Memento mori ao revés: lembre-se de que viveu

Jurupoca_56. 29/1 a 4/2/2021. Ano 2.

“Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava – cré que o caroá levanta flor. Eh, bom meu pasto… Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.”      

João  Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

“A vida que esvai distraída, entre os dedos da hora, tirando da mão até a memória do tato dos meus idos. Só persistimos, se tanto, na usura da memória alheia, à véspera do longo esquecimento.”

Darcy Ribeiro – Maíra

“Longe, longe, ouço essa voz/ Que o tempo não levará.”

Milton Nascimento e Fernando Brant — Sentinela

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

As epígrafes acima são do capítulo final de um manuscrito encalhado, a que dei o nome de Meu boi morreu.

Na travessia dos 40 anos cedi à tentação (e à necessidade) de recuperar um tempo que me picava, por começar a decair na memória ativa, como uma mosca vai sendo engolida pelo âmbar, antes de virar relíquia pré-histórica.

Nesse prurido do tempo se debatia uma outra travessia: o parto longo e doído do crescimento, da adolescência para o mundo adulto.

Abreviei esse parto ao narrar a passagem de um derradeiro Carnaval (ou pré-carnaval) para Quarta-feira de Cinzas, o equivalente à transição do desregramento à abstenção, ou ao resgate das promissórias que, jovens, emitimos contra nós próprios.

Primeiro saíram umas crônicas no jornal O Tempo, depois o manuscrito frustrado. Nele, conto a odisseia foliã de um rapaz comum.

Durante um desfile do Boi da Manta — festa pré-carnavalesca de uma cidade que reinventei como Nossa Senhora de Primavera, mas pode chamar de Pedro Leopoldo,— tento reencontrar a disponibilidade, o calor e a excitação sem margens de alguns amigos no último baile de suas fantasias, ainda ilhados por grandes premissas (imposições) hormonais.

O desfile começa antes, no aquecimento das turmas no quintal das casas, ora de um ora de outro camarada.

É hora de abrir a função etílica, vestir velhos trajes de baile das irmãs, borrar o rosto com maquiagem e, pouco antes de sair à rua, aderir ao cordão das oncinhas e gatinhas mascaradas e alvoroçadas, já à porta. Quem é quem, quem é de quem?

Então seguia-se a reunião do cortejo na concentração. Logo a brincadeira ganhava a rua principal de Primavera e íamos atrás da banda; depois do retorno tinha o gran finale: a representação do “enterro” do Boi, que amanhã era Carnaval!

O manuscrito interrompe os atos dessa via sacra profana, como um Rimbaud da roça, para revisitar (pela última vez) iluminações e temporadas no inferno do autor em Primavera, na tentativa de fixar, na despedida da adolescência, a gente cúmplice do melhor da festa, ou da liberdade da vida na festa que compartimos. (Essa cumplicidade, para quem tem a sorte de conservar amigos, nos ajuda muito a envelhecer.)

Não acho ruim, ao reler o texto agora, um trechinho do final dessa história, o epílogo das epígrafes, intitulado “Desce o pano (cena solta)”, inspirado na foto do alto:

“Então o Boi, meu bem, jamais. O sol da tarde fazia cintilar o rol de garrafas vazias ordenadas e expostas como troféu contra o muro do quintal, ali na concentração, onde o Almirante inda outro dia nos preparava caipiríssimas como só as dele. Memento mori ao revés: lembra-te de que viveu.”

Bom, outra passagem que me acode dessa odisseia provinciana, e que na verdade me foi lembrar o livro natimorto, é uma revelação com cor, cheiro, gosto e potência, uma revelação — ou o que em crítica literária chama-se “epifania” (fenômeno que ocorre, diz George Steiner,  quando ‘o objeto se manifesta e se impõe ao observador’) — trazida em um sábado: um sábado-madalena proustiana.

“O sábado se abria pleno na tarde enlanguescida e cantava dentro de mim”, releio, “quando recebia no rosto a familiar brisa rósea, por carregar o capim dessa cor, a soprar dos altos da colina e da linha férrea, como que para rematar a conjunção que tornava Primavera, aquele dia no tempo, um lugar incomparavelmente bom de se viver.”

Sabemos que os sábados da adolescência jamais se repetirão na repartição e nos escaninhos do tempo.

Manhãs e tardes de sábado ainda guardavam certa sensação de eternidade, um eco de fundo da força gravitacional da infância, uma esperança difusa e sensual que nos tange como bichos que somos.

Meu personagem levava esse anseio ao chegar de bicicleta à casa do irmão, e logo se ver sozinho em sua sala ampla, com uma acústica fabulosa, dádiva de sua construção rústica,  da tapeçaria e de velhas madeiras resinadas.

Na sala havia um aparelho de som novinho da marca Sony, com boas caixas e amplificação. Sucedeu de o primo Egon (nome que emprestei do primo de Pedro Nava nas Memórias), ligar o aparelho na função rádio, achar a Mineira, ou talvez já a Inconfidência FM no dial analógico e deixa estar.

Então ele ouve a música que vai ocupar toda a sala e, mais que a sala, o próprio universo ao redor; a canção vai soar ali, apenas ali naquele instante, como a “profecia de uns graves coados no véu da musa Euterpe, a ‘doadora de prazeres’. Havia uma energia fabulosa naquele canto negro, uma força capaz de modular o tecido da existência, dotando-a de sentido e substância.”

A geração de Chico, Caetano, Edu Lobo etc. aponta o violão e o canto de João Gilberto em Chega de Saudade como o clique decisivo que fez de cada um o artista que cada um veio a ser.

Não me tornei artista, talvez poeta bissexto, mas nasceu ali, por certo, ou ali se aprofundou, naquela tarde de sábado nos anos 1970, minha afeição e meu amor por nossa dita música popular, ao menos a música popular (hoje impopular, mas o que digo, música erudita?, elitista?) que havia naquela época, e sua dádiva consoladora: graças a Milton Nascimento, sua voz, seu violão e esta canção: Morro velho (composição de 1967 classificada em sétimo lugar no II Festival Internacional da Canção, sucesso de Travessia, seu primeiro disco).

no sertão da minha terra… fazenda é o camarada que ao chão se deu… fez a obrigação com força… parece até que tudo aquilo é seu…

As versões do próprio Milton e Elis (álbum da Philips Elis, de 1977) são canônicas.

Ponho ambas aqui para relembrar aquele sábado “milagroso” e sua revelação; relembrar meu manuscrito e “A Turma”, a quem é dedicado); relembrar o moço para sempre engolfado no âmbar do tempo, como um inseto primevo, ainda que, mesmo em tal estado, persista na memória de seus comparsas, no dizer de Darcy, até a “véspera do grande esquecimento”.


O autor da Ju e seus camaradas clicados no aquecimento, antes de nossa entrada triunfal no desfile do Boi do Manta

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Eh, Meu boi

…Homens ficaram no chão/ olhando as estrelas/ mas sem poder vê-las/ no céu brilhar…

Meu boi morreu é uma narrativa sarapintada de música. Há tardes com amigos para ouvir o último Genesis ou Pink Floyd, muito samba, marchinhas e canções brasileiras como No colo da serra, de Toquinho e Vinicius, cujos versos ilustram um dos escritos do livro manqué. Falei nos sábados e penso que era capaz de escrever mais sobre as várias feições dessa estação na semana. (Pus algo no Moral das horas, inclusive no poema que nomeia o livro e termina em Tarde de sábado,/ de sol, de não, de louvor.// Entrementes, a amizade/ era massa de júbilo  a assar/ numa roda de Brahma,/ em qualquer lugar.) O passeio de sábado no camelão tinha um sabor bem temperado, quase musical, havia uma quebra na rotina familiar, e tarefas como lavar o fusquinha do irmão para defender o cigarro e a cerveja, e havia um olhar e um cheiro de moça que não saíam da gente, memória e antevisão. E havia a missa, por certo. A gandaia começava depois da bênção do padre, … ide em paz e o Senhor vos acompanha…, desde a saída da matriz. O Altíssimo de fato nos seguia (e protegia) em copos-sujos, clubes periféricos (como esquecer o baile de Rainha do Alho, em Prudente de Morais?) e liceus, liceu como sinônimo (mineiro, segundo o Houaiss) de lupanar, baiuca, serralho e bordel. (Nossa geração prestigiava, eventualmente, Lolote e Lourdinha, casas de excelência no ramo, naquele tempo imemorial.)


Sonhos envelhecem sim

Sonhos não envelhecem? Os ainda moços Bituca, Lô e  Márcio Borges fizeram a linda Clube da Esquina II. A letra, que veio depois da música e do disco de 1972, deu um mote a essas turma, e o título das memórias de Marcio. Mas sonhos envelhecem sim. Claudicam, definham, murcham e croack. Vão antes de quem sonhou. Nossas carcaças sobrevivem a eles, quando somos pouco mais que isso, carcaças.


Com Greene no Haiti

“Preferiria ter sangue em minhas mãos a ter água, como Pilatos”, escreve o doutor Magiot, o heroico médico comunista de Os farsantes, romance de Graham Greene, traduzido antes no Brasil, e creio que mais apropriadamente, como Os comediantes. O livro é o melhor retrato que conheço do Haiti sob Papa Doc Duvalier e sua milícia sanguinária Tonton Macoute. Naquela “horrível favela flutuante a poucas milhas da Flórida”, como define Magiot, apenas a indiferença é imperdoável perante a crueldade institucional. Mas Greene, como sempre, ao espremer a moralidade católica e militante do comunista, diante do crime e da injustiça (ele próprio se definia como um “católico agnóstico”), expõe o limite e o absurdo de crenças e práxis. Seu narrador, Brown, fala em causa própria ao defender os falsários (ou comediantes), os indiferente sem causa, sobre candidatos a heróis tutelados por Marx ou Jesus Cristo:  “… por timidez ou por falta de interesse suficiente, descobrimos que somos os únicos realmente comprometidos — comprometidos com todo o mundo de maldade e bondade, com os sábios e os loucos, com os indiferentes e os equivocados”, lemos pelas tantas, antes da conclusão desse parágrafo, que cita Wordsworth: “Não escolhemos nada a não ser continuar vivendo, ‘girando no curso diurno da Terra. Com rochas e pedras e árvores’.” Mas a comédia humana de quem se aventura na Terra de Papa Doc também é carnal. Brown padece de ciúme da amante, talvez por ver na esposa do embaixador a figura da mãe que o abandonara ainda menino, a quem nunca pode amar. O rum, mas principalmente o sexo, tornam sua existência suportável naquele inferno.

Graham Greene (1904-1991) em 1939. Foto Wikimedia Commons (domínio público)


Homenagem a Elza

Elza Soares fez 90 anos em 2020. A revista da União Brasileira dos Compositores publica em seu número de fevereiro textos de Chico Buarque e Caetano Veloso em homenagem à artista. Ambos tem grande relevo na vida de Elza. Chico e família a acolheram em Roma, no final de dos anos 1960, quando a massacravam por aqui por ser amante de Garrincha, e Caetano deu-lhe o ombro para chorar e a fez renascer como cantora, quando a chamou pra gravar sua paradigmática Língua. O Globo adiantou os artigos. O de Chico, especialmente, é do balacobaco, uma série de instantâneos de Elza em várias épocas com parágrafos introduzidos por Se acaso você chegasse, nome do samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, um dos primeiros e maiores sucessos da hoje nonagenária, gravado em 1960. Vai uma pitada:

“Se acaso você chegasse ao Teatro Record em 1968 e fosse apresentado a Elza Soares, ficaria mudo. E ficaria besta quando ela soltasse uma gargalhada e cantasse assim: ‘Elza desatinou, viu’.”


Ela e eu

Essa é uma de tantas canções de Caetano (gravada primeiro por Bethânia no LP Mel, de 1979, e mais tarde por Simone e Marina, só!) que me fazem um bem danado, pela beleza da melodia, poesia e rigor na versificação. O último verso diz assim:

Outro homem poderá banhar-se
Na luz que com essa mulher cresceu
Muito momento que nasce
Muito tempo que morreu
Mas nada é igual a ela e eu

Até onde pude verificar, Caetano a gravou pela primeira e única vez no registro do show Ofertório, dele e filhos, em 2018.



Enquanto isso, no ex-caderno
de ex-cultura…

Recorte da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

Seus problemas se acabaram. Você, progressista que odeia a Globo desde criancinha, e você, das hostes terraplanistas do Caveirão, que vive a xingar a ‘Globolixo”, já podem ver sem culpa o verdadeiro show da vida.

Recorte da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

Para fazer colunismo de rede social basta um telefone esperto, ensina Mônica Bergamo a estudantes de jornalismo.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

O menino que fez o título idiota acima deve se considerar um progressista especialista em “funk de raiz”, daí o segundo título idiota. Certamente não sabe quem é Nara Leão. Apenas cogitar que Nara já foi uma mocinha “frágil de joelho bonitinho”, em 2021!, revela uma ignorância suprema e irreversível.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (23/01)

Mais colunismo de rede social e mais uma inculta e exemplar reportagem de ex-cultura, tal gênero criado na Barão de Limeira.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (24/01)

“Veja”, “leia”, “saiba”. O caça-clique é imperativo e generoso como pau de galinheiro.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (22/01)

Retratos do Brasil no melhor ex-caderno de ex-cultura do Brasil. Não tem preço.


Sua excelência veterinária

Recorte (captura de tela) no site da revista Piauí (21/1)

O Dr. Laurício Monteiro Cruz é o homem ideal para o cargo que ocupa no Ministério do General da Banda da Saúde. Ora, doutor Cruz, cura-te a ti mesmo e aos seus. Neguvon e Ripercol para todo mundo aí, tá ok?


Leite Moça e leite de jumenta

Sua excrescência jumentíssima, Caveirão.105mm, e os seus parecem encher piscinas olímpicas com leite condensado, ou tomam porres homéricos em bacanais animadas com o produto da Nestlé, uma multinacional suíça. Se ainda fosse leite de jumenta (o Kg do seu queijo pode custar 3 mil reais, veja no vídeo), poderiam alegar que patrocinavam o agronegócio nacional, que é pop, e tudo ficaria em família, entre iguais.


Olha o nível, Caveirão: language!

Sua excrescência jumentíssima, segundo Eugenio Bucci “um atendo ambulante à Constituição”, tem o linguajar do machão violento e analfabeto a ostentar a própria ignorância, como o fedor que emana de um lixão. Esta publicação de família não vai repetir o que nosso pré-fascista disse (vai no vídeo abaixo para quem tem estômago) sobre a imprensa, reagindo ao escândalo do leite condensado, o Moçagate. Líderes autoritários ou totalitários desde Hitler abominam a imprensa. Trump (toc, toc, toc), Caveirão, Orban, o polonês Kaczyńsk são aprendizes dessa escola. “Nos nossos dias, os fascistinhas de Facebook que repetem o xingamento ‘Globolixo’ ecoam a campanha nazista baseada na palavra infamante Lügenpresse”, anota Bucci, citando a palavra alemã que pode ser traduzida como “imprensa mentirosa”. O que Bucci não diz, ou diz pisando em ovos, é que a Globo há muito é a nêmesis tanto da direita antidemocrática como da esquerda mais excitada que exalta os ditadores de Cuba. O epíteto Globolixo difrata o eco do bordão “Abaixo a Rede Globo” de décadas atrás. São iguais nessa noite antidemocrática.

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