A marcha da selvageria

No país das cercas de concertinas, a natureza apodrece, empresários tomam vacina escondidos, o Parlamento ‘atrasa’ até os 300 mil mortos, o Executivo ruge e a Justiça enrola


Jurupoca_64 — 26/3 a 1/4/2021 — Ano 2


Francesco Goya: O Dois de Maio de 1808 ou “A luta dos mamelucos”. Cortesia Museu do Prado

BELO HORIZONTE — Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

1

Cidades com condomínios suntuosos, verdes, seguros, com horizontes exclusivos, providos de helipontos e fausto, e mais: cidades que ostentam polos de gastronomia, spas e resorts com campos de golfe são acessadas por estradas horrorosas e cortadas por rios podres que escoam seus dejetos.

Os parques públicos estão abandonados, e os aglomerados urbanos entregues ao deus-dará.

Fortificações cobertas por concertinas, ilhas e quilômetros de praias privadas impedem o trânsito livre de locais e turistas.

É um paradigma da nossa selvageria, de nossa selva selvagem, dura e forte, à parte sonho de consumo chique.

Na BR-040, alguém abre a janela de um SUV importado novinho e se livra de uma máscara descartável.

Uma paisagem do Bananão (Ivan Lessa).

Tomo o pulso da Selva e anoto aqui marcas e marcos.

2

Para um típico condutor de nossas rodovias, regras de trânsito como sinalizar e guardar distância de segurança é pura viadagem.

Nosso herói acha-se em seu direito fundamental de apostar corridas e não levar multa, além de fazer de qualquer margem um lixão.

Somos o país das cercas de concertina, outro direito fundamental, autoproteção contra a selvageria circunstante, além das armas e munições.

3

Em Minas Gerais, um grupo de empresários selváticos, concessionários do transporte público, convida políticos antediluvianos e barões do setor para tomar vacina às escondidas, e na calada da noite.

4

Ano a ano, a Amazônia é comida outros tantos pelas bordas, e garimpeiros corrompem e envenenam mais seus rios.

Mineradoras selvagens arrasam, poluem e infernizam cidades, causam avalanches homicidas e vão para a TV anunciar o advento do Shangri-La.  

5

As desavenças no plano institucional derivam dessa marcha, como diria um marxista, pela superestrutura.

Um mesmo magistrado pode oscilar entre a garantia dos direitos fundamentais listados na Carta e a defesa da Casta, sob influência de salões VIPs e bancas das Arábias.

As mesmas ênfases de gestos, pausas e entonações estarão a serviço do selvagem jogo de fabulações, hoje conhecidas como “narrativas”.

Quem não manja direito constitucional é pascácio.

Pense no esforço do intérprete de libras numa sessão do STF.

E na luta da pobre audiência que depende dele para penetrar os meandros vaselinados dos votos Supremos.

Um julgamento célere dura quatro anos no Bananão.

Na maciota, um juiz muda o voto diante de “novas evidências” que eram fatos escancarados lá atrás, anteriores à primeira decisão.

Claro, pode que ainda não eram “juntadas” aos autos.

Selvageria judiciária é o nome disso.

Não que Zé Durango¹, “El Justicero”, não tenha cometido selvagerias com seus cupinchas do Ministério Público.

Mas na Selva é assim, tudo pode mudar num segundo, inclusive a suprema regulação divina.

6

A selvageria congressual então é crônica.

Apenas no marco dos 300 mil mortos parecem ter acordado no Planalto Centrão para a pandemia, e começam a parar de negar o negacionismo.

Erros antes escusáveis, quando contávamos 200 mil mortos, se tornam imperdoáveis. E o Libertador surge no horizonte.

7

Há também a liberdade selvagem na cena urbana.

Nas ruas do Belo, quem sabe de outras capitais, desfila um tipo jovem de bermuda de grife, camiseta estampada, óculos escuros, cabelo curto cortado a navalha, barba esculpida e nenhuma máscara.  

O olhar de viés denuncia alguma estreiteza cognitiva, mas o gênero (mais um?) não parece especialmente revoltado com papai-mamãe ou militar com ideologias cavernosas.  

Deve ser questão de princípio, moda, uma divergência da onda hipster, deus nos livre.

Vai que é virilidade adaptada ao pós-feminismo, um faz de contas.

Porque o macho de correntinha sobre a blusa desabotoada, pulseira de ouro e pomada japonesa no bolsinho perdeu a validade, ainda que você possa cruzar com um ou outro fantasma renitente.

Mas o machismo é outra história.

8

Somos um dos mais irredutíveis redutos de machos do século 21 na Terra (além de psicanalistas, por sinal), o que se espraia no trânsito, no transporte público e nas delegacias.

Nossas mulheres e crianças seguem sendo violadas aos milhares e abatidas a tiros, além de prostituídas a troco de marmitas.

Aliás, a monstruosa formulação “legítima defesa da honra”, erguida, sob aplausos inter pares, por um velho conde do direito brasileiro, como seu canto do cisne, lá se vão 42 anos, ainda nesse fevereiro teve sua constitucionalidade pautada no STF.

9

“Não te estupro porque você não merece”, ouvimos, digamos, declarar certo parlamentar contra a colega, não faz tanto tempo, além de chamá-la de “vagabunda”.

Tal parlamentar, justamente por tais méritos, iria se consagrar na Selva como figura mitológica.

Quase foi comido vivo por fãs, antes de arrebanhar caminhões de votos furiosos.

Sim, Mito, mais um da nossa mitologia autóctone.

O nome do trem?

Caveirão.155 mm.

Ao contrário do Lobisomem, do Boitatá e da Mula sem cabeça, criaturas de um imaginário inofensivo, o Caveirão é tóxico e letal.

10

A justificação da selvageria — o estupro, a matança de mulheres, a privação de esgoto e água tratada por metade da população, a carência alimentar, os resultados mequetrefes do Ideb, as instituições disfuncionais — é um tatibitate.

Você dialoga, toc, toc, toc (como se fosse possível) com um valentão de faroeste e ele te apontará comunistas a brotar da terra como minhocas acenando bandeirolas do “marxismo cultural”.

Já um esquerdista de crachá atribuirá a selvageria à desumanidade do neoliberalismo, sistema que apenas não vigorou em nossa história recente no idílio lulodilmista, como todo mundo sabe.  

O argumento é reiterado em carradas de artigos de mestres, pesquisadores e scholars trilíngues, a começar, todo mês, pela revista Piauí, nas melhores bancas perto de você.

Me lembram o estridular de maritacas.

Um esquerdista de crachá jamais cometerá autocrítica ou mudará com os fatos, embora ganhe a vida, tantas vezes, a verter seu “pensamento crítico” de mão única para rapazes e moças, muitos, até, moradores de condomínios cercados por concertinas.

O busílis, diz o douto, é a redução do tamanho do estado (a “privataria”) e a parca distribuição das benesses, quer dizer, bolsas à mancheia.

O fato de que nenhuma riqueza adicional e sustentável tenha sido produzida, e de que quase toda riqueza corrente vá para a folha geral dos servidores, impedindo investimentos “estruturantes”, como se diz em Minas, não quer dizer muita coisa na selva semiótica.  

O que vale para a desigualdade nos EUA ou de países europeus, incrivelmente serve para nós, perfeitamente, com o perdão do possível oximoro, pois mais que estejamos vários degraus abaixo na civilização, a começar pela falta de saneamento básico…

Uns e outros, milicianos ou quase-milicianos das mídias sociais, e esquerdistas de crachá não são simétricos, é verdade (a JU se considera liberal democrata, com viva simpatia pela social-democracia europeia), mas se veem como civilizados, selvagens jamais.

E dividem, tantos e tantos, os mesmos CEPs no mesmo país das concertinas.

Talvez por isso não tenhamos mais reflexões autônomas sobre a persistência da selvageria.

11

Neste momento, quando descemos aos infernos, sonham com a volta do nosso Bolivar de Caetés, do nosso homem iluminado por Diógenes (o filósofo da lanterna afinal encontrou um justo).

O Libertador, nosso Mandela, irá nos reconduzir ao Éden, onde o coqueiro dá coco e a luz da Lua é merencória.

Quando nos livrarmos do Corona, vamos selvagemente pular o carnaval redentor: dez dias de folia!

O garantista Gilmar e Sassá Mutema serão nossos mestre salas e porta-bandeira, uma inovação machista.

Os ensaios de suas evoluções já estão na avenida.

Chico Buarque é o puxador oficial do samba-enredo.

A música é de sua própria autoria, com Francis Hime, e está pronta há uns 40 anos.

Nunca perdeu a validade, o samba-enredo.

Basta, com elementar proficiência em interpretação de texto, atualizar os “barões famintos”, os “pigmeus do bulevar” e a “página infeliz da nossa história”:

Da Redentora ao 300 Picaretas e à Caçada aos Marajás, disso tudo ao Mensalão, deste ao Petrolão, deste à Lava Jato, desta às Milícias do Caveirão.155 mm e à conquista do Planalto Centrão.

(Sem passar, por ocioso, pela venda de votos no FHC 2, a Máfia dos Sanguessugas, a Lista de Furnas e outros paralelepípedos e balangandãs de arrepiar).

Mas diz assim, o samba-enredo de Chico & Hime (olha o Bananão aí gente!!!):

Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite
Vai se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram
Sambas imortais
Que aqui sangraram
Pelos nossos pés
Que aqui sambaram
Nossos ancestrais


Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações


Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal,
Tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o ca
rnaval
(Vai passar)

Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar,
Vem ver de perto
Uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear


Ai que vida boa, olerê
Ai que vida boa, olará
O estandarte do sanatório
Geral vai passar
Ai que vida boa, olerê
Ai que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar

Até mais ver.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


(¹) O bandoleiro Zé Durango, “El Justicero”, está na letra de Quadrilha, música de Chico & Francis Hime composta para a trilha do filme A noiva da cidade, de Alex Vianny, lançado em 1978.


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Leia mais na Jurupoca #64:

Músicas que refrescam a alma

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