2015 comecei a publicar, apenas no blog Livro de Viagem, a coletânea 21 poemas, dois anos depois do Moral das horas. Ilustrei as páginas desse poemário com obras de Mark Rothko (1903-1970), artista nascido onde hoje é Dunaburgo, Letônia, e naturalizado norte-americano.
Meu xodó por Rothko é um negócio do outro mundo; como costuma ser, à primeira vista, nascido, creio, desde que vi seus quadros na Tate Modern, muito tempo atrás.
Suas cores profundas, sobrepostas, graduadas e geometrizadas podem eviscerar a alma de um observador atento e paciente.
Bom, este Nº. 11 me pareceu perfeito para ilustrar o poema [20/21] que me escapuliu da leitura de Tolstói.
GUERRA E PAZ
 
Madrugada
No campo de Borodinó:
Sobre a palha da aveia,
Um silvo rasga a névoa;
A carne acalenta o instante
Pôr do sol.


«Magistocrata não sai de férias, vende. Conrado Hübner Mendes, na Folha.»

«Sem sintomas, brasileira ficou cinco meses infectada pelo coronavírus, caso mais longo já documentado no mundo. O Globo.»

«Hospitais em Nova Orleans mandam pacientes infectados pelo coronavírus para instalações de cuidado paliativos ou para morrer em casa. No ProPublica, em inglês.»

«Marcelo Viana: Limites da mente humana. Na Folha de S. Paulo.»

«Escrever é como girar a faca na ferida, uma rara entrevista com Elena Ferrante. No Estadão

«Eleição nos EUA: E se o Facebook for uma ‘maioria silenciosa’ de fato? New York Times, via Estadão

«Uma entrevista com o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Na Letras Libres, em espanhol.»

«Uma entrevista com fotógrafo britânico David Hurn. No Jot Down, em espanhol.»

«A plataforma mais violenta. O problema do extremismo no Facebook. The Baffler, em inglês.»

«Charles Taylor: “É necessário o fortalecimento da identidade comum dentro das sociedades”. Estadão da Arte.»

«A reabertura da museu Casa de Fernando Pessoa. El País, em espanhol.»

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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