E o lugar da fala dos pipoqueiros?

Jurupoca_48. Belo. 20 a 26/11/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sei lá, meu bem, entende, eu te pedi para não dar ouvidos à maldade alheia, mas creia: sua incompreensão já é demais! Sim, amizade virtual: quantos idiotas vivem só sem ter ninguém nas redes sociais, essa gente tão incapaz de ser feliz. No fim das contas, sua estupidez não lhe deixa ver meus mi piaces, likes, j’aimes, gefält mir, nada de nada.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Reabilitação provisória

A chuva que cai à noite, a luz no ar limpo da manhã, o grito festivo do porteiro com o colega na troca de turno, a buzinada no sinal aberto, o sabiá que vocaliza, o bem-te-vi que se anuncia, tudo isso, depois do café e do Biotônico Fontoura, dá à alma aaaqueeela reabilitação provisória.

Nossos comerciais, por favor!

Se o Biotônico lhe desarranjar, tome Elixir Paregórico para segurar, se não, pode apostar: Regulador Xavier 1 e 2 é pá-ti-pum! Agora, não desaparecendo os sintomas, consulte o doutor Acir Antão. No ar desde os tempos de Guglielmo Marconi, ele prescreve o fino da farmacopeia natural nas ondas da Rádio Itatiaia. (*Patrocinado: ajude a Ju a conjuminar*.)

O que é isso, companheiro Estadão?

Minas dos Matos Gerais se renova. Está mais verde, próspera e segura contra desastres ambientais. Nunca mais enterros coletivos de vivos. Minas está pronta para encarar os desafios do futuro com uma mineração, mais que sustentável, embelezadora. A mãe natureza gargalha de felicidade. É mais ou menos o que se lê nas entrelinhas da notícia arriba, recortada da primeira página do sesquicentenário diário paulistano, colocada pela melhor assessoria de imprensa.

Minas ressurreta

Para quem não sabia, de não ver os intervalos do JN, além da revolução verde, a retomada renovadora das Gerais vai redimir o estado de seu passado cheio de pecados, a arder nas chamas de satã. Aguarda-se para qualquer momento a revivência de Fernão Dias, Tiradentes, Ângela Diniz, dona Olímpia de Ouro Preto, dona Tiburtina de Montes Claros e da Loira do Bonfim. Uma profecia de Fernando Gabeira, feita há 40 ou 50 anos, logo depois do crepúsculo do macho, está prestes a pipocar.

O lugar da fala

Você conhece um escritor que tenha algo a dizer? Claro que não. Agora todos os entrevistados, todas as fontes, são infectologistas, professores de relações internacionais, cientistas políticos, analistas de mercado, consultores de imóveis, desenvolvedores, designers, influenciadores, youtubers, todos Anitta, Obama & Bial, Caetano & Jones Manoel, Gil and Sons, Caetano and Sons e militantes campeões do Insta e do Face. Nenhum pipoqueiro, poeta, dramaturgo ou arquiteto nem a Carla Camurati têm mais o que dizer na televisão ou nos jornais. Perdemos, os pipoqueiros, o lugar da fala.

Como há 500 anos

Como há 500 anos, quando o trovador Sá de Miranda consigo se desaveio, e posto todo em perigo não podia viver consigo nem de si fugir, a Ju, agora mesmo, tem ponteado para quem meia palavra bas que de si se extraiu, extraviou, e perigosamente pôs-se a perguntar: “Que cabo espero ou que fim/ Deste cuidado que sigo,/ Pois trago a mim comigo/ Tamanho imigo de mim?”.

Dissolvido

O bruxo sem qualidades se dissolveu no próprio ácido. Ah, cuá, ela me disse. Dê descarga, hombre.

Ironia

A ironia per si terá se tornado tóxica, por ininteligível aos menores de 50 anos iletrados?

Nosso “generalíssimo” honorário

A Espanha viveu quase 40 anos sob a bunda beata e nacionalista do “Generalíssimo” Franco. O garrote era aplicado a torto e a direito pela pátria e família em nome de Deus, Nossa Senhora e toda Santa Igreja. A virgem, a de Loreto, aliás, é a eterna padroeira da força aérea espanhola. Ainda não chegamos lá. Não temos um caudilho “generalíssimo”, ai de nós. Mas tá bom, não reclame. Contamos — é pau para toda obra — com um Jumentíssimo, que não é ditador. Elegeu-se pelo povo no Carnaval da Democracia de 2018. Não é um Franco, mas, sim, um virtuose da franqueza. Trata-se de vantagem adaptativa e competitiva que evoluiu num período que vai do Homo neanderthalensis ao Homo facebookensis.

A luta do Jumentíssimo franco contra Zé Gotinha

Jumentíssimo franco juntou cangaceiros hackers da Nova Zelândia, olavistas desmatadores do Pará e milicianos da Zona Oeste armados com AR-15 para acabar com a raça do Zé Gotinha, símbolo de um país de baitolas. As batalhas são transmitidas diariamente pelo Face. Você também pode acompanhar as pelejas pelo Twitter e pelo Insta, além da rádio ITA-TI-AI-A.

 Té’rrupiei, nu

É preciso que os pauteiros descubram o tipo “miserável que achou uma maleta cheia de euros na rua e devolveu ao dono” para amolecer nossos corações e fecalomas. Telejornais, Insta, Face e a Itatiaia, um rio só de lágrimas. Não temos políticos e corruptos e matas esturricadas apenas. Devemos nos ufanar da nossa raça de desvalidos que encontram dinheiro no chão e devolvem tudo, para se salvar com 15 minutos de fama, para nos salvar, para viralizar, para ibopar.

Caveirão e a filosofia analítica

Compadre Quinquim planeja ir ao cercadinho do Planalto encontrar Caveirão Jumentíssimo. Vai de terno bananeiro cortado em Londres, como os do dono da Havan, saldar o presidente, megafone em riste: “Bom dia, presidente salve, salve excelentíssimo Messias”, Quinquim vai falar e depois  vai perguntar ao capitão: “Conhece o Wittgenstein, o Glauber, o Darcy Ribeiro, o Milton Hatoum, o Kierkegaard, a Hannah Arendt, presidente?”. “O que foi que você disse, seu veado?”, ouvirá em resposta. Mas Quinquim não se deixará intimidar. “Escuta aqui, ó, prest’enção presidente: 1) O mundo é tudo que é o caso; 2) O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas; 3) A figuração lógica dos fatos é o pensamento; 4) O pensamento é a proposição com sentido; 5) A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma.); 6) A forma geral da função de verdade é

Isso é a forma geral da proposição; 7) Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

E isso daí, tá ligado, presidente?”.

O forno pela hora da morte

Tô terminando a prestação do meu buraco,
do meu lugar no cemitério pra não me preocupar
de não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem posso morrer,
já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Nem sonhe em ser cremado, o forno está pela hora da morte. Mas que bom que já tenho um gavetão, já tenho um gavetão, já tenho um gavetão.

Robert Frost: Fogo e gelo

De um programa da Cultura FM (RadioMetrópolis), apresentado pelo jornalista Fabio Malavoglia:

“Entre os mais conhecidos versos do poeta americano Robert Frost estão aqueles que compõem o poema Fire and Ice, isto é, Fogo e Gelo. Nesta obra Frost retrata aqueles que têm o hábito de predizer como acontecerá o fim do mundo. O poeta observa e comenta duas posturas opostas na aparência mas semelhantes no fundo pois, de uma forma ou outra, são pessoas que oscilam entre as labaredas da violência e as geleiras da indiferença. Tanto faz: umas e outras são fatais para o mundo, palavra que pode ser entendida como sinônimo para ‘o homem’.”

FIRE AND ICE – Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO – Tradução de Fabio Malavoglia

Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Por quanto saboreio nos meus rogos
Apoio os que são a favor do fogo.
Mas se ser morto em dobro for meu selo
Creio do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.

Pesquei na rede esta outra versão.

FOGO E GELO – Tradução Guilherme Gontijo Flores

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

Como ambas são meio mancas, arrisco outra, e seja o que deus quiser:

FOGO E GELO

Há quem diga que tudo acaba em fogo,
E há quem fale em gelo.
Do que experimentei do desejo
Apoio quem advogue pelo fogo.
Mas se eu tiver de morrer de novo
Alguma coisa sei sobre o ódio
Para afirmar que o gelo faz sentido:
No fim dá bem para o gasto,
Repetido.

Raimundo Fagner e os herdeiros de Cecília Meireles se desavieram sobre os direitos de Canteiros, poema musicado por Magrinho, como Belchior chamava seu parceiro em Mucuripe (ver entrevista com Marcelo Tas no P.S.).

Canteiros é faixa B2 de Manera Frufru manera (LP de 1973), depois substituída pela gravadora Philips por Cavalo ferro.

Pelo bem geral de todos que não seríamos os mesmos sem a MPB, Fagner e a família de Cecília devem ter feito pazes advocatícias, pois no final da mesma década nosso cantautor de Orós voltou à obra da poeta com Motivo, faixa B2 do LP Quem viver chorará (Eu canto), de 1978, que tem esta dedicatória:

“Ao seu Fares e dona Francisca, com todo amor que tenho, e terei, quem viver chorará, Raimundo Fagner, Rio 29.08.78”.

A melodia do poema é transcriada numa sonoridade que ecoa o canto gitano, o fado, a seresta e o choro. Uma união feliz e duradoura em música e poesia.

Raimundão convidou Amelinha para uns vocalises que encarnam o penetrante colorido das cordas no arranjo: violão Ovation (Fagner), violão 7 cordas (Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas) e cavaquinho (Manassés), mais nada.

A contracapa do LP de 1978
MOTIVO – Cecília Meireles, poema de Viagem, 1939

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

O dicionário atrofiado

Manjou como o português está resumido nos corretores algorítmicos de texto? Podaram na boa uns dois terços do Houaiss. Tudo a ver com o patoá digital e o inglês do marketing, aliás, tudo a ver com o espírito, isto é, o fantasma da época.

«O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro. Por Yara Frateschi, no El País Brasil.»

«Ficou bom pacas este Provoca, na TV Cultura, com Marcelo Tas entrevistando Fagner.»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. É do balacobaco. Somos introduzidos na fantástica coleção de violões do cantautor, que nos explica como e quando usa cada instrumento, seus timbres, madeiras e sonorizações de palcos. No segundo episódio, fala das afinações que utiliza, como chegou a elas e de sua importância nas composições.

João também toca e canta, para nossa sorte.»

«Joyce Morenoao vivo no Blue Note Tokyo (2008). Imperdível. Todo o suingue, charme e categoria desta artista está neste show, refrescando a bossa nova para os japoneses no aniversário do movimento.»

«Muito Prazer, Meu Primeiro Disco – Chico Buarque de Hollanda. O projeto do Sesc Pinheiros é idealizado pelo jornalista e escritor Lucas Nobile, com curadoria dele e de Zuza Homem de Mello. Vem à baila depois da morte de Zuza, no último dia 4, aos 87 anos. O entrevistado do episódio de estreia é Gilberto Gil. Mas essa conversa com Chico sobre seu primeiro LP, de1966, é rara e preciosa, como a própria participação de Zuza. É deliciosa a passagem em que Chico conta como aprendeu a compor com Tom Jobim

«Zuza Homem de Mello, curta-metragem de Jorge Bodanzky lançado em 2015 está na plataforma deste o início do mês. É ótimo. Zuza exibe em casa sua coleção de discos e fala de sua formação como jornalista musical quando estudava nos EUA.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

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