Ju #45

Desde o Belo. 30/10 a 5/11/2020. Nº 45. Ano 2

America (2016), do artista italiano Maurizio Cattelan, no Museu Guggenheim. Cattelan convida o público a experimentar seu vaso revestido em ouro 18 quilates, pública e privadamente. Um século depois do urinol de boteco de Duchamp, era a vez de o bilionário mercado de arte oferecer um mimo ao sonho de consumo inconfesso da nossa civilização, aí tão bem representado. Não é o posto ideal para uma selfie?

X
L’ennemi 

 Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,
 Travesé çà et là par de brillants soleils;
 Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
 Qu’il reste en mon jardim bien peu de fruits vermeils. 
  
 Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
 Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
 Pour rassembler à neuf les terres inondées,
 Où l’on creuse des trous grands comme des tombeaux. 
  
 Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve 
 Trouveront dans ce sol lavé comme une greve
 Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?  
 
 — O douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
 Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le cœur 
 Du sang que nous perdons croît et se fortifie! 
  
 X 
 O inimigo  
  
 A juventude não foi mais que um temporal,
 Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
 As chuvas e os trovões causaram dano tal
 Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.  
 
 Eis que alcancei o outono de meu pensamento,
 E agora o ancinho e a pá se fazem necessários
 Para outra vez compor o solo lamacento,
 Onde profundas covas se abrem como ossários.
  
 E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia
 Não achem nessa gleba aguada como praia
 O místico alimento que as fará radiosas?

 Ó dor! O Tempo faz da vida uma carniça,
 E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas 
 No sangue que perdemos se enraíza e viça!
  
Charles Baudelaire, As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Nova Fronteira, 2006. 

Opa! Vamos apear?

Apraz-lhe, leitora amiga, um vermute com gildas, este excelso pintxo basco? Não?

Quem sabe uma paródia distópica nada edificante?


Agora eu era um drone comprado na Amazon,
E meu brinquedo só falava mandarim

A noiva do Wolverine era na verdade uma robô,
Além de outras três mutantes lilases

Eu enfrentava terroristas uigures e milicianos
Cariocas, guardava meu AR-15 e ensaiava um funk para as raves

Agora eu era um cantor sertanejo, um senador da República
E era também um ministro insuspeito do STF

E perante a minha lei,
A gente era conduzido sob vara e remédios à felicidade

E você era a androide que eu fiz labutar, era tão linda de se programar,
E já se despia com um comando do olhar

Mas você saiu de órbita sem dizer bye, bye,
E agora eu era um seresteiro a perguntar,

O que é que o destemperado
Tempo vai fazer de mim.

Tá bom por aqui, né, de paródia distópica?

Pois é, confesso ou não confesso?

— Sim, deve.

Então confesso:

Passo os dias soluçando com pinho,
Carpindo minha dor, sozinho,

Sem esperanças de voltar a ver
Minha androide lilás.

Deus tem compaixão deste infeliz,
Por que sofrer assim?

Compadecei-vos de meus achaques, ora essa.

Sem falar que sou, devo confessar?

— Sim, é o jeito.

Sou cruzeirense, decerto sou,

Desde pai e irmão mais velho.

Desde Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Evaldo, Piazza, Procópio, Neto…

E agora eu era um louco a me matar,

A um passo da Série C do Brasileirinho.

Isto sim é que sofrer!

Ó Deus tem compaixão deste infeliz.

E você também, leitora,

Compadecei-vos dos meus ais!

O Cruzeiro que entrou para a História. E agora eu era um louco a perguntar o que vamos fazer na Série C

NÚMEROS ‘ATRASADOS’ DA JU:

São estes os números anteriores da Ju (#0 a #39), enviados exclusivamente por e-mail para os assinantes da Tinyletter, agora já disponíveis neste Livro de
Viagem: #0#01#02#03#04#05#06#07#08#09#10#11#12» — #13#14 #15#16#17#18#19Carta Extra de Quarentena #01#20 Carta Extra de Quarentena #03 #21Extra de Quarentena #04#22Extra de Qurentena #05# 23 Extra de Quarentena #06#24 #25#26#27. As edições que faltam (#28 a #39) serão publicadas nos próximos dias.

QUANDO O REALITY SHOW
SE TORNA O SHOW DA VIDA

É significativo que “almas” gêmeas como Trump & Bolsonaro, ou seja, Agente Laranja & ¡Caveirão.105mm!, tenham sido encubadas no auge da Orgia da Frivolidade, que é outra forma, encontra pela Ju, de definir nossa era. Em A civilização do espetáculo (2012), Mario Vargas Llosa refaz o percurso em que a informação se transforma em “instrumento de diversão”. O escândalo, a infidelidade, a fofoca, a violação da privacidade, a calúnia e a mentira alimentaram, primeiro, a imprensa popular, os tabloides, depois a audiência televisiva e agora as redes sociais e a internet. “Não existe forma mais eficaz de entreter e divertir que alimentar as baixas paixões do comum dos mortais”, diz Llosa. O entretenimento passageiro, lemos mais à frente, se converteu na “aspiração suprema da vida humana”, e os valores, as ideias, os livros, a arte e a literatura depararam o “direito de contemplar com cinismo e desdém tudo que é chato, preocupa e nos lembra que a vida não é apenas diversão, também drama, dor, mistério e frustração”. Isso me ocorreu ao ler uma entrevista do jornalista e escritor David Remnick, editor da consagrada revista The New Yorker há mais de duas décadas. Remnick frisa que Trump é um herói televisivo, campeão do reality show, o entretenimento por excelência de nossa era, a era da “razão cínica”. “Trump tem, como demagogo, muitos talentos. Pode ser divertido, de forma demoníaca, mas tem um elemento que vem de uma origem óbvia: seu passado na indústria da televisão”, diz. “Tem um passado no mundo do entretenimento. Ele está sintonizado. Basta ver como dominou a televisão a cabo em 2016. Por quê? Porque aumentava os índices de audiência. Agora vemos a CNN como um canal crítico, mas a CNN lhe dava horas e horas de tempo grátis no ar porque a audiência subia quando ele falava”, lembra Remnick. Ele comenta o que Barack Obama lhe disse em um dos encontros que tiveram: “Trump entende o novo ecossistema, no que a verdade e os fatos não importam. Ele atrai a atenção, mobiliza emoções e segue em frente.” Nesse “ecossistema” prosperaram o negacionismo e canais como Fox News, Breibart, InfoWars e QAnon. O Caveirão, um campeão do Facebook, também entende o novo “ecossistema” do Bananão (com a licença de Ivan Lessa). Ao se lançar à presidência, intuía seu lugar ao sol na configuração social do país e seu arco que cobre templos evangélicos, templos de consumo, searas milicianas e o Planalto-Centrão, com seus braços nos Três Poderes. Em nosso caso, as redes de TV evangélicas e venais e os canais pagos ou abertos se tornaram indiferenciáveis, em substância. No mesmo passo o jornalismo foi se fazendo mais e mais anêmico, e menos e menos influente, acossado pela imposição do caça-clique. Enquanto isso, o BBB da Globo, que alguns julgavam em fim de linha, na edição 2020, a 20ª, atingiu um milhão de votos!, o que maravilhou o Midas do Marketing e Profeta da Genialidade Baiana, Nizan Guanaes.   

O MARECHAL DA CRÔNICA
NÃO DESPERDIÇA MUNIÇÃO

Álvaro Costa e Silva, o marechal, que reparte um minifúndio na Folha com Ruy Castro, é um bamba da crônica e não perde o fio da hora. Em sintonia com a Ju # 44, lembra que ¡Caveirão.105mm! e milícias são do mesmo campo semântico, por assim dizer. “Nos quase dois anos de Bolsonaro em Brasília, o Rio teve plenos poderes para cumprir seu ideal: tornar-se terra de miliciano”, apontou no último sábado, armado apenas com seu teclado. “Sede do poder no Brasil Colônia, Vice-Reino, Império e República, a cidade hoje tem dois milhões de moradores e mais da metade de seu território sob o domínio de grupos paramilitares”. O marechal mantém a mira e manda na mosca: “Velho amigo do Queiroz e vizinho de um acusado de matar Marielle Franco, Bolsonaro, mais do que ninguém, tem conhecimento do que se passa no Rio”. Ele, marechal, atira suavemente com as letras, mas já vemos os destroços: “A pergunta a ser feita é se ele se importa. Deu alguma ordem ao ministro da Justiça? Ou André Mendonça só ocupa a pasta para invocar a Lei de Segurança Nacional contra jornalistas e cartunistas?”. O marechal gosta de samba, graças a Deus. Sem nunca se derramar, não renuncia a uma pitada de emoção, como no texto desta terça-feira (27), onde decanta as velhas guardas das escolas de samba e a pessoa de Hildemar Diniz, o cantautor Monarco, que ele viu em live recente, aos 87 anos, com “a mesma voz altaneira, metálica, dolente” registrada no LP Portela, passado de glória, de 1970, produzido por Paulinho da Viola para honrar uma tradição ameaçada.

INTERVALO

“Nosso amor resplandecia sobre as águas que se movem”

Itapuã — faixa A3 do álbum quase épico Circuladô, de 1991 — é uma das composições mais francas, emocionais e belas da obra de Caetano Veloso.

“É sobre mim e Dedé [primeira mulher do artista], por isso eu chamei Moreno [seu filho soteropolitano, nascido em 1972] pra cantar comigo. Essa música me emociona, muitas vezes eu cantava e chorava”, contou a Eucanaã Ferraz, organizador do livro Letra só (Companhia das Letras, 2003).

A mim também emociona. Melodia e poesia guiam minhas sensações quando revisito Itapuã e Abaeté.

A canção é aberta na escala maior para modular em versos como “Itapuã, tuas lamas algas, almas que amalgamas”, que, além do cancioneiro, enriquecem nosso moribundo [que filólogos não me ouçam] idioma.

A canção termina com a repetição do segundo verso, agora numa inflexão propriamente confessional, entre o canto e a recitação: “Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem”, que é de uma força atroz.

Itapuã – Caetano Veloso

 Nosso amor resplandecia sobre as águas que se movem
 Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem
 Nosso ritmo, nosso brilho, nosso fruto do futuro
 Tudo estava de manhã
 Nosso sexo, nosso estilo, nosso reflexo do mundo
 Tudo esteve Itapuã

 Itapuã, tuas luas cheias, tuas casas feias
 Viram tudo, tudo, o inteiro de nós
 Itapuã, tuas lamas algas, almas que amalgamas
 Guardam todo, todo, o cheiro de nós
 Abaeté, essa areia branca, ninguém nos arranca
 É o que em Deus nos fiz
 Nada estanca Itapuã
 Ainda sou feliz

 Itapuã, quando tu me faltas, tuas palmas altas
 Mandam um vento a mim, assim: Caymmi
 Itapuã, o teu sol me queima e o meu verso teima
 Em cantar teu nome, teu nome sem fim
 Abaeté, tudo meu e dela
 A lagoa bela, sabe, cala e diz
 Eu cantar-te nos constela em ti
 E eu sou feliz

 Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem 
Recorte de edições online de “ex-cultura”

“FALO DO QUE ESTAIS
A LER, SENHOR.”

“[…] O que estais a ler?”, Polônio pergunta a Hamlet (ato 2, cena 2), que diz: “Palavras, palavras, palavras”. Hoje, um Hamlet leitor dos cadernos brasileiros de ex-cultura responderia: “Fofocas, fofocas, fofocas”.

MAS O QUE É EX-CULTURA?
NÃO CUSTA VOLTAR AO PONTO

A Ju cunhou o termo “ex-cultura” para qualificar a revolução (e involução) sofrida pelo gênero de jornalismo que se entendia por “cultura”. Tal gênero valorizava as artes, a música de qualidade, os lançamentos literários e o cinema, pelo menos. O jornalismo cultural era o campo da crítica, que informava e orientava os leitores, e tivemos uma grande escola. Isso já era. A crítica foi vencida pelo algoritmo e a avaliação mediana dos usuários. O que restou como crítica se apequenou, escorraçado pelas milícias ideológicas. Os espaços dedicados à velha e empobrecida “cultura”, presentemente “ex-cultura”, perderam inteiramente o caráter, desde que começaram a refletir a moda gastronômicas que há década apaixona nossas classe médias. Passaram, demagogicamente, e, claro, desesperadamente, a tentar sobreviver, e obedecer aos imperativos do clique: o humor barato, o entretenimento fuleiro, o culto à celebridade, à fofoca e às demandas do radicalismo étnico-identitário. Esse fenômeno acometeu a imprensa em toda parte, mas é especialmente feroz no Brasil.

A ÚLTIMA SELFIE,
AINDA É TEMPO!

Anotei na Ju #24: Quando um indizível meteoro se agigantar ao se aproximar da Terra, veremos no Instagram um festival de selfies contra as chamas do astro ao fundo, até um segundo antes.

TOM JOBIM INÉDITO (E ETERNO),
AGORA TAMBÉM NO YOUTUBE

Estas gravações em estúdio, de 1987, são a plena realização de um plano ideal na carreira de Tom Jobim. Tocam um mundo perfeito e nos permite alcançá-lo. Cercado pela família e músicos agregados, como Jacques Morelenbaum e Danilo Caymmi, da Banda Nova, Tom garantiu o tempo, a paz, o conforto e a verba necessários. Os primeiros ouvintes foram sortudos destinatários de um luxuoso presente natalino da Odebrecht, patrocinadora do projeto. Quem não tem a caixa Tom Jobim Inédito (1995) com os seus dois CDs e livreto de letras, fotos e ilustrações, e já há algum tempo dispunha dos 24 fonogramas no streaming, agora pode ouvi-los também no YouTube, sob os auspícios da Biscoito Fino.

Um mundo perfeito ao nosso alcance

«A volta de The americans, uma das melhores séries da década. Por Patrícia Kogut, em O Globo. Alvíssaras. A série é uma das preferidas desta Ju

«Paulinho da Viola volta com álbum ao vivo gravado há 14 anos, e faz novos choros. Por Sérgio Essinger, no Globo

«124- Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Dori Caymmi e Teco Cardoso Correnteza»

«Como o New York Times ajudou a ocultar os assassinatos em massa de Stálin na Ucrânia. Por Izabella Tabarovsky, no Tablet.»

«Um presidente relembra sua luta mais dura. Excerto exclusivo do livro de Barack Obama A Promised Land, que logo estará nas livrarias. É o primeiro volume de suas memórias na presidência dos EUA. Na The New Yorker

«Em defesa do CD. Por Diego A. Manrique, no El País

«A voz de um cantador: ‘20 Super Sucessos’ de Zé Ramalho. A coletânea do artista é comentada, com vídeos, no site do IMMuB (Instituto Memória Musical Brasileira).»

«No mesmo IMMuB, Leonardo Malcher comenta a parceria entre Chico Anysio e Arnaud Rodrigues em discos e no programa Chico City: Quando o humor é coisa muito séria

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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