Carta aberta ao Caveirão

A contabilidade macabra e nauseabunda de vossas atrocidades há de gravitar sobre seu nome e de sua estirpe per omnia saecula saeculorum


Foto do alto: Artefato asteca, máscara, confeccionada com turquesas. Museu Britânico. Foto: Wikimedia Commons


Jurupoca_61 — 5 a 11/3/2021 — Ano 2

Damien Hirst: Pelo amor de deus (2007). Foto: Wikimedia Commons.
A obra, vendida por cerca de R$ 400 milhões, é um molde em platina de um crânio humano do século 18 incrustado com 8.601 diamantes sem falhas e um diamante rosa na testa. Quantas vidas humanas a obra pagaria, presidente Caveirão?

Belo  Horizonte, 5 de março de 2021

Excrescência Jumentíssima, Presidente Caveirão.155mm
Assunto: Exortação de um cidadão qualquer

Sr. Presidente, faz algum tempo ousei respeitosamente rebatizá-lo, me valendo das garantias do 5º artigo da nossa Constituição.

Chamar o senhor pelo nome oficial, de pia, patente do registro civil, não me parecia certo.

Jair Messias Bolsonaro é mais propriamente um anátema, ou uma chicotada na alma, que um nome de nome.

A Presidência fora degradada como nunca antes na República. Senti que urgia distinguir com preceito quem degrada, achincalha, deslustra, abastarda e apequena essa instituição, tão conspurcada em nossa débil história de nação livre.

Recorri às manhas da fábula e das palavras, único e derradeiro recurso de que disponho.

E agora não me furto a explicar cada uma das dignidades de que lhe visto, com uma clareza que, queira deus, até o senhor há de alcançar.

Indo de trás para frente:

.155 mm é calibre da bala de um modelo nacional de canhão, o senhor sabe melhor que ninguém.

“Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer. Se tiver um com deficiência, pegou no contrapé, eu lamento…”, o senhor disse, era março de 2020.

A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”, o senhor disse, era junho de 2020.

Caveirão calça como luvas um cínico que escarnece da dor e da morte, enquanto obra para facilitar a compra de armas e munições pela população, como uma harpia a chocar bandos paramilitares.

Nesse obrar, o senhor revela a mesma obstinação que um Oswaldo Cruz dedicou à luta contra os micróbios, ou um Betinho ao combate à fome.

Cada homem público grava um retrato na História. E a imagem que o senhor projeta no futuro, graças à luz do Sol, é a de um vulto tétrico, hediondo, senhor presidente. Mas me permita prosseguir a justificar vossa requalificação.

Caveirão.155 mm, portanto, designa a arma de grossíssimo calibre predestinada a vomitar, como um B-52, falas trôpegas, brutais e desumanas, atos e comunicados insanos nas redes sociais — esse seu tesouro, pântano onde se fez ao semear o ódio e a ignorância.

Seus petardos explodem sobre nossos corações e mentes há mais de dois anos, com um incontável número de baixas.

“Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”, o senhor disse nesta quinta-feira (4)

A despeito disso, o senhor segue incólume em sua Cabeça de Ponte do Palácio do Planalto, que é como o senhor enxerga a Presidência.

Sim, o senhor a conquistou nas urnas em 2018, graças a uma conjunção diabólica de desatinos e desgraças na política e economia.

Da terminologia militar, aprendi que Cabeça, ou Testa de Ponte, é uma posição provisória tomada em território inimigo.

E o senhor, que se considera um presidente em combate, se vê permanentemente cercado de inimigos implacáveis, a começar da imprensa livre, pilar da democracia que lhe apavora e parece esmagar.

Jumentíssima. Essa qualidade — com o perdão penitente da adorável e bíblica alimária, merecedora de todo meu carinho — veio a propósito de seu notável déficit de consciência humana e de sua óbvia insuficiência cognitiva para discernir o certo do errado, e o verdadeiro do falso.

Quando o vulgo exclama: Sicrano é um jumento!, o recado está dado, ponto.

Agora, nem por artes de um Esopo o fabuloso equídeo seria capaz de ornear o que o senhor pronunciou nesta segunda-feira (1), em convescote com seus fanáticos:

“Desculpe aí, pessoal, não vou falar de mim, mas eu não errei nenhuma desde março do ano passado. E não precisa ser inteligente para entender isso. Tem que ter um mínimo de caráter. Agora só quem não tem caráter que joga o contrário”.

Excrescência, por fim.

As acepções da palavra incluem: coisa que perturba a harmonia, desequilibra, e demasia, excesso, superfluidade, mas também o que é mais próprio ao campo da patologia: “tumor sobre a superfície de um órgão qualquer”.

Nesta alegoria, parece escusado nomear o Órgão tomado pelo cancro.

Por isso, a forma de tratamento mais adequada ao senhor, a mais justa e conforme que pude conceber é tal:

Excrescência Jumentíssima, Caveirão.155mm.

Desculpe-me assim, doravante Vossa Excrescência, o largo preâmbulo, mas sejamos positivistas de vez em quando. Um pouco de método e propósito cartesianos não faz mal a ninguém.

Tenho examinado sua biografia.

Nela reluz como Césio 137 a trajetória de um militar medíocre, indisciplinado e desleal, com fugas a garimpos e outros malfeitos anotados em prontuário, uma prisão por insubordinação e um controverso julgamento em corte militar.  

A patente de capitão que lhe foi concedida, me desculpe a Armada, desonra as figuras mais nobres do Exército de Caxias.

E reluz com o mesmo grau radioativo, por 30 anos, a trajetória do reles legislador, ou legislador reles, marcado pela desonra de agressões a mulheres e apologia a “narrativas” delirantes sobre a ditadura militar.

Não vou enveredar pela psiquiatria, sou leigo. Mas noto que especialistas veem em Vossa Excrescência traços de uma personalidade narcísica e paranoide, caracterizada pela falta de empatia, agressividade, desconfiança de tudo e todos, e alguma desconexão com a realidade.

Vossa Excrescência defendeu o assassinato de adversários, aos milhares, ofendeu quilombolas, povos estrangeiros, e afirmou que preferia um filho morto a um filho gay.

Não me parece ser o caso de aprofundar o diagnóstico psiquiátrico. Mas incapaz de responder pelos seus atos, como o pobre coitado que lhe meteu uma faca no bucho, Vossa Excrescência não é.

Um diagnóstico moral é mais simples, embora ocioso na ausência de honorabilidade do paciente.

Mas o que pensar de um valentão de vaquejada que se cerca de ministros sabujos e homens de caserna, aos milhares, a lembrar um cadete sessentão que não pode viver sem o calor e as emanações da tropa?

Vossa Excrescência, com sua macheza anacrônica, me recorda a figura de um extraviado do Antigo Testamento no século 21, mas isso é enganoso, eu sei, a despeito da fúria vingativa contra inimigos e a cruel louvação de torturadores.

Sua fé de fachada não cola.

Batizado católico, o pentecostalismo que o levou a deixar-se imergir nas águas Jordão, em 2016, pelas mãos do ínclito pastor Everaldo, sabemos, não passava de oportunismo, ato político de candidato precoce.

Se a fé é de fachada, seu patriotismo histriônico é dúbio.

O patriotismo, disse Samuel Johnson celebremente, em 1774, é o último refúgio dos canalhas.

O nacionalismo também, creio, mas o buraco aqui é mais embaixo, e peço vênia pela vulgaridade em um Ofício, ainda mais aberto na rede.

É que, entre nós, que coisa!, o patriotismo resguarda também milicianos, esse grupamento criminoso bem-sucedido emergido do refugo social, ou da ralé, como ensina a filósofa Hannah Arendt.

A defesa da lei e da ordem, afinal, sempre foi o pretexto para policiais transviados usurpar o papel do Estado em vastas quadras do Rio de Janeiro, hoje governadas de fato por eles.

Essa gente, cujas felonias foram exaltada por Vossa Excrescência, cansou de jurar o símbolo augusto da paz.

E o augusto pendão da esperança há anos é usurpado por golpistas de escaparate e atrabiliários com hálito etílico, a exemplo do deputado fulano de tal preso.

Vossa Excrescência e sua gente privaram da proteção e amizade de tais elementos, suspeitos ou condenados, conforme os inquéritos.

A propósito, tais inquéritos andam nos freezers judiciários, como é praxe entre nós quando altas esferas empenham ao mesmo tempo fortunas advocatícias e nomeações exclusivas de dignitários.

Seu governo vem prevaricando acintosamente na Saúde, no Meio Ambiente, na Educação e nas Relações Exteriores, pelo menos. Um vexame internacional.

Somos uma piada terráquea sem vacina, párias, ora honrados como “celeiro de variantes” do coronavírus.

A figura de Vossa Excrescência estampa uma nódoa indelével sobre nosso valores culturais mais caros, nossa democracia e nossa história.

Por tudo isso, rezo para que Vossa Excrescência viva cem anos, poupado de vírus, tumores ou gripezinhas.

Em uma ou duas décadas, Vossa Excrescência há de estar lúcido e forte, como ex-atleta, para contemplar a volta do cipó de sua omissão na pandemia, seu negacionismo contagioso, sua inação perversa, sua monstruosa incompetência, e seu incentivo torpe e homicida ao descumprimento de normas sanitárias.

“Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia”,  disse Vossa Excrescência, era março de 2020.

A contabilidade macabra e nauseabunda de suas atrocidades há de gravitar sobre seu nome e de sua estirpe per omnia saecula saeculorum. Amém.

Assim, ao concluir esta rogatória de cidadão comum às deusas da Justiça, preciso reconhecer que os caminhos da fabulação se esgotam.

E que falta a Vossa Excrescência o pathos e o sentido de história do doutor Getúlio na hora fatal.

E que nenhuma força oculta tomaria de Vossa Excrescência o alvidrio, no dizer daquele outro dignatário, profundo conhecedor do idioma, para apresentar uma carta de renúncia, ainda que o gesto consistisse no único ato de bravura e decência de toda sua miserável existência.

Atentamente, sem mais, e para nunca mais, subscrevo-me,

O autor da JU


Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida. causado pela pandemia em Manaus. Foto: Alex Pazuello/Semcom, 15/05/2020

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

 Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Os altos do Aglomerado da Serra, a leste no Belo, é a vista mais bela que se tem da redação da JU. Não canso de me surpreender nos finais de tarde com a peripécias dos elementos, nuvens, céu e sol, e o que delas resulta em cor. Divido mais este clique com a leitora e o leitor.


Nota bene

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Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Em inglês se entende?

Recortes de tela da edição online do New York Times, manhã desta quarta-feira (3)


PEC contra PEC

Parte da JU, neste instante, já, agora mesmo, projeto de iniciativa popular, emenda constitucional, PEC, que nos dará, como povo, garantias, imunidade contra a Impunidade de congressistas. A PEC da Imunidade Cidadã tornará sem efeito qualquer PEC da Impunidade tramada em gabinetes e jantares às altas horas. Igualmente abortará todo Excludente de Ilicitude que a compulsão à felonia do Planalto Centrão tentar impor à plebe.


Idealismo

O Estadão da Arte publicou entrevista curta de Sir Roger Scruton ao holandês Nexus Instituut, disponível em inglês no vídeo abaixo, que deveria passar em aulas de história desde o fundamental, vivêssemos em um mundo menos dominado por “intelectuais idealistas”. Reproduzo um trecho:

Parece haver uma divisão no debate, no qual você toma o lado dos realistas, em contraste com o idealismo de [por exemplo] Alain Badiou [filósofo e escritor francês de origem marroquina, hoje aos 84 anos, conhecido por sua militância maoísta]. Você não acha que o mundo precisa de um pouco de idealismo?

Não, eu acho que o mundo precisa de menos idealismo. O século XX foi criado pelo idealismo. O comunismo, o fascismo e o nazismo são todos baseados em sistemas idealizados, naquilo que o mundo devia ser idealmente, e na ideia de que, já que o mundo não é como devia ser, estamos autorizados a mudá-lo radicalmente, e a tomar o controle para fazê-lo. Os resultados imediatos são genocídios, como vemos. Penso que o idealismo do tipo de Badiou é extremamente perigoso. Eu estava em Paris em 1968 quando ele estava nas ruas gritando seus ideais e isso bastou para me converter para o outro lado.”

“Foi tão ruim assim?

Foi, foi tão ruim assim, ver aqueles jovens arrogantes fingindo representar os trabalhadores, quando, na verdade, eram ricos subprodutos da classe média, querendo ditar a todo mundo o sistema político que derivavam de suas leituras pela metade. Isso ficou nessa classe de intelectuais franceses desde então. Eu acho que pessoas como eu têm um dever do realismo como oposição, de dizer ‘Veja, essa unidade entre os intelectuais e os trabalhadores, quem estava criando isso de fato? Vocês, intelectuais. Quantos trabalhadores estavam envolvidos? Muito poucos. Apenas aqueles que vocês controlavam por meio de sindicatos.’ Livremo-nos dessas ilusões e tratemos as pessoas como elas são.”


Salvar o liberalismo

De um príncipe do conservadorismo, como Scruton, para um nomão liberal disposto a conciliar com conservadores e socialista para salvar o que se poderia chamar liberalismo de raiz. O  historiador britânico Timothy Garton Ash, professor em Oxford e outras universidades de elite, colunista do The Guardian, começa por dizer o essencial: não há liberalismo sem liberdade. Quem geralmente fala, tantas vezes com razão, na perversidade do “neoliberalismo”,  ignora ou não está disposto a conversar sobre outros significados e vantagens civilizacionais do liberalismo. “A autocrítica é uma fortaleza liberal”, diz Garton Ash, a começar por reconhecer a culpa dos liberais nos horrores genocidas do colonialismo. O próprio John Stuart Mill, padroeiro da liberdade de imprensa, era empregado da East India Company, e considerava os povos colonizados tuteláveis. Em um extenso e necessário artigo traduzido em espanhol pelo Letras Libres, Garton Ash fala da necessidade de se preservar os fundamentos do liberalismo clássico, como a garantia das liberdades individuais, liberdade de expressão e pluralismo das instituições democráticas, contra as ameaças de populistas e radicais autoritários do presente. Governos liberais, prega o escritor, devem igualar as condições de competição na economia. Diz que é preciso “afrontar os maiores erros do que se há considerado liberalismo nos últimos 30 anos: um liberalismo econômico unidimensional, e no pior dos casos um fundamentalismo de mercado com tão pouco contato com a realidade humana como dogmas do materialismo dialético ou a infalibilidade papal”. Garton Ash também lembra, brilhantemente, que apenas no “estranho universo semântico da política norte-americano contemporânea é possível separar liberalismo da liberdade.” Aponta o crescimento da desigualdade, o fosso educacional e seus reflexos na expectativa de vida em dois lados de uma mesma cidade como Londres, e a perda da solidariedade em toda parte. Os remédios que propõe para melhorar o liberalismo podem aparecer numa cartilha da social-democracia, incluindo taxação sobre a riqueza, eliminação de paraísos fiscais, enquadramento de oligopólios, e até uma “herança mínima universal subvencionada com impostos”. Aponta que a pauta progressista mirou demasiado no problema das identidades e de gênero, enquanto o sindicalismo sumia e grandes “maiorias” ignoradas pela esquerda, com a globalização, desindustrialização etc.,  perdiam qualidade de vida e esperança no futuro. Claro, pondera, também não é o caso de jogar fora o bebê com a água da bacia. As conquistas do feminismo e da inclusão são incontornáveis como núcleo da civilização. O problema da análise de Garton Ash é seu otimismo um tanto cor de rosa, sua agenda é vasta demais diante da realidade. Mas não há melhor ponto de partida para quem tem boa vontade de formar uma visão clara da complexidade do mundo atual, e insiste em pensar por conta própria, longe das torcidas ideológicas em guerra. A publicação do artigo, originalmente em inglês, está na revista britânica Prospect.


“Tratamento precoce” na Folha

O departamento comercial do New York Times tem, não é de hoje, quem checa e avalia o conteúdo dos anúncios recebidos, sabe disso quem leu O reino e o poder, de Gay Talese. Dificilmente sairia nas folhas da Velha Dama Cinzenta um anúncio de meia página defendendo charlatanismos como “tratamento precoce” contra a covid, pago por um grupo pretensa e vicariamente autodenominado Associação Médicos pela Vida. Mas saiu na Folha, dia 23/2, e em outros jornais do país. A ombudsman do diário execrou a publicação, apontando corretamente a contradição de um jornal que integra o consórcio de imprensa, criado para exercer parte das funções sonegadas pelo Ministério da Saúde, além de desmentir a desinformação “oficial”. A resposta do diretor comercial da Folha à colunista é de uma fuleirice inominável. A ordem é faturar, seja como for, é o que se entende por separação entre “estado e igreja”, comercial e redação. Otávio Frias Filho e o pai dele fazem um tremenda falta na Barão de Limeira. Enquanto isso, a propósito, O Globo celebra a preferência do público em 2020


Jornalismo

Saiu na revista 451 artigo obrigatório a quem se interessa pelo debate atual sobre o jornalismo (a segunda profissão mais antiga, dizia Paulo Francis), desqualificado pela “guerra de narrativas” na era das “verdades alternativas”, futricado nas redes sociais, e rebaixado pela google-dependência. Em Rashômon na era da pós-verdade, Leão Serva, que fez bela carreira na Folha, debate a pertinência do modelo que chama de Rashômon, aludindo ao filme de Akira Kurosawa em que a verdade sobre um fato, um crime, se embaralha no apanhado de versões. É o que já foi chamado de “outroladismo”, o modelo implantado por Otávio Frias Filho, que sem dúvida ajudou a qualificar o jornalismo no país, mas parece ter esbarrado seriamente em limites éticos, quando reinam figuras como Trump e Caveirão. Serva confronta Rashômon à “escola” Ruy Mesquita, no Estadão, ou a defesa da autonomia do jornalista para relatar com acuidade os lados em disputa e promover uma síntese própria. Serva expõe com clareza a complexidade desse embate, mas falta notar que essa síntese é ideal, dificílima de ser alcançada. Além da ética, pressupõe cultura e um interesse permanente pela investigação e atualização sobre o mundo. De maneira necessariamente mais ligeira, limitado ao espaço de sua coluna, Demétrio Magnoli se aproxima de Serva, em seu texto sobre o centenário da Folha. O jornal, aliás, deu a impressão de ter “sugerido” a todos os seus colunistas um certo puxa-saquismo na celebração da efeméride, como um jornal de província.


Quando a cultura palpita

Como se dizia na época da impressão a chumbo, parem as máquinas! Novas pautas quentes chegam às editorias online de cultura a cada segundo. Na caça ao clique, quanto mais tolo o “conteúdo” aos olhos do “curador”, mais potente o visgo para pegar os imbecis.


“Holocausto de bala”

Uma foto raríssima, que documenta os pogroms de judeus na Ucrânia durante a ocupação nazista, é objeto de uma longa investigação e publicação de um livro. Uma reportagem de Guillermo Altares no El País conta essa história fascinante. A imagem tomada por Lubomir Skrovina, um soldado eslovaco resistente, mostra as espingardas ainda esfumaçadas pelos tiros contra uma mulher que tenta proteger uma criança.


30 anos este mês

Assisti à estreia, durante a semana, cá no Belo, creio que no Acaiaca, e logo no sábado à noite levei minha mulher a ver, entusiasmadíssimo. Nesses 30 anos, desde então, com o DVD em casa e incontáveis reprises na TV, devo ter memorizado cada fotograma e fala, como a famigerada “comi seu fígado com umas favas e um bom Chianti”. O silêncio dos inocentes, ou dos cordeiros, pôs o nome de Jonathan Demme, o diretor, no radar, mas, mais que isso, abriu generoso espaço para que Anthony Hopkins e Jodie Foster brilhassem como os solistas doutor Hannibal Lecter e a agente especial do FBI Clarice Starling. O filme é quase uma escola do suspense, ou horror, como alguns preferem, com lições de tempo, atuação, plano-sequência e um roteiro roçando a perfeição. A tensão sexual entre Clarice e seu chefe no FBI, sua constrangida admiração intelectual por Lecter, a caracterização hiper-realista de Buffalo Bill, o personagem assassino, ou a sequência da prisão em Washington em que Lecter, ouvindo num cassete em profundo êxtase a Aria da capo das Variações Goldberg de Bach, trucida os simpáticos guardas de sua gaiola improvisada, tudo isso entrou para o imaginário cultural, como a escadaria de Odessa no Couraçado Potemkin de Eisenstein.  


Ludopédio

O futebol virou uma chatice com galocha. Outra face da decadência. Ainda há o virtuosismo de um Messi, de um Salah, que dá gosto de ver. O que se chama de evolução da ciência esportiva, da preparação física dos jogadores, e vá lá, do “sistema tático”, incontestável. Mas a era do futebol que equivalia ao romantismo ou ao pré-modernismo nas artes acabou em meados dos 1980. A própria arte do ludopédio acabou. Um atleta, como se diz, não entra mais em campo por conta própria, com autonomia. Leva junto ao peso da camisa, cada vez mais relativo, uma pletora de diagnósticos médicos especializados, nutricionistas, staff de investimentos, relações públicas, cabeleireiros e maquiadores. Quase todo jogador é mimados pelo dinheiro e pueril. Um Neymar ainda tem 16 anos de idade mental. Note-se que o empenho dos craques e pernas-de-paus com ou sem torcida no estádios pouco mudou. Na TV, a imagem da cor da chuteira, o penteado, a mise-en-scène, é o que conta, cash, o resto é acessório. Um menino hoje pode torcer antes pelo Barcelona ou Liverpool que pelo time de sua cidade. A velha inspiração foi pra cucuia, quando tudo é posto à venda, a começar da inspiração. A Rádio Siutonio trouxe há duas semanas algo sobre a linda O futebol, samba de Chico Buarque que louva Pagão, Mané Garricha, Pelé, Canhoteiro. Nenhum compositor sério endeusaria hoje Cristiano Ronaldo ou Messi, e ainda menos Cleusons e Maicosueis da vida numa letra de música.


Sinal fechado e Roendo as unhas,
Paulinho da Viola à margem do samba

Não é pela pandemia, não, que a ouvimos e de novo, e a música bate na quina. Sinal fechado não envelhece.

Afinal, de uma forma ou de outra, ando sempre “correndo” para “pegar meu lugar no futuro”. E você?

A distância do amigo, que adiamos reencontrar, a urgência do autômato que não tem tempo sequer para si próprio, talvez na semana, mas o sinal vai abrir, vai abrir… adeus.

Claro, o sinal estava fechado pelos militares no poder, fechado para os jovens, cantaria o Belchior, mas a canção vai além do registro da repressão, por isso está aí.

É canônica e tem três gravações insuperáveis, distantes e assim complementares, como as vejo: a original do autor e as versões de Chico Buarque e Raimundo Fagner, de 1969, 1974, 1976, por ordem.

Paulinho da Viola faturou com Sinal fechado, na TV Record, o V Festival da Música Popular Brasileira, em 1969, apesar de muito vaiado, e por sinal também o festival da TV Tupi, mais “alternativo”, com o samba Foi um rio que passou em minha vida!

Esses festivais, não pelos resultados, justíssimos, mas graças ao AI-5, decretado em dezembro de 1968, e o arrocho da Censura, foram os mais borocoxôs de uma era de ouro.

Com Paulinho da Viola, o dedilhado do violão em acordes dissonantes em mi menor, agudos, é solene e sôfrego, como a conversa dos amigos no sinal; um fundo orquestral de cordas pinta o drama pungente. A voz do cantor é melancólica e arrastada. Sentimos que o pé na embreagem hesita e o acelerador mal se contém ante o não ter o que dizer, ou poder dizer, como o violão sublinha. Eu procuro você, vai abrir, prometo, não esqueço, não esqueça, adeus… Promessas.

Chico, na vez dele, a colocou como 12ª e última faixa de Sinal fechado, o LP concebido para driblar a zaga duríssima dos censores, disco em que assina só uma das músicas, como Julinho de Adelaide. Agora são acordes nervosos de um piano martelado, o clima é mais pesado, um clarinete quase fúnebre acompanha o desenho da melodia. Mas o canto, apesar do piano, é resignado, meio que entregue às baratas.

Já Fagner, no disco bem-amado por esta JU, traz um arranjo de cortas metálico, uma guitarra portuguesa marca o contracanto agônico, com arabescos flamencos e lampejos de fado. Violões de Fagner e Robertinho de Recife tecem um drama quase visual, quase videoclipe; os acordes parecem se estilhaçar, marcar uma espécie de fuga dolorida. Nas entrelinhas, aqui o sinal está fechado graças a outras sensações, existenciais, geracionais, urbanas.

Não aprecio as versões de Simone, Bethânia, Elis, Oswaldo Montenegro, entre outras, que não conseguem reanimar a música com originalidade. Acho outras em minha pesquisa, que procuro ouvir: Toquinho com Bia Assad, Fernanda Porto com Toni Garrido, Toquinho em versão italiana, Vanusa com Eduardo Conde em clipe, e até um registro estranhíssimo de certa Marya Bravo, e nenhuma se aproxima remotamente das três elencadas.

É interessante ouvir Sinal fechado e logo Roendo as unhas, do álbum Nervos de aço (EMI/Odeon,1973).

São canções aparentadas em inventividade melódica e harmônica, mais perto propriamente da MPB, da qual o artistas se aproximara, como ele mesmo disse, de Caetano, Edu Lobo, Chico Buarque, que da tradição do samba reinventada por ele, onde fez seu ninho.

O pesquisador e professor de música da Universidade Federal de Pernambuco, Eduardo de Lima Visconti, em artigo disponível na rede cita o crítico e produtor Tárik de Souza a respeito:

“(Paulinho  da  Viola) Beirou  a  vanguarda  em  vários  momentos  de  sua  carreira  (…). Incluídos ou não no compasso rítmico do samba, tais desempenhos sempre deixaram a  porta  dos  arranjos  aberta  a  surpresa  de  uma  sessão  de  improvisos  dissonantes  (Roendo  as  unhas)  ou  num  suspenso  de  cordas  coerente  com  o  enredo  urbano  no exemplo de Sinal Fechado”.

Logo abaixo, Visconti transcreve parágrafo de outro texto sobre Roendo as unhas, remetendo ao site do próprio Paulinho da Viola, chamado “A experimentação”:

“Em sua forma nada é fixo, não há chão, há apenas os deslocamentos. É impossível determinar  a  nota  dominante,  ela  não  existe.  O  que  vemos  é  uma  sucessão  de momentos  que  se  envolvem  e  criam  um  ciclo  de  inúmeras  possibilidades.  O sambista  ganha  um  olhar  profundo,  filosofa  sobre  sua  relação  com  a  música  e caminha  pelas  ruas  com  sua  ‘flor  nenhuma’.  A  angústia  de  um  momento  de transformação da nossa história não poderia estar melhor representada.”

A letra de Roendo as unhas mostra um sambista no limite, um artista que não encontra mais no ritmo o lenitivo, como aquele Rio que passou em minha vida, esse amor que apaga os desenganos.

Extraviado do compasso rítmico, diz a letra, “Meu samba não se importa que eu esteja numa/ De andar roendo as unhas pela madrugada/ De sentar no meio fio não querendo nada/ De cheirar pelas esquinas minha flor nenhuma…”.

Não sei por que diabos, Roendo as unhas me recorda Corrente, o samba esquisito de Chico de  Meus caros amigos, LP de 1976. Talvez por também dar a impressão de que a melodia parece fugir do ritmo, nesse caso do tal “samba bem para frente” composto para o artista “dizer realmente” o que pensava.


PAULINHO DA VIOLA, ODEON, 1969


CHICO BUARQUE, PHILIPS, 1974


RAIMUNDO FAGNER, CBS, 1976


ROENDO AS UNHAS – Paulinho da Vila


ROENDO AS UNHAS – Paulinho da Vila

Meu samba não se importa que eu esteja numa
De andar roendo as unhas pela madrugada
De sentar no meio fio não querendo nada
De cheirar pelas esquinas minha flor nenhuma

Meu samba não se importa se eu não faço rima
Se pego na viola e ela desafina
Meu samba não se importa se eu não tenho amor
Se dou meu coração assim sem disciplina

Meu samba não se importa se desapareço
Se digo uma mentira sem me arrepender
Quando entro numa boa ele vem comigo
E fica desse jeito se eu entristecer


SINAL FECHADO – Paulinho da Viola

Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?
– Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro. E você?
– Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo. Quem sabe?
– Quanto tempo!

– Pois é, quanto tempo!
– Me perdoe a pressa — é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
– Pra semana, prometo, talvez nos vejamos. Quem sabe?
– Quanto tempo!
– Pois é . . ., quanto tempo!

– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
– Por favor, telefone – Eu preciso beber alguma coisa, rapidamente!
– Pra semana . .
– O sinal . .
– Eu procuro você . .
– Vai abrir, vai abrir, vai abrir . .
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço!
– Por favor, não esqueça, não esqueça . .
– Adeus!
– Adeus!
– Adeus!

4 comentários sobre “Carta aberta ao Caveirão

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