Bananas para o Bananão

Está provado que somos uma grota civilizacional
e o sofrimento nos faz piores.
Então, por que osso brigamos?


Jurupoca_62— 12 a 18/3/2021 — Ano 2


Foto do alto: Árvore com líquen rosado e cachoeira, Sítio do Alcantilado,
estrada Mauá-Mirantão, Bocaina de Minas. Foto do autor da JU


Ivan Lessa na BBC de Londres, entre as décadas de 1960 e 1970: o escritor deixou o Bananão sem olhar para trás.
Acervo do autor/Instituto Moreira Salles


NA ROÇA, ENTRE VISCONDE DE MAUÁ E MARINGÁ DE MINAS —Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Quem penetra o Parque Nacional de Itatiaia pela serpenteante BR-354 pode sofrer uma ou outra vertigem de grandeza, conforme a luz do dia, e até se esquecer da vida.

Do mais alto dessas escarpas avistamos formas que parecem testemunhar o começo dos tempos, a primeira aurora.

A escala da Natureza primeiro tira o fôlego do cristão, depois, quando ele baixa, já na Dutra, a realidade o engolfa, e o caráter de uma nação esmaga o esplendor de um território primevo preservado.

O proveito que fizemos destas terras e paisagens suntuosas, constatamos então, é uma tristeza só, ainda assim não somos indiferentes à beleza, daí a vertigem, e o desconcerto.

É compreensível, creio, que para quem tenha vivido mais de cinco décadas, seja grande o afã de dar bananas, uma bananada ao destino, e ao desatino, você sabe, do Bananão, como Ivan Lessa chamava o país.

Em 2021, o Bananão nunca foi tão Bananão.

Mas o poço é sem fundo.

Entre nós o Corona encontrou o campo de batalha ideal.

O vírus prospera ao passo que se dissemina, e nos entrega uma conta fúnebre, com plena eficácia genética.  

Nossa inépcia para erguer instituições funcionais, reduzir desigualdades, prover moradia civilizada, sanear e educar a população é monstruosa.

Quando testada pela natureza, em meio a uma crise gigantesca, a desídia se impõe, e a insuficiência dos mandatórios se converte em mais um escândalo nacional.

Essa história não começou com o Caveirão nem terminará sem ele e sua trupe a empestar o Planalto Central.

Duas décadas de arbítrio durou o golpe sobre uma democracia descontínua, enviesada e corrupta.

Foram secundadas, essas duas décadas, pelo parto da Nova República.

A cria até hoje parece gemer numa UTI pré-natal, a despeito de novidades, e  avanços concedidos à plebe.

Quem viveu mais de 50 anos enfrenta ondas sulfúricas e violentas que nunca arrefecem: truculência, troca de moedas, hiperinflação (só quem viveu pode figurar), carradas de escândalos, tentativas falhas de concertação política e décadas perdidas sem aumento da riqueza coletiva.

O sofrimento nos fez piores do que somos, diferentemente do que se espera de um indivíduo, e dos exemplos de povos que souberam aprender com a dor e tragédia, e a se refazer.

Não aprendemos patavina.

Como dizia o cronista fazendeiro juiz-forano Eduardo Almeida Reis, somos um país grande e bobo.

Fizemos a campanha das Diretas, e colhemos a redemocratização possível.

Boquiabertos, ou às lágrimas, acompanhamos pela TV a via-crúcis de um presidente eleito nunca empossado, operado de um abdome agudo literalmente num teatro cirúrgico, reoperado várias vezes, e até congelado, antes de morrer no Dia do Mártir.

Flagramos, depois de breve celebração popular, o desarranjo geral na economia, e fomos vítimas de um rude e primeiro “estelionato eleitoral”, se dizia à época.

 “Fiscais do Sarney” foram caçar boi no pasto, e bateladas de reportagens sobre a eletrizante remarcação de preços nas gôndolas galvanizavam uma indignação estéril.  

Para viabilizar o aluguel de um telefone fixo em casa, era preciso dois avalistas; comprar uma linha então, para poucos.

Já superávamos de longe o Bananas de Woody Allen.

Logo assistíramos a coisa degringolar mais ainda.

Jovens caras-pintadas seriam vistos alegremente nas ruas para se opor ao Caçador de Marajás, que conseguiríamos defenestrar, o senhor das Alagoas, impoluto senado da República nos dias de hoje.

Gozamos a inteligência aplicada e as benfeitorias do Real com a mão estendida à esperança.

O sentimento prosseguiria com a redução da pobreza no primeiro governo Lula, durante o crescimento “chinês” provido pelas vendas de nossos minérios e especialidades agropecuárias.   

O Redentor decolava, estampava a capa da The Economist.

Água fria na cara

Toda essas euforia megalômana tomou na cara o maltrato delinquente da coisa pública e a água fria do Petrolão, que rima perfeitamente com Bananão.

A devassa na estatal, com o famigerado propinoduto, fez uma ninhadas de ratos engravatados, até aí intocáveis, tentar escapar pela sarjeta, a lembrar, à sua maneira chique, os traficantes do Morro do Alemão quando sugiram as tropas.

Mas muitos bacanas foram beber água nas carceragens de Bangu e Curitiba.

Tentamos, um pouco antes, feito tontos, entender as Jornadas de Junho — até hoje subestimadas pelos autômatos da análise política com viés ideológico — contra o sonho fajuto da Copa e das Olimpíadas embalado pelo marketing político milionário.

Os dois certames pouco renderam aos brasileiros além de instantes de prazer de cidadãos-bananas que amam o futebol e a pátria canarinho.

Até que tomarmos de 7 a um.

Daí baixaram às ruas passeatas pelo impeachment de Dilma, e o impeachment de Dilma se fez, ancorado em alegações que raríssimos cidadãos captaram, além do desemprego e da pior recessão da história sobre nosso lombo.

Todo aquele fervor, indignação e verde-amarelismo bananeiro deu no que deu: Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.155 mm na Presidência.

O Bananão conseguiu gerar o Caveirão, meu senhor, minha senhora, um feito galáctico.

Além do mulato inzoneiro e do coqueiro que dá coco, além do ziriguidum, do telecoteco, do balacobaco,  e do borogodó no bucubufo do caterefofo, mostramos ao mundo ser um criatório incomum de medusas.

(Diferentemente de Dilma, seus crimes são manifestos, terríveis,  homicidas, ululam. Mas não há uma maioria revoltada nem caras-pintadas para pedir-lhe processualmente o pescoço. Mais que isso: um terço do eleitorado o idolatra.)

Vimos tudo isso, todo esse barulho por nada, ou por muito pouco.

Logo escancaram-se os vícios dos responsáveis pela provisão da Justiça, aparato que custa bilhões à sociedade, e seus poderes exorbitados.

O desempenho do STJ e do STF nos últimos anos só não é mais vexatório que o do Ministério Público — “instituição essencial à função jurisdicional” desde a Carta de 1988.  

As depravações de um e outro concorrem com a tacanhice ambiente, e tudo que parecia ao alcance da cidadania — igualdade perante a lei — pela primeira vez desde Anchieta, cai precocemente apodrecido.

Alguns eram, e seguem mais iguais que os outros.

No seio do Ministério Público o chamado lavajatismo, ao perseguir a promessa de endireitar o Brasil, deixa o legado de um serviço porco, como o de um bando de escroques que sorri diante da câmara ao aprontar felonias.

Na Suprema Corte, juízes garantistas, a começar da garantia dos privilégios da plutocracia, além dos próprios, polarizam com colegas que gostam de se fantasiar de morcegões.

A turma adora escutar a própria voz ao pronunciar seus votos num idioma incompreensível para o brasileiro que não tenha cursado boa faculdade de Direito.

E até por isso torcemos no Bananão, pelas disputas egocêntricas entre os capas-pretas.

No Supremo, é raro um magistrado que não se considere e aja como estrela da Atlântida.

Que não fale diariamente com jornalistas influentes, fofoque, congele processos ao bel-prazer e colecione decisões monocráticas para ganhar as manchetes e a rinha interna.

No MP, a grande maioria de promotores nos holofotes da mídia soube aproveitar as horas de fama.

Deu piruetas públicas e cabulou decisões instantâneas com o juiz de fala fina e mansa, Zé Durango, “El Justicero”, deixando pegadas enlameadas em contas de WhatsApp.

Por que lutamos?

A verdade, no Bananão, é que no peito de todo social-democrata pulsa um coração patrimonialistas, e no centro político predomina o vampirismo do bem público puro e simples.

Quem se acha de direita no Bananão nunca ouviu falar em liberalismo democrático, em conservadorismo filosófico, e os de esquerda confundem progresso com aumento do gasto estatal e garantia de emprego público, enquanto fingem de marxistas até morrer, mas podiam torcer pelo Flamengo, dava igual.

A questão de fundo, o busílis é: por que lutamos, para quê?

Por que discutimos tanta política tão pateticamente e alimentamos freneticamente essa farsa ditirâmbica?

Para depois tomar vacina na frente do velhinho ou do intensivista?

Para fazer tábula-rasa da busca de justiça?

Para tentar driblar a ciência, inclusive “doutores em medicina”, e enganar o populacho com falsas esperanças?

Nossas rugas ideológicas são ridículas, e a guerra de fanáticos nas redes sociais, o grau máximo de imbecilidade que nossa espécie foi capaz de revelar.

Por qual osso brigamos?

O fervor do corporativismo que mama no bem bom é compreensível, mas e nós, à margem, sem emprego público e dependentes do Inamps?

Disputamos o quê?

Depois de Brasília, esse planeta exótico, essa planta carnívora e malcheirosa, dos militares e de seus sucessores, depois de FHC, de Lula 1 e 2, depois de Dilma do refugo que a sucedeu, o que alcançamos de concreto, de mudança de paradigma civilizacional?

Desperdiçamos tempo e trabalho árduo da choldra que levanta às quatro da manhã para se espremer em ônibus e trens imundos, como tribos nômades que buscam outra freguesia, esgotados os frutos, ou colonos extrativistas de Pau Brasil.

Nossa pirâmide social é bastante eloquente, e basta a quem não entenda do que estou falando dar uma olhada, ou consultar os números do IBGE sobre a pobreza.

Sessenta anos não foram suficientes para tocarmos a resolução do saneamento básico ou qualificar a educação pública, único caminho que poderia reduzir uma desigualdade abismal.

Somos campeões de paliativos, de cotas disso e daquilo.

Ninguém nos supera em argumentos que escamoteiam o cerne dos problemas.

E somos imbatíveis em slogans (“cultura do estupro”, “racismo estrutural”) e leis que miram até o consumo de sal em botecos — uma volúpia legiferaste única no mundo.

Temos o SUS, é verdade, algo de que podemos orgulhar, e alguma redução no alfabetismo e na mortalidade materno-infantil.

Mas não creio que, como se diz, “tenha valido a pena” tanta estultice, tanta perda, tanta sujeição à imundície e ao escárnio de oligarquias irredutíveis.

Intelectual e culturalmente nos apequenamos, nos amesquinhamos.

Nos tornamos ainda mais indignos dos encantos naturais que herdamos.

Não temos mais a ousadia de pensar o país como uma única humanidade, seu povo e seu caráter.

Nos acovardamos, nossa música, literatura, poesia, ensaística, dramaturgia e até novelas se mediocrizaram.

Somos uma grota civilizacional em dimensão continental, está provado mais uma vez.

Torço para que os jovens e os que vão nascer consigam promover uma revolução que produza riqueza, e que essa riqueza seja repartida, e se apague nossa miséria da face da Terra.

Esse dia há de vir.

Mas, na idade em que estou (aparecem os tiques, as manias etc., eu sei) dou bananas, dou uma bananada para o Bananão.

Vocês querem bacalhau? Eu não. Não mais.

Não a banana indecente e proverbial do empresário Marco Aurélio (Reginaldo Faria) na novela Vale tudo (era 1988!), nosso típico plutocrata que vive mais em Miami ou Paris que em seus triplex de endereços como os Jardins, em Sampa, o Leblon, por aqui, ou Lourdes, lá no Belo.

Não como essa banana de quem pode ir para o exílio voluntário, abonado por herança familiar, caso do nosso Lessa, para labutar na BBC, e que nunca mais retornou ao seu idílico Rio dos anos 1950, ao Bananão, exceto uma única vez, e brevemente, não muitos anos antes de morrer.

Prefiro uma bananada de frutos podres cozidos no tacho com o açúcar de nossa indigência.

Que se batam, que se enfolem: Caveirão, Fachin, Gilmar Mendes, Lula, Dellagnois da República, quem mais vier.

Que se comam vivos Lula, que retoma a cena como redentor (depois de tudo, merecemos!) de meia pataca, o Caveirão.

Desde 2016 consegui me conter, não me exaltar em discussões políticas, o que não ajudou a recuperar amigos que me escaparam, e que não cultivam o perdão e a paz.

Recolho-me de vez à roça mental, à estrangeirice, à alienação do cronista, aos beija-flores, às bromélias, aos urubus.

Até mais ver.


Vegetação do Sítio do Alcantilado, estrada Mauá-Mirantão, Bocaina de Minas. Foto do autor da JU

Cachoeirinha do Sítio do Alcantilado, em Bocaina de Minas. Foto do autor da JU

Vista da roça esta semana

Nota bene (uma)

Em sua temporada na roça, a JU sairá mais curta, com a crônica de abertura, sem as notas e a Rádio Siutonio.


Nota bene (duas)

Se você costuma ler este jornal com frequência, e nele encontra algum valor, considere contribuir com o jornalismo independente, por meio de doação, ou assinatura espontânea. Veja como fazer isso clicando aqui.


Piazzolla

Neste 11 de março celebra-se o centenário de Astor Piazzolla, e a JU não passaria sem erguer um brinde ao grande compositor. São palavras de Yamandu Costa, no texto sobre sua “versão um tanto improvisada” de Adiós noniño, uma das peças mais celebrada de Astor: “Ele soube colocar a música da sua terra, o tango, em uma dimensão elevada e inovadora, de uma forma extremamente criativa e inspirada. Piazzolla também era um fabuloso bandoneonista, e na sua juventude, tocava à noite para se sustentar, o que lhe valeu o apelido de ‘el gato’.”

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s