“No princípio era a verba”

Uma imagem contendo comida

Descrição gerada automaticamente

Jurupoca #39 – Desde o Belo – 11 a 17/09/2020. Ano 2

A palavra do senhor

No princípio
era
a Verba

Lero-lero [1967-1985], Cosac & Naify, 2002, pág. 31.

“Castelos, estações / Que alma é sem senões?” – Estações, Arthur Rimbaud

“Eu, Diogo Cão, navegador, deixei/ Este padrão ao pé do areal moreno/ E para diante naveguei.” – Padrão, Fernando Pessoa

“Pois ao poeta cabe fazer/ Com que na lata venha caber/ O incabível” – Metáfora, Gilberto Gil

“Cidade besta, Belo Horizonte! Exclamou Redelvim, consultando o relógio. A gente não tem para onde ir.” – O amanuense Belmiro, Ciro dos Anjos

Opa! Vamos apear?

Não estamos na Bielorrússia do Lukashenko, na “América” do Trump, vulgo Agente Laranja, não estamos em Mianmar, onde se toca a limpeza étnica de rohingyas, não estamos nem aí.

O arroz, o feijão, o óleo de soja, a carestia! Grito nas gôndolas, o horror, oh, pelos poderes do Zé Sarney! Pelos poderes do Funaro!

A inflação da cesta básica sequestra o telejornal e o podcast, livra o Corona, livra os mortos de menos da média móvel da Indesejada a ceifar os indesejados do ¡Caveirão.45!

Vamos todos pro macarrão com pomarola! Pro picadinho de abóbora com chuchu!

¡Caveirão.45! dá mais um teco na nossa cabecinha (morremos na hora) e clama ao verde-amarelismo dos supermercadistas e gagueja sobre a vacinação em massa; o antivacinismo vai bem obrigado com o jornalismo entorpecido pelo empoderamento da ignorância alimentada pelo Vale do Silício, já que todos amamos e damos graças a Satã por existir sempre que estampamos nossa dentadura do último clareamento na selfeira solitária, quase como bater uma, bater uma, aliás, o Caetano não conseguia na prisão, ele contou, “sua libido minguou”, não lograva prosseguir com a prática, da bronha, que lhe era “quase terapêutica”, secou, “silêncio do sexo” (apud Gil).

A arraia-miúda de olhos esbugalhados com a ereção do preço do arroz não confrange, decerto, a alta gastronomia afrodisíaca da magistratura, cujo ganhame abiscoita 1,5% do PIB, além de biscoito recheado e brioches, muita lagosta, como se sabe.

Mas, mais nada, ou o que, então? Não sei de nada, deixei de ver o JN e tudo mais, não sei o que aprontaram o Zema, o Kalil, a Bündchen, a parlamentar Flordelis, o papa Francisco, o Shinzo Abe.

Submergi nas duas temporadas da alemã Das Boot, no Starzplay, após subir à tona da medíocre Dublin Murders, e folguei com a aparição no Netflix da dinamarquesa Borgen, melhor impossível! e aplaudi a norueguesa Kieler Street de cabo a rabo.

É que voltei a comer séries pra não sentir o tempo passar, como um despertador analógico velho, tic-tac, tic-tac, tic-tac.


COMUNICADO INTERESSANTÍSSIMO: A próxima edição da Ju sairá encolhida e deverá ser despachada de algum ponto remoto da costa atlântica, quem sabe, se o uifi permitir e a canoa não virar. Você saberá. Aguarde! Picaremos la mulita, distanciamento social assegurado. Pretendo ler à sombra dum coqueiro que dá coco a nova tradução do Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre, recém-entregue pela 34.


Uma visita inoportuna Recebo a visita inesperada e familiar, saudosa mas fora de hora de um parente de vó e vô maternos, Franquilim Dias Duarte.

Aniversariamos juntos, ele mais velho um ano, e crescemos próximos. Entregara seus queijos padrão ouro (120 pratas o Kg) a uma loja de grife no Belo e já se via na bica do torna-viagem pra fazenda de Ipoema.

Nos cotovelamos e o convidei pro terraço, um a três metros do outro. Peguei logo a garrafa, que sempre mediou nossos diálogos, abertos entreveros, às vezes rudes, e nos sentamos.

O trecho que se segue ocorre já no consórcio de alguma birita.

[…]

— Você é uma negação, coitada da tia, lembro sempre dela, que Deus a tenha. Melhor tomar tento — disse Franquilim, erguendo as largas sobrancelhas, uma nota da genética Duarte. — Sou da roça mas não desaprendi meu ginásio; vai procê vê, vai, vai rezando, segue com essa ladainha, a preghiera, como diz nosso santo papa Francisco, de seu são Samuel Beckett, vai pela estrada afora poetando, eu disse poetando! procê vê — emendou o primo num embalo, sem seguida tomando outra talagada.

— Be-ckett? Uai, que que la-dainha? — Gaguejei, surpreso com a súbita alusão — Ah, aquele negócio? Como é que é? “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” É uma fria, eu sei, você sabe, então? Uma graça do irlandês com ponta de punhal enferrujado.

— Essa daí mesmo. Larga mão desse negócio, venha passar uns tempos comigo na fazenda. Te ensino qualquer coisa de prático, você me ajuda na queijaria… Ainda é tempo, sô! Ninguém lê esse seu troço com nome de peixe… Eu mesmo deleto tudo, não tenho tempo. Juruquê? jerupoca, juiripoca. Tipo de bagre?, onde já se viu.

— Jurupoca, por favor, mais respeito. Você dissolve mais que ácido sulfúrico, primo, cuidado seu matuto cult…

— Sei. Mas quer dizer que seu peixe de estimação é seu único serviço em meses, e o adjutório, o que pinga, não soma um auxílio emergencial! Como foi cair nessa treta, e como pensa escapar? Parece o Chico Lobo, quanto mais velho mais bobo.

— Uai, não crio galinhas Isa Brown nem faço queijos padrão ouro como você, primo.

— Pois devia ter aprendido um ofício mais útil, e por que, enquanto pôde, não comprou uma terrinha lá perto de nós?

— Obrigado por ser sincero, ainda que feladaputa. Não sei criar galinha. Mas é com a alma lavada e enxaguada que te digo que meu peixe da família dos pimelodídeos, nativo do Brasil, sim, senhor, é mais brasileiro que nós, meu peixe, eu sei…

— Toninho, você desaprendeu a beber… Eu te conheço, larga mão disso. Pare de se rebolar de caridade por si mesmo.

— Depois do Beckett, Pessoa, primo? Você é um fazendeiro da mais alta da estirpe da nossa Comarca do Serro Frio, dum Manoel de Barros, dum Raduan Nassar, já se vê.

— Ora, vai cagar. Vamos tomar mais uma branquinha. Onde cê arranjou dessa tem mais? Cadê o tira gosto?

— Vou fritar uns torresmos.

[…]


Fala, K

“Seja como for, falam de coisas que absolutamente não entendem. A segurança deles só é possível por causa da sua estupidez”, considera Joseph K., sobre os guardas que o detêm. Kafka conversa com seu leitor de ontem e de hoje e vice-versa.


Vou cantar-te nos meus versos

Titorelli, o pintor mendigo de O processo, para satisfazer o gosto dos altos magistrados, retrata o símbolo da Justiça nos espaldares de seus tronos “com asas nos calcanhares e em plena corrida”, o que encanta K., por notar que a figura inconclusa no cavalete, no imundo e onírico quarto-estúdio do artista, se assemelhava menos à deusa da Justiça que à da Caça, antes Artêmis que Têmis. “Esses senhores são vaidosos”, explica Titorelli. Desce o pano. Já no Brasil as “instituições estão em pleno funcionamento”, repetem balofos otimistas. E como funcionam, Franz? Sonho com uma representação plástica da Justiça praticada no Brasil em nossos dias. Sonho com um Aleijadinho.


Meu mulato inzoneiro

O vulgo pode até dizer no boteco, entre uma gelada e uma moela no palito, que o ministro Gilmar Mendes, sendo quem se pensa que é, desta vez quebrou o galho do senador José Serra. O vulgo, como se sabe, é ignaro, não alcança as tribulações das altas esferas da Justiça. Só as baixas.


De Pero Vaz ao !Caveirão.38!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? ……………………… Mendes [Caramuru] ……………………… Aras [Anhanguera] ……………………… Toffoli [“Editor da Sociedade”] ………………………  Maia [Bunda molis monumentalis e Raposão de São Conrado] …………………….. Alcolumbre [Cabron de mão cheia] ……………………… !Caveirão.48! [Cavaleiro do Apocalipse e seus exércitos da cloroquina] ……………………… Queiroz [Paul Brasil pra toda obra] …………………….. Em tal maneira he graciosa que querendoa aproueitar darsea neela tudo per bem das agoas que tem. pero o mjlhor fruito que neela se pode fazer me pareçe que sera saluar esta jemte e esta deue seer a principal semente que vosa alteza em ela deue lamçar………………………. beijo as maãos de vosa alteza. deste porto seguro da vosa jlha da vera cruz oje sesta feira prim.o dia de mayo de 1500 ……………………… Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O novo jornalismo

O jornalismo se meteu mundo afora a fazer justiça social, que é tudo, menos jornalismo e justiça social.


Tonto

Tonto pelo furor da polarização ideológica, tangido pela caça ao clique, o jornalismo acaba por ser mais uma entre tantas “narrativas”, tão boas quanto todos os textões do Face, por mais reles eles sejam.


Velha nostalgia

“A leitura diária do jornal é a oração matinal do homem moderno” (Hegel, filósofo do século 19 e redator do Bamberger Zeitung).


Criação natimorta

Nenhuma obra de arte será mais avaliada segundo seu valor estético, dita a Nova Ortodoxia. É natimorta a criação em dessintonia com as expectativas da polícia do pensamento sobre o sexo e a etnia do autor, esteja ele vivo ou morto. Como disse já há algum tempo João Pereira Coutinho, “preocupações estéticas deram lugar à retórica repugnante da ideologia”.


Caetano e o youtuber

Que tempos, Gil! Pois assisti à longa entrevista de Caetano Veloso a Pedro Bial e té ‘rrupiei . Pressenti o lado negro da força. O Império contra-atacava? O irmão de Beta, Beta, Bethânia, confessava, como quem discute a preferência entre a torta de limão e o pudim de leite, que aos 78 anos deixou-se balançar e refazer a cabeça por um influencer marxista youtubeiro, depois ler um autor italiano recomendado pelo moço. “Me he hecho más de izquierdas con la edad”, disse ao El País. A defesa dos direitos individuais, pisados por todas as ditaduras, não lhe parece mais causa tão absoluta, profunda e rotunda. Ele, Caetano, não é mais “tão liberaloide” (sic). Flutua cético, pensei, dentro da interestelar canoa, qual quasar pulsando loa, nalgum ponto inequidistante entre Lucy Sky Walker e Darth Vader. Atento às novas “narrativas” (palavras do youtubeiro), já não pode mais equiparar os totalitarismos nazista e stalinistas. Acha importante mensurar o problema com as novas réguas conceituais dos jovens. Caetano entrevistou seu novo guru num programa da Mídia Ninja. Por mais de uma hora ouve-se uma chatíssima trampolinada repleta de falsas equivalências, obscura peroração sobre as novas abordagens marxistas revolucionárias capazes de superar velhas “narrativas” liberais. Ai que preguiça! Não se detiveram, ele e o youtubeiro, no fato de Hitler e Stálin terem imposto igualmente “leis” históricas, o advento da “raça ariana” num caso e o da “classe operária” no outro. E em nome dessas “leis” semearam a terra com milhões de cadáveres (pelo visto, sementes não infecundas). A despeito disso, é possível discutir o sexo dos anjos, teorizar sobre a narrativa mais sexy. Nem uma palavra, no papo, sobre o legado ou a contribuição da social democracia no debate sobre a desigualdade. Bem que o Bial lhe perguntou, esse namoro com a esquerda no ocaso não teria nada ver com ¡Caveirão.45! e a nova desordem mundial? Não, nada a ver. Saí da burla nada odara, mas ainda mais chegado a Hannah Arendt e seu Origens do totalitarismo,  longo e árduo trabalho historiográfico que ando a ler, muito atacado por extremistas de um bordo e outro. Arendt defendeu o “pensamento sem corrimão”, como já lembrado na Ju. Pensar sem corrimão, mais uma vez na história, tornou-se algo inglório. Novos tempos sombrios encobrem tudo e todos.  


Hey Jude

Ainda não vi Narciso em férias, documentário na Globoplay sobre o badalado (para quem já entrou nos enta) episódio da prisão de Caetano e seu exílio londrino durante a ditadura (que ao menos nos rendeu o incomparável álbum Transa), mas gostei pacas de sua versão de Hey Jude, canção contratualmente creditada a Lennon/McCartney, um single do filme. A carga emotiva está em perfeita adequação com a triste história do cárcere e a singela música de Paul. Como se sabe, Hey Jude foi inspirada no filho de John, Julian, doído com a separação dos pais, e também pelos dias cinzentos dos Beatles, que igualmente se divorciavam. “Sempre me dei bem com as letras, embora Paul seja um letrista bem mais capaz do que ele próprio haveria de imaginar. Hey Jude é uma letra dos diabos! (Hey Jude is a damn good set of lyrics and I made no contribution to that.”). Palavras de Lennon na célebre entrevista à Playboy, 40 anos atrás.


ELIS REGINA (Elis Regina Carvalho Costa, Porto Alegre, 1945 – São Paulo, 1982) canta CAI DENTRO, de BADEN POWELL (Baden Powell de Aquino, Varre-Sai, Rio, 1937 – Rio, 2000) e PAULO CÉSAR PINHEIRO (Paulo César Francisco Pinheiro, Rio, 1949), em duas versões: faixa A1 do LP Elis, essa mulher (WEA, 1979) e A2 do Elis, Montreux Jazz Festival (WEA-Elektra/West Wind Latina, 1982). A própria gravação de Baden tem seu valor, pois ouvimos sua voz curtinha, quase sussurrante, e seu violão “em direto” e o samba noutra cadência.


Encontraram-se aí, nos três momentos deste Intervalo: um violonista, compositor que é um dos inventores da nossa música; um senhor letrista, entre os raros da MPB capazes de infundir à fala das ruas uma inflexão poética culta que enriquece a tradição e a repõe no presente, e uma cantora brasileira, a maior de todas, nossa primeira e única com estatura de “grande dama do jazz”.

Outras tentativas de interpretar a melodia nada plana de Baden são quase sempre um fiasco. As divisões são o capeta. Distam ano-luz de Elis.

O que faz a delícia do samba é a soltura do canto, a justeza com que cada sílaba partidinha se prende à nota correspondente. Tem a graça coloquial íntima e suave da voz da rua, em plena quebradeira rítmica.

Ou bem nos deixamos levar na apoteose do balanço ou o samba se perde, derrapa como samba rasgado que é. O efeito é muito mais complexo do que parece.

Ouça e veja, minha leitora, meu leitor, ela no palco de Montreux, à frente de uma banda com Cesar Camargo Mariano (teclados), Chico Batera (percussão), Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo) e Paulinho Braga (bateria).

No outro enlace, na gravação de estúdio, note como os metais alentam a cozinha percussiva. Zé Bodega (José de Araújo de Oliveira) no sax tenor e Marcio Montarroyos no trompete seguram o naipe.

Em depoimento ao site Cidadão Cultura, Paulo César Pinheiro contou como surgiu essa parceria com Baden, a pedido de Elis:

“Elis Regina, que vez ou outra me ligava e fazia encomendas, disse que gostava do meu jeito coloquial de escrever, achava que meus versos eram diretos , sem volteios , sem pedantismo, sem frescuras, de linguagem malandramente popular feito para todas as classes sem perder a poesia. Assim certo dia, toca o telefone, e Elis diz: Paulo César (a única que me chamava assim) faz um samba pra mim. Tema “Cai dentro”. Semana inteira trabalhando o tema, e assim ficou a encomenda da maior cantora desse país, junto com Baden Powell. Mais uma vez fizemos um samba rasgado.” 

CAI DENTRO – Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro
 
Até que eu vou gostar
Se de repente combina da gente se cruzar
Ora veja só pois é pode apostar
Se você gosta de samba, oi, encosta e vê se dá
 
Vem, pode chegar
Que vai ter
De balancear
De bambolear
E aqui no mocó
Tem que dizer no gogó, pois é, vem
Tem que dar nó, vem
Rebolar, remexer, requebrar, vem
 
Bota a baiana pra rodar
De cima em baixo eu quero ver
Não sossego o facho até acabar
(Me disseram) Diz que isso é com você
 
Quaquaquáquaráquaquá
Tem nego querendo lhe gozar
E logo pra cima de moi
E é por isso que não tem colher de chá, não dou
Nem vem na cola, que se entrar de sola vai dançar
E é pra nunca mais você poder falar
Que dá na bola porque na bola você não dá, vem

A feroz caça ao clique ou a orgia da frivolidade


Andam dizendo que pego no pé da Folha e da Ilustrada. Pode ser. Mas acompanho o jornal de Sampa há mais de três décadas, atentamente. Nesse período foi onde melhor se inovou e se ousou em nosso jornalismo cultural. Mas isso já era, não é de hoje. Os jornais no mundo inteiro lutam para sobreviver na internet e poucos não estão saltando, magros e famintos, pra abocanhar as sobras atiradas das redes sociais e resistir aos robôs do Google. O Globo (nos recortes acima e abaixo) obviamente é um caso ainda mais infeliz que o da Folha Ilustrada. As páginas de cultura do jornal carioca, que já teve um razoável caderno de livros, trouxeram para a rede o espírito das revistinhas de celebridades e fotonovelas, que ainda consegue degradar pela inautenticidade. É muita fofoca!, meu deus. Interessante observar como a orgia permanente da frivolidade convive com eventuais lenga-lengas sobre o estado crítico da cultura. O que se esperava, milagres? É raro produzirem algo que preste. O Estadão é o que melhor está se aguentando, e bem ou mal ainda consegue manter as aparências.

Tela de celular com publicação numa rede social

Descrição gerada automaticamente

E para não dizerem que eu não falei da Folha

Nu! Té ‘rrupiei! quando fiquei sabendo.

Ainda em estoque

É notícia velha mas deste ano, e nunca é tarde, hehehe. Você sempre pode quebrar o tédio, entrar no site da loja Goop, da atriz Gwyneth Paltrow e encomendar uma vela chamada This Smells Like My Vagina, sai por 75 dólares, umas 400 pratas mais o frete, mas deve valer a pena. Já foi capa da Ilustrada?


Vicco Mortensen

Cena de Falling, filme de Vicco Mortensen exibido em Cannes. Foto: Divulgação

“Sinto ter trazido você a este mundo para que tenha de morrer”, diz um homem ao filho recém-nascido logo na abertura de Falling, filme selecionado no Festival de Cannes 2020. O ator novaiorquino Vicco Mortensen é diretor, roteirista, um dos protagonistas. compositor da trilha sonora e não sei mais quê. Aos 61 anos, vivendo em Madri com a mulher, atriz espanhola, também pinta quadros abstratos, produz discos de jazz e toca uma editora de livros na Califórnia. Como diz Borja Hermoso, autor desta entrevista, os dias do homem têm 24 horas como os de todo mundo, mas ele fala inglês, dinamarquês, espanhol, árabe e italiano, com boas noções de russo, alemão e catalão! E a inteligência de suas respostas não contradiz o background.  



 BOCAGE – Soneto IX


Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras sutis pachocho estreito:

De louro pelo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branca crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando:

Como é inda boçal perde os sentidos:
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que veem a ser fodidos.
 
Este é o nono de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).
 


Mark Rothko. Untitled (Seagram Mural), 1959. National Gallery, Washington, EUA
EXPOSIÇÃO EM PL
 
Como um raio de sol
No cerne seco do dia,
O som de um vinil
Penetra e tonifica almas
Que cambalhotam ao vento,
Qual pétalas no tempo.
 
Girarão entre destroços
País afora, por galáxias,
Enquanto a ruína se queima
Com a chama da alegria,
Travessia pela ponte dourada
Entre o ontem viçoso
E a palhada do dia:
 
Eis o mundo que se presta,
Eis o mundo prestante,
O esplendor do viver.
 
Lá estavam agora
Horacinho e Belga,
Canário frágil, docinho,
Olhos negros gravados
No vidro verde do vinho,
A nos acalentar o LP de Ednardo,
À tardinha,
Antes da exposição em PL.
 
A vida aqui tem razão?,
Me indago, enquanto
Belga entorna pepitas,
Contas de âmbar ardem
No côncavo da mão lívida,
Alçam o medo na hora,
No cômodo da covardia.
 
Logo comparsas
Compartem o botim,
O bote no papo,
Parêntesis;
Entram no tubo da onda
De puro licor rubi;
Afundam na crista
Até o fim, batem
No osso — ascese
No baque —
Odisseia,
Passagem, entretanto,
Ínterim.
 
[14/"21 Poemas" - Antônio Siúves - 2016]
 



«Judiciário, Ministério Público e estatais lideram os gastos com servidores. No Estadão.»

«Cloroquina encalhada. Editorial da Folha de S.Paulo

«Como os algoritmos estão mudando o que lemos online. Russell Smith na The Walrus, em inglês.»]

«Um estudo com 64 mil doentes de Covid na Espanha revela os sintomas mais estranhos. No El País, em espanhol.»

«As imagens finalistas do Wildlife Photographer of the Year

«Alberto Manguel doa a Lisboa os 40 mil livros de sua biblioteca

«Clássico bósnio do Nobel de Literatura Ivo Andric ganha tradução no Brasil. No Estadão

«Croce del sud (Cruz ou Cruzeiro do Sul), o novo livro de Claudio Magris. No Corriere della Sera, em italiano.»

«Com Jude Law, ‘The Third Day’ desponta como uma das principais séries da safra da pandemia. No Estadão.

«Francis Ford Coppola anuncia versão com novo final de O poderoso chefão 3. No Estadão.»

«A Deutsche Grammophon reúne em uma caixas todas as gravações da pianista portuguesa Maria João Pires. Ela entrevistada no El País

«Mônica Salmaso recebe de Chico Buarque a jovens revelações em projeto virtual que inspira bordadeiras pelo país. Em O Globo.»

«Anat Cohen and Marcello Gonçalves: Tiny Desk (Home) Concert. Na radio pública NPR, de Washington.»

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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