Me lembrou Carlitos

Há instante mais propício para flagrar a natureza
do tempo que o do alumbramento diante da cara do filho?


Jurupoca_63 — 19 a 25/3/2021 — Ano 2



Foto do alto: Cena do discurso final de O grande ditador (1940), filme escrito, protagonizado e dirigido por Charles Chaplin

Chaplin como tirano Adenoid Hynkel, sátira de Adolf Hitler e do nazismo em O grande ditador (1940), um clássico de Charles Chaplin

Cruz vizinha à capela do Cruzeiro, Visconde de Mauá, Rio

Se o urubu é mestre do vento, a andorinha ensina o voar impossível,

ou quem ainda não viu uma cair do céu,

e num segundo reaver seu curso?

Então, o que um aquarelista japonês faria do que vejo?

Só posso imaginar.

O voo de um pássaro parece expressar alegria,

como uma criança em alvoroço, ou a floresta

ao devolver em névoa a chuva excedente,

ou as árvores a se despir da gaze aquosa,

como o cipreste, à noite, a exalar o saldo do dia,

como o concurso das flores pelo relevo mais nobre,

distinção que nossa espécie manca reduz à beleza.

Mas disso poetas já cuidaram.


BONSUCESSO (PETRÓPOLIS/ITAIPAVA)—Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Domingo, encaramos a estradinha Mauá-Penedo, então a Dutra, logo o coleante tobogã da serra das Araras, a 40 km por hora.

Antes de subir a Rio-Petrópolis e alcançar a redenção da serra, é preciso enfrentar o calor da Baixada, onde o diabo há muito tem seu habitat.

Onde estamos agora é possível divisar a serra dos Órgãos. Matas preservadas ou recompostas nos cercam, e filtram o ruído da cidade, mas a  sirene das ambulâncias se distingue na polifonia.

Bando de maritacas nos visitam da aurora ao quase-ocaso.

Um bem-te-vi descansa no galho da jabuticabeira, e um flamboaiã me acena na janela, enquanto redijo.

Inspeciono como amador árvores e flores, mas confesso que me pus vago de ideias.

A revolta retórica tem seu limite no cansaço do verbo, no esgotamento da palavra, na escassez da bile.

A indignação se trava na impotência para decifrar o semelhante, este enigma, quando as acepções da palavra nos descem mal.

Não penso apenas na perversidade, na crueldade, na indiferença, ou na “burrice ativa” — como dizia Oscar Niemeyer da estupidez dinâmica, capaz de ferir, piorar e enfear o mundo.

Compreender o outro, ou a nós próprios diante do outro, é beco sem saída, labirinto, túnel estreito.

E disso filósofos, psicanalistas, poetas e romancistas já cuidaram.

Mas nos acostumamos a ser implacáveis, preferindo tantas vezes jogar um afeto no arquivo morto a readmiti-lo em nossa vida.

Tais são as trancas do ego.

Na casa onde nos hospedamos nessa borda entre Petrópolis e Itaipava, acolhidos com amor e cuidados, quarentenados e testados — ainda assim com medo, há uma tantalizante memória de ex-moradores, abandonada com seu legado.

Álbuns, fotografias, livros, gravuras, quadros, cadernos, mobiliário, objetaria advinham viveres.

Repomos com respeito figuras eminentes na sociedade de sua época, e o declínio de uma artista, pintora e dançarina, por mal degenerativo.

A qualidade do papel fotográfico e a arte do retratista precisam de um olhar aplicado para se manifestarem.

A pátina carece da cumplicidade de devotos.

Os zilhões de imagens captadas a cada segundo por celulares e câmeras de vigilância aterraram um mundo dignificado pela fotografia.

Essa arte, prática e rito se viu banalizada.

Além de perder a aura, esvaziou seu sentido e valor documental.  

Mas o que podemos ler de um olhar e da vaidade de uma pose clicados há 60 anos, portanto imunes à vulgarização do presente?

Menos o então presente que o então futuro.

Retenho, estampado em revista colorida, o orgulho de uma moça bonita, rica, metida num costume fino, ou o vestido da noiva a quem podemos ver também senhora, destaque em coluna social; já na velhice, notamos o traço trêmulo de sua letra em páginas de rosto, letra que lembra a de nossa mãe, um tempo inteiro.

Apontamentos revelam aqui um propósito firme, ali uma esperança, entrega ao viver, cavação no veio ilusório da normalidade.

Vidas inteiras nos revolvem.

Ainda que não pretendessem, legaram uma existência, irredutível, que nos adverte, por isso ensina.

Mais corrosivo que a água-régia, mistura de ácidos capaz de dissolver ouro e platina, só o Tempo.

Mas se pode vê-Lo também por outros ângulos.

“Compositor de destinos/ Tambor de todos os ritmos”, diz a linda Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, que também reza: “E quando eu tiver saído/ Para fora do teu círculo/ […] / Não serei nem terás sido/ Tempo, Tempo, Tempo, Tempo”.

A canção começa por invocar Tempo, Chronos, um dos “deuses mais lindos”, e o artista compara este “senhor tão bonito” à “cara do meu filho”.  

E há instante mais propício para flagrar a natureza do tempo que o instante de alumbramento diante da cara do filho?

Se envelhecemos, as chances são maiores de que percamos até isso —tal eternidade — mas tudo então estará perdido, avizinhado a pó.

Enquanto não chega essa estação, é bom cultivar a memória, por mais que isso, hoje, e por tanta gente, seja considerado uma forma de conservadorismo.

Mas se engana quem mede defuntos com a régua dos vivos, quando isso é conveniente às fabulações do presente, para censurar o próximo, a quem avilta.

Casas velhas, fotografias, cadernetas amareladas dimensionam a existência, seja a dos nossos, seja a de outros seres.

Um memorial é tão venerando quanto o que acaba de nascer, ou o mais breve esplendor.

Não somos máquinas, nem gado humano, somos homens, como celebremente discursa o Barbeiro judeu de Chaplin ao ser confundido com o déspota Adenoid Hynkel n’O grande ditador:

“Companheiros, não vos entregueis a seres brutos que vos desprezam, que vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, que ditam os vossos atos, as vossas ideias, os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano, que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas! Homens é que sois! E com amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não fazem amar, os inumanos.”

Certamente não somos, por mais tentemos que nossos corpos operem como máquinas, e nós mesmos ajamos como autômatos, vidinhas-terminais de aplicativos, pulverizadas desde o Vale do Silício.

Lembrar Carlitos, creio, é bem apropriado nessa hora de grande estranhamento e exasperantes diferenças.

“ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode

caminham numa estrada de pó e de esperança”, diz o verso final de Drummond em Canto do homem do povo Charles Chaplin.

Mas perigava tocarem a pontapé o Vagabundo transposto a 2021, nessa (nova) era de idólatras da máquina, onde reina a fancaria de falsários.

Convocar a solidariedade, ou a glória do belo e justo, parecerá suspeito, mais que isso, inaceitável a quem não é igual a quem fez a convocação.

Em nome de suposto progresso moral, cultivamos mitos como filisteus.

A própria arte se perde sob a tutela de inquisições seculares, respaldadas em academias que deveriam honrar a liberdade de expressão.  

Mas é nosso dever labutar, estender a mão à amizade (Vinicius), insistir na gentileza contra a brutalidade, e na luz contra a cegueira.

Só assim para honrar quem pôde, antes, ter buscado o mesmo caminho, e hoje nos toca por meio do pentimento, aquele vestígio da passagem do tempo que se torna visível no exame de um perito, num Raios-X, ou, se quisermos, por nosso interesse, carinho e consideração.

Até mais ver.


Trilha do Cruzeiro, Visconde de Mauá, Rio de Janeiro

Nota bene (Uma)

Em sua temporada fora e de fuga da redação do Belo, a JU sairá pequena, com a crônica de abertura, sem as notas e a Rádio Siutonio.


Nota bene (Duas)

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A mais linda homenagem

O pianista André Mehmari fez a mais bela homenagem que se pode fazer a Edu Lobo, num show ancorado no canal Blue Note São Paulo. Mônica Salmaso aparece como convidada. André Mehmari lê Edu Lobo percorre clássicos do grande compositor e suas parcerias com Chico Buarque, Tom Jobim, Torquato Neto, Capinam, Paulo César Pinheiro etc., e faz transluzir essa música com a destreza de um mestre improvisador. Ah, ouvimos Mehmari também cantar, bem.


Flor amarela (camarão?) na trilha do Cruzeiro, Visconde de Mauá, Rio

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

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