Sustentável peso da decadência

O fenômeno de uma cultura exaurida, estática e repetitiva
pode ter vindo para durar,

afirma Ross Douthat em seu novo livro

Jurupoca_60 — 26/2 a 4/3/2021 — Ano 2

Félicien Rops: Pornokratès (1978, Museu Rops, Namur, Bélgica). Foto: domínio público (via Wikimedia Commons)

Na foto do alto: Thomas Couture: Os romanos da decadência (1847, Museu de Orsay, Paris). Foto: domínio público (via Wikimedia Commons)


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

De onde vêm o mal-estar, a indisposição, o cansaço, o enjoo pela repetição, essa sensação que anda no radar, senão na alma da sociedade ou, como prefiro, do mundo?

Quando o avanço da inteligência artificial expõe os limites do cérebro e a fragilidade do espírito humano, e a conexão universal flagra nosso vazio, talvez se possa perguntar: haverá desta vez, como há décadas se anuncia e crê, algo de novo sob o sol?

Então o mundo estará mesmo caidaço?, e mais uma vez em franca e sustentável décadence, a repetir de modo próprio a história de romanos, chineses, otomanos e outras civilizações?

Mas, e a roda-viva da internet: notícias, mercados interligados, a constância dos aplicativos, e a maravilha do celular a mediar a imediatez da vida e a corrosão das horas?

Com essa pressa toda, a Terra parece girar mais rápido, e o progresso humano a dar saltos de uma Isinbayeva a cada 10 ou 20 anos.

Ilusão, ilusão, veja as coisas como ela são, pondera Ross Douthat, a quem já volto.

Desde os anos 1970, a tecnologia avança praticamente num único vetor: o aprimoramento das comunicações, da automação e da simulação.

Por mais que a ciência nos surpreenda pronta e favoravelmente, como nas vacinas contra o Corona, as “profecias” sobre a cura do câncer e os transplantes de órgãos prêt-à-porter estão para lá da linha do horizonte.

Há décadas, a economia mundial dá de lado ou cresce pouco.

As instituições democráticas perdem seu tônus em toda parte.

As artes e cultura, de tanto se repetir, parecem esclerosadas.

E há a crise demográfica.

Os índices de natalidade dos países desenvolvidos há muito ficam aquém da taxa de reposição. Quando uma população envelhece, há menos trabalhadores, menos famílias para cuidar dos velhos, e menos jovens com cérebros frescos para impulsionar a economia e a tecnologia.

Bom, mas de onde vem toda essa conversa?

Você já ouviu falar em Ross Douthat, além de uma ou duas notas desta JU?

O colunista conservador do New York Times, que marcou posição no jornal sobre a “cultura do cancelamento”, é um estrela em ascensão.

O homem se pauta pelo equilíbrio, e pode se aproximar da centro-esquerda e da esquerda em economia, mas, como diz, seus princípios não o tornam bem-vindo nesse meio exclusivista.

Anda muito bem falado ultimamente pelo livro The Decadent Society: How We Became the Victims of Our Own Success (A sociedade decadente: como nos tornamos vítimas do nosso próprio sucesso), inédito em português.

“O título induzirá alguns leitores a esperar erroneamente pela arenga costumeira da direita que atribui todos os nossos males a uma causa, seja o Big Bang ou o esquerdismo”, escreve Mark Lilla numa resenha elogiosa no Times, ao pontuar:

“Mas Douthat é demasiado curioso sobre o mundo e suas contradições para se fixar nessa visão. Por ‘decadência’ ele se refere a uma forma de exaustão cultural do mundo em nossa época e que lhe preocupa porque, mais que prelúdio do colapso, parece sustentável.”

Quando comentou The Decadent Society, João Pereira Coutinho lembrou que os ciclos de decadência podem durar anos ou séculos. Recorreu nosso professor português ao poeta inglês W.H Auden sobre o Império Romano: é menos intrigante que Roma tenha caído do que pensar que seu declínio durou 4 séculos. Que tal 400 anos com carência de criatividade, vitalidade ou esperança.

O livro de Douthat não profetiza nenhum Armagedom. “Acho que o que distingue meu argumento de alguns outros argumentos conservadores é que ele dá uma ênfase mais forte na estagnação, deriva e repetição do que na iminente catástrofe”, disse o autor numa entrevista à revista Dissent.

Ma come?!, pressinto um atarantado leitor no gesto à italiana de juntar os dedos das mãos.

Quando pensadores respeitados, como Steven Pinker, proclamam o advento do novo iluminismo, alguém vem dizer que a cultura está estática, numa época de total dinamismo, conexão e acesso à informação, aceleração que tornou, como diz Lilla (lembrando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman) nossas sociedades mais “líquidas”?

“Tudo não passa de uma miragem. A conectividade apenas acelerou a circulação dos mesmos estereótipos culturais desgastados”, responde Lilla por Douthat, na sua crítica do livro.

Ouvido pelo diário espanhol La Vanguardia, o próprio Douthat é mais direto. A cultura digital, ele disse, “criou um mundo de torcidas e pornografia dominado por poucas empresas e marcas dominantes, que se caracteriza por uma mistura de mediocridade e paranoia. Por hora, a internet é mais enervante que inspiradora.”

A ESTAGNAÇÃO DA CULTURA

Como, você sabe, o que mais interessa a JU é justamente a cultura, apeio nesse terreno.

Ainda não pude ler o livro, mas como o tema interessa pacas ao jornal, vamos nos aproximando dele pelas margens.

À revista literária mexicana Letras Libres, Douthat põe os famigerados boomers (filhos do baby boom, a explosão de natalidade que se seguiu à 2ª Guerra Mundial) e a revolução cultural de cabeça para baixo.

A revolução parou nas primeiras barreiras (ou cassitetadas, eu diria) com surpreendente docilidade, ele argumenta. E logo que aquelas gerações do boom começaram a dar as cartas, impuseram os valores da cultura pop.

“Isso deixou os boomers no controle da cultura quase de um dia para outro, sem uma herança prévia a continuar e com a qual ajustar contas”, comenta o autor:

 “Assim lhes resta somente recriar ritualmente sua revolução, e animar seus herdeiros millennials a fazer o mesmo: derrubando estátuas que já não importam a ninguém e coisas assim”, ironiza.

Para Douthat, a atual polarização entre um populismo raivoso e incompetente e uma elite intelectual conformista e inimiga da controvérsia, cria uma situação estável, que reflete muito bem a decadência da cultura e das ideias que engolfa a sociedade.

O establishment cultural norte-americano, como também, por imitação, os progressistas brasileiros da esquerda, valorizam acima de tudo a “proteção dos sentimentos e das identidades”.

Douthat cita a respeito certo escritor californiano, James Poulos, que se refere a vigência de um “estado policial rosa”, “que limita a variedade de opiniões aceitáveis, e faz todo mundo ler o mesmo roteiro”.

O cansaço cultural é flagrante em Hollywood, aponta o autor. Ele define elegantemente a franquia Marvel como “profunda e dolorosamente sincera” — além de repetitiva.

A indústria do cinema canibalizou todo o legado de originalidade que os boomers desfrutaram na juventude (o nome de um Quentin Tarantino me sobe logo à cabeça).

À Dissent, o autor pondera que a trajetória da saga Star Wars é o exemplo acabado do que a decadência pode significar.

Os novos e péssimos filmes das “prequelas” de George Lucas não lograram apresentar nada de novo, e apenas repetem feitos de 40 anos atrás.

Tudo é circular, reciclado, roda em looping.

Composição de imagens dos novo filmes Star Wars: A reciclagem geral do sucesso expõe o esgotamento da indústria de cinema

“As canções” — conta Douthat, agora comentado J.P. Coutinho — “que fizeram sucesso revelaram um declínio no número de acordes e, até, no número de novas transições entre acordes”.

Puxando a brasa para sua sardinha, e em seus próprios termos, a JU já se tornou monótona em apontar a deriva de criatividade da música popular desde os primeiros anos 1980, a falta de fôlego do pop e sua diluição interminável, sem falar na mesmice do hip-hop, do irrespirável funk pornográfico — a indústria de batidas e hits é a imagem pronta da indústria cultural em infinita reciclagem.

O SEXO BANALIZADO

A revolução sexual e sua panóplia de intérpretes — gurus, best-sellers, especialistas e picaretas de toda sorte— gestou o império da pornografia, o tédio, a alienação dos sexos, e a esterilidade — flecha Douthat — “em vez de uma espécie de perpétua diversão dionisíaca”.

A natureza da decadência descrita por Douthat coincide nessa altura grandemente com o ensaio de Mario Vargas Llosa aludido na JU#59.

Em A sociedade do espetáculo, MVL sustenta que o sexo é a atividade com a qual mais estabelecemos uma fronteira entre o animal e o humano, por meio do erotismo, esse momento elevado e enobrecedor da civilização.

Mas o erotismo e a fantasia decaíram na vulgarização oca e sem fundo.

Perdemos os caminhos mais sutis do relacionamento entre homem e mulher, tomando os atalhos da satisfação instintual e da exposição publicitária e pornográfica do entretenimento rasteiro.

Ramon Casas: Jovem decadente. Depois do baile (1899, Museu de Montserrat, Espanha). Foto: domínio público

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Prêmios literários: condicionantes

Há — não é só no Brasil não, parece que em todo o Ocidente — certas questões que determinam a outorga de prêmios literários ou de cinema que raramente dizem respeito à qualidade literária ou cinematográfica das obras agraciadas. Javier Marías, em sua coluna no El País, elenca essas rubricas (que detalha exemplarmente): temas, sexo dos autores, origem e orientação sexual dos autores, e o foco autobiográfico.  Não se pode dizer que seja despeito. Marías afirma que na sua longa e bem-sucedida carreira de escritor apenas se inscreveu em uma premiação, em 1968; venceu e depois devolveu o galardão. É por aí que vamos. Não é apenas prêmios. Basta dar um pouco de atenção aos filmes e livros que nos últimos tempos ganharam a atenção de editoras e redes sociais e, por isso, também de ex-cadernos de ex-cultura. Que sejam obras primas, pode ocorrer, por certo, mas não em virtude de tais ingredientes e condicionantes. Como diz Marías, hoje em dia qualquer um destes criadores passaria à míngua de premiações: Flaubert, Balzac, Conrad, Faulkner, “não digamos Henry James”. E, no cinema: Ford, Hawks, Lang, Lubitsch, Hitchcock e Wilder. “Hoje raramente o que se enaltece é a literatura ou o cinema, mas sim suas circunstâncias extraliterárias e extracinemáticas, talvez jornalísticas”. Falou e disse.


Que feio, Face

“Há vida fora da maior rede social do mundo”, diz editorial da Folha sobre o caso do Facebook na Austrália. A rede social, o Google e outras empresas de mídia terão que remunerar produtores de conteúdo, jornais, sites etc., conforme projeto de lei em debate no Senado do país. O Google cedeu, e faz acordos com os veículos de mídia. Pois o Facebook decidiu retirar da plataforma tudo que é notícia e informação pública. Pegou mal para a gigante de Mr. Zuckerberg.


Cuba libre

Entonces, e aí?, Chico Buarque, Fernando Morais, Gleisi Hoffman, não sei mais quem, bora curtir o vídeo dos rapazes? Quando escrevo, 114 mil clicaram no dedinho para cima (tinindo) do Youtube, e quase 2 milhões já o tinham rodado. Rappers cubanos que vivem na Ilha e outros, emigrantes, compuseram Patria y vida, invertendo o slogan guerrilheiro Patria y morte, clamando por liberdade de expressão e cutucando a ferida recente da repressão do coletivo de artistas de San Isidro, que saiu na JU, pela polícia política cubana. Produzido precariamente, caseiro, o vídeo consegue dar muito bem seu recado, além de uma canja sobre a diversidade da música cubana. O governo, claro, reagiu como de costume, cuspindo marimbondos (por enquanto) de fogo: “Cheira a enxofre a ‘arte’ que nasce à mercê da vontade de quem paga ― a todo custo e a qualquer custo ― para tentar irromper, na mais grosseira ingerência política, na soberania de uma nação”, excomungou o Granma, diário oficial do partido castrista, em relato o El País Brasil.


Credulidade e cinismo

“Certa mistura de credulidade e cinismo havia sido importante característica da mentalidade da ralé antes que se tornasse fenômeno diário de massa”, lemos de Hannah Arendt em Origens do totalitarismo, e um pouco mais à frente: “A própria mistura, por si, já era bastante notável, pois significava o fim da ilusão de que a credulidade fosse fraqueza de gente primitiva e ingênua, e que o cinismo fosse o vício superior dos espíritos refinados.” O cinismo substitui a credulidade quando mentiras e absurdas teorias do complô são desmascaradas da maneira irrefutável. No lugar de abandonarem os líderes, e suas ilusões, as pessoas “diriam que sempre souberam que a afirmação era falsa, e admirariam os líderes pela grande esperteza tática”.  Arendt, claro, fala dos governos totalitários alemão e soviético, mas, mudando o que for preciso, isso não te faz pensar em alguma coisa muito perto de nós?


Laços nacionalistas suspeitos

A estreia de Malu Gaspar como colunista de O Globo não deixa dúvida sobre a diferença que seu trabalho fará no jornal. Pela manhã e início da tarde desta quinta (25) seu texto era mantido como destaque da edição online do diário. Malu expõe as afinidades do PT com o Caveirão.155mm sobre a Petrobras (vão além do combate à Lava Jato, por certo). De José Dirceu ao ex-ministro Aloisio Mercadante, os aplausos pela intervenção na empresa soaram cândidos e unânimes. Mercadante, ex-ministro de Dilma Rousseff, mostra Malu, ainda tem o topete de defender o resgate do “caráter estratégico” da estatal, depois de toda catástrofe assistida pelo mundo. Credulidade ou cinismo? A resposta é o óbvio ululante. Como dizia Karl Kraus, o diabo é otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.


Alta apostas do jornalismo online

Captura de tela da homepage do Estadão na manhã dessa segunda-feira (22/02)

Depois de jornais mundo afora ganharem com os cliques alucinados sobre a Goop, e a loja da atriz Gwyneth Paltrow faturar horrores com as vendas online de uma vela com o apelo publicitário “smell like my vagina”, o Estadão começa a se render à realidade, ou à nova normalidade dos jornais online. Mas, claro, observadores mais angélicos podem ver no “conteúdo” apenas outra matéria de negócio.


Philip Roth por R. B. Kitajs

Detalhe do carvão em papel artesanal Portrait of Philip Roth (1985), do artista norte-americano Ronald Brooks Kitajs. Foto: reprodução do FAZ

Para Rose-Maria Gropp, crítica de arte alemão Frankfurt Allgemeine Zeitung, a verdade (sobre a persona do escritor) está na cara neste retrato  a carvão de Philip Roth (1933-2018), do artista R. B. Kitajs (1932-2007), que agora integra a coleção do museu Städel de Frankfurt. Esse é o melhor elogio que se pode fazer de uma obra de arte. “O retrato não permite nenhuma proximidade, não promove a empatia amistosa, nem mesmo confidencialidade, versa Rose-Maria, “mas marca de forma quase agressiva a distância — para o espectador, para o mundo — um ceticismo essencial.”

Portrait of Philip Roth (1985), carvão em papel artesanal, obra de Ronald Brooks Kitajs. Foto: Artnet


Rita Baiana, desde o Cortiço
à glória na voz de Zezé Motta

O choro Rita Baiana (John Neschling e Geraldo Carneiro) é uma deliciosa tradução da personagem da mestiça de O cortiço, o romance de Aluísio de Azevedo.

A versão instrumental da música toca na abertura do filme, adaptado e dirigido por Francisco Ramalho, com Betty Faria (Rita Baiana), Mario Gomes, Armando Bógus e Maurício do Valle no elenco.

O cortiço, o filme, e a gravação de Zezé são de 1978. A faixa constava do LP Zezé Motta (Warner), que trazia Magrelinha (Luiz Melodia), Trocando em Miúdos (Francis Hime e Chico Buarque) e Pecado original (Caetano Veloso).

Zezé dá um show em Rita Baiana, como cantora e atriz, ao se jogar, como se diz, na personagem da letra, com a gana e ênfase que a música enseja.

Essa Rita já deu o que dizer em artigos acadêmicos e fabulações feministas sobre a figura da mulher mestiça e o imaginário do século 19. Ela é descrita desse jeito pelo romancista:

“Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante (Azevedo, 2009, p. 48).

Zezé Motta, intérprete, não se faz de rogada. Vai à raiz de Rita e a faz renascer numa era de liberação da mulher, com inequívoco humor e brilho artístico.

RITA BAIANA – John Neschling e Geraldo Carneiro

Olha meu nego quero te dizer
O que me faz viver
O que quase me mata de emoção
É uma coisa que me deixa louca
Que me enche a boca
Que me atormenta o coração
Quem sabe um bruxo
Me fez um despacho
Porque eu não posso sossegar o facho
É sempre assim
Ai é essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina

Olha meu nego
Isso não dá sossego
E se não tem chamego
Eu me devoro toda de paixão
Acho que é o clima feiticeiro
O Rio de Janeiro que me incendeia

O coração
Eu nem consigo nem pensar direito
Pois a aflição dispara no meu peito

É sempre assim
Ai essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina
E me dá
Uma vontade e uma gana dá
Uma saudade da cama dá
Quando a danada me chama
Maldita de Rita Baiana

No outro dia o português lá da quitanda
O Epitácio da Pessoa Gamboa
Assim à toa se engraçou e disse:
“Oh Rita rapariga, eu te daria 100 mil réis por teu amor”
Eu disse:
Vê se te enxerga seu galego de uma figa
Se eu quisesse vida fácil
Punha casa no Estácio
Pra Barão ou Senador
Mas não vendo o meu amor
Ah, ah, isso é que não!

Olha meu nego quero te dizer
Não sei o que fazer
Pra suportar a minha escravidão
Até parece que é literatura
Que é mentira pura
Essa paixão cruel de perdição
Mas não me diga que lá vem de novo
A sensação
Olha meu nego assim eu me comovo
Agora não
Ai essa coisa que me desatina
Me enlouquece, me domina
Me tortura e me alucina

E me dá
Uma vontade e uma gana dá
Uma saudade da cama dá
Quando a danada me chama
Maldita de Rita Baiana (me dá)


Como vai você, Tavinho Moura?

O juiz-forano Otávio Augusto Pinto de Moura, Tavinho Moura, compositor, instrumentista, violeiro, violonista, cantor, hoje aos 73 anos, há muito parece ter mais o que fazer que perseverar para que se sua grande arte chegue ao grande público. Sei que é orquidófilo e leva uma vida pacata e discreta cá no Belo.

Pior para o grande público. Pior para o país do BBB e dos guinchos “sertanejos”.

Seu disco mais recente parece ser de 2014, o CD Minhas canções inacabadas, lançado pelo selo Dubas Music, de Ronaldo Bastos, seu companheiro da geração dourada do Clube da Esquina. O álbum faturou o Grammy Latino de Música Regional ou de Raízes Brasileiras.

Sua música é refinada, melodiosa, singelamente emotiva, presa à tradição popular e às cantigas populares, que reelabora com grande sabedoria harmônica.

Esta Como vai minha aldeia, dele e Marcio Borges, estava em seu primeiro disco, de 1978 (RCA Victor). E ele a regrava em 2014.

No lindo pontear da viola e na melodia finamente harmonizada a canção evoca o idílio solar de uma infância reencantada. Tem o canto reservado, a expressão direta, o lirismo que se anima nos pequenos povoados e na aura da gente mineira.

É dele a trilha premiada do filme Cabaré Mineiro, de Carlos Alberto Prates Correa, lançado em 1981, e é dele a parceria com Carlos Drummond de Andrade na rica transposição musical do poema que inspira o roteiro, pinçado do Alguma poesia (1930), livro de estreia do itabirano.

A bailarina que surge do doído esboço do poeta, e que a música sublinha, é de uma desgraçada das zonas. Mesmo sovada pelo sofrimento e com o corpo castigado pelo tempo ela precisa fazer-se desejar pelo público pagante, ou imaginar-se desejada.

É dele, Tavinho, Paixão e fé (com Fernando Brant), e dele o melhor registro dessa música, a que ouvimos no CD Conspiração dos poetas (1997, Dubas Music), reunindo suas criações com Brant, além de parcerias de Milton e Brant.

Lançada no Clube da Esquina 2, de Milton, Paixão e fé foi versionada por Simone, Flavio Venturini, Titane, Vânia Bastos etc.

É muito valorizada por instrumentistas solo. A composição tem um prelúdio que soa como música sacra, e segue a introspecção contagiante inspirada no silêncio das procissões.

A canção é um hino espiritual das Minas do Jequitinhonha, uma espécie de oração, ou de canto devoto à devoção popular.

 A rádio mineira Inconfidência FM faz muito bem em tocá-la, há muitos anos, às seis da tarde, marco da Hora do Angelus, Toque das Ave-Marias.

[Atualização: saiu em 2016 o Viola instrumental brasileira, dele com Almir Sater, pela Gravadora Galeão.]

[Atualização em 03/03: O redator meteu a pata. A versão de Caberá mineiro abaixo é da regravação incluída no álbum O anjo na varanda (Dubas Música), lançado em 2018, em que Moura e Ronaldo Bastos homenageiam Fernando Brant (1946-2015), antes, em 2015, havia saído Beira de linha, viola instrumental, também pela Dubas.]

CABARÉ MINEIRO – Poema de Carlos Drummond de Andrade musicado por Tavinho Moura

A dançarina espanhola de Montes Claros
dança e redança na sala mestiça.
Cem olhos morenos estão despindo
seu corpo gordo picado de mosquito.
Tem um sinal de bala na coxa direita,
o riso postiço de um dente de ouro,
mas é linda, linda, gorda e satisfeita.
Como rebola as nádegas amarelas!
Cem olhos brasileiros estão seguindo
o balanço doce e mole de suas tetas…

PAIXÃO E FÉ – Tavinho Moura e Fernando Brant

Já bate o sino, bate na catedral
E o som penetra todos os portais
A igreja está chamando seus fiéis
Para rezar por seu Senhor
Para cantar a ressurreição
E sai o povo pelas ruas a cobrir
De areia e flores as pedras do chão
Nas varandas vejo as moças e os lençóis
Enquanto passa a procissão
Louvando as coisas da fé

Velejar, velejei
No mar do Senhor
Lá eu vi a fé e a paixão
Lá eu vi a agonia da barca dos homens

Já bate o sino, bate no coração
E o povo põe de lado a sua dor
Pelas ruas capistranas de toda cor
Esquece a sua paixão
Para viver a do Senhor

COMO VAI MINHA ALDEIA — Tavinho Moura e Márcio Borges

Como vai minha cidade
Oi, minha velha aldeia
Canto de velha sereia

No meu tempo
Isso era meu tesouro
Um portão
Todo feito de ouro
Uma igreja
E a casa cheia
Cheia
No vazio
Desse meu Brasil

Minha igreja
Minha casa cheia
Meu Brasil

No meio da praça passou
Do meio da noite surgiu
O meu pai
E meu pai me mostrou
Seu retrato
Morrendo na rua
E seu tempo ali parado
E seu povo ali parado
Minha gente
Que nunca mudou

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