Melodia sentimental para um amigo na pior

Jurupoca_54. 15 a 21/1/2021. Ano 2.

Lua: “Tão linda que só espalha sofrimento/ Tão cheia de pudor que anda nua”. Fotos (créditos, acima e no alto da página): Domínio público/Pxhere/Creative Commons

SONETO DO CORIFEU – Vinicius de Moraes

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Soneto do Corifeu, Vinicius de Moraes, Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sim, sou um sentimental, caranguejeiro, mas sou.

Buscava qualquer espécie de boia, lenitivo, depois de falar com um grande amigo entristecido, na pior.

Se dois bicudos não se beijam, dois deprimidos, ainda que ocasionais, são um risco geológico.

Isolados e distantes, nem tomar um porre juntos mais podemos, para mandar tudo às favas, ainda que haja uma espécie de tristeza refratária ao álcool.

Meu velho amigo anda de farol baixo há vários meses, o que faz dele (alguém naturalmente expansivo, até onde alguém do interior de Minas pode ser, e dado à risada e à amizade), um ser encabulado.

Nunca me falou isso, mas é desses que acham que depressão é para os fracos.

É certo que sempre foi uma rocha. Sofreu perdas horríveis e enfrenta uma condição complicada com bravura. Mas ninguém é uma rocha. Nem areia, rocha degradada, somos. Ou pergunte ao pó.

O vírus, por certo, não ajuda.

Mas e a boia de salvação? Não há.

Como sempre, quem procura pode achar alguma consolação transcendente, já que amizade é luxo contingente.

E não há outra fonte de consolação mais fiel que a música.

Logo reencontrei a Melodia sentimental de Heitor Villa-Lobos, peça da cantata A Floresta do Amazonas, letrada pela poeta e embaixatriz Dora Vasconcellos.

Villa-Lobos trabalhou na suíte depois de ver que sua música para o filme Green Mansions, de 1950 (dirigido por Mel Ferrer e estrelado por Audrey Hepburn), fora malbaratada pelo polonês Bronislaw Kaper.

Ele deu a volta por cima. A Floresta está entre as últimas obras primas que escreveu.

Melodia sentimental tem dezenas de lindas versões: orquestrais, instrumentais, líricas, populares.

A MPB coleciona registros esplêndidos de Elizeth Cardoso, em disco de 1967, Maria Bethânia, Mônica Salmaso, Zizi Possi, Paula Morelenbaum, Ney Matogrosso, Olivia Byington etc. Há 43 fonogramas registrados no site do IMMub.

Aqui, como em tantas outras peças, Villa é o mago das melodias que salvam ou por instantes reparam nossa humanidade cindida.

À música aglutinou-se a poesia de Dora Vasconcellos numa peça esférica, de lancinante profundidade melódica.

A gravação na potente voz de Elizeth — com acompanhamento sinfônico e todos os vibratos a que tínhamos direito — a de Djavan, que ouvimos na belíssima cena final de Deus é brasileiro, o bom filme de Cacá Diegues — e a de João Bosco — faixa do álbum Da licença meu senhor (1995), com um arranjo soberano de sua autoria, apenas com seu violão e os de Marco Pereira, incluindo um de oito cordas — são as minhas favoritas, entre aquelas que pude ouvir.

Mas agrego nessa eleição o álbum A floresta do Amazonas (Kuarup, 1987, remasterizado em 2020), de Jaques Morelenbaum, Wagner Tiso, João Carlos Assis Brasil, Jurim Moreira e Ney Matogrosso (a Melodia está na Suíte I faixa 11).

Aí vão, com a letra de Dora, dedicadas ao meu amigo entristecido e à nossa amizade à beira de completar meio século.

Aliás, meu velho, essa Ju é pra você. Aguente firme.

E vamos juntos!

MELODIA SENTIMENTAL

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que fulge tão bela e branca
Derramando doçura

Clara chama silente
Ardendo meu sonhar

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera

Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir seu amor é sonhar

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Lua e luar. Foto (crédito): Domínio Público/Pxhere/Creative Commons

Aberração na sala

A Presidência ocupada por Sua Excrescência Jumentíssima é uma aberração. Enquanto seu amado molde cor de burro fugido toma o segundo processo de impeachment nos EUA, nosso Congresso segue a normalizar sua cópia fajuta — e ainda mais danosa que o original. O país tem uma aberração dentro da sala, mas o pragmatismo parlamentário não a vê. Pois veremos até onde e quando.

A mensagem do meio

Pós-verdade é pré-fascismo, diz o historiador Timothy Snyder no melhor artigo que li sobre o Putsch de Washington (O abismo americano, em inglês no New York Times). Snyder lembra que não pode existir sociedade civil sem concordância sobre fatos básicos, e que a verdade se defende realmente mal sob artilharia pesada. Trump e governantes como Putin surfam numa era de decadência do jornalismo. “As redes sociais não substituem” o jornalismo, diz o acadêmico. As redes “sobrecarregam os hábitos mentais por meio dos quais buscamos estímulo e conforto emocional, o que significa perder a distinção entre o que se sente como verdadeiro e o que é realmente verdadeiro”. Como diria aquele policial de Agosto, o romance de Rubem Fonseca, aí está o busílis. Mesmo numa democracia como a norte-americana, tida e havida como a mais sólida e funcional da Terra, alguém da laia de Donald Trump consegue quase 80 milhões de votos sustentado por ficções grosseiras e pensamento mágico.

Piscadela de Barthes

A linguagem de Trump (e a de Caveirão.105mm é ainda pior) é brutal, inculta e incompreensível fora do botequim. Como seu aplicado discípulo dos trópicos,  é impiedoso ao espancar o idioma e dependente das redes sociais para falar à plebe. O professor da USP Elias Thomé Saliba comentou no Estadão A língua de Trump, livro da linguista e tradutora francesa Bérengère Viennot, uma análise minuciosa de centenas de discursos e tuítes do Espantalho Laranja. Seu vocabulário primário e raso e uma sintaxe truncada, recheada de repetições vomitórias, emojis e expletivos como “wow”, “sad”, “great” são o horror dos tradutores. As falas brucutus soam incompletas ou sem sentido para quem se educou no idioma culto. Como Caveirão.105mm, Trump rebaixou ao lupanar todos os padrões da linguagem pública, tal como, diz Saliba, o universo moral da comunicação política. Saliba imagina Roland Barthes — que comparou o discurso que abole o referente, ou contexto, ao discurso esquizofrênico, num ensaio muito anterior à internet —a nos lançar uma piscadela do túmulo.

Banido do eldorado

 “O Twitter é algo maravilhoso para mim, porque consigo transmitir a mensagem… talvez eu não estivesse aqui conversando com você como presidente se eu não tivesse uma maneira honesta de comunicar a minha mensagem”, disse Trump, em março de 2017, num raro arroubo de sinceridade. Caveirão.105mm poderia assinar embaixo, incluindo as outras redes. Trump deve ter sentido o golpe ao ser banido do Twitter. Bem, veio tarde, como o banimento do Caveirão virá tarde. As redes sociais não são a nova esfera pública da democracia, são oligopólios trilionários a viver de expansão e lucro. Enquanto não forem quebradas ou enquadradas pelo estado, muita patacoada se dirá sobre liberdade de expressão e os desatinos do debate público na democracia.

Elites e ralé

Hannah Arendt, em As origens do totalitarismo, descreve a aliança entre elite e a ralé (o refugo da burguesia), a escória social. Lembra o que vemos hoje, quando o populismo de direita deita e rola na tecnologia para galgar o poder, e a esquerda ultraprogressista atua como árbitra do galinheiro. Arendt é fabulosa. Por sinal, seu livro é obrigatório, hoje, para entendermos o que está em jogo. “O que as massas [o conjunto dos indivíduos atomizados] se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita”, ela escreve (à página 458). “Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso.” A realidade paralela do negacionismo e da pós-verdade se dá no mesmo plano. O demagogo sabe perfeitamente com quem fala.

A produtividade de “Nosso Kassio”

O mais novo ministro do STF, Kassio Nunes Marques, para sempre “Nosso Kassio”, impressiona a ralé por seu saber jurídico e relativa independência. Relativa pois, pois. A autonomia do magistrado excetua toda e qualquer interesse bolsonarista. Decoroso, escrupuloso, confiável, irrepreensível, fiel, “Nosso Kassio” tem recebido seguidas congratulações de quem o indicou e realizou seu desejo mais profundo. E mais uma vez, sua excrescência jumentíssima parabenizou seu garantista de algibeira ao ver concedida liminar liberando a pesca predatória no Rio Grande do Sul, como mostrou reportagem da Piauí.  

Fran e Marty

Fran Lebowitz é incrivelmente inteligente e engraçada. E sua nova parceria com Martin Scorsese, a série documental Faz de conta que NY é uma cidade, o que de melhor surgiu no Netflix nos últimos tempos. A arte e amizade de Scorsese servem de escada para o brilho da escritora, comediante e atriz eventual, hoje aos 70 anos. Judia, homossexual, autodidata expulsa do colégio, ex-motorista de táxi, que figura é Lebowitz! Seu tipo de humor e atitudes só podem existir numa cultura livresca como a nova-iorquina, ao menos no legado de sua era gloriosa. Os sete episódios curtos de Faz de conta… lembram muito a íntima relação com a cidade que vemos nos filmes de Woody Allen, de quem, aliás, ninguém dá mais notícia. O melhor são os comentários de Fran sobre livros, arte, cultura. Ela foi chegada de Charles Mingus, e narra passagens deliciosas sobre seu círculo jazzístico. Mingus era de uma arrogância fabulosa, ela diz, e apenas se curvava e se calava diante de Duke Ellington. Fina ironista, Lebowitz caçoa das fantasias atuais sobre bem-estar, leveza, saúde, dinheiro e vida eterna dos rapazes do Vale do Silício. Boa atriz, representa a si mesma, uma senhora elegante a andar anonimamente por ruas de Nova York, com seus movimentos captados num excepcional trabalho de câmara. Sua expressão diante de umas moças em malha puxando grandes pneus no meio do burburinho da cidade, como condenadas de um Gulag, é indescritível.

Construção cinquentona

Deus lhe pague e Construção, com arranjos sinfônicos de Rogério Duprat, são a alma do álbum lançado em novembro de 1971, mas que já se começa a celebrar. Essas duas faixas, potentes respiradouros num país então sob as botas dos generais, não roubam completamente a cena. Construção (lançado pela Philips, dirigida no Brasil por André Midani, responsável pela contratação de Chico Buarque, com Roberto Menescal na direção artística) é um disco de sólida integridade em sua pouco mais de meia hora que parece guardar muito mais tempo, um prodígio do formato LP, quando era bem explorado. Magro, o músico do MPB-4, apelido artístico de Antônio José Waghabi Filho, morto em 2012, zelou pela direção artística e arranjou algumas faixas. Ouvimos Jobim ao piano abrir energicamente Olha, Maria, ele autor da melodia letrada por Chico. Cotidiano, a segunda faixa do lado A, tornou-se algo como um épico urbano antes de Belchior. Valsinha (Chico e Vinícius de Moraes) traz uma pitada sensual às faixas propriamente líricas, com Cordão, Desalento e Acalanto, que cantei muito para ninar meu milho. Samba de Orly (com Vinicius e Toquinho) e Minha história, versão em português feita por Chico do italiano Gesù bambino, canção de Lucio Dalla e Paola Pallottino agregam outros registro ao variado clima emocional de Construção, marco temporal luminoso na história da MPB.

Bangue-bangue

O prazer de reencontrar o western. Nem é preciso rever um clássico como Matar ou morrer ou O homem que matou o facínora. Um faroeste classe c como O vale da vingança (1951), que encontro no péssimo Looke, dirigido por Richard Thorpe, com Burt Lancaster como herói, já nos dá um gosto da grandiosa dimensão desse gênero mitológico. Quem tem menos de 50 anos dificilmente entenderá a força do imaginário de um bangue-bangue. Em essência, são narrativas de excelência que resgatam a conquista destrutiva do oeste e o rastro sanguinário no caminho da civilização. A maravilha inóspita da natureza é o palco de dramas shakespearianos inesquecíveis. E o caráter masculino à prova nesse elemento selvagem, a matéria prima dos conflitos. Sua riqueza criativa é impressionante. De John Ford a Sérgio Leone, passando por Fred Zinnemann ou Sam Peckinpah, quanto deleite para um cinéfilo! O prazer de reencontrar o western é o prazer do grande cinema.

Enquanto isso, no ex-caderno…

O jornalista mais experiente da ilustrada terá 23 anos completos? Para essa geração, o que não é sucesso nas redes sociais não existe. O pensamento social é o que celebridades postam e a obediência cega à correção política e à bula da “diversidade”. A criação artística não tem espaço entre a atualização de aplicativos e horas dedicadas ao corpo e gadgets. Que na Barão de Limeira ainda acreditem que esteja aí o futuro da empresa e do jornalismo na internet, para mim, e para quem lê os melhores jornais do mundo, é um baita mistério.

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